sexta-feira, outubro 12, 2012

A história da história - O castelo da torre encantada

Como seria a história antes da história? O conto antes do conto? É senso comum que, quando alguém começa uma narrativa com o famoso "Era uma vez", estamos diante de um conto de fadas. O que dizer então de uma história narrasse acontecimentos que ocorreram bem antes de seu próprio começo? 

Assim, Lia Neiva tece de forma magistral essa narrativa mágica e bem-humorada, sobre um castelo sombrio, com sua torre sinistra, dominado pelo malévolo conde Trevus. Nesse ambiente terrível vive uma linda jovem, sobrinha do conde, apelidada de Princesa Pomar. Todos os súditos do conde acreditam que ela seja vítima das maldades mais torpes por parte de seu tio. Dessa forma, o povo vive sob a tutela do medo de que a alma maligna de Trevus seja insaciável em impiedades. Esse cenário ameaçador, porém, está prestes a mudar drasticamente.

O castelo da torre encantada é uma bela homenagem aos contos de fadas. Com uma escrita poética, repleta dos maneirismos característicos às histórias de magia, Lia Neiva guia o leitor graciosamente por esse cenário que passeia entre o épico medieval e o cômico infantil. Sua trama é equilibrada, concisa e rápida, sem percalços desnecessários. Ainda assim, essa rapidez não prejudica o leve ar de atemporalidade que dita o tom da história.

É importante também destacar as ilustrações de Elizabeth Teixeira, que casam perfeitamente com o tom do texto, num traço que sugere algo barroco por sua irregularidade, garantindo também uma certa ternura bastante marcada nas feições das personagens.

Há um segredo presente no final da narrativa, que sugere que esta história na verdade relata os fatos anteriores a um dos mais famosos contos de fadas. Uma brincadeira jovial que certamente agradará os leitores amantes do gênero, tornando O castelo da torre sombria não somente uma bela e memorável homenagem aos contos de fadas, mas também a garantia de boa literatura infantil.

Ficha Técnica
Título: O castelo da torre encantada
Autora: Lia Neiva
Ilustradora: Elizabeth Teixeira
Editora: Ediouro
ISBN: 8500000635
Ano: 1996
Páginas: 32

Página do livro no Skoob: http://www.skoob.com.br/livro/266693

quarta-feira, outubro 10, 2012

Alma Quebrada - Parte II

Ele sempre gostou de palavras onomatopaicas. Ou melhor, palavras que em sua pronúncia quase sugeriam uma onomatopeia. Atabalhoamento, por exemplo, que sugere alguém tropeçando sobre os próprios pés. Ou estardalhaço, com seu som de algo se estraçalhando, uma palavra repleta de estilhaços.

E foi um estardalhaço que ele ouviu, o som terrível que o arrancou de uma realidade, lançando-o em outra. Estivera sobre uma motocicleta, pilotando calmamente, respeitando os limites de velocidade até que a quina de uma porta interrompeu seu caminho.

Abriu os olhos, ou melhor, o único olho são. Paralisado pelo choque, conseguia distinguir o asfalto além da viseira destruída. Viu também um filete de sangue grosso escorrendo em sua frente, enquanto percebia que não conseguia ver nada pelo olho direito. Naquele momento, pensou: "Pronto, perdi um olho e virei pirata."

Coisa ridícula para se pensar no momento de um acidente. Sentiu a resignação inundá-lo, enchê-lo de como um caldo gelado. Logo as pessoas já se aglomeravam sobre ele, perguntando se ele estava bem, pedindo para que ele ficasse quieto, deitado. Respondeu fracamente quando perguntaram se estava consciente, se sentia dor. Lentamente ele tomava consciência de sua situação. Temia mexer-se e piorar seus ferimentos, talvez até a coluna estivesse comprometida. Por isso, manteve-se parado.

A emergência chegou, os paraméticos o examinaram rapidamente. Foi imobilizado. Ao ser erguido na maca, sussurrou: "eu tô passando mal..." e logo que ouviram a queixa, os paramédicos inclinaram a maca. O vômito veio em borbotões, enquanto ele via uma floresta de pernas das pessoas que o cercavam, observando-o placidamente. "O que vocês querem?" pensou. "Aqui não é a porcaria de um espetáculo. Vão embora, eu não sou um espetáculo"...

segunda-feira, outubro 08, 2012

Aqueles que não morrem - Parte I de IV

Ir para O Andarilho - Parte II de II


No dia 20 de Auluman, no ano 823 da Era dos Reinos, de acordo com os registros da Companhia, um destacamento de 284 almas partiu da cidade real de Sathal. Seridath e seu servo, Aldreth, estavam entre esses homens. O Senhor de Dhar deu o salvo-conduto para que uma força militar de natureza particular pudesse cruzar seu território. Desse destacamento, contavam-se cento e cinqüenta guerreiros, setenta e cinco arqueiros, trinta artilheiros, todos anões, um andarilho, três capitães e um arauto. Os restantes eram cozinheiros e guiadores dos dez carros de bois, que levavam mantimentos e flechas sobressalentes, além de lonas de barracas e outros equipamentos necessários.
Seguiam pela estrada real rumo ao norte. Os anões compunham a artilharia pesada. Conhecedores antigos de feitiços próprios do seu povo, eram peritos em explosivos. Sempre andavam com parafernálias que usavam para fabricação de esferas que explodiam ao serem lançadas. Para manterem o segredo, somente anões usavam esses aparatos. Carregavam jarros escuros, cheios de um líquido por eles criado que, ao ser misturado a outros ingredientes, produziam esse poderoso explosivo. Naquelas terras, era senso comum que procurar briga com um anão seria uma coisa pouco sensata de se fazer.
A infantaria marchava em blocos de vinte e cinco homens, perfilados e bem organizados, flanqueando os carros com os suprimentos. Seridath marchava entre eles, um simples soldado, coberto por uma cota de malha rude e uma túnica branca feita de lã de péssima qualidade e infestada de pulgas. A espada negra, Lorguth, pendia ao seu lado, embainhada, coberta pelo largo escudo onde a insígnia da Companhia, uma torre cinza encimada por uma chama de azul intenso, estava estampada. O elmo de ferro era simples, aberto, tendo uma fina placa de metal como proteção nasal. As espadas dos outros soldados não eram mais compridas que a de Seridath, embora nenhuma delas tivesse a aparência amaçadora de Lorguth.
Havia três capitães encabeçando a infantaria, embora Seridath não se lembrasse sequer dos nomes deles. Como os escudos tivessem retoques em cores vermelhas nas bordas, isso bastava para identificá-los. Nenhum daqueles homens, nem mesmo o velho Urso Pardo, tinha montaria. Os quatro cavalos que Seridath havia conseguido na luta contra os bandidos foram todos vendidos em Sathal, na véspera da partida.
Os arqueiros ladeavam o exército, vinte e cinco em cada flanco, estando divididos em grupos de cinco. Aldreth, apesar de seu temperamento tímido, deu-se muito bem com os outros arqueiros. Seridath, por sua vez, permanecia em seu isolamento arrogante. Evitou conversas triviais entre os seus companheiros de armas e negou-se participar de seus jogos de dados ou cartas. A marcha foi forçada, estavam no meio do outono e chovia com certa freqüência, o que dificultava o avanço do destacamento. Apesar das condições adversas, seria errado afirmar que não foi uma viagem agradável.
Dhar era um reino belo, com vilarejos pitorescos. Era uma região de planícies cercadas por montanhas aprazíveis e repleta de bosques tranqüilos ladeando a estrada real. Tanto ao norte quanto oeste, o terreno se tornava mais acidentado, com as colinas tornando-se montanhas de vales profundos, porém largos e apinhados de ricos vilarejos. A oeste, o terreno ficava cada vez mais montanhoso até formar uma cordilheira que demarcava a fronteira entre Dhar e Belgamon. No inverno, as montanhas agora cinzentas ficavam brancas. A leste, a planície estendia-se, repleta de fazendas, até uma extensa depressão pantanosa, onde começava o reino alagado de Marzan. A região limítrofe ao pântano delimitava os dois reinos.
Passavam por aldeias que recebiam alegres os homens da Companhia. Os meninos eram sempre os primeiros a encontrar o exército e voltavam correndo com a notícia. As moças bonitas largavam seus afazeres à beira dos rios ou fogões e corriam, juntando-se em bandos risonhos, gracejando com os soldados. Se a noite já estava próxima, Urso Pardo ordenava que as tendas fossem estendidas em alguma campina adjacente às casas dos camponeses. Uma trupe de artistas e um bando de mercadores haviam aproveitado a viagem do exército, ganhando proteção de graça. Montavam então uma pequena feira no centro da aldeia e à noite era certo que haveria alegres apresentações e danças animadas. Os soldados enchiam a única taverna do lugar, alguns já gastando em bebida o soldo que não haviam sequer recebido.
O exército seguiu assim durante seis dias. Almejavam chegar a Arnoll, a última grande cidade do norte, ainda no décimo dia. Mas, tendo vencido mais da metade do caminho, foram penetrando em um território que parecia pertencer a outro mundo.

Continua...

sexta-feira, outubro 05, 2012

Viagem e Vaga Música - uma jornada de sensibilidade

Para Ana Luiza de Freitas Rezende


O amor desenganado, a saudosa canção do viajante, o mar. Estes são alguns temas que a obra dupla Viagem & Vaga Música, de Cecília Meireles, aborda com tanta beleza e propriedade.

Originalmente publicados como dois livros distintos, ambos foram posteriormente reunidos em um único volume, por conta da afinidade tanto nos temas quanto nos poemas, bem como na construção estética.

Este é um livro melancólico, embora não seja tristonho ou pessimista. A linguagem é leve e limpa, dedicada à construção de imagens oníricas de paisagens onde o mar está quase sempre presente.

Como o próprio título indica, muitos poemas do livro irão falar da ideia metafísica da viagem, como uma alegoria do viver, da condição eterna do sujeito de estrangeiro na vida, saudosista, aturdido diante do absurdo da existência e repleto de desesperança fatalista, sem grande interesse no fim da jornada, mas no seu percurso. Apesar desse tom tristonho, a leveza e o lirismo de Cecília Meireles concedem à obra uma cadência tão singela, como a música de uma caixinha de joias, de maneira que a melancolia se transforma em serenidade através do encantamento proporcionado pelas belas imagens criadas pela poeta.

Dessa forma, Cecília Meireles retrata em seus poemas com muita propriedade e sensibilidade, de forma certamente bela, os temas mais caros à poesia. Uma jornada melancólica, mas certamente bela.

Ficha Técnica:
Título: Viagem & Vaga Música
Autor: Cecília Meireles
Edição: 1
Editora: Nova Fronteira
ISBN: 8520918476
Ano: 2006
Páginas: 189

Página do livro no Skoob: http://www.skoob.com.br/livro/9235

quarta-feira, outubro 03, 2012

Alma Quebrada - Parte I

Os raios de sol eram mortiços aquela tarde e ele sentiu que aquele desarranjo tão característico ao crepúsculo entrava lentamente em ressonância com seu próprio desarranjo interno.

Balançava a cabeça, tentando afastar os pensamentos funestos. Tudo corria bem. Há tempos não se sentia tão realizado. Seguira por outro caminho, algo bem mais condizente com sua alma tão lúdica e afeita ao jogo de palavras. Ao olhar-se no espelho, quase não reconhecia o rapaz que ao seus olhos parecia tão bonito. Sorriso aberto, olhar confiante, de alguém que vê seus desejos aos poucos tomando de assalto a realidade.

Há tempos ele almejava sair do labirinto digital no qual estivera por tanto tempo enredado, cansado de sistemas, circuitos, códigos e programas. Cansado da estupidez de usuários, da tirania de gerentes e superintendentes, da incompreensão dos colegas. Afinal, nenhum deles entendia a razão de um técnico em informática ter cursado Letras.

Agora, seu tempo era outro. Ou melhor, aquele era seu tempo. O computador tornou-se apenas acessório. Sua ferramenta de trabalho tornou-se a Literatura. Agora podia dedicar-se à amante com as atenções de esposa, um retorno ao seu primeiro amor.

Para ele, apenas agora assumia as rédeas de sua vida. Casa, emprego, veículo, todos conquistados com seu suor. Permitiu-se um pouco de orgulho. Solteiro, tomou coragem para flertar com mulheres em barzinhos, coisa que nunca fizera antes. Engatinhava na arte da paquera, assim como na da auto-estima.

Então porque sentia-se tão vazio? Seu esforço não parecia pertencer-lhe. Sentia ter roubado o que era de outro e essa sensação ficava ainda mais poderosa naquele fim de tarde. Não imaginava ele que seu desarranjo logo não se limitaria às regiões internas de seu ser.


segunda-feira, outubro 01, 2012

O Andarilho - Parte II de II

Ir para O Andarilho - Parte I de II


Seridath arregalou os olhos, surpreso com a declaração do velho. Teria que aceitar as suas condições se quisesse lutar. Deu um gole no copo de cerveja e engasgou. Por fim, pigarreou e voltou a falar, resignado:
Velho, me inscreva essa "força". O rapaz aqui ao lado também irá participar. Ele é um excelente arqueiro.
Seridath vira Aldreth usar seu arco enquanto caçavam, durante a viagem a Dhar.
Transmitirei teus interesses aos meus superiores – respondeu o velho, com um suspiro. – Estou ignorando o protocolo por tua causa... Amanhã terás tua resposta. Se admitido, deverás passar pela prova de habilidade. Será necessário conferir se conheces as vozes de comando.
Dando a conversa por encerrada e sem esperar a concordância de Seridath, Urso Pardo levantou-se. Parecia cansado e saiu da taverna com um andar vagaroso, apoiado em seu rústico bordão. Seridath dispensou Aldreth, deixando com o garoto duas moedas de cobre, para que ele desse um jeito de arranjar o jantar, mesmo com aquela quantia miserável. Enquanto o cavaleiro se acomodava em seu cubículo, para mais uma noite sob os cobertores, seu pajem enfrentava o clima outonal no estábulo.
No dia seguinte, quando a noite caía, Urso Pardo compareceu ao novo encontro, como prometido. Dessa vez, não havia cerveja e Aldreth estava silencioso ao lado de seu amo.
E então? – perguntou Seridath, enquanto o velho tomava seu lugar na mesa.
O Conselho decidiu encerrar o recrutamento.
Seridath não escondeu sua consternação.
Não entendo – disse. – Já falei que tenho experiência. Não haverá necessidade de gastar tempo comigo em treino. Apenas com o rapaz, e ele aprende rápido.
Mas já é muito para arriscarmos – advertiu o velho. – A situação mudou. Recebemos hoje um mensageiro. Há rumores de ameaças maiores, correm boatos de que Quiriath-Mon está sendo reerguida. Deveremos partir o quanto antes.
Vocês, dessa "Companhia", sempre correndo atrás de rumores e boatos! Pelo que eu sei, caro andarilho – Seridath fitou Urso Pardo com raiva. – Essas histórias não passam de lendas. Sei muito bem o que a palavra Quirite-Mon faz o populacho daqui estremecer. Mas para mim, os Ascos podem nunca ter existido, bem como Helena e seu Império de Gridsmar!
O velho andarilho ergueu os olhos em censura na direção de Seridath, como se o jovem cavaleiro tivesse proferido uma grande blasfêmia.
Cautela, rapaz, cautela! – advertiu em voz baixa. – Estamos longe do reino de Renandart, mas mesmo aqui neste país os homens veneram Helena como uma deusa!
E alguns também veneram os Ascos – rebateu Seridath.
Por pura loucura, meu jovem, ou imprudência. As forças da Luz já provaram seu poder sobre as hordas das Trevas.
Mas, se os boatos sobre essas "hordas das Trevas" estiverem certos, não serão burros para desperdiçar uma espada que seja.
Não zombes de minha paciência, estrangeiro – o olhar antes amigável do velho deu lugar a uma expressão implacável. – Tua impertinente acidez me irrita. É loucura zombar de quem carrega o Orgulho em seu nome. Lembra-te disso.
Seridath calou-se, empertigado. Olhou para ambos os lados. Nem mesmo ele conseguia entender o porquê de tanta obstinação por fazer parte daquele grupo de lunáticos.
Olha, velho – retornou o cavaleiro, inclinando-se levemente sobre a mesa –, eu só quero um lugar no exército e um uniforme. Não me importa se vocês querem andar na campina caçando fantasmas ou o quê. Quero apenas lutar. Peço que ao menos não me negue isso.
O andarilho inclinou o corpo para trás, apertando mais as sobrancelhas, seu rosto cada vez mais sério. Por fim ele suspirou.
Tudo bem, rapaz. Procurarei mais uma vez ir contra o protocolo e convencer os membros do Conselho. Advirto contudo que não há como contrariar o Grande Andarilho, Serpente Flamejante. Caso ele permita, tu e teu pagem serão membros da Companhia, mas não haverá espaço para essa tua altivez. Aceitarás o mais humilde posto que o Conselho delegar-te.
Quando o exército partirá? – perguntou Seridath, como se já fosse um empregado da Companhia.
Em breve. Estamos nos preparativos finais. Creio que no dia 19 estaremos prontos, no mais tardar dia 20. Caso sejas admitido, é bom estares pronto em nossos alojamentos antes da data.
Ao ouvir as últimas palavras do andarilho, Seridath assentiu, taciturno. Era verdade que o pagamento era escasso, mas o rapaz tinha toda certeza que aquele iria ser dinheiro fácil. O negócio, afinal, teria que valer a pena. Para todos os efeitos, ele era agora um dos guerreiros da Companhia.


Continua...

sexta-feira, setembro 28, 2012

Retalhos - Sensibilidade e memória

Um mergulho em pedaços de memórias alheias, com suas cargas de beleza e feiura, faz a leitura de Retalhos, de Craig Thompson, uma experiência realmente compensadora. Mais que uma graphic novel, esta se constitui um relato vívido e belo sobre família, religião e, sobretudo, escolhas.

Narrado de forma fragmentada e irregular, como uma colcha de retalhos deve ser, o trabalho de Craig Thompson denota principalmente uma sinceridade quase desconcertante. Seus personagens são francos, diretos, sem meias-palavras. Tanto a crueza quanto os momentos da mais sutil beleza são mostrados de forma explícita, mas nunca banal. O narrador, inserido de tempos em tempos, além de reforçar o caráter intimista da história, também funciona como fio condutor, que vai manter unidos os quadros que formam essa grande narrativa.

Craig conta através de sua graphic novel os períodos mais importantes de sua juventude, considerados cruciais para a formação de sua personalidade adulta. Criado no seio de uma família cristã em uma cidade do interior do estado de Wisconsin, o jovem Craig cedo se depara com mensagens fortes sobre culpa, retidão e inferno. Impressionado e buscando uma saída contra a condenação evangélica, o garoto desenvolve uma profunda religiosidade, reforçada ainda mais por seu caráter introspectivo e sua alma sensivel de futuro artista.

Assim, gradativamente, Craig vai descobrindo a hipocrisia religiosa, tanto nas instituições quanto nas pessoas que as reforçam, na ignorância "abençoada" de muitos fieis, na infelicidade decorrente da mensagem truncada e floreada de muitos grupos religiosos. Seu trabalho, apesar do tom crítico, é desprovido de cinismo de alguém amargo com a vida, que se considera "enganado" pelo antigo fervor evangélico. Craig Thompson cultiva o tom de uma pessoa que conseguiu resolver seus dilemas internos e apaziguar a própria alma, entendendo a importância que sua religiosidade teve em sua vida e aceitando seu ceticismo com naturalidade. Como destaque nesse processo está seu relacionamento com Raina, uma jovem com quem desenvolve uma amizade que rapidamente caminha para uma paixão forte e transformadora. Através dessa paixão tão intensa e pura ele desmistifica o pecado, encontra a beleza que transcende a moralidade religiosa e alcança a maturidade.

Dessa forma, sua obra soa ainda mais bela e profunda, carregada de uma poesia simples, mas repleta de maneirismos em que os exageros surgem com tal graça que se justificam na construção de imagens líricas em sua plena medida. Uma jornada ao passado, uma forma de refletir o presente, Retalhos é certamente um dos trabalhos mais belos, uma obra de sensibilidade ímpar.


Fica Técnica
Título: Retalhos
Autor: Craig Thompson
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2009
Páginas: 592
Tradutor: Érico Assis

Página do livro no Skoob: http://www.skoob.com.br/livro/29153

quarta-feira, setembro 26, 2012

Perfil Leitor: Mauro

Conheci o Mauro aqui na Biblioteca onde trabalho. Ele tem todo aquele jeito bonachão e expansivo de quem deseja uma amizade logo no primeiro encontro. Sorriso aberto, aperto de mão forte e um estilo despojado deixam você à vontade logo que começa a conversar com ele.

Mauro é um dos leitores mais assíduos (e presentes) da Biblioteca. Há tempos ele compartilhou comigo uma crônica em que faz considerações sobre a leitura e literatura. Depois de lido, fiquei por dias a fio pensando na possibilidade de que o texto pudesse ser postado aqui no blog.

Levei a ideia ao Mauro e ele prontamente autorizou a reprodução do texto. Fez mais: enviou-me a versão digital, eliminando a tarefa de ter que digitar tudo. Deixo aqui então meus agradecimentos ao Mauro. E suas palavras.


UM BREVE COMENTÁRIO SOBRE O LER


Como é vasta a literatura atual. A todo instante novos livros são editados, florescem novas obras, nascem novos talentos literários, viajam em nossas mãos pérolas dos mais variados lugares e pássaros do mundo. Cá já temos em mãos maravidas que nos leva, a mundos imaginários e prazeroros. Estilos nascem e renascem, modernizam-se nas epopéias e dispopéias cotidianas. Temas e motivos opostos/paralelos desenvolvem um arquitetura do conhecimento e do prazer, da beleza do pensar e do flutuar. Imaginativos ou ortodoxos embrenham-se em tramas, relatos, contos, poemas, histórias e estórias. Caminhos diversos percorridos emocionados e atentos nas trilhas das letras, palavras, frases, parágrafos..., juntam-se ensinamentos e desensinamentos, choros gargalhdas, alívio e angústias, tristezas e felicidades, começo e fins. Como não darmos reparo a expansão mercadológica editorial. Como não sermos tocado pelas mudanças da modernidade. Se lê e escreve muito, mais do que outrora. Internet? Sim. Do anonimato ao conhecido, do msn as redes sociais, do e-amil aos sites. Nunca se produziu tanto e nunca se colocou a mosta tanta dessa produção. O ostrário das edições, os grãos de areias jogados ao acaso germinam ou não, dentro de conchas calcificadas, em frutos perolais. Pérolas únicas trazendo sua singularidade, seu toque pessoal, o seu universo próprio. Incorpora em seu locus o preparar pessoal do verbo. E num sublime legado deste universo criador, encontram-se aquelas ditas negras. Essência diferenciada da mesma produção, postulam-se em nirvana, são o que são por ser, bastam-se em si própria, fadadas ao nosso deleite e delírio. Muitos são esses entes mágicos que espiritualizam as florestas da mente e dos sonhos. Como vereditar sobre uma única espécie colocando as demais em baús do esquecimento. Como não dissertar sobre “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, “A Caverna”, “Ensaio sobre a Cegueira”, “Ensaio sobre a Lucidez”, “As Intermitências da Morte” de um José Saramago, morto, mas cada vez mais vivo. Como não se a criançar, com um Lobato de “Reinações de Narizinho”, “O Sítio do Picapau Amarelo”, “O Saci”. Como não ganharmos asas e alarmos para fora de gaiolas douradas com um tal de Rubem Alves, Ziraldo ou Maurício de Souza. Como não nos tornarmos simbolistas diante de “O Códifo Da Vinci”, “Anjos e Demônios”, “O Símbolo Perdido”. Nos emocionamos e arrepiamos daitne de Carlos Drumond de Andrade, Cecília Meireles, Olavo Bilac, Fernando Pessoa + Alberto Caeiro + Ricardo reis + ..., Mário Quintana, Cora Coralina. Nos rendemos a alquimía de Paulo Coelho. Abrimos nossos olhos a realidade de “O Caçador de Pipas”, “O Livreiro de Cabul”, “A Cidade do Sol”, “Neve”, “A Princesa”. Como não escutarmos o apelo de “A Doçura do Mundo”, “A Distância Entre Nós”. Como não flutuarmos na leveza e sutileza de “A Menina que Roubava Livros”, nas desventuras das “Travessuras da Menina Má”. Como não historíarmos em “1808”, “Ramsés”, “A Pedra da Luz”. Como não ficarmos atentos aos mistérios de “Santuário”, “O Caçador de Conchas”. Como não criarmos hiatos nas reflexões de “O Leitor”. Como não reconehcer o infinito na finitude das obras. Todas produzidas, sem exceção, são pérolas negras, impressas em nossas almas através de prismas pessoais relfetidas em nossas íris.
Mauro José Teixeira Leite
mauro.leite@pbh.gov.br

segunda-feira, setembro 24, 2012

O Andarilho - Parte I de II

Ir para Seridath - Parte II de II

A taverna fervilhava de gente naquela noite. O ir e vir dos fregueses, toda aquela movimentação, deixava Aldreth atordoado. O olhar do rapazinho passeava, num misto de curiosidade e temor, dos barbudos e ruivos bárbaros do oeste além-mar aos inquietos e explosivos anões. Havia na taverna pelo menos uns três daqueles pequenos seres, habitantes de Nyrbern, terra árida situada bem a sudeste. Seridath mantinha-se calmamente sentado na mesa que escolhera, no fundo do salão, tendo o capuz a envolver seu rosto em sombras. Observava silenciosamente o entra e sai de pessoas da taverna. Estava limpo e barbeado, seus cabelos aparados de forma mais regular, embora ainda estivessem um pouco compridos, atados em um rabo de cavalo.
Apesar de estar mais apresentável, o cavaleiro mantinha aquele seu habitual ar de ameaça. Sempre que voltava seus olhos ao amo, Aldreth sentia um calafrio, pensando se talvez não seria melhor fugir logo que uma oportunidade surgisse. Seridath, por sua vez, fixava os olhos frios e brilhantes no o garoto, como que afirmando saber o que Aldreth pensava. E a alma do rapaz gelava com esse olhar.
Fazia três dias que os dois estavam em Sathal, capital do reino de Dhar. Era início do mês de Auluman, e o outono ia pela metade. Conforme Seridath ficou sabendo pelo dono da taverna, aquele era o ano 823 da Era dos Reinos, no nono século após o fim da Era da Rainha.
Seridath e seu pajem se conheceram em Khir, o decadente reino que fazia fronteira com a cordilheira de Gaeramont. O cavaleiro queria empregar sua espada, alistar-se em um exército mercenário. Aldreth contou-lhe que o rei de Khir, embora em constante guerra com Nébria, ao sul, não tinha condições de pagar soldo a seu exército. Seridath então decidira partir rumo a um país mais rico.
Em uma viagem tranquila, haviam deixado Khir, atravessando Helgara e Belgamon, até alcançarem as campinas férteis de Dhar e a sua capital de torres brancas, Sathal. O cavaleiro acreditava que os deuses lhe sorriam já que, ainda antes de atravessar os portões, soubera que havia emprego para homens hábeis com arco ou espada.
Seridath se hospedara naquela mesma taverna, onde recolhera informações. Soubera de um grupo de excêntricos velhos que estavam organizando uma força militar. Aldreth, que ficara dormindo no estábulo com os cavalos, foi enviado pelo amo para encontrar um desses velhos.
Agora, Seridath aguardava regando sua impaciência com algumas canecas de cerveja escura. Após alguns minutos de espera, um velho de longos cabelos grisalhos e pele bem enrugada entrou pela porta da taverna. Alguns homens cessaram suas conversas e puseram-se de pé, com a mão direita sobre o peito. O velho não lhes deu atenção, aproximou-se da mesa de Seridath e sentou-se de frente ao jovem. Vestia uma manta de pele de algum animal selvagem e tinha uma espécie de touca repleta de contas de várias cores. Carregava um rústico bordão, cujo cabo utilizava como apoio. Parecia um curandeiro.
O homem cuspiu um bolo de ervas mastigadas no assoalho de madeira, fazendo Aldreth virar o rosto de nojo. Apesar da reação do garoto, o velho fitou-o com um sorriso franco. Encabulado, Aldreth baixou o rosto, encostando o queixo no peito. O velho apenas balançou a cabeça, abrindo mais o sorriso. Era um estranho homem, cujo nome era tão estranho quanto sua fisionomia. Chamava-se Urso Pardo de Orgulho Severo. Seridath despachou Aldreth, ordenando que trouxesse duas canecas de cerveja. O rapazinho pareceu aliviado ao deixar a mesa.
Tu marcaste este encontro, jovem – começou a dizer o velho, ainda sustentando o sorriso. – O que posso fazer por ti?
Sou novo na região e ando à procura de trabalho. – respondeu Seridath, calmamente – Soube que o senhor está recrutando homens para um exército. Marquei esta entrevista para averiguar as condições e decidir se a oportunidade é boa.
A surpresa de Urso Pardo foi visível diante da impertinência do jovem.
Ha, ha, ha! – riu o velho. – Onde vives, rapaz? O que sabes acerca desse suposto exército?
Sei pouco, é verdade. Apenas que um grupo de velhos, por algum motivo conhecidos como andarilhos, estão organizando uma força, dizem que para combater sombras e rumores.
De fato, esta é parte da verdade. Estamos reunindo forças, pois rumores assombram o norte destas terras.
E que rumores seriam esses, velho?
Rumores sobre uma praga que dizima aldeias ao norte. Uma praga fatal, que leva à loucura e faz o corpo da vítima andar após a morte. Até o presente momento, não houve clérigo, sacerdote ou mago que tenha alcançado êxito em reverter os efeitos dessa praga. Para lidar com tal crise, a Companhia dos Andarilhos decidiu agir.
E por que logo vocês, velhos, estão organizando esse exército? – retrucou Seridath. – E as forças do rei? Dhar, pelo que sei, é um reino forte. É certo que o rei não se agradará de um exército particular em seu território.
Não concerne a ti, rapaz, o que pensa ou não nosso rei – respondeu Urso Pardo, incapaz de esconder a crescente irritação. – A Companhia existe há séculos e seu poder visa somente a segurança do povo. Foi a mais importante força militar a auxiliar a Imperatriz Helena na destruição do exército das Trevas, marcando o fim de uma era de escuridão.
Não é o que os bardos cantam por aí – retrucou Seridath, com um sorriso torto.
Qual o sentido desta conversa, rapaz? Caso estejas interessado em participar de nossas fileiras, deves passar em um de nossos postos de alistamento. Não tenho tempo para suas leviandades. Passar bem.
Urso Pardo levantou-se de chofre. Seridath percebeu que havia exagerado em seus blefes. O rapaz adiantou-se, cortando o caminho do ancião, quase esbarrando em Aldreth, que retornava com as duas canecas de cerveja.
Sinto ter dito coisas desnecessárias, velho – disse Seridath, em tom grave. – Peço desculpas. Acredito contudo que o senhor se interessou por nós e insisto que fique mais um pouco. Que nossa despedida seja ao menos cordial.
Após alguns segundos de ponderação, o andarilho achou por bem voltar a seu lugar.
Tudo bem, rapaz – suspirou o ancião, ignorando sua caneca de cerveja –, o que mais quer saber?
Você ainda não nos disse o real objetivo dessa "força militar". Vão criar um exército da salvação para cuidar desses doentes do norte?
Eles não têm mais salvação – suspirou com tristeza o andarilho. – Iremos investigar as causas da praga e proteger aqueles que não foram tocados pela maldição.
E qual o pagamento? As vantagens?
Tais informações seriam conseguidas facilmente no posto de alistamento, mas satisfarei tua curiosidade. O pagamento é pequeno e a vantagem estará na experiência em batalha e na certeza de estar praticando o bem. Oferecemos cento e setenta moedas de cobre, da coroa de Dhar, por trinta dias, ou duas moedas de prata por um ano de serviço.
Se não tivesse dado mostras de seu caráter, eu acreditaria que o senhor zomba de mim – murmurou Seridath, fingindo indignação. – E os custos? Quem compensará?
Vestimentas e alimentação serão pagos pela Companhia. E barganhas estão fora de cogitação. O pagamento estipulado é fixo. Não haverá pilhagens.
O jovem remexeu-se na cadeira, inquieto. Agora tinha certeza que seus blefes não estavam surtindo o efeito desejado. Na verdade, ele não se preocupava muito com dinheiro. Queria a fama que somente uma espada poderia conseguir.
Muito bem, estamos interessados. Sou um cavalei...
Não queremos cavaleiros – atalhou Urso Pardo. – Só recrutamos infantaria e arqueiros.

sexta-feira, setembro 21, 2012

Carta aos dinossauros - uma arqueologia da lama

Ao terminar minha segunda leitura de Carta aos Dinossauros, de José Wilson Barbosa Sales, sentia um travo na boca. O texto é denso, incisivo, contundente. Um emaranhado de sensações que se mesclam a entorpecimentos, uma espécie de exercício psicológico que busca extrair o que há de mais visceral em nosso ser.

O texto de José Wilson é heterogêneo, polifônico, embora todos os dez contos que compõem o livro assumam um tom pessoal, confessional e intimista. O olho que o narrador empresta ao leitor está entranhado na lama que compõe a psiquê humana, a sombra que dá forma aos nossos pavores e sonhos, numa espécie de cartografia primordial. Assim, cada narrativa acaba por ser uma faceta de um mesmo prisma que se desdobra em outras possibilidades, variações de temas similares se atravessando.

A transversalidade, portanto, presente no conjunto que compõe esse excelente Carta aos Dinossauros funciona como uma liga que sedimenta a obra, tornando-a primorosamente equilibrada. Dessa forma, é possível constatar a potência e o fôlego deste escritor.

Os contos presentes no livro levantam questões sobre a memória, a infância, as descobertas, o sexo. Cada conto tem um ritmo próprio, evitando assim a monotonia que acompanha muitas obras do gênero. Do menino da fazenda descobrindo os caminhos do sexo ao homem maduro que busca redescobrir o prazer com sua mulher, os contos apresentam personagens profundos, sujeitos aturdidos diante do absurdo de uma existência sem sentido e que buscam através da linguagem um outro viés, uma nova significação para suas vidas.

O melhor exemplo seria o conto que empresta o título à obra e a fecha. Este conto envereda-se por um caminho que passeia entre a narrativa fantástica e o fluxo de consciência, onde uma cidade titânica aos poucos vai sendo transformada pelos sentimentos de seus habitantes, que por sua vez têm seus corpos profundamente alterados pelo ambiente.

Todos esses elementos conjugados tornam Carta aos Dinossauros uma obra equilibrada mas contundente, um mapa arqueológico dos pedaços de sombra que compõem a alma humana.


Ficha Técnica

Edição: 1
Editora: Orobó Edições
ISBN: 9788587151186
Ano: 2007
Páginas: 96

quarta-feira, setembro 19, 2012

Resultado da Promoção Entrelinhas II



Amigos, saiu o resultado do sorteio. Seguem os contemplados:


Vencedor no Twitter:   
Vencedor no Blogger: Fernando
Vencedor no Facebook: Kelly Cristine

Para receber seu exemplar, basta entrar em contato com o e-mail medina.samuel@gmail.com e deixar seu endereço para recebimento.

Ainda falta um exemplar, já que ninguém acertou a postagem mais popular do mês de agosto. Por isso, resolvi deixar o jogo aberto até o final de setembro, quando revelarei qual é o bendito post.

Deixo aqui meus parabéns aos ganhadores!

segunda-feira, setembro 17, 2012

Seridath - Parte II de II

Ir para Seridath - Parte I de II


Assustado com a aproximação do outro, o rapazinho ergueu o trêmulo arco, sem força para ao menos retesá-lo. Koen achou aquilo muito engraçado. O garoto estava com medo, sabia que iria morrer, mas mesmo assim decidira não fugir como fizera seu último companheiro.
– Não temas. – disse, Koen, quase amigável – Se não me atacar, não irei matá-lo. Talvez.
O garoto engoliu em seco, enquanto Koen ria, sombriamente deliciado com seu próprio gracejo.
– Vo-você matou Rerfard! – Observou o rapaz, admirado.
– E isso é importante? – desdenhou o outro.
– Si-sim. Ele é o mais forte, quem... quem manda... mandava por aqui.
– Bem, creio que não mais o seja. Você não parece ter experiência nesse ramo. O que fazia com aqueles bandidos?
– E-eles obrigam seus escravos a lutarem, senhor. Eu fui levado há três meses de uma aldeia bem ao sul daqui... Mataram todos... Só me deixaram viver porque eu sou bom com o arco.
– Mas mesmo assim você não impediu que eu matasse seu senhor. – observou Koen, com severidade, mas também com uma gota de gracejo em sua voz – Matei seu senhor, agora sua vida me pertence. Quer viver?
O jovem balançou afirmativamente a cabeça. Koen ficou por um bom tempo calado, absorto. Havia feito uma descoberta. Todo o cansaço que o perturbara durante a viagem havia desaparecido. Estava descansado e bem disposto, como se tivesse dormido por uma noite inteira.
– Se-senhor? – inquiriu o rapazinho, timidamente. Sua voz revelava o temor de que o outro tivesse mudado de idéia, ou estivesse apenas brincando com sua vida.
– Pois bem. – retrucou Koen, despertando – Será meu pajem, meu escudeiro. Qual o seu nome?
– Aldreth.
– Parece ser um bom nome. Certo, Aldreth. Como meu servo, quero você desça desse cavalo e ajoelhe-se aqui.
O rapaz aproximou-se e ficou de joelhos aos pés da montaria de Koen, que permaneceu em sua pose altiva.
– Jure. – ordenou.
– Ju-jurar? – garoto olhava temeroso o chão, sem ter coragem de erguer a cabeça.
– Jure que irá me servir.
– Mas... mas escravos não juram.
– Não importa. Se quer viver, faça um juramento.
– Eu juro.
– Jura o quê?
– Eu juro... juro servir ao senhor e... ser o vosso servo.
– Muito bem. – aprovou Koen – Quero que retire o dinheiro e as armas dos mortos. Pode levar o que quiser, mas eu quero as roupas negras daquele ali. – apontou para o líder – E quero que estejam limpas.
Aldreth ergueu-se para seguir as ordenanças do seu novo amo. Mas antes deu meia-volta, aproximou-se novamente de Koen e ajoelhou-se mais do que a primeira vez, até tocar a testa ao chão:
– Senhor, peço misericórdia pelos companheiros mortos. Peço que me deixe enterrá-los.
– Eles o raptaram, o escravizaram e ainda quer enterrá-los!? – perguntou Koen, maravilhado.
– Por Rheena e sua misericórdia, peço para enterrá-los, senhor! – repetiu o rapaz, com obstinação.
– Está bem. – respondeu, irritado – Vá logo! E não fale mais em deuses na minha presença.
O resto da tarde Aldreth passou usando uma das espadas dos mortos para chafurdar na lama e fazer covas para seus três antigos companheiros. Mas para a surpresa de Koen, ele fez o serviço com rapidez. Findava a tarde quando o garoto trouxe as vestes de Rerfard, o líder do bando, para que Koen pudesse usá-las. Pela compleição forte e robusta, as roupas couberam muito bem no jovem. Aldreth, porém, não pegou nada para si, além de uma das espadas. Nas garupas dos cavalos encontraram mantimentos e duas cotas de malha. Também havia dois escudos amarrados no cavalo de Refard e outros dois no de Driscol, o segundo no comando. Ele fora o último a ser morto por Koen.
Os dois reuniram os objetos e os cavalos e partiram quando já escurecia. Segundo Aldreth, havia mais a leste uma caverna onde o bando mantinha seu esconderijo. Poderiam abrigar-se naquele lugar. Enquanto voltavam suas montarias na direção indicada por Aldreth, ele timidamente olhou para seu amo e perguntou:
– E tu, senhor, como chamarei?
Koen recebeu aquela pergunta como um soco. Fazia tanto tempo que não pronunciava seu nome, que não se sentia mais Koen. Aquela luta havia selado o nascimento de um guerreiro. Deveria ser outro, ter outro nome. Depois de alguns segundos pensativo, voltou a cabeça para Aldreth e respondeu:
– Sou Seridath, o Cavaleiro Negro.

quarta-feira, setembro 05, 2012

Promoção Entrelinhas II

Bem, pessoal, aqui estou para anunciar um novo quadro no blog. Alguns devem ter percebido a mudança no endereço. Sim, agora o blog tem um domínio próprio. Isso não irá impactar os links que já existem, pois o Blogger.com irá redirecionar automaticamente para o endereço atual.

Outro ponto importante é que estou lançando uma promoção para divulgar o blog, buscando assim conquistar novos leitores. Atendendo às sugestões da última enquete, a promoção ocorre num misto de sorteio e jogo. 

Daqui a duas semanas, ou seja, dia 18 de setembro, farei um sorteio do livro Entrelinhas II para todos os leitores. Serão na verdade três sorteios: um para os seguidores diretos do blog, outro para aqueles que curtiram a página no Facebook e por último aqueles que seguem o perfil do Twitter. Além do sorteio, o jogo será adivinhar qual é a postagem mais popular do mês de agosto, considerando-se o número de acessos. O primeiro que acertar ganhará automaticamente o livro e não poderá participar dos sorteios.

O método de sorteio será através de um número aleatório gerado pelo site http://www.random.org/.

Para participar é necessário comentar este post, como forma de inscrição, além de atender às regras abaixo:

Sorteio:

1. Ter o endereço no Brasil;
2. Seguir publicamente este blog OU curtir a página deste blog no Facebook (https://www.facebook.com/OGuardiaoDeHistorias/) OU seguir o perfil deste blog no Twitter (http://twitter.com/nerito_blog/).

Brincadeira:

Comentar este post, respondendo à pergunta: Qual é a postagem mais popular deste blog?

Importante: 

  • Ao participar da promoção, o leitor autoriza expressamente a divulgação de seu nome no blog;
  • Os prêmios não são cumulativos, ou seja, cada participante poderá ganhar somente um livro.



O resultado será postado dia 18/09/2012. Os vencedores deverão enviar seu endereço mediante contato posterior.

Para conhecer mais sobre o livro Entrelinhas II, acesse sua página no Skoob: http://www.skoob.com.br/livro/245918-entrelinhas-2

Conto com a participação e divulgação de todos!

segunda-feira, setembro 03, 2012

Seridath - Parte I de II

Ir para A Espada - Parte II de II

Fonte: AutoRealm



Koen vagara por terras imersas em sombras. Como quem desperta de um pesadelo, ele agora pousava diante daquela encosta enlameada, tendo atrás de si as montanhas sombrias. Quando criança, soubera o que significava a palavra "sorriso". Dera valor a palavras como essa. Agora, tudo isso soava-lhe como superstição antiga e já morta. Koen era outro, seus claros olhos azuis eram envolvidos por uma frieza impiedosa. A visão da grande montanha imperava em sua mente. A montanha e a espada. Seu prêmio. Uma lâmina que lutaria por ele e o serviria como uma amante, como protetora, como fonte de força. Lorguth. O nome que ocupava todos os seus pensamentos. "Você é minha, Lorguth".
O forte som do metal chocando-se fez Koen despertar de seu devaneio. Sua espada já fazia seu trabalho. Surpreso, descobriu-se empunhando a lâmina negra, defendendo com perícia o golpe do líder do bando. Um segundo bandido, com uma lança, veio pelo lado direito e estocou com energia. Dando um impulso ágil para trás, Koen tirou o corpo, escapando por um mero instante da afiada estaca, que perfurou sua capa de um lado a outro. Gingando para a direita, deixou que a capa fosse destruída, enquanto fazia a espada deslizar pelo cabo da lança até alcançar o pulso esquerdo de seu agressor. O corte foi profundo e, enquanto o homem gritava, Koen puxou o braço do cavaleiro e usou o próprio inimigo para subir ao cavalo. Terminou seu serviço passando o fio serrilhado no ventre do bandido, que soltou um grito assustado e ofegante, enquanto tentava segurar as vísceras que ameaçavam sair.
Koen, com um muxoxo, jogou o homem para a esquerda, deixando-o tombar do cavalo, e tomou o seu lugar. Os outros bandidos olhavam atônitos. Pedaços da capa rasgada ainda o cobriam parcialmente, mas agora seus agressores podiam ver que se tratava de um jovem de ombros largos e braços fortes. Os cabelos negros e lisos eram volumosos e estavam bem sujos e compridos, cortados de forma irregular na altura dos ombros. Os olhos, carregados de um azul intenso, transmitiam pura frieza. Seu rosto era marcante, com uma barba bem rala cobrindo o queixo estreito, felino. Olhava para seus inimigos como uma fera observa sua presa.
O homem derrubado do seu cavalo jazia ao chão, com o sangue a misturar-se na lama. Ainda atônitos, os homens apenas observavam o rapaz como se fosse um fantasma, uma sombra amaldiçoada que escolhera brincar com eles. Mas Koen já movia as rédeas do animal rumo ao líder. Perplexo, o homem sentiu-se inclinado a fugir, admitindo que subestimara o jovem misterioso que cavalgava em sua direção. Mas ainda havia seus homens, seu bando, sua reputação. Pelo seu orgulho, não fugiria. Partiu com fúria contra o jovem.
Quando se cruzaram, Koen pôs sua espada na posição vertical, bloqueando com um canglor o corte horizontal da lâmina do inimigo. Tirando o golpe do adversário, ele moveu seu braço num semicírculo, atingindo com rapidez a nuca do oponente antes que os cavalos dos dois acabassem de se cruzar. Tudo aquilo ocorrera em um segundo; logo depois o líder pendia do cavalo, semi-decapitado.
Koen não se permitiu observar o derrotado e agonizante inimigo. Girou a lâmina da espada contra suas costas, do lado esquerdo do cavalo, um movimento que exigia tanto força quanto perícia. A ponta da espada foi bater firme no rosto de outro oponente, que tentara pegar o rapaz pelas costas. O homem ergueu a mão esquerda, que antes segurava a rédea do cavalo, tentando amparar o corte no rosto. Koen voltou energicamente sua montaria na direção do oponente ferido e enterrou a espada em seu peito.
Faltavam somente dois. Um deles largara sua lança rústica e fugia a galope, enquanto o outro se mantinha parado, a alguns metros de distância, segurando debilmente seu arco com mãos trêmulas. Koen aproximou-se calmamente. Percebeu que era o rapazinho louro e mirrado. Parecia ser mais jovem que o próprio viajante cinzento; não deveria ter nem quinze. Seus cabelos eram muito lisos e escorridos. Tinha a magreza daqueles que sempre trabalharam duro na vida, mas um rosto belo. Os seus olhos verdes eram dóceis e mantinham-se atentos, amedrontados. Mas isso não seria problema para Koen se tivesse que matá-lo. 

Continua...

sexta-feira, agosto 31, 2012

Um Amor para Recordar


Confesso que quando li Um Amor para Recordar, ele ainda nem tinha este nome. Nicholas Sparks ainda era um autor desconhecido aqui no Brasil e seu livro tinha o título de Um Ano Inesquecível, fazendo parte de uma brochura da Reader's Digest em que cinco títulos faziam parte do mesmo volume.

Anos depois, Nicholas Sparks é um dos autores mais lidos no Brasil. Suas obras são um sucesso de mercado, tendo sido adaptadas para o cinema. Ainda assim, fico com este singelo livro, que foi uma leitura despretensiosa que me deixou profundamente envolvido.

Landon Carter é um adolescente que, no ano de 1958, não pensa em nada a não ser formar-se no colegial e ingressar numa boa faculdade. Mas uma inesperada paixão acontece e com ninguém menos que a filha do pastor da Igreja Batista da pequena cidade onde mora. Mas isso não é nada bom para Landon, que tenta fugir dessa situação constrangedora. Afinal, ele foi um dos garotos que sempre caçoaram do pastor de “pele de peixe” e de sua filha, Jamie. Por que agora seria diferente? 

Landon é forçado a conviver com Jamie, descobrindo que essa garota é muito mais do que Bíblia, oração e idas à igreja. Ele descobre que a jovem garota esconde um terrível segredo, que mudará para sempre a vida de todos ao seu redor. 

Uma narrativa simples e descontraída torna ainda mais saborosa a leitura de Um Amor para Recordar, uma história sobre como o amor supera todos os desafios.


Ficha Técnica
Edição: 1
Editora: Novo Conceito
ISBN: 9788563219633
Ano: 2011
Páginas: 186
Tradutor: Ivar Panazzolo Júnior

Página do livro no Skoob: http://www.skoob.com.br/livro/168033-um-amor-para-recordar

quarta-feira, agosto 29, 2012

Madrinha Morte, uma lição sobre o inevitável

A Morte, embora entidade temida, pode nos ser útil e ensinar grandes lições a nós mortais. Assim nos acontece em um dos contos dos Irmãos Grimm, “Madrinha Morte”, onde temos a história de um homem muito pobre que, ao ter seu décimo-terceiro filho, busca um padrinho perfeito para que a criança não passe necessidade.

Tanto Deus quanto o diabo são rejeitados como padrinhos, até que a Morte se apresenta e é aceita. Segundo o homem, a Morte seria a madrinha perfeita por tratar tanto ricos quanto pobres como iguais. Assim começa a grande lição que se revela através de uma história tão curta. O afilhado  da Morte, ao ter tão poderosa aliada, cresce para tornar-se um médico famoso por todo o mundo. Com a ajuda dela, o rapaz é capaz de dizer qual paciente irá se recuperar e qual irá morrer. Ter a Morte como Madrinha torna o rapaz presunçoso a ponto de ousar manipular sua aliada. E com isso ele causa sua própria destruição.

A grande lição que podemos retirar deste conto é que a Morte não pode ser subjugada, ou manipulada. O jovem médico busca usar de artifícios e argumentos, acreditando que a Morte o protegerá por ser sua Madrinha. Não poderia estar mais enganado. Como parte da ordem natural das coisas, a Morte não pode ser enganada e ir contra os seus desígnios inevitavelmente acabará mal.

Outro elemento importante a ser destacado é o motivo que leva o jovem médico a manipular a Morte. Sendo seu afilhado, era seu dever seguir seu exemplo, tratando a todos como iguais. Sua ruína começa quando, ao atender o Rei doente, olha-o como alguém importante, que não merece receber más notícias.
Visando vantagens particulares, o médico esquece do que é mais importante, inclusive quando busca ludibriar sua madrinha pela segunda vez, para salvar a vida da filha do Rei.

Assim, "Madrinha Morte" é uma importante lição moral sobre o valor da humildade e da importância da responsabilidade dos próprios atos.

segunda-feira, agosto 27, 2012

A Espada - Parte II de II

Ir para A Espada - Parte I de II


O viajante ergueu furtivamente a cabeça. A chuva havia amainado até tornar-se um fino chuvisco, mas o vento frio persistia. Cinco homens, montados a cavalo, aproximavam-se com um trotar quase desleixado. Dois deles carregavam lanças rústicas, com cabos feitos de faia, bem afiados. Todos, exceto um rapazinho louro e muito magro, tinham espadas embainhadas à cintura. Vestiam-se ordinariamente, com gibões de couro gasto e calças de algodão grosso. Apenas um deles vestia-se com mais esmero, pois suas roupas eram pretas, tinham belos bordados e pareciam novas. Uma bela capa preta amarrada sobre os ombros e um pingente de prata pendurado ao pescoço completavam sua figura. Parecia ser o que se pode chamar de líder do grupo e se mantinha à frente. O rapazinho louro era o mais escorraçado, por vestir-se apenas com uma túnica surrada e uma calça que parecia ser feita de pano de saco. Também estava descalço. Até seu cavalo aparentava ser o mais velho e maltratado. O viajante não imaginou que poderia despertar o interesse daqueles cavaleiros, mas eles o notaram ao longe, virando os cavalos em sua direção.
Encontraram-se ao pé da encosta. O viajante parou, enquanto os cavaleiros puxavam as rédeas de suas montarias, mantendo-se à distância de uns dez ou doze pés. O líder do bando olhava com um meio sorriso. Para bandidos inexperientes, aquele homem coberto de andrajos passaria por um mendigo. Mas o líder do bando sabia que mendigos só viajam em grandes grupos e sempre costumam ficar às voltas de cidades ricas. Já vira mais de uma vez cambistas avarentos disfarçarem-se de miseráveis quando desejavam viajar por aquelas regiões. E o homem permanecia silencioso, talvez estivesse suplicando a misericórdia dos deuses. Mesmo com a cabeça levemente erguida, era impossível ver seu rosto.
Enquanto era examinado, o viajante também estudou atentamente seus assaltantes. O líder do bando parecia ser mais velho, talvez trinta e cinco ou quarenta anos. Tinha olhos estreitos e cabelos grisalhos, com uma barba rala e nariz fino, quebrado. Seus companheiros não eram tão dignos de atenção. Pareciam-se com esses miseráveis comuns que infestam reinos decadentes e roubam aqueles que forem menos miseráveis que eles. Apenas o rapazinho atraiu o exame do viajante, pois não tinha armas, exceto um longo arco, já com uma flecha pronta para o disparo. Mas o olhar do garoto denunciava outra coisa. Estava amedrontado, provavelmente era a sua primeira incursão com o bando. Ótimo, um inimigo a menos.
O líder quebrou o silêncio:
O que faz sozinho nestas terras malditas, companheiro? – perguntou, de forma desinteressada.
O viajante ofereceu o silêncio como resposta.
Por acaso você é mudo, estranho? – vociferou o líder do bando – Estas terras são perigosas. Não há rei pra guardar esse buraco de merda. Nós somos a segurança. E você paga a gente se quiser passar.
Sombriamente, o estranho exibiu com certa sutileza a lâmina da espada, que a capa ocultava, como que alegando não precisar de proteção. Diante do ultraje, o líder do bando ficou furioso. Não lhe importava mais e aquele homem tinha ou não dinheiro. Iria arrastá-lo pela lama.
Então não precisa de proteção! – Bradou o bandido, sacando a espada.
O companheiro ao seu lado o imitou, enquanto os outros dois, que carregavam lanças, abaixaram-nas rumo ao estranho. Todos, exceto o tímido rapaz louro, soltaram gritos de fúria. Estava para começar o caminho real daquele misterioso viajante. Um caminho que, de cinzento, seria tingido de vermelho. 

Continua...

sexta-feira, agosto 24, 2012

O Saci

Um menino busca vencer seus medos, sendo levado a uma viagem fantástica em meio aos seres mais famosos do folclore brasileiro. Esta é a premissa do livro O Saci, do consagrado escritor Monteiro Lobato, reconhecido por várias gerações de leitores, adultos e crianças.

É impossível negar que a fama de Lobato precede seus livros. Quem dentre os brasileiros nunca ouviu falar do Picapau Amarelo, com Emília, Narizinho, Tia Nastácia, Visconde de Sabugosa, Dona Benta, Pedrinho, dentre tantos outros personagens inesquecíveis? A primeira memória evocada em cada um de nós, ao ouvirmos falar do Picapau Amarelo, provavelmente será da serie televisiva, cuja abertura era embalada pela voz inconfundível de Gilberto Gil. Mas muitos (como eu) foram levados a conhecer a fonte da serie, as histórias descritas nos diversos livros que contam as reinações da menina de nariz arrebitado com sua impossível boneca falante.

Como em poucos livros de Lobato, O Saci é focado especialmente em Pedrinho, menino oriundo da cidade grande, que no início do livro decide passar mais uma temporada de férias no sítio de sua avó, a bondosa Dona Benta. Pedrinho costumava se gabar de sua coragem, até ouvir falar de sacis. Desconfiado desses seres e desejando enfrentar seus receios, o menino conta com os conselhos do Tio Barnabé, um velho e sábio conhecedor dos segredos e tradições da roça.

É assim que Pedrinho consegue capturar um saci. Seu triunfo, contudo, é temporário. O menino acaba perdido na mata e deverá contar com a esperteza e a sabedoria do Saci para escapar de monstros como o lobisomem, a mula-sem-cabeça e a própria Cuca.

Através do Saci, o menino urbano vai sendo apresentado às nossas tradições, aos mitos do folclore brasileiro. O Saci assume um ar quase professoral, enquanto os mais diversos seres fantásticos atravessam a floresta diante do menino escondido. 

Lobato habilmente dá personalidade ao Saci, uma das poucas entidades folclóricas a penetrar nos lares sertanejos, como um agente que irá promover o retorno do indivíduo urbano a suas raízes autênticas. Assim, O Saci é uma obra peculiar, que valoriza o tom aventureiro e o elemento do perigo, sendo uma excelente forma da criança conhecer um pouco mais de nosso folclore com diversão garantida.

Ficha Técnica
Título: O Saci
Autor: Monteiro Lobato
Edição: 1
ISBN: 851119018X
Editora: Brasiliense
Ano: 2001
Páginas: 46

Página do livro no Skoob: http://www.skoob.com.br/livro/3115-o-saci

Observação: Eu utilizo este livro com frequência na biblioteca onde trabalho. Costumo oferecer uma oficina onde apresento para crianças de todas as idades tanto a obra de Monteiro Lobato quanto a riqueza de nosso folclore.

quarta-feira, agosto 22, 2012

Concerto

Ele havia dormido pouco na noite anterior. Como tudo na vida, havia pouco tempo para o sono. E principalmente na véspera do concerto. 

Preocupado com os preparativos, ele conferiu seu equipamento básico: partitura, terno azul risca de giz, camisa preta, sapatos e meias também pretos. A gravata prateada com a lâmina de uma boa espada, foi o último item conferido. A camisa preta, precisava ser passada. Colocou uma trilha sonora para embalá-lo enquanto ele deixava que vapor e metal transformassem a superfície irregular.

A noite foi passada em maio à apreensão. Estava pronto, sabia disso. Foram quase três meses de trabalho árduo, ensaios sobre ensaios. A música foi nascendo aos poucos, primeiro como sons esparsos e desconexos que aos poucos foram cerzidos pela hábil mão do Maestro. Agora, depois de tantas horas, chegava o momento tão esperado, quando subiriam ao palco.

Todo concerto é como uma batalha. Ele sorriu ante o pensamento tão clichê, enquanto conferia mais uma vez o teto untado de penumbra. Podia ser clichê, mas era uma verdade. Em um concerto, assim como em uma batalha, perder a concentração pode custar todo o trabalho empregado. Assim, buscando ao máximo essa concentração, ele adormeceu.

Dia seguinte, árduo e atabalhoado, quase cotidiano. Ele sabe o que o espera no fim do dia e cada segundo é como um ensaio mínimo, enquanto sua mente repassa sequências de notas e palavras cantadas em alemão. Ao final do expediente, parte rumo ao teatro: sua arena. 

Ao chegar, encontra os demais cantores já prontos, assim como a Orquestra. Enquanto ele veste seu uniforme, seu coração batuca num andamento bem mais veloz que aquele que o Maestro certamente aplicará

Mais um ensaio ocorre antes do concerto. O ensaio de palco é vital, deve ser rápido como o golpe de um guerreiro. Quanto mais tempo passado em um ensaio de palco, mais cansado o coro e a orquestra ficam. Tudo ocorre bem e o Maestro indica que tanto o Coro quanto a Orquestra estão prontos. Então todos deixam o palco.

Momentos correm lentamente em tensão e expectativa. Enquanto isso, ele está tão concentrado que parece nem ouvir o que se passa ao redor. A orquestra já retornou ao palco, afinando os instrumentos. É a vez dele e de seus companheiros. É a vez do Coro revelar sua presença ao público.

Eles chegam ao palco em maio a aplausos lançados da escuridão. A luz sobre eles impede que possam ver quem os aplaude. Assim é melhor, pois o único a ser visto é o Maestro.

E com a dignidade que lhe é devida, o Maestro assume as rédeas da realidade. Durante quase meia hora ninguém pensa, apenas sente. O silêncio toma conta do recinto. Naquela escuridão, todos são árvores, preocupados apenas na fruição descompromissada daquele momento. O tempo se expande e contrai, assume outras proporções. Enquanto as notas musicais adejam o espaço, palavras aladas, pedaços de sonho.

No momento em que o Maestro faz o último movimento e fecha as mãos num gesto poderoso, todos no teatro prendem a respiração. Num instante, o fôlego de todos está nas mãos de um único homem. É quando o Maestro abaixa os braços e todos sentem a tensão desaparecer, enquanto o público toma fôlego e explode em palmas entusiasmadas.

Então um pensamento atravessa a mente daquele corista, enquanto ele sente seus ombros relaxarem. Não haveria outro lugar onde desejaria estar.

segunda-feira, agosto 20, 2012

A Espada - Parte I de II

Ir para o Prólogo
Fonte: AutoRealm


Era uma tarde chuvosa e cinzenta, aquela. Nada se ouvia, além do som das fortes gotas de chuva, que caíam como se todo o céu fosse desabar. Ao longe, agudas montanhas circundavam aqueles caminhos solitários. A chuva era como um véu translúcido que embaçava a visão de montes escuros se estendendo até uma vasta campina que continuava, sinuosa, rumo ao sul.
Apenas um viajante andava por ali, uma figura cinzenta em meio à paisagem da mesma cor. Sua velha e arruinada capa o cobria, embora estivesse fechada à frente do corpo somente por uma faixa puída. Um capuz ligado à capa cobria seu rosto.
Volta e meia a capa abria-se pela força do vento, exibindo um físico bem talhado e seminu, com uma espada pendendo ao lado, junto à coxa esquerda. A arma não tinha bainha e estava presa por uma tira de pano que dava uma volta no ombro direito, por baixo da capa. O viajante inclinava a cabeça levemente para baixo, dando a ligeira impressão de que buscava ocultar o rosto de observadores indesejáveis. Seus pés descalços afundavam no solo lamacento, enquanto a capa cinza arrastava-se, impregnada pela lama avermelhada.
O viajante cinzento quase cambaleava, tamanho seu cansaço. Seu corpo alquebrado parecia não querer mais obedecer, e a chuva pesada empurrava seus ombros para baixo, como se buscasse lançá-lo ao chão. O frio penetrava em seus ossos pela capa encharcada, embora nem o incomodasse mais. Tudo o que ele queria agora era repousar, encontrar um lugar seco e quente. Comida e banho eram luxos com o quais se preocuparia depois. Mas sabia que sua longa jornada apenas começara. Simplesmente sabia. Pensamentos aumentavam seu cansaço e ele buscava evitá-los. Limitava-se a prosseguir em seu caminho, como um autômato.
A espada que pendia ao seu lado era feita de um metal negro e desconhecido. Era uma pequena espada bastarda, a lâmina serrilhada deveria ter cerca de meio metro. O cabo era feito de madeira enegrecida, da mesma cor do resto da espada. A guarda tinha forma de cruzeta, simples e grosseira, dois pequenos pedaços de metal afilados no meio e um pouco mais abaulados nas pontas. Havia duas discretas esporas brotando dos dois gumes, próximos à guarda. Logo depois dessas esporas, ambos os gumes eram serrilhados até quase o meio da lâmina.
Não havia nenhum enfeite, nenhuma pedra preciosa engastada, nada que pudesse tornar aquela arma uma peça valiosa. Era uma ferramenta apenas, feita para causar uma morte dolorosa. Uma arma para combates sujos. Mas para o viajante, aquela espada era mais preciosa que sua vida. Ele sabia, ou imaginava, o que renunciara para possuir tal arma. Sentia seu peito apertado por uma estranha excitação. Era o início, sua grande largada. Logo, teria o mundo.
Seu passado parecia obscuro em sua mente. Era verdade que ele realmente não se importava, não tentava lembrar nem como conquistara a espada. Mas se fizesse um esforço, se consultasse sua memória, apenas escuridão teria como resposta. A sombra em torno de um único nome: Koen.
Em sua insólita viagem, não havia encontrado nenhum ser humano pelas redondezas. Eram terras desoladas, aquelas, sem vilas ou plantações. Ao norte, além de montanhas brancas, havia o litoral inóspito. Ao sul, na direção em que o viajante seguia, estava a fronteira de um reino pobre e decadente.
Mas o viajante a tudo aquilo ignorava. Seus últimos cinco anos foram passados na escuridão, imersos nas sombras das montanhas que ele agora deixava para trás. Era uma cordilheira que se estendia por todo o litoral norte, para em seguida descer ao sul, formando um cinturão de montanhas que separavam o continente em duas partes. Sua jornada o havia impelido para o leste desse cinturão. Ele seguiria ao sul, sempre em linha reta, até que o destino mudasse sua rota.

sexta-feira, agosto 17, 2012

Sabor de Sangue e Chocolate

Sangue e Chocolate são dois elementos que se relacionam simbolicamente com o amor, simbolizando a relação carnal, a paixão. São também que carregam uma forte carga sensorial, tanto o cheiro pungente do sangue quanto o sabor forte do chocolate.

Helena Gomes, autora de Sabor de Sangue e Chocolate, constrói sua trama mediante esses dois fortes elementos. Assim, o romance nos apresenta Alex, um rapaz rejeitado pela própria família, que descobre, logo após um acidente, uma sede irracional por sangue humano.

Alex vive um dilema ainda maior e mais profundo. Sua mãe parece odiá-lo e seu pai age como um estranho. Aos 17 anos, no auge de questionamentos e da descoberta de sua própria identidade, o rapaz é levado pelo motorista da família, o velho Brandão, para a pequena cidade de Nova Guanaja, localizada no interior do Rio Grande do Sul. A ex-mulher de Brandão, Miranda, é uma simpática senhora, exímia cozinheira. Seu maior talento é a produção dos mais finos chocolates.

Vivendo nessa pequena cidade, Alex descobre novas possibilidades para sua sede de sangue como também para sua sede de amor. O rapaz se vê em um ambiente acolhedor, permeado pelo aroma saboroso do chocolate.

Essa nova família, contudo, corre um sério risco. A única neta de Brandão e Miranda, Claudia, é acometida por uma misteriosa doença. Este mal tem como principal sintoma uma profunda anemia. E Alex logo descobre que a causa pode ser pior do que qualquer ser humano imagina.

O texto de Helena Gomes é leve, acolhedor, delicioso. Ler seu romance é como saborear uma barra de chocolate. Prova da competência da autora, que marca muito bem a ambientação afetiva que ela busca criar na narrativa. O texto também é levemente picante, repleto de garotas belas, formosas e sensuais. A trama se constrói também mediante explorações sensoriais, que enriquecem a experiência do leitor e aprofundam sua relação com o protagonista. Outro ponto interessante a ser destacado é a presença leve de uma crítica aos romances adolescentes vampirescos.

Com um texto saboroso e personagens cativantes, Sabor de Sangue e Chocolate certamente vai deixar você com água na boca. 

Ficha Técnica
Título: Sabor de Sangue e Chocolate
Autor: Helena Gomes
Edição: 1
Editora: Escrita Fina
ISBN: 9788563877192
Ano: 2011
Páginas: 280

Página do livro no Skoob: http://www.skoob.com.br/livro/189526-sabor-de-sangue-e-chocolate


quarta-feira, agosto 15, 2012

O que as sombras revelam

A primeira sensação que o envolveu foi daquele frio cortante. A escuridão veio logo depois. Aquela era a hora em que todas as coisas pareciam mortas; a hora em que o próprio sono se assemelhava com a morte. 

O menino meio que retornou à vida, vindo de um efêmero país de sonhos. Aos poucos foi tomando ciência de seu próprio corpo. Os sentidos ajudaram-no a mapear seu espaço. Visão e audição faltaram a seu chamado. Afinal, estava imerso em silêncio, como numa escuridão sepulcral.

O frio fazia sua respiração arder. Privado dos aromas familiares, lembrou estar em lugar estranho. Aos poucos a lembrança foi acompanhando sua própria consciência. Não estou em casa; estou na fazenda, muito longe de tudo que conheço. E agora parecia também completamente sozinho. As sombras eram suas únicas e reais companheiras.

A bexiga protestou e o menino percebeu que este era o motivo de seu despertar. Ainda sob as cobertas, tentou mapear mentalmente a casa estranha onde estava hospedado com a família. Abriu e fechou os olhos, percebendo que não fazia diferença. Hesitou ainda por alguns instantes para em seguida jogar as cobertas e saltar da cama.

As tábuas do casarão colonial rangeram sob seus dedos, quebrando o silêncio que parecia uma parede de gelo a impedir que ele se movesse. Pé ante pé, o menino vagou, lentamente, usando as mãos para evitar uma topada violenta em qualquer coisa oculta naquele breu.

Chegando ao que parecia a sala de jantar, uma terrível surpresa. Uma luz vermelha, mortiça, desafiava o menino bem longe, lá onde a escuridão parecia nascer. Era um minúsculo ponto escarlate, como um olho maligno a observá-lo; ou como a brasa do cigarro de um fumante solitário, estranho.

O pavor gelou as entranhas do menino, quase fazendo com que sua bexiga se desprendesse. Encostando a mão esquerda no batente da porta que fazia divisa entre a sala de jantar e a de estar, ele parecia vidrado por aquele olho vermelho. Conforme se lembrava, a porta do banheiro estava à frente, um pouco à esquerda, na metade do caminho até a luz vermelha.

O menino viu-se diante de três escolhas. Poderia virar as costas para a luz e voltar ao conforto da cama, apesar dos protestos da bexiga, ou poderia vagar até o banheiro e ignorar a luz vermelha.

A terceira escolha, a mais difícil, foi a que ele fez. Com passos lentos mas firmes, o menino seguiu até a fonte da luz vermelha. O ponto luminoso foi crescendo até revelar-se apenas a luz que indicava o funcionamento do freezer da cozinha.

Sentindo um misto de alívio e orgulho, o menino deu meia-volta e dirigiu-se ao banheiro. De lá, seguiu para sua cama. As sombras da madrugada ocultam muito mais do que revelam, dão formas de monstros a coisas banais. Mas para o menino, pouco daquilo importava. Na luta com seus medos ele se saíra vencedor. E se tornara o senhor daquela madrugada... e o senhor do seu próprio coração.