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segunda-feira, dezembro 25, 2023

SAN - Detetive Folclórico - Uma emocionante jornada mística




Eles estão entre nós. Os seres mitológicos de nossa tradição oral. Saci, Curupira, Caipora, Boto... e a temível Cuca. E ela não está satisfeita. Irritada com a destruição da natureza, perpetrada por humanos, a bruxa reptiliana decide nada mais nada menos que aniquilar toda a humanidade. Ainda bem que temos Sandro, o detetive folclórico, para nos proteger e descobrir os planos da maligna cuca antes que seja tarde demais.

Assim tem início um dos livros mais divertidos que li. SAN - Detetive Folclórico, de Henrique Zimmerer, é uma narrativa leve e fluida, cheia de ação, humor e romance. Sandro - ou San, para os íntimos - é na verdade uma entidade folclórica e usará todo o seu poder para salvar a humanidade da extinção.

Como braço direito do detetive está o professor de biologia Custódio, outra entidade da nossa tradição oral brasileira. Custódio é ruivo, usa dreadlocks e tem o corpo coberto de tatuagens. É um exímio caçador e suas habilidades serão usadas para rastrear os inimigos que desejam tanto o fim da humanidade. 

E por fim, temos dois humanos: Alice e Daniel. Ela é uma jovem intempestiva e destemida. Dotada com um misterioso poder e a capacidade de ver o que os demais humanos não conseguem, a jovem entrará na luta para salvar os seres humanos, auxiliada pelo seu melhor amigo. Daniel perdeu o namorado André em um ataque realizado por espíritos de fogo, que destruíram uma boate em que Alice, André e Daniel estavam.

A narrativa se passa em Belo Horizonte. Sim, a capital mineira se torna o palco de uma luta épica entre entidades folclóricas, com alguns seres humanos dando força na batalha. A solução que o autor dá é genial. As pessoas comuns estão impedidas de ver fenômenos sobrenaturais. É como se elas não conseguissem prestar atenção nesses fenômenos. Com isso, as batalhas acontecem em plena luz do dia, com as mentes dos espectadores "adaptando" as partes espirituais de forma a poderem aceitar melhor o ocorrido. É uma solução interessante. E inclusive a narrativa sustenta que tudo o que acontece nos livros tem um "pezinho" na realidade. Ou seja, as narrativas de fantasia podem ter de fato acontecido.

Sandro, Custódio, Alice e Daniel são cativantes e possuem uma dinâmica própria. Sentem medo, insegurança, raiva e alegria. Suas reações são verossímeis e factíveis. Ainda que Sandro e Custódio sejam entidades mágicas, eles apresentam atributos tão humanos quanto você e eu.

Com cenas de ação de tirar o fôlego e um desenvolvimento de personagens cativante, SAN - Detetive Folclórico é uma jornada maravilhosa por um mundo que muitas vezes está escondido logo ali, para além do véu que encoberta nossos olhos.


Ficha Técnica

SAN - Detetive Folclórico

Zimmerer

ISBN: B09FZXVBDR

Ano: 2021 

Páginas: 209

Idioma: português

Editora: independente


Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/san-detetive-folclorico-12058021ed12043887.html

segunda-feira, setembro 06, 2021

Adivinhação 1


"Eu sou dado e sou tomado

Eu estava lá no seu primeiro suspiro

Você não pediu por mim,

Mas eu sigo você até a morte."

* Adivinha retirada do filme "A invocação do mal 2".

(Descrição da imagem: em fundo preto, homem idoso de perfil direito sentado em poltrona. À direita, um abajur aceso e logo em seguida uma mulher de costas.)

sábado, maio 08, 2021

Leitura Semente - Transmissão de histórias


 Vamos participar desse momento sensacional de leituras e contação de histórias. Algumas colegas da oficina Leitura Semente, ministrada pela Ana Selma Cunha. Será hoje, às 18h. Vamos?

O link da transmissão é este: https://www.youtube.com/watch?v=EuEPwHoUq4o

sexta-feira, fevereiro 12, 2021

Histórias com Café - Aroma e sabor ao pé do ouvido


Quem é mineiro não dispensa um bom café. Aqui, nas terras de Minas, uma visita é sempre recebida com um cafezinho e, de preferência, acompanhado de um pão de queijo ou uma broa de fubá. Evidentemente, a combinação é mais que propícia para estimular uma boa prosa.

Foi nesse espírito que as contadoras de histórias Aline Cântia e Bárbara Amaral criaram o podcast "Histórias com Café". Surgido em 2020, no contexto adverso de distanciamentos forçados, isolamentos físicos e muito medo, veio como um respiro em meio a tanta angústia. As duas amigas se uniram para cultivar a Arte da Palavra com o que ela pode trazer de melhor: fazer sonhar e, ao mesmo tempo, refletir. A concepção contou também com a contribuição de Isabel Miranda. A produção é por conta do Chicó do Céu. 

Confesso que fui cativado por esse projeto mesmo antes de sua estreia. Em conversas com Aline e Bárbara, ao ser informado da iniciativa, fiquei logo ansioso para escutar. Afinal, há anos acompanho o trabalho delas. Tenho, inclusive, o privilégio de participar, com elas, do Coletivo Narradores. 

Muito se engana quem imaginar que apenas pela via do afeto e da familiaridade me tornei ouvinte desse podcast. Realmente, sou fã incondicional tanto da Aline quanto da Bárbara. Porém, ao acompanhar cada episódio que ia ao ar às terças-feiras, fiz um percurso pessoal de aprendizado e reflexão. Temas como o tempo, a solidão, o sagrado, o sonho, entre outros igualmente relevantes, são desfiados e analisados com muita sensibilidade. Cada episódio traz uma história que se liga ao tema de forma íntima, profunda e saborosa. O repertório atravessa diversas tradições e culturas, tendo como fonte figuras ilustres como Clarissa Pinkola Estés e Malba Tahan.

É importante ressaltar que em diversos episódios foram convidadas pessoas que enriqueceram ainda mais cada episódio, compartilhando histórias envolventes e refletindo sobre as mesmas. Também ressalto que a equipe de apoio desse projeto realiza um trabalho primoroso no aspecto técnico, com trilha sonora, identidade visual e divulgação nas mídias sociais.

Em 2020 foram 17 episódios. Se contarmos uma transmissão ao vivo pelo Instagram, chegaremos a 18 episódios repletos de sabedoria, afetos e muito, muito café. Nesta semana, dia 9 de fevereiro, tivemos o primeiro episódio de 2021, com o título Sobre Receber. A equipe cresceu, agora contando com as presenças de Ana Fonseca e Paula Libéria. E ao abordar esse tema tão importante, nossas amigas fazem questão de que as ouvintes a receber o que há de melhor em matéria de sensibilidade, cuidado e escuta.

Para escutar no Spotify:

https://open.spotify.com/show/3XyW13FNgxv5k8XEPxz0R7

Acompanhe os perfis nas mídias sociais:

https://instagram.com/historiascomcafe

https://facebook.com/podcasthistoriascomcafe

quarta-feira, outubro 02, 2019

A força e a delicadeza

Outubro inaugurou a Palavra. O mês começou e a III Mostra Candeia de Narração Artística veio junto, como maduro fruto temporão.

No Sesc Palladium, essa festa da Arte e da Oralidade tomou o Grande Teatro, encantando o público com as vozes de Chicó do Céu, Rafa Salles e Teo Nicácio. Aline Cântia evocou o sagrado através da força da memória e assim teve início o primeiro espetáculo.

Sim, foi espetacular a presença de Luciano Pontes. Com sua voz macia e seu sotaque marcante, Luciano nos embalou com cantigas, parlendas, trava-línguas e muitas histórias. Sem falar de sua simpatia, numa presença que unia o paradoxo da força e da delicadeza. 

Bem, na pessoa de Luciano Pontes, foi possível constatar que não há paradoxo algum. Sua apresentação foi puro amor. Não pude deixar de pegar meu autógrafo e fazer uma foto com a Pam e o autor.

Mais uma vez a chama começa a brilhar forte. 



segunda-feira, setembro 23, 2019

Mais um dia repleto de histórias


Não bastou para mim compartilhar histórias no Centro Cultural Liberalino Alves de Oliveira, na manhã de sábado, dia 21 de setembro. Eu queria mais. Não apenas contar, mas ouvir também.

Por isso, segui para a Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte e assisti mais uma vez ao espetáculo Ouvi Contar. Poesia, narração e interpretação em um projeto belíssimo de acessibilidade.

Voltei então ao Parque Municipal para me apresentar novamente. Contei "Chapeuzinho Amarelo", de Chico Buarque, e "O caso do bolinho", conto tradicional registrado por Tatiana Belinky.

A interpretação em LIBRAS foi de Mavione e Jivago.

As fotos são de Rivanda.





sábado, setembro 21, 2019

Primeiro dia na Tenda de Histórias

Era tarde de uma quinta-feira. Setembro chegava a seu décimo nono dia. O Parque Municipal Américo René Gianneti, em Belo Horizonte (MG) estava em festa.

Fui para a Tenda de Histórias ainda um pouco inseguro. Haveria público? Esse é sempre o receio de um contador de histórias.

A amiga Sterlayni Duarte coordenava a tenda e deu todo o apoio necessário. Quando vimos uma turminha da Educação Infantil, ela sugeriu que eu abordasse o grupo e convidasse para ouvir histórias.

Foi o que eu fiz. Com Norma e Guilherme revezando como intérpretes de LIBRAS, dei vida ao bolinho tão querido de minhas histórias.
Antes, porém, fiz o LOBO virar BOLO com "Chapeuzinho Amarelo", do Chico Buarque.
Quando essa turminha já estava de saída, havia outra, sentada poucos metros fora da tenda, aguardando a vez. Como o tempo já estava adiantado, resolvi contar uma história apenas, enquanto as crianças ainda lanchavam. Contei a aventura de um herói bem diferente. Só não digo que herói é esse pra deixar no suspense e fazer mais pessoas ouvirem a história!
Foi um momento agradável, maravilhoso. Agradeço às crianças, às professoras e também a todas as mães e pais que emprestaram sua escuta para este narrador!

Fotos de Sterlayni Duarte



quarta-feira, setembro 11, 2019

Semana da Educação - Espaço Contação de Histórias no Parque Municipal

De lobo a bolo: uns heróis bem diferentes

Narração de histórias para crianças de todas as idades. O repertório parte de textos literários consagrados junto ao público infantil, bem como narrativas da tradição oral.

Duração: 30 minutos

Público: infantil

19, 21 e 22 de setembro de 2019, às 13h30
Local: Parque Municipal Américo René Giannetti. Belo Horizonte. MG.



terça-feira, agosto 13, 2019

O Saci no CCLAO


Oficina Literária "O Saci, de Monteiro Lobato"


Leitura de trechos do livro "O Saci", de autoria de Monteiro Lobato, seguida de atividade criativa sobre as origens e peripécias do personagem, com Samuel Medina.


Dia 14, quarta, às 14h30

Centro Cultural Liberalino Alves de Oliveira
Avenida Antônio Carlos, 821 - Mercado da Lagoinha
Contato: (31) 3277-6091 ou 3277-6077


quarta-feira, julho 31, 2019

Primeiras impressões da OcupaSacy

No dia 30 de junho, um domingo, eu e Pâmela fizemos uma expedição a um lugar mágico. Fomos ver a #OcupaSacy que está acontecendo aqui em BH, no Sesc Palladium. 

Ao chegarmos, ficamos impressionados com a beleza da exposição. Como um admirador da cultura sacisística, eu estava deslumbrado. 

A Sacyoteca foi logicamente um lugar mais que especial. Destaco que as garrafas que antes contiveram os mais variados tipos de sacis estavam agora abertas. Esse é o espírito da exposição e dos próprios sacis: a liberdade. Dominando a Sacyoteca estava o "Fabuloso Inventário dos 77 Sacys". Dessa forma, alguém iniciante nessa vasta cultura saberá que o Pererê é um entre vários outros sacis, cada um com características peculiares.

Havia também um laboratório com vestígios e artefatos de sacis. Inclusive, alguns pedaços de bambu ainda exibiam os sacis em gestação, olhando timidamente para nós, espectadores. Claro que eram representações. Afinal, sacis ainda filhotes devem crescer tranquilamente em bambuzais, com todo o sossego que merecem.

Muito mais havia para descobrir. Porém, a galeria estava para fechar. Saímos de lá com a promessa de que voltaríamos. Essa promessa foi cumprida, mas é tema para outra hora.






quarta-feira, julho 10, 2019

Histórias, memórias e sorrisos - Visita ao Lar de Idosos Benedito Venâncio

Tudo começou ao ver a foto de minha amiga Norma de Souza Lopes contando histórias para um grupo de velhinhos. Fiquei encantado e com muita vontade de participar. Entrei em contato com ela, que me apresentou a Higínia, uma professora da EJA extremamente dedicada.

Fizemos o primeiro contato e combinamos uma visita ao Lar de Idosos Benedito Venâncio no dia 12 de junho. 
Estava ansioso e muito nervoso. Para mim, os idosos devem ser ouvidos, eles são os contadores de histórias por excelência. A responsabilidade que eu sentia era enorme e isso aumentava minha insegurança. Contudo, a vontade de visitá-los, interagir com todos e conhecê-los era maior que qualquer insegurança.

Lá chegamos. Fomos conhecendo cada idosa e idoso. Todos foram muito receptivos e carinhosos. Um lanche foi distribuído e participamos dessa refeição em conjunto. 
Terminado o lanche, Higínia nos apresentou. Norma então passou a palavra pra mim. Contei "O caso do bolinho", uma de minhas histórias favoritas.

Em seguida, Norma narrou "O homem sem sorte". Foi uma delícia ouvir essa narrativa tão preciosa partindo de uma pessoa também preciosa. 
Foi então a minha vez de contar a história do rei descrente. 
Uma das presentes, a senhora Maria do Carmo, decidiu compartilhar também uma história. Ela narrou a fábula de dois amigos que encontram uma fera na floresta. 
Outra pessoa que desejou falar foi o senhor João, que narrou de sua infância difícil em Nanuque.

Um senhor chamado Sebastião contou alguns causos da roça. Contou sobre a caça ao tatu, a casa mal-assombrada e o rabo da onça.

Norma reassumiu para contar a história de Chico Bravo e João Jiló. Todos riram das trapalhadas do herói. Eu então recitei "Tombo", poema de autoria da Norma, e narrei sobre Nasrudin e o caixote.

Encerramos agradecendo as escutas e também as vivências compartilhadas. Sinto que foi um momento especial de aproximação e conhecimento. O afeto foi a palavra fundamental daquele encontro.

Mais uma vez agradeço à Higínia pela oportunidade, bem como à minha amiga Norma e também a toda a equipe do Lar de Idosos Benedito Venâncio. 



quarta-feira, julho 03, 2019

Caldos, Causos e Violas - A força e o sabor da Palavra


Ninguém que me conhece duvida que eu valorize a Palavra. Dela eu tiro meu pão. Dela eu me acerco quando preciso de sentido para minha vida. Ela me alimenta em todos os aspectos. E não apenas a palavra escrita, mas também aquela que vive solta, nos ouvidos e bocas de pessoas que muitas vezes são ignoradas em suas escutas. Ainda assim, elas resistem e continuam a inventar sentidos e temperos para nossa fala e, muitas vezes, também para nossa escrita.

Nos dias 14 e 15 de junho Belo Horizonte foi o centro de uma roda de palavras e sabores. Idealizado pelo Instituto Abrapalavra, foi um evento intimista e singelo. Ocorrido em uma biblioteca e em um espaço cultural, tinha o aconchego e a acolhida como principais ingredientes.

Na manhã da sexta-feira, dia 14, a Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de BH recebeu o grande Sebastião Farinhada. Com sua viola, ele cantou melodias de congado e compartilhou um pouco de sua vivência. Também falou sobre a importância da memória popular, da cultura do campo. Relatou os desafios na luta pela agroecologia. A roda de conversa aconteceu em conjunto do Encontro Semanal de Contadoras de Histórias.

Nós ouvimos, conversamos e comemos broa de fubá com café. Havia também água aromatizada com alecrim. Cada pessoa foi convidada a compartilhar uma memória afetiva de sabores de sua infância. Falamos de canjica, tropeiro, cuscuz, pé-de-moleque, doce de leite, fubá suado, canjiquinha e muitas outras delícias. Eu aproveitei para fazer menção a uma gostosura que conheci na época que morava em Teófilo Otoni.
As pessoas não costumam conhecer o chá de amendoim. Apesar do nome, ele não é feito com água, mas com amendoim cozido no leite. Ouvimos sobre gratidão, reverência à terra e à natureza. Cantamos e fizemos roda. Foi delicioso.

No sábado, à noite, a festa continuou no Espaço Suricato. Uma roda de causos aquecia nossos ouvidos e corações. Os caldos aqueciam o paladar da gente. Com o sal dos caldos, o adocicado das narrativas bem-humoradas contrabalançava esse momento tão saboroso. O mestre de cerimônias era ninguém mais que o próprio Sebastião Farinhada, que encerrou a festa com sua viola e a melodia Calix Bento. Caí na dança.

Mais uma vez saúdo a equipe do Instituto Abrapalavra, nas pessoas de Aline Cântia, Chicó do Céu, Fernando Chagas, Paula Libéria e Sheila Oliva. E também a interpretação em LIBRAS de Dinalva Andrade.

As palavras, canções e causos ainda embalam minha mente e meus ouvidos. Esses dias de junho estarão gravados em minha memória com esse espetáculo de cores, sabores e vozes. Que essas vozes continuem ecoando e nós sejamos sempre atentos a elas. Que as palavras continuem a alimentar nossas almas nesses tempos em que a fome parece querer tragar até mesmo a esperança.

segunda-feira, maio 20, 2019

Projeto Livro-minuto - Lançamento oficial

Livro-minuto foi um termo que passei a utilizar em 2014, após aprender com o Rodrigo Teixeira uma dobradura que torna uma única folha em caderno.

Ao me deparar com esse belo truque, fiquei fascinado e decidi levar essa técnica para minhas oficinas de mediação de leitura. Nascia então o livro-minuto: a proposta de produção de um livreto que poderia ser lido em menos de um minuto.

A oficina Livro-minuto foi ofertada tanto na Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte, quanto em bibliotecas de centros culturais da cidade. O princípio era ganhar simpatizantes pela proposta, de forma que mais pessoas se envolvessem no processo de produção de livros como objetos únicos, artesanais, fora da lógica de produção em série.

Minha paixão por livros sempre foi para além do texto. As obras medievais me fascinavam, com suas brochuras com iluminuras e escritos à mão. Não foi à toa que fui atraído por Jorge Luís Borges e suas ideias de livros em que imprecisões ou "erros" tipográficos os transformariam em objetos diferenciados.

Assim, quando conheci os livros artesanais, fui imediatamente cativado. Tenho em meu acervo pessoal muitos livros feitos de material reciclado, costurados à mão. E sempre que tenho oportunidade de ir a uma feira de livros independentes, saio de lá com a mochila cheia de novos tesouros.

E por isso essa minha paixão extrapolou para além do colecionismo. Passei a produzir artesanalmente minhas próprias obras através da Oficina Livro-minuto.

A proposta da atividade é refletir no papel do livro e em seu percurso como ferramenta fundamental do pensamento e da memória da humanidade. Discutimos sobre os usos do livro e sua evolução de riscos no chão, pelos desenhos rupestres, passando pela pedra talhada, pelas tábuas de argila, pelo pergaminho, até o formato convencional, conhecido como brochura, caderno ou códex. Por fim, lanço às pessoas participantes o convite de fazermos nossos livros.

Como material, além da folha de papel, uso textos em domínio público. Podem ser poemas, ditados, adivinhas, quadrinhas, trovas, sonetos. Quando o texto tem autoria identificada, não deixo de fazer menção do nome da autora ou do autor. Apresento também alguns desenhos do escritor Ricardo Azevedo para serem recortados e colados.

Todo esse material, contudo, é propositivo. Cada pessoa tem a liberdade de criar seu livro-minuto de acordo com seu impulso criativo. Assim como eu, pois aproveito para, a cada oficina, criar mais um livreto.

Tive a felicidade de participar de um sarau em que o amigo Felipe Diógenes levou suas alunas e seus alunos. Fizemos um varal e vários livretos produzidos pela garotada foram pendurados. Quem quisesse poderia pegar qualquer um e ler para o público. Foi um momento mágico.

Com o objetivo de expandir a ideia, decidi lançar oficialmente o Projeto Livro-minuto. O objetivo é fazer circular o conceito, bem como o livreto em si. Abaixo, compartilhei o vídeo do livro-minuto "JOGO". 



Posteriormente, farei propostas e postarei outros vídeos, com o objetivo de envolver ainda mais as pessoas no processo. Aguardem!

quarta-feira, agosto 22, 2018

Contando histórias de sabedoria e fé

Não me considero um homem religioso. Na verdade, costumo até ser um pouco ranzinza com demonstrações de fé, principalmente por causa do histórico da religião, principalmente a cristã. Além disso, tive meus percalços pessoais nos bancos de igrejas evangélicas. Por isso, costumo sempre ter uma visão bastante crítica em relação à influência das religiões na sociedade. 
É impossível negar, porém, que as religiões sempre tiveram sua contribuição para a sociedade, ainda que tal contribuição seja de qualidade questionável. E quando vamos falar de Tradição Popular, esta tem suas matizes de fervor religioso. E por vezes, as histórias que nos tomam ao começarmos a narrar para um público, podem muito bem mostrar facetas de fervor religioso. Sim, as histórias podem tomar a Palavra, deixando o narrador à sua mercê. Acredito que foi isso que aconteceu comigo.
No dia 9 de agosto deste ano, compareci à Escola Municipal Josefina Souza Lima para narrar histórias. Fui convidado pela amiga e colega de trabalho, Kátia Mourão, para participar das comemorações do dia dos Pais e também do Dia do Estudante.
Estava um pouco preocupado, pois não tinha conseguido tempo para me preparar. Eram por volta de 40 pessoas, entre estudantes da EJA e educadores. Sentia uma enorme responsabilidade, pois fazia tempo que não me apresentava sozinho. Estar diante do público amparado pelas amigas e amigos do Coletivo é sempre maravilhoso. Por isso, abandonar esse lugar de conforto era algo um pouco assustador.
Agora, porém, eu estava sozinho. Bem, apenas fisicamente, pois as vozes de tantas pessoas queridas andam comigo, como sempre andarão. E assim, contando com as presenças dessas vozes, eu estava mais firme para começar a apresentação.
Evocando o amigo Joca Monteiro, eu pedi "licença pra contar". Falei do que aprendi com ele, da importância do respeito, da gratidão pelas pessoas que estão diante de nós para nos ouvir. Reforcei o privilégio que temos ao poder falar em um país em que tantos são silenciados.
Comecei então com “As trapalhadas de Zé Bocoió”, que aprendi em um dos livros do grande Ricardo Azevedo. Em seguida, contei “Uma questão de interpretação”. Essa história eu aprendi com a Maria Célia Nunes, narradora de história de longa carreira em Belo Horizonte. Contei então uma história que escutei de minha mãe, quando ainda era adolescente, sobre um rei ateu e seu mordomo piedoso.
O público parecia apreciar, principalmente os mais velhos. Fiquei mais confiante. Continuei então com outra história de sabedoria. Desta vez era sobre um rei insatisfeito comprometido em arruinar o homem mais feliz de seu reino. Fui apresentado a essa história pelo amigo Rodrigo Teixeira, que por sua vez a conheceu por intermédio da Mestra Gislayne Matos.
Com essa história, terminei a apresentação. Agradeci, mais uma vez. Antes de ir pra casa, tive uma agradável surpresa: recebi um cartão e uma caixa de bombons. Fiquei profundamente agradecido.
A noite de 9 de agosto de 2018 foi especial. Nela, pude abrir meu coração. E minhas palavras foram acolhidas com carinho. Diante de tão caloroso público, foi como contar para preciosos amigos. E não deixou de ser isso. Afinal, minha amiga Kátia Mourão, que me convidou para ir à escola, estava entre as pessoas que me escutavam. Para ela e toda a equipe da Escola Municipal Josefina Souza Lima, bem como seus alunos, deixo meu muito obrigado!



domingo, agosto 19, 2018

Vídeo: Causo de caçador

Boa noite! Segue hoje um vídeo que fiz para um concurso de causos. Evidentemente, não fui selecionado, pois sequer tive resposta da minha classificação. Contudo, tenho esse causo bem guardado no coração, pois foi através do amigo Evando Pessoa, grande narrador, que o ouvi. Espero que apreciem!


quarta-feira, agosto 15, 2018

Fortalecendo Vínculos pela Palavra


No dia 18 de julho fomos ao Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos de Lagoa Santa para contar histórias. A oportunidade havia surgido quando a instituição fez uma visita ao Centro de Referência da Juventude e eu me ofereci para ir a Lagoa Santa contar histórias para as crianças e adolescentes. Deixei meu contato com a Ângela e posteriormente combinamos a visita.
No dia marcado, portanto, eu e Pâmela Machado, minha esposa, chegamos ao local e descobrimos um espaço muito bacana, repleto de verde, onde as crianças e adolescentes aprendem a mexer na terra, têm acesso à leitura, a outras formas de Cultura e ao esporte.
Enquanto esperávamos pela chegada de nossos ouvintes, fomos guiados pelo espaço. Conhecemos uma antiga fornalha de produção de cal, quase uma gruta mágica, perto de uma árvore centenária. Fomos também à biblioteca, que foi reformada. Por último conhecemos a sala de informática com vários computadores para uso dos jovens.
E porfalar em jovens, eles estavam chega do. Estivemos em roda, no refeitório, junto ao público. Perguntei quem gostava de ouvir histórias. Acho que umas três pessoas levantaram a mão. Disse então que estava naquele dia com eles para mostrar o gosto de ouvir e contar histórias.
Comecei a narrar "Anansi e a busca impossível". A atenção era total. Pâmela contou logo depois a história "O leão e o caçador". Fechei então com "As almas penadas". 
Foi prazeroso quando uma das crianças disse que na verdade eu era o Anansi.
Depois das apresentações, perguntei quem tinha gostado e todos levantaram as mãos. Fiquei deliciado. Fomos então convidados para um lanche e um gostoso bate papo com a equipe. Em seguida, fizemos um segundo passeio pelo lugar, conhecendo a horta e seus encantos.
Tínhamos que partir, por conta de outros compromissos, mas estávamos encantados com o lugar, a equipe e os jovens. Fomos totalmente cativados. Por isso, gostaria de deixar aqui meu mais sincero agradecimento à equipe do Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos de Lagoa Santa:
Lavina Rodrigues - coordenadora
Angela Costa - Prof. De arte
Thaís - Assistente Social
Tamires Gomes - Psicóloga
Jaedenis Rodrigues - Prof. De Esporte
Thiago Matheus - Oficineiro de informática
Silvana - Voluntária
Que possamos nos encontrar mais vezes, com muitas outras histórias para contar!

quarta-feira, agosto 08, 2018

Lançamento do CD do Coletivo Narradores

Por vezes, a sensação do dia-a-dia não nos deixa perceber que estamos em constante mudança. Para nossos sentidos e nossa parca noção de tempo, estamos em fluxo contínuo, como que em uma eterna viagem. Pela janela do nosso corpo (nossa consciência e não nossos olhos) vamos como que observando tudo o que nos acontece ao redor, algumas vezes com mais atenção que outras. Assim, é como se o tempo fosse algo imutável. Contamos com a memória para nos dizer que o tempo passou e com o sonho para nos garantir que o futuro virá. Essas são nossas principais garantias. Por isso, se não formos atentos, achamos que, assim como o tempo, somos e sempre seremos os mesmos.
Mas então acontecimentos marcantes de repente nos lançam em outro patamar. Como ritos de passagem, esses eventos nos mostram o quanto amadurecemos, como estamos prontos para desafios que a princípio acreditávamos serem impossíveis para nós.
O lançamento do primeiro CD do Coletivo Narradores foi um desses acontecimentos, um poderoso rito de passagem para mim, inaugurando um novo contador de histórias, chamado Samuel Medina. Porém, não foi apenas o lançamento em si, mas todo o processo que culminou nesse maravilhoso espetáculo. Acontecido no contexto da Segunda Candeia - Encontro Internacional de Narração Artística, o lançamento foi um divisor de águas em minha vida, pois teve diversas etapas que foram gradativamente vencidas, cada uma nos impulsionando a um outro degrau e nos fazendo enxergar mais longe.
Tudo começou com um sonho. Com a proposta da amiga Aline Cântia e o entusiasmo do grupo, começamos a pensar em uma forma de concretizá-lo. Pensamos então em fazer um financiamento coletivo. Os amigos da Companhia Pé de Moleque, Juliana Daher e Isaac Luiz, que também fazem parte do Coletivo, ofereceram sua experiência com a campanha para a publicação e lançamento de seu livro-CD O mundo de dentro e o mundo de fora. Por conta da experiência de sucesso, eles sugeriram usarmos a plataforma Benfeitoria.
Construímos um projeto, enviamos para o site e aguardamos. Fomos aprovados e contamos com todo o apoio da excelente equipe da Plataforma.
Seguiram-se os dias do prazo para captação. Foi uma correria, um sufoco, mas a cada nova pessoa contatada, pudemos ver o prestígio do Coletivo, o apoio da comunidade de narradores de histórias e também de frequentadores dos eventos culturais da Grande BH. No Primeiro Encontrão de Contadores de Histórias de BH, organizado por  Beatriz Myhrra e Pierre André, pudemos ver quantas pessoas embarcaram conosco neste sonho.
O passo seguinte foi gravar as histórias. Contamos com a direção de Aline Cântia e o apoio técnico do Chicó do Céu, que magistralmente nos acompanharam, enquanto repetíamos nossas histórias infindáveis vezes para que justamente a melhor expressão fosse captada pelo microfone.
Enquanto isso, a campanha prosseguia. A cada nova contribuição, vibrávamos como se fosse a primeira e única. Foram tantas e tantos que abraçaram nossa causa. Seus nomes estão no mural da página do Coletivo Narradores no Facebook. E o apoio foi tamanho, que alcançamos a meta mínima e a ultrapassamos. 
Prosseguimos então para a etapa seguinte: preparar o espetáculo de lançamento. O Coletivo convidou a artista Liz Schrickte. Com seu olhar, sua sensibilidade e seu profissionalismo, ela foi construindo conosco uma apresentação que carregasse nossa alma. Foram dias desafiadores de ensaios no Espaço Pigmalião. O cronograma estava apertado, com a Candeia próxima. Nosso compromisso, porém, era de oferecer uma apresentação de qualidade, que fosse inesquecível não apenas para o público, mas para nós, também. E apenas estar no Espaço Pigmalião já era uma experiência estética ímpar, ensaiando em meio aos fascinantes bonecos que lá habitam.
Assim, chegamos à Segunda Candeia artisticamente mais robustos, confiantes. Estávamos prontos. E a própria Candeia nos encheu de potência.
Tivemos então o privilégio e a responsabilidade de encerrarmos as apresentações da Segunda Candeia. Estávamos cansados por conta do longo percurso, mas alegres, de uma alegria tamanha. Éramos como o rio da narrativa do amigo Carlos Barbosa, que abre o espetáculo. Viramos vapor. Sentimos medo, vimos coisas inesquecíveis. Mas por fim, diante de tão bela platéia, era como se estivéssemos por fim chegando ao mar. Com a plena certeza de quem somos.