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sexta-feira, dezembro 26, 2025

Minha história com a TAUP



Conheço a editora Toma Aí Um Poema (TAUP) há algum tempo. Logo que ela surgiu no meu radar, fiquei deslumbrado com as propostas visuais, a estilização do site e também as capas dos livros. Mas o que me encantou mesmo foi o diferencial na proposta de parcerias com pessoas autoras. 

A gente sabe que publicar livro não é fácil, mesmo hoje, em que as tiragens podem ser muito baixas, a impressão sob demanda é uma opção e ainda é possível recorrer ao suporte digital. Porém, o livro como objeto físico ainda é um fetiche, pra não dizer uma trincheira. 

As editoras são empresas e precisam se sustentar dentro de uma lógica de mercado, algo que muitas vezes não é compatível com o fazer artístico, muito menos com o perfil nada empreendedor da maioria de escritoras e escritores. E este é o meu caso. 

Portanto, ao buscar uma atuação mediante um viés mais social, contando inclusive com um fundo de apoio mútuo, a TAUP apresenta-se com um diferencial em relação a outras casas editoriais. Claro, não é estou falando de perfeição, mas de possibilidade de sonhar junto. 

Mas preciso contar a história toda. Recentemente, minha namorada, Vívian Marchezini, me avisou de um edital de publicação da TAUP. O recorte era poesia erótica. Vívian, que recentemente lançou seu magnífico "Versos roubados", deu a ideia da gente enviar um poema cada um. E fomos selecionados. Isso abriu o canal de conversa com a TAUP. Recentemente, recebi um e-mail da editora, perguntando se eu teria interesse de enviar um livro solo e apresentando os limites para o arquivo. Dei um duro para organizar uma antologia que conceitualemente já estava em minha cabeça há anos e enviei o "Convergência". A história desse título eu conto em outro momento.

Assim, recebi o retorno de que meu livro de contos havia sido selecionado. Até a assinatura do contrato, foi um pulo. Trocamos ideias, tirei dúvidas e fiquei satisfeito com a proposta de publicação. Claro, dá um frio na espinha, porque a gente precisa movimentar uma campanha de financiamento coletivo. Porém, a vida é repleta de desafios, não é mesmo?

Sinto-me genuinamente animado para as próximas etapas dessa jornada. Em breve, conto mais!

E pra quem quiser conhecer melhor a TAUP, basta entrar no perfil do Instagam e cliar nos links que estão na bio! 

terça-feira, dezembro 23, 2025

Sementes lançadas para 2026 - Contrato assinado com a editora TAUP!


O ano está no fim, marcando já o início de um novo percurso. Meu livro Convergência será publicado em breve! Assinei recentemente o contrato com a editora Toma Aí Um Poema – TAUP. Cada livro é uma realização especial. Por isso, compartilho com vocês esta alegria.

Convergência é uma coletânea de contos antigos e novos, que atravessam gêneros como a fantasia, a ficção científica (com um ar de paródia) e o cotidiano mais trivial. Publicar esses contos é um marco em minha trajetória, pois muitos desses contos fervilham em minha alma há anos. Ter uma casa para eles é uma alegria sem tamanho.

Quem conhece as obras de ficção que já publiquei poderá identificar alguns desses traços, pois terá em mãos contos que apresentam um autor em formação. Será possível também encontrar minhas mais importantes referências.

Espero que vocês possam me acompanhar nessa emocionante jornada!

quarta-feira, dezembro 13, 2023

O pássaro da verdade

https://pixabay.com/pt/users/kriemer-932379/

Esta história é contada entre o povo San, que vive no deserto do Kalahari, ao sul da África. Quem a contou para mim foi a Emilie Andrade, na abertura da Sexta Candeia - Mostra Internacional de Narração Artística. Ela por sua vez teve contato com essa narrativa por intermédio de um pesquisador estadunidense chamado Michael Meade.

Dizem que certa vez um caçador, cansado de suas caçadas, sedento e esbaforido, parou às margens de um lago para beber àgua. Enquanto saciava sua sede, viu nos reflexos das águas a figura de um enorme pássaro branco. Ao levantar a cabeça, porém, não viu sinal do pássaro. Apenas o céu azul.

O caçador permaneceu no mesmo lugar o dia inteiro, esquecido de retomar a caçada, olhando para cima, na esperança de novamente ver o pássaro branco. Ao fim do dia, retornou para sua casa.

Uma mudança, porém, se operou no caçador. Ele parecia triste e desanimado. Vivia com os olhos no céu. Não saía mais para caçar. As pessoas perguntavam o que ele teria, ao que nada respondia. Até o dia em que um amigo o interpelou. Ele compartilhou que desde que vira de relance o pássaro branco, nada mais queria a não ser vê-lo novamente. O amigo retrucou que ele provavelmente não havia visto pássaro algum, que tudo não havia passado de um lampejo de raio de sol refletido na superfície do lago. Mas caçador tinha certeza do que havia visto.

Depois de alguns dias, o caçador então tomou uma decisão. Largou definitivamente seu ofício, abandonou o local que nasceu e decidiu partir em busca do pássaro. Por onde ele passava, perguntava se as pessoas tinham avistado a ave. A maioria dizia que nunca a tinha visto. Uns poucos dizia ter ouvido falar.

O tempo passou caçador agora estava velho. Até que chegou em um pequeno vilarejo situado no fundo de um vale. Lá ele ouviu pela primeira vez que sim, esse pássaro existia. Era o grande Pássaro da Verdade e vivia na montanha mais alta, do outro lado do vale. 

Imbuído de uma nova energia, o caçador se dirigiu à montanha e começou a escalá-la. Usou toda a sua força para transpor esse obstáculo. Até que sentiu uma emoção nunca antes sentida. Seu corpo todo se comovia. Era um cansaço impossível. O caçador teve então a certeza de que iria morrer.

E num relance ele sentiu o lufar de asas sobre a sua cabeça. Olhou para cima e nada viu além do céu azul, tão azul quanto naquele dia em que ele vira de relance o vulto do Pássaro da Verdade na superfície das águas do lago, tantos anos atrás. Fraco e cansado, o caçador estendeu a mão. 

Então, lá do alto, planando, cálida e pequena, uma pena branca veio descendo lentamente, uma leve pluma, que pousou na mão estendida do caçador. Ele segurou a pena junto de si e, com um sorriso nos lábios, morreu.

Hoje, após transcrever essa história, eu me sinto um pouco como esse caçador. Sinto-me como alguém que encontrou um dia a Beleza e foi por ela transformado de tal maneira que deseja investir a vida inteira em sua busca. E sem se importar se a busca terá sucesso, estando feliz e realizado apenas com o mínimo sinal de que ela, a Beleza, a Verdade, o Sonho, o Ideal, existe.

segunda-feira, janeiro 04, 2021

Pesadelos de Pandemia

Fonte: https://pixabay.com/pt/photos/lugares-perdidos-keller-elevador-1928727/

Ele tinha pressa, pois a reunião estava para começar. Não precisava correr, era só ligar o computador, mas a pressa o fazia pensar em sair correndo para não chegar atrasado. Como a maioria das coisas que acontecem em sonho, isso não fazia sentido.

Conseguiu então fazer o notebook funcionar. Entrou em reunião através do link, mas foi como se adentrasse pesados portões. Apesar disso, estava com o microfone e câmera desligados. Até aí, tudo bem.

Foi subitamente chamado para fazer uma apresentação. Porém, ele não tinha preparado nada; havia se esquecido da tarefa. Mesmo assim, tinha que apresentar alguma coisa. Resolveu improvisar.

Abriu o microfone e começou a falar. Foi aí que percebeu: estava pelado. Conferiu a câmera e sentiu alívio ao constatar que ela estava fechada. Então por que todos estavam rindo como se vissem algo ridículo? O alívio deu lugar à desconfiança e esta, ao medo. Passou a achar que todos conseguiam ver que estava pelado, mesmo com a câmera desligada. Também não conseguia entender como sabia que todos riam dele, se a tela do notebook também estava desligada. 

Seu maior pesadelo acontecia: acessar uma reunião de teletrabalho com a sensação de ter esquecido de ligar o computador. 

sexta-feira, maio 01, 2020

O homem que amava os cachorros - A Utopia Assassinada

Entre a História e a ficção literária existe uma tensão, que é ainda mais patente em romances históricos. Quando estes assumem um cunho biográfico, então, tal tensão pode ser quase insuportável. Afinal, temos de um lado a veracidade, o compromisso com os fatos, por mais absurdos que estes possam parecer; e do outro, a verossimilhança, ou seja, uma aparência de verdade.

O romance O homem que amava os cachorros, do cubano Leonardo Padura, caminha nessa corda bamba, sem perder o equilíbrio. A obra conta a da vida e da morte de três homens: Leon Trótski, Ramón Mercader e Ivan Cárdenas, sendo o último o fio condutor do romance, a testemunha que recebe as confissões atravessadas de um misterioso homem e se lança na busca pela verdade.

Já no prefácio do livro, o mesmo é definido como um "thriller histórico", estabelecendo assim a natureza dúbia desse texto que, já de início, apresenta seu narrador a partir de um ponto de vista intimamente ligado a suas personagens. Assim, quando começamos a ler sobre a vida de Trótski, temos contato com um homem aturdido, angustiado com as injustiças e perseguições que sofre.

Ao mesmo tempo, os capítulos destinados a Mercader mostram um jovem idealista, com uma relação complicada com a mãe e apaixonado por uma militante comunista cuja devoção aos ideias beiram à loucura. A proximidade que a narrativa estabelece entre nós, leitores, e seus protagonistas é de uma perturbadora intimidade, de forma a ser impossível buscarmos lados.

Não deixa de ser um fato, porém, que o romance apresenta lados. Em uma ponta está Leon Trótski, antigo líder do Exército Vermelho e um dos maiores líderes da Revolussão Russa. Na outra ponta está Ramon Mercader, o obscuro soldado da Guerra Civil Espanhola que será lentamente forjado para ser o assassino do ex-líder soviético. E no centro está Cárdenas, o narrador, responsável ficcional por construir uma unidade nessas narrativas convergentes.

Mas se o romance apresenta lados, como seria impossível para nós, leitores, assumir um posicionamento? Bem, para este leitor foi impossível. Tanto Trótski quanto Mercader são por demais humanos, repletos de paixões e defeitos, sendo que nenhum dos dois é retratado como um abjeto vilão. Ambos aparecem como pessoas que decidiram sacrificar tudo - até mesmo a família - por seus ideais.

Outra figura histórica que aparece com peso no romance é o próprio Josef Stálin. O líder soviético nunca surge pessoalmente, mas sua figura está sempre presente nas sombras. O romance não poupa Stálin, que aparece como o maior responsável pela morte da utopia comunista.

Portanto, é importante frisar que este não é um romance fácil. É uma obra densa, pesada, repleta de sombras e dor. O percurso pela narrativa é também uma jornada que mostra como a maior utopia do século passado pode alcançar seu ápice e também sua derrocada, tendo sido destruída de dentro para fora.

Ficha Técnica 
O homem que amava os cachorros 
Leonardo Padura 
ISBN-13: 9788575593578
ISBN-10: 8575593579
Ano: 2013 
Páginas: 592
Idioma: português

Editora: Boitempo

Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/livro/359958ED404651