sexta-feira, dezembro 03, 2021

O mistério da sala secreta - Aventura e humor na dose certa



Júlia e Gabriel são amigos inseparáveis. Ela é corajosa e extrovertida. Ele é bem humorado e estudioso. Esses dois jovens de 12 anos estudam na Escola Municipal Maria Quitéria de Jesus, que está em vias de ser fechada. Júlia está inconformada, principalmente porque a escola em que estuda tem excelente qualidade no ensino e isso pode impactar seu futuro. Ela não teria condições financeiras para pagar passagem para uma escola no centro da cidade. Por isso, tudo indica que será transferida para a mal afamada "escola da pracinha".

Enquanto Júlia parece fadada a estudar em uma escola que não quer, Gabriel, aluno brilhante, tem chance e condições de estudar em uma instituição melhor. Por isso, não se sente tão afetado pelo fechamento do Maria Quitéria. Mas com isso ele será separado de sua grande amiga.

A aventura de ambos começa quando, numa feira da escola, Júlia e Gabriel ficam conhecendo quem foi Maria Quitéria de Jesus, a mulher que emprestou seu nome à escola. Ficam também sabendo da lenda de que a escola teria uma sala secreta, acessível apenas aos corajosos e merecedores.

Curiosa, Júlia arrasta Gabriel para uma busca pela verdade. Sem que saibam, essa aventura poderá mudar a vida não apenas deles, mas de todas as pessoas que estudam e trabalham na Escola Municipal Maria Quitéria de Jesus.

Esse romance juvenil de mistério foi uma leitura agradável e gostosa. Júlia e Gabriel dividem o papel de narrar a trama em capítulos alternados. São jovens com suas personalidades distintas que influenciam suas atitudes na trama. Enquanto Júlia é mais assertiva, Gabriel é mais contido. Ela é leitora voraz, mas não muito estudiosa. Já ele é o primeiro da classe.

Outro ponto que me agradou muito foi a descrição das personagens. A cor da pele e os cabelos de Júlia e Gabriel ganham destaque, com os volumosos cachos dela e o black power dele. Suas características físicas são bem marcadas e evidenciadas, o que fortalece a questão da representatividade negra na literatura. Os desenhos de Rubem Filho são primorosos e fortalecem ainda mais essa representatividade. 

Com uma trama cativante e um segredo a ser desvendado, O mistério da sala secreta é uma aventura gostosa e divertida, voltada para jovens leitores de todas as idades.



Ficha Técnica

O mistério da Sala Secreta

Lavínia Rocha

Ilustrações de Rubem Filho

Ano: 2021 

Páginas: 176

Idioma: português

Editora: Yellowfante

quinta-feira, dezembro 02, 2021

Uma publicação muito esperada

Há alguns anos, comecei a rabiscar uma narrativa em que uma bruxa de idade avançada e a morte se encontram. Desse encontro, nasce uma amizade onde preciosidades são descobertas. Assim nascia o conto que se tornaria, anos depois, o livro Uma visita inesperada, da editora A Mascote.

Um longo caminho foi percorrido antes que o livro estivesse impresso. O primeiro grande desafio foi encontrar um ilustrador que tivesse a sensibilidade e o talento que eu queria para essa história. Além disso, era preciso que eu e o ilustrador estivéssemos em constante contato, para irmos acertando os detalhes do desenho, criando assim uma obra conjunta.

Foi maravilhoso ter conhecido o Luiz Henrique Evaristo, que concedeu seu traço para dar vida à bruxa Mafalda, bem como à Morte, personificada em uma figura gentil e simpática. Assim, Luiz Henrique foi primoroso em seus desenhos, dando à narrativa um tom mágico que a enriqueceu profundamente.

O trabalho da editora A Mascote, na pessoa da Beatriz Mom, foi fundamental para unir texto e ilustração, concedendo-lhe organicidade e elegância. O projeto gráfico ficou incrível, num trabalho artístico ímpar.

É preciso destacar também o trabalho de Pâmela Bastos Machado, minha companheira para a vida, que assina a coedição do livro. Seu olhar sempre cuidadoso e meticuloso auxiliou nas várias versões para que o resultado final ficasse primoroso.

Tenho que registrar aqui que a quarta capa é assinada pelo grande Rodrigo Teixeira, que cedeu um pouco de suas palavras fortes e belas para deixar o livro ainda mais bonito.

É com alegria, portanto, que anuncio a pré-venda do livro Uma visita inesperada. O lançamento presencial será anunciado em breve!



quarta-feira, dezembro 01, 2021

Meu pé de milho


Encontrei aquele grão enquanto catava feijões para o almoço. Surpreso, segurei aquele pequeno e amarelo grão de milho no meio de minha palma. Não o juntei com os feijões rejeitados. Deixei-o à parte, um pouco afastado, para não esquecê-lo.

Desci com ele quando fui molhar as plantas lá fora. Eram algumas mudas que havia conseguido com pessoas queridas. Manjericão, Melissa, Capim Cidreira. Parei no centro do canteiro, em um ponto em que a terra nua era visível.

Enfiei o indicador na terra, que cedeu com facilidade. A chuva recente facilitou o processo. Depositei o grão de milho no pequeno furo e o cobri com terra.

Deixei de pensar nele. Fui lembrar de sua existência quase uma semana depois, quando vi umas folhas largas, longas e bem verdes. Tinham despontado justamente onde eu deixei repousando aquele grão de milho. Parecia um capim, mas diferenciava-se por serem folhas largas e compridas, com caule roxo.

Reconheci meu pé de milho. Orgulhoso, passei a diariamente dedicar-lhe atenção, um pouco de água e uma pequena parcela de meus sonhos. Comecei a me sentir como o Rubem Braga, quando ele contou em sua crônica a descoberta de um pé de milho em seu jardim e o encantamento de ver a planta crescer.

Já imaginava o futuro desse grão que o acaso protegera, escondendo-o em um pacote de feijões de supermercado, para ser encontrado, escapando da obliteração de água, fogo e dentes vorazes. Eu imaginava minhas mãos debulhando a espiga, preparando a terra para a prole desse pequeno grão de milho que agora já era outra coisa. Era um pequenino pé. Meu pé de milho.

Havia, porém, o medo. Como meus vizinhos receberiam a visão de um pé de milho crescendo no jardim? Temia que achassem isso um disparate. Eu ficava me perguntando se algum vizinho reclamaria, ou até mesmo poderia, na surdina, cortar a planta. O perigo, porém, surgiu de um lugar totalmente inusitado para mim.

Ontem, a empresa de jardinagem veio ao condomínio em que moro. Cortaram meu pé de milho. Não adiantou eu ter falado com o jardineiro chefe. Nem ter sinalizado o meu pé de milho, o manjericão, o salsão, o capim cidreira, a melissa. A máquina voraz cortou, esmagou, triturou essas vidas ainda tão tenras, tão tímidas. 

Agora, meu Pé de Milho existe apenas aqui, na galeria de tudo o que era para ser, mas não foi. 

segunda-feira, novembro 29, 2021

O Embate - Parte IV de V

Ir para O Embate - Parte III de V

Três pavilhões dos mortos-vivos se uniram num perfeito sincronismo, formando um "v" invertido, a vanguarda como uma ponta de lança, que se estendia pelos dois flancos. Os lançadores de dardos claudicavam por cima da infantaria que ocupava a linha de frente. Os toques de ataque dos exércitos aliados foram simultâneos. "Pelo visto, eles querem mesmo ser heróis." pensou Seridath, ao ver praticamente todo o efetivo da Companhia mover-se rumo ao inimigo. Os arqueiros fizeram suas flechas descerem como uma chuva cortante contra os mortos-vivos, que ignoraram e mantiveram a marcha na direção da cidadela.
Vendo que o exército maligno estava decidido a ignorar as duas forças, o Senhor de Dhar sorriu ante a arrogância de seus inimigos. Deu ordem para que o esquadrão de magos entrasse em ação. Uma coluna organizada postou-se atrás da infantaria e iniciou uma série de invocações. Em segundos o céu tornou-se mais escuro e os últimos traços de claridade desapareceram sob espessas nuvens. Do céu, fortes relâmpagos desceram sobre as linhas inimigas, destroçando kowas, mortos-vivos, argros e qualquer outra criatura, viva ou não, embora os gigantescos tominaros e os pálidos seiranes tivessem permanecido inabaláveis. Nenhum dos gigantes ou dos seres de branco caiu.
Outra sequência de palavras arcanas surgiu dos lábios daquela poderosa multidão de conhecedores de magia. Esferas flamejantes surgiram do alto da cabeça de cada um deles e partiram rumo aos inimigos. Os arqueiros dispararam em conjunto e o céu cintilou com flechas incandescentes, fortalecidas e inflamadas pela magia.

Continua...

sexta-feira, novembro 26, 2021

Água de Barrela - Sangue e dor na luta por um futuro


Quem foram nossos ancestrais? O que fizeram? Como viveram? Se fosse possível traçar nossas árvores genealógicas e resgatar a história de cada pessoa nelas, o que descobriríamos? Encontraríamos atos heroicos ou crimes hediondos? Será que nos arrependeríamos de buscar as histórias dessas pessoas?

O romance Água de barrela talvez tenha surgido de alguma das perguntas acima. Escrito por Eliana Alves Cruz, este romance histórico é um primoroso trabalho de pesquisa histórica e criação literária. De início, não sabia o que era barrela. Posteriormente, soube que é uma mistura feita para alvejar as roupas, usado pelas mulheres escravizadas para lavar as roupas de seus senhores. Após a declaração da abolição, essas mesmas mulheres continuaram nesse trabalho, como se esse fosse o destino inevitável para elas. 

O livro me encantou já de início, quando vi árvore genealógica que vai de Ewá (Helena), passando por Anolina, Martha, Damiana, Celina, até chegar à Eliana, a autora desse romance histórico que mostra o Brasil a partir da Bahia e das vidas de uma família marcada pela escravização.

Enquanto lia, meus olhos da mente criavam imagens de um país que se transformou de um império colonial a uma república de fachada, como se os tais valores republicanos nada mais fossem do que a tinta que caia um sepulcro. Afinal, essa democracia tão defendida pelos maiores intelectuais brasileiros não alcançou a grande maioria da população, que continuou vítima da exploração, da violência e do preconceito.

Com o objetivo de ultrapassar as barreiras sociais e alcançar ainda que o mínimo de liberdade e dignidade, uma família recorreu à educação. Apesar disso, foi a duras penas e muita roupa lavada que as matriarcas Martha e Damiana foram mudando os destinos dessa família.

Foi através desse livro que conheci Juliano Moreira, médico, um dos maiores do seu tempo. E negro. também conheci Matheus Cruz, grande mecânico, que até os 83 anos lecionava no Liceu Artes e Ofícios.

Mas esse livro é principalmente sobre mulheres. Sobre Martha e Damiana, que vendendo quitutes e lavando roupas foram buscando um futuro melhor para as filhas. Sobre Dodó, explorada até a morte pelo mesmo clã que no passado escravizou, torturou e estuprou suas ancestrais. É sobre Celina, corajosa professora, capaz de enfrentar o risco do cangaceiro Lampião, sem no entanto esmorecer.

Ao terminar o romance, senti culpa por minha branquitude, pelos privilégios estruturais que carrego na minha pele. Senti tristeza por saber que o país continua matando jovens negros. Senti também uma profunda comoção ao ver a justiça de Xangô, que nos descendentes de Ewá, Anolina, Martha, Damiana e Celina elevou essas heroínas, imortalizando-as nesse livro potente e profundo.


Ficha Técnica

Água de barrela

Eliana Alves Cruz

ISBN-13: 9788592736408

ISBN-10: 8592736404

Ano: 2018 

Páginas: 322

Idioma: português

Editora: Malê

Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/agua-de-barrela-743875ed834219.html

quinta-feira, novembro 25, 2021

Obituário

Ontem aqui

Morreu um homem.

Sem referência.

Sem juventude.

Na borda do Centro e

No silêncio das horas

Ele morreu.

Seu corpo 

Isolado e sem luto

Como que revelava seu estado

De abandonada humanidade.

Ontem tombou outro 

A regurgitar do destino o

Cálice.

BH, 03 de abril de 2018

quarta-feira, novembro 24, 2021

Lágrimas de luz

Imagem de WikimediaImages por Pixabay 

O Brasil é o país com maior incidência de raios. Em todo o mundo. Os estados Amazonas, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Acre são os que mais recebem essas descargas elétricas. Isso me faz pensar no que causaria esse fenômeno. Seria o karma?

Afinal, a Amazônia tem sido atacada continuamente, queimada, invadida, explorada, rechaçada. O Pantanal, também. Quem sabe as deusas antigas não estariam lançando suas lágrimas incandescentes ao prantear a natureza impiedosamente destruída?

Em uma das tradições indígenas, o raio é manifestação de Tupã. Seriam dos guaranis. Não me lembro. O que me lembro é que os 500 anos de invasões continuam, com os povos originários sendo assassinados, perseguidos e caluniados. Era de se esperar que Tupã revidasse.

terça-feira, novembro 23, 2021

Boa noite

Para S.T.

eu que pensava

que havia laços inquebráveis

negava qualquer

muro ou 

precipício 

intransponível

Eu que achava

impossível

estar sozinho

de repente 

me vi

no pântano

de uma angústia imerecida.

Pois agora

sinto que há

amizades de um só lado.

Revirei minhas memórias

em busca

de uma imagem

que pudesse 

ser salva.

Mandarei sempre lembranças

mas de longe.

Também

posso fazer

meu papel 

de morto.

Pois assim

mais uma vez 

eu me apago.

Sentirei falta

e muita.

O rombo em meu peito

é insondável.


Janeiro de 2017

segunda-feira, novembro 22, 2021

O Embate - Parte III de V

Ir para O Embate - Parte II de V

As trombetas dos arautos da Companhia iniciaram uma seqüência de toques, tentando comunicar-se com os seus aliados. O exército de Dhar respondia com os toques de suas imponentes trombetas de prata, enquanto suas bandeiras davam repetidas voltas, em sinais combinados. Lucan conhecia aqueles sinais, mas ficara no pé da árvore.
– Os mortos estão em desvantagem – comentou Thin, com seu olhar aguçado.
– Isso é óbvio. – replicou Seridath, ríspido – Se o exército da Companhia for sacrificado, a vitória será garantida, já que o inimigo terá que lutar em duas frentes.
– Pelo que ouvi de Berak, o chefão que vocês mataram, – continuou dizendo Thin, com indolência – esse exército vem de Quirite-mon. Mas correm boatos de que há muito mais. Outro exército bem maior desses fedorentos partiu direto para o sul, para as planícies drenadas do reino de Marzan.
– A sombra se estende com rapidez. – replicou Aldreth entre um ar sombrio e infantil – O que faremos mestre?
– Nada por enquanto. – respondeu Seridath.
O rapaz via-se em difícil situação. Era evidente que Lorguth continuaria a contrariá-lo se ele não entrasse nessa batalha. O exército inimigo mantinha sua marcha constante e logo alcançaria os portões de Arnoll. Mas Seridath não deu ordem nenhuma aos seus homens. Por enquanto, estaria lá, observando. O exército de Dhar e a Companhia responderam à mobilização inimiga assumindo suas formações ofensivas. A batalha já era uma realidade.



Continua...

domingo, novembro 21, 2021

Conluio

O Capetão 

andava por uma estrada

e numa encruzilhada 

encontrou um

Gonoral 

Com ele disse que seria 

Presidoente

Declarou

Quem não militar 

Agente alicia

ou então

Milícia


sábado, novembro 20, 2021

sexta-feira, novembro 19, 2021

Torto arado - Um talho profundo na alma


Bibiana e Belonísia são irmãs. Filhas de Salustiana e do curador Zeca Chapéu Grande, as duas meninas são precoces, tendo de sobra inteligência e curiosidade. Com elas mora Donana, mãe de Zeca, uma mulher com muitos mistérios e uma mala onde esconde uma preciosa faca de prata. Até que um dia as duas meninas resolvem brincar com o objeto proibido e essa decisão muda para sempre a vida das duas.

Assim tem início Torto arado, romance de Itamar Vieira Júnior. Trata-se de um livro forte, pungente, com uma narrativa em primeira pessoa que aproxima o leitor a um nível íntimo com a trama que se desenrola. O livro está dividido em 3 partes, sendo cada uma conduzida por uma narradora diferente. Pelas palavras delas nós vamos conhecendo a dura realidade da família, moradora do da fazenda Água Negra. Nela, várias pessoas vivem em regime análogo à escravidão, trocando trabalho por moradia e um pedaço de terra para cultivar. 

Talvez o arranjo pareça razoável. Porém, não é o que acontece. As pessoas são obrigadas a trabalhar de graça nas colheitas dos donos das fazendas, de domingo a domingo, não tendo tempo para cuidar de seus roçados. Para garantir sua subsistência, as esposas e filhos dos lavradores precisam se dedicar ao roçado da família. As casas dos trabalhadores não podem ser construídas com material de alvenaria. A proibição existe para que as construções não durem. Sendo assim, as famílias precisam de tempos em tempos construir casas novas, usando o mesmo barro que cobre o chão. Além desses abusos, de tempos em tempos as famílias são extorquidas pelo gerente da fazenda, que rouba suas produções.

É nesse ambiente que crescem Bibiana e Belonísia. Ambas dividem sua vida através do fio prateado da faca de Donana. O pai delas, Zeca Chapéu Grande, é um grande curador e líder espiritual, que conduz as cerimônias espirituais do Jarê, onde os encantados como Iansã e o Velho Nagô se manifestam. Sua história é dura, árdua, desde o nascimento em pleno canavial até a loucura que o acometeu em sua juventude. Assim vão se desdobrando os dramas, as lutas e as potências dessa família. 

No fio da faca de Donana a história é traçada. Esse fio deixa um sulco por onde escorre a água e o sangue. A faca de prata é como um arado a talhar fundo em nós. A agudeza da faca é como a dureza da vida dessas pessoas cujo romance nos faz testemunhas. E não apenas isso. Somos feitos testemunhas e também vítimas. Sendo assim, ninguém sai incólume da leitura desse romance. Ninguém sai ingênuo. Ao fim do romance é impossível ficar alheio a esse Brasil subterrâneo, silenciado e, muitas vezes, amputado.

Vencedor dos prêmios Leya, Jabuti e Oceanos, com sua narrativa poderosa e profunda, Torto arado é um romance desafiador que marca o leitor, deixando sua alma ferida, talhada. Um romance que nos atravessa de ponta a ponta.


Torto arado

Itamar Vieira Junior

ISBN-13: 9786580309313

ISBN-10: 6580309318

Ano: 2019 

Páginas: 264

Idioma: português

Editora: Todavia

Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/torto-arado-915037ed921450.html

quinta-feira, novembro 18, 2021

O sumiço

Dez filhos

E um marido desaparecido.

No fogão, panelas vazias

como bocas abertas

da fome. 

Sabe que o marido

não fugiu.

Andou falando no trabalho

Sobre direitos 

Justiça

Protestos

E só 

com essas palavras proibidas

Como mágica 

Desapareceu.

quarta-feira, novembro 17, 2021

Qual a minha cara

Certo dia, estava encerrando uma visita escolar lá na Biblioteca. Um menino perguntou qual era mesmo o meu nome. Eu isse bem alto:

- Eu sou Samuel, cara de papel!

No que uma menina retrucou:

- Não é nada! Você é Samuel, cara de barba!

Em outro dia, também numa visita escolar, fiz a mesma brincadeira. Mais tarde, depois da leitura compartilhada, foi o momento das crianças explorarem os livros. Um menino se aproxima e diz: Cara de pau, posso pegar aquele livro ali?

terça-feira, novembro 16, 2021

Lançamento da antologia "Novo Decameron"

Olá a todas e a todos. Hoje trago para vocês uma excelente novidade. O selo Editorial Starling lançará, no próximo dia 18, uma antologia da qual faço parte. A antologia poética Novo Decameron conta com a participação de diversas autorias. São textos literários que buscam refletir sobre o nosso tempo, tão convulso e complexo.

O lançamento será celebrado através de uma transmissão ao vivo pelo canal JARS Consultores no YouTube.

Conto com sua participação!


segunda-feira, novembro 15, 2021

O Embate - Parte II de V


Havia uma linha imensa das bizarras criaturas sem pernas e com braços mais longos que o corpo, aqueles malditos lançadores de dardos. Thin comentou rapidamente que eles eram chamados de ragrarans, os espinhentos. Atrás desses seres, estavam enfileirados zumbis uniformizados e armados com machados, martelos, clavas, maças e machetes. Eram colunas compactas, formadas por oito fileiras de vinte soldados cada. Logo além desses zumbis havia uma desorganizada turba de criaturas homanóides, embora tivessem um rosto que mais assemelhava-se ao de um suíno. Eram os kowas, homens-porco habitantes de Nareg, terra inóspita no extremo oeste. Misturados com os homens-porco estavam os seres abomináveis, de forma mutável, que carregavam espadas curtas. No momento, assumiam braços e pernas humanos, embora seus rostos exibissem feições perturbadoras de olhos e bocas que se misturavam. Eram chamados de Scliabs, mas também conhecidos como flagelos de Nibala, a Deusa da Loucura e do Engano. Mais para o interior de cada pavilhão, além dos desorganizados kowas e horrendos Scliabs, estavam os verdadeiros terrores daquele exército. Os gigantescos tominaros, que talvez chegassem a cinco ou seis metros de altura. Eram eles que tocavam os tambores. Vestiam calças revestidas com placas de ferro, embora mantivessem o tronco nu da cintura para cima. Tinham negros e longos cabelos, bem como barbas densas e revoltas. Seus rostos pareciam feitos de puro ódio, com olhos sombrios e ferozes.
Junto aos gigantes, contrastando com a cor escura do exército maligno, estavam homens e mulheres vestidos de mantos brancos e leves. Aliás, tudo neles era alvo como algodão, seus compridos e lisos cabelos, bem como sua pele. Ainda que parecessem humanos, qualquer que os visse negaria com veemência sua humanidade. Eram representantes de uma raça antiga, exilada há milênios de seu próprio mundo. Os seiranes, os portadores do poder, os jurados, também chamados de meio-gênios.
Nos espaços entre cada pavilhão, bandos de argros andavam de um lado para o outro, como se não tivessem lugar. Era uma força considerável. O exército inimigo chegava a quase doze mil seres.

Continua...

domingo, novembro 14, 2021

Arhur Medina, 40 anos

Quando mais precisei 

de um pai, 

você foi 

minha figura paterna.

Como podia? 

Um menino 

quase da minha idade

tamanha

responsabilidade?

Mesmo assim, 

com muito amor, 

você me carregou. 

E quando a noite 

era mais escura 

e o medo 

mais profundo, 

segurou minha mão 

para que eu pudesse

dormir.

29 de junho de 2020

sábado, novembro 13, 2021

Ela

Para Pâmela Bastos Machado

Aquela que

me leva a escutar

que toca meu peito

Mesmo nos momentos mais

Cinzentos

Seu rosto é âncora

Os olhos farol

Sem ao menos perceber

Os gestos dela

As palavras

Ou a simples presença

Devolve ao mundo

Sua cor.

30 de outubro de 2020

sexta-feira, novembro 12, 2021

Coraline - Uma passagem para a maturidade


Coraline é uma menina diferente. Movida por uma insaciável curiosidade, ela passa o verão inteiro explorando os arredores da casa em que mora. A própria residência tem suas peculiaridades. Trata-se de um casarão dividido em 4 apartamentos. Um deles está vazio, sendo justamente ao lado daquele em que a menina mora.

A curiosidade de Coraline a impulsiona a longos passeios pelos arredores. Até que um dia chuvoso faz com que a menina perceba uma porta que dá para uma parede de tijolos. A curiosidade por saber o que haveria além daquela parede guia a menina a um outro mundo, onde a comida é mais saborosa, os pais são mais presentes e os vizinhos, muito mais interessantes.

Alguma coisa, porém, mostra a Coraline que aquele mundo ideal não é seguro. Todas as pessoas que lá habitam têm botões pretos no lugar dos olhos. Um detalhe, no mínimo, assustador. 

Coraline pode ser considerado um romance de terror voltado para jovens leitores. Narrado na perspectiva da protagonista, o livro traz muitos dos dilemas da infância, principalmente o abismo entre crianças e adultos, a incompreensão, a tirania e o isolamento a que adultos acabam por relegar as crianças.

A protagonista é intrépida e inventiva. Porém, o texto sempre nos lembra que ela é mais baixa, inclusive para a idade, e também mais fraca. Assim, ela precisa enfrentar desafios muito maiores e mais perigosos do que seria de se esperar para crianças de sua idade.

Para compensar o terror e o perigo a que o ambiente do romance nos envolve, há uma narrativa fabulosa, divertida e aconchegante. É como se estivéssemos o tempo todo segurando a mão de Coraline, para lhe dar coragem, mas também para sermos reconfortados por ela em nossos medos. É preciso mencionar também os inusitados aliados que surgem ao longo da trama.

Por fim, a primorosa ilustração de Chris Riddel nos envolve ainda mais no clima do romance. 

Com uma narrativa envolvente, num ambiente salpicado de sustos e sobressaltos, Coraline é uma elaborada fábula sobre quão assustador é crescer. Assustador, sim, mas necessário.


Ficha Técnica 

Coraline

Neil Gaiman 

Desenhos de Chris Riddel

ISBN-13: 9788551006757

ISBN-10: 8551006754

Ano: 2020 

Páginas: 224

Idioma: português

Editora: Intrínseca

Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/coraline-218759ed1193129.html

quinta-feira, novembro 11, 2021

Para marcar a mudança

Faz tempo que vivia angustiado com o blog. Eu sempre fico angustiado com a escrita e o blog é o principal ponto de escoamento do que escrevo. É minha vitrine para o mundo. Porém, eu sentia - e ainda sinto - que as pessoas não interagem aqui. Apesar de relatórios de acessos e visualizações, a escassez de comentários faz com que este espaço pareça pouco visitado.

Ou às vezes pode acontecer o seguinte: a pessoa novata encontra este espaço mas, por senti-lo pouco amigável, acaba saindo antes de ler qualquer coisa. Ou seja, antes do tão almejado engajamento

Com isso, tratei de tentar olhar o blog como se fosse um leitor visitante. E percebi alguns problemas. Concluí que o visual era muito carregado. A descrição era comprida e ocupava quase toda a tela. Enfim, percebi que as pessoas precisam gostar muito mesmo do que escrevo para realmente permanecerem por aqui, lendo e comentando. 

Assim, decidi dar uma mudada no visual do blog. Isso aconteceu na segunda-feira. Conferi alguns modelos do Blogger e escolhi o que parecia mais intuitivamente amigável pra mim. E eis que chegamos nesta cara nova que ele tem, atualmente. Porém, percebi que mudei o visual e não falei nada, não apresentei essa mudança para as pessoas que leem o blog. Assim, educadamente, peço desculpas. Eis diante de vocês, leitoras e leitores, a nova cara de  O Guardião de Histórias

Agora, chegou a parte mais difícil. O que vocês acharam? Gostaria muito de saber a opinião de cada uma e cada um de vocês. E se por acaso os comentários foram mais saudosistas e lamentosos, farei questão de restaurar o modelo original, ok? E para quem chegou até aqui neste texto deixo a minha gratidão! ^_^

quarta-feira, novembro 10, 2021

Mitologias familiares

Levei da vó Conceição uma colherada na testa, por ter passado correndo na cozinha, enquanto ela fazia o almoço. Doeu um bocado. E na lembrança da dor veio também da sensação do pé descalço nos ladrilhos brancos e frios.

Vó Conceição não era braveza pura. Num dia, sentou-se ao meu lado e cantou de um ribeirão que secou e do alecrim, flor do campo. No sabiá que fugiu da gaiola ela tirou lágrimas de meus olhos.

Não eram apenas as canções que enchiam meus sonhos, mas muitas histórias. Falava da casa mal-assombrada onde pedaços de gente caíam do alto e se juntavam, até formar uma pessoa inteira. Ou da história do Galo Pelado, que assombrava tropeiros nas trilhas de Minas.

- Vó, por que o Tio Vando é careca? - perguntei sobre a calvície do seu filho mais velho.

- Foi quando ele carregou o melado quente no alto da cabeça, vindo da feira. Balançou o pote de melado que caiu na cabeça dele. Mandei ele raspar o melado pra frente, mas ele raspou pra trás. 

Nessas e noutras histórias, Vó Conceição me embalava. E assim dava lastro à minha imaginação. Vó Conceição fundou meu mundo de fantasias.

terça-feira, novembro 09, 2021

Capital

Pelos corpos sem vida 

nenhum lamento. Apenas 

covardia.

Todos 

vão morrer 

um dia

setencia. 

Não é coveiro, mas 

carrasco. 

Cai sua máscara. 

Já defendeu extermínio. 

Exaltou tortura. 

Com seu histórico de atleta, 

bate em quem 

pede explicação. 

Fazer nada

também mata.

É melhor mesmo

Jair 

morrendo.

Voraz

Temos fome 

de amor 

mas no fim 

ele é o mais 

voraz o 

Amor nos devora 

Sobram 

a penas

ossos

Samedi

segunda-feira, novembro 08, 2021

O Embate - Parte I de V


Ir para Reminiscências - Parte IV de IV

Os cinco subiram a colina. Uri negou-se a escalar a árvore e Lucan não estava em condições para isso. Os outros três chegaram ao topo com facilidade. Na verdade, quando Aldreth e Seridath chegaram, Thin já os esperava calmamente, com um sorriso matreiro. Eles observaram a campina por algum tempo. Nenhum dos blocos se movia. O pequeno exército de Serpente Flamejante não poderia alcançar seu aliados antes de ser rechaçado pelas forças sombrias, marcando o fim da Companhia. Seria mais lógico que o exército de mortos os atacasse primeiro.
A atenção dos três aumentou quando viram que o exército inimigo começava a se mover. E, incrivelmente, não foi na direção da Companhia, e sim de Arnoll. Ambos os exércitos aliados tocaram suas trombetas, indicando prontidão de armas. As lâminas desembainhadas refletiram a luz das tochas e dos feitiços nos estandartes.
Do centro do exército inimigo surgiu uma coluna de chama mágica. Logo em seguida, outra chama surgiu, em outro ponto da massa sombria. Outras três chamas surgiram, em pontos diferentes do exército maligno. Cada coluna de chama parecia marcar um pavilhão. Mas, estranhamente, essas colunas de fogo não pareciam iluminar absolutamente nada. O exército de mortos parecia tão escuro quanto antes, talvez até mais. 


Continua...

domingo, novembro 07, 2021

Composto

Meu corpo

É 70 por cento água

E 90 por cento mágoa

Samedi

Uma leitura entre lágrimas

Plena manhã na Biblioteca, duas oficinas realizadas e de repente eu decido me debruçar sobre este livro. Eu estava no balcão de atendimento, mas o trânsito de leitores nesse sábado ameno havia diminuído, depois de um fluxo intenso mais cedo.  Tanto que deu pra ler tudo sen interrupções. Ao final da leitura, pensei em tantas crianças deslocadas, refugiadas, traficadas, despejadas, escravizadas, afogadas... E o Mediterrâneo escapou de meus olhos em plena manhã. Foi um choro desamparado, órfão, assim como muitas dessas crianças. Tive que abaixar a cabeça e me esconder atrás do balcão para que ninguém testemunhasse meu pranto. Para que ninguém me pegasse de peito aberto.

Livro: Um outro país para Azzi

Autora: Sarah Garland

Tradução: Érico Assis

Editora: Pulo do Gato

Descrição: Desenho de uma menina com vestido azul e casaco vermelho. Ela olha para trás enquanto corre e segura um urso de pelúcia. Ao fundo, ruínas de prédios.

14 de abril de 2018



Pena de morte

Quanto mais definitiva a pena, maior a possibilidade de injustiça.

Quanto vale a morte de um inocente? A execução de um inocente compensaria a de vários criminosos?

Castração química. Como definir quem merece e quem não merece? E se houver a mínima chance de a pessoa ser inocente?

Tentando me afastar da hipocrisia, tentando não ser hipócrita, penso que eu nunca perdoaria quem ferisse alguém que amo. Porém, eu estaria disposto a aceitar a morte de um inocente sequer para que aquele criminoso que odeio por ter matado quem eu amo fosse executado? Eu poderia viver com essa possibilidade? Não acredito que a vida seja quantificável. 

27 dez 2014

sábado, novembro 06, 2021

Responsáveis

Vocês votaram nele

mesmo depois de ouvirem

que ele pregava o extermínio

e defendia a tortura.

Mesmo quando defendeu

uma ditadura

Ele disse "e daí?"

quando as pessoas começaram a morrer.

E vocês não deixaram de apoiá-lo.

Não se esqueçam:

esse monstro assassino genocida é culpa de

Vocês.

sexta-feira, novembro 05, 2021

Figura pétrea

Ele era um gigante. Enorme, de pele marrom e pouco cabelo na cabeça. Sempre muito sério, adorava falar em inglês. Conhecia outros idiomas, mas esse era o seu predileto. Diziam que aprendera sozinho, memorizando um dicionário. Achava essa história fabulosa e titânica. Sim, ele era um titã para mim.

Sua voz era grave, meio rouca. Uma voz que lembrava risada de Papai Noel. Além disso, sua voz também era forte, estrondosa. Ao chegar em casa, gritava: "Open the gate!" e nós corríamos para abrir o portão e recebê-lo. 

Ele também gostava de gritar com os âncoras do jornal. Sempre que algum deles falava algo que o contrariava, gritava: "Mentira!" Geralmente, tinha razão. Sua revolta era gerada pela hipocrisia que conseguia perceber nas falas de repórteres e entrevistados.

Meu avô nunca chorava e sorria pouco. Era um homem sisudo, sempre sério. Enérgico no que acreditava, muitas vezes chamou minha atenção dizendo que eu deveria aprender a falar inglês e outros idiomas. Sinto demais não tê-lo escutado.

Certo dia, cheguei à casa de meus avós e soube que a irmã do meu avô, chamada Rosa, tinha falecido. Fui até a sala onde meu avô estava. Ele se mantinha sentado em sua poltrona favorita, imóvel, como se fosse feito de pedra. Olhava fixamente para frente, sem dizer uma palavra. Respeitoso, perguntei como ele estava. Meu avô nada disse e eu não insisti.

Foi então que vi escorrer de seu olho esquerdo uma única lágrima. Ele não fez menção de enxugá-la. Deixou-a escorrer livre, até o queixo, onde se perdeu ao pingar na camisa. 

Essa única lágrima foi a primeira que vi no rosto de meu avô. 

quinta-feira, outubro 28, 2021

Acerto de Contas

Sérgio recebeu uma inusitada visita em seu consultório. Um sujeito de meia-idade chegou anunciando ser deus. Se bem que ele disse ser aquele com "D" maiúsculo. Porém, por razões políticas, decidi grifá-lo com o "d" minúsculo.

Era um dia quente, daqueles que clamam por chuva. Sérgio praguejava por causa do ar-condicionado quebrado. Foi aí que entrou o homem que se anunciou "deus". Disse que estava lá para acertar uma pendência.

Irritado e incrédulo, Sérgio disse que estava trabalhando e que se não fosse um paciente, que se retirasse. Diante da recusa de seu interlocutor, o dentista correu até a sala externa ao consultório para brigar com a secretária. Como ela deixou um doido daqueles entrar?

Com a negativa da moça, que alegou não ter visto ninguém entrar, Sérgio pensou que estaria enlouquecendo.

Na verdade, "deus" realmente só era visível pra ele. O divino disse que estava lá para punir o dentista. Não por seu ateísmo corrente, sua atual incredulidade obstinada. Não pelo afastamento surgido no fim da juventude, nem pela postura niilista e zombeteira diante da vida. O homem, quando criança, havia caído na risada durante a aula de Ensino Religioso, após um colega fazer piada com o Espírito Santo.

Sérgio bem se lembrava. Tendo crescido em uma família terrivelmente evangélica, passara noites em claro, chorando, com a certeza de que havia sido condenado ao inferno, já que, ao rir de uma blasfêmia contra o "espírito de deus", teria sido cúmplice e não teria perdão.

O dentista abandonou o consultório, sendo seguido por "deus". Tentou evitar o confronto. Afinal, era "deus". O problema foi que o todo-poderoso não saiu de perto de Sérgio, não deixava o pobre homem em paz. E mais ninguém via o cujo. Como um amigo invisível inconveniente, ficava falando e falando, garantindo que só o deixaria em paz se ele o enfrentasse. 

Para dar um fim à tétrica situação, resolveu enfrentar "deus" no braço. A cidade subitamente se esvaziou  Em uma ponte, "deus" o aguardava. O tempo já não clamava, profetizava tempestade. Os dois se embateram no centro da ponte. Brigaram na chuva, durante um temporal que escureceu o mundo.

Sem acreditar, Sérgio conseguiu acertar um bom soco em "deus". Espancou o altíssimo. Arrancou-lhe os dentes na base do soco e viu um arco-íris surgir no céu, enquanto "deus" desaparecia em uma nuvem de contradição.

terça-feira, outubro 12, 2021

O menino trincado

Aquele menino tinha uma rachadura. Não era grande. Quem olhasse de longe, nem notaria. Essa rachadura só poderia ser vista bem de perto.

O menino também não se incomodava. A rachadura estava lá desde que o menino se lembrava. Não sabia qual acidente a teria causado. Foi no futebol? Na aula de educação física? Ou será que foi no recreio, quando brincava de queimada? A verdade era que o menino simplesmente não sabia. Um certo dia, simplesmente notou a tal rachadura.

Quando deu por si, lá estava ela. Uma linha irregular que começava no umbigo e subia pelo peito até o pescoço. Não doía. Nem parecia estar lá. Mas ao tocá-la, era possível senti-la na ponta do dedo, percebendo o desnível na pele.

Acontece que depois que percebeu a rachadura, o menino não conseguiu mais parar de pensar nela. Será que traria algum problema? As outras crianças também seriam trincadas? Teriam rachaduras ao longo do corpo? E se fosse a única criança assim? Seria levada para longe, para ser estudada igual os alienígenas da televisão?

Resolveu esconder essa rachadura. Evitava de todo o jeito tirar a camisa na frente de alguém. Os pais achavam que era simplesmente timidez.

Um menino trincado que cresceu evitando choques e encontrões. Cercado pelo medo de um leve toque pudesse transformar a rachadura em seu peito num monte de estilhaços.

segunda-feira, setembro 06, 2021

Adivinhação 1


"Eu sou dado e sou tomado

Eu estava lá no seu primeiro suspiro

Você não pediu por mim,

Mas eu sigo você até a morte."

* Adivinha retirada do filme "A invocação do mal 2".

(Descrição da imagem: em fundo preto, homem idoso de perfil direito sentado em poltrona. À direita, um abajur aceso e logo em seguida uma mulher de costas.)

quarta-feira, setembro 01, 2021

Camadas



Meditou tão profundamente que visitou suas memórias com total vivacidade.  Era como se estivesse mesmo lá, revivendo seu passado, sentindo com precisão tudo que antes havia sentido. Ao retornar da meditação, passou a desconfiar. O que experimentava agora era de fato a realidade ou mais uma memória?


sexta-feira, agosto 27, 2021

A ponto de explodir - Um livro em contagem regressiva


Quando li  A ponto de explodir, de Sérgio Fantini, pela primeira vez, foi com um exemplar emprestado pelo autor. Ao terminar, senti uma urgência absurda de ter o meu próprio livro. Perguntei ao Fantini se ele tinha algum para me vender e fiquei desapontado com a negativa.

Anos depois, ele veio me contar da reedição do livro. Imediatamente, implorei para que reservasse o meu. Fui tomado pelo mesmo senso de urgência que me acometeu quando de minha primeira leitura.

Da urgência, fui ao deleite ao ter em mãos o meu exemplar autografado. A capa traduzia o que eu sentira ao ler os contos do livro: a solidão, o desespero, o tédio, a ironia e - por que não - o humor.

Há um tom de galhofa permeando a maioria dos contos. É como se o narrador tirasse uma com a cara de quem está lendo. E ainda esperasse um "obrigado" como resposta. Os contos são agudos como uma faca muito bem amolada e que, ao cortar, dá prazer logo antes da dor e de todo o sangue.

As histórias desveladas em A ponto de explodir são corriqueiras. Narrativas que muito bem podem ter acontecido logo ali - na rua de baixo do bairro. Ou no centro, na parte suja e esquecida da cidade - qualquer grande cidade.

Em A ponto de explodir somos levados a passear pelos olhos e peles de pessoas comuns. E que, de tão comuns, deixam à flor da pele o que há de grotesco e feio nelas, junto com o que há de belo e inocente. Assim é formada a armadilha. Nessas imagens a princípio tão triviais emerge uma escrita que nos atinge na boca do estômago.

Não posso deixar de tachar o livro como uma "bad trip". E daquele tipo que fissura e vicia. Uma deliciosa agonia, um texto forte como um conhaque. E cujo sabor melhora ainda mais com o tempo.

(Descrição da capa: Em fundo amarelado e tons em laranja na parte superior, homem está agachado de perfil esquerdo no alto de um prédio e segura uma maleta. Ao longe estão outros prédios)

Ficha técnica

A ponto de explodir

Sérgio Fantini

ISBN-13: 9788566505290

ISBN-10: 8566505298

Ano: 2013 

Páginas: 138

Idioma: português

Editora: Jovens Escribas

Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/a-ponto-de-explodir-86811ed839330.html

quinta-feira, agosto 26, 2021

Coluna Literária apresenta as Edições Chão da Feira

Fonte: Arte/FMC.


Em sua quinta edição, a Coluna Literária apresenta um enfoque um pouco diferente, apresentando um gênero pouco comum entre o público em geral: o ensaio. Com o objetivo de democratizar a leitura, a equipe da Coluna Literária buscou uma fonte confiável e livremente aberta. Assim, chegou-se às Edições Chão da Feira, que publica os Cadernos de Leitura.

Os Cadernos de Leitura são ensaios traduzidos pelas Edições Chão da Feira e gratuitamente disponibilizados na Internet. Assim, após ler a apresentação e as resenhas presentes na Coluna Literária, a pessoa leitora, poderá buscar nos links o acesso ao texto resenhado.

A apresentação desta edição contou com a assinatura da Daniela Figueiredo. As resenhas contemplam os ensaios "O jogo do dicionário", de Maria Carolina Fenati, resenhado por Ericka Martin, “Tornarse Existencia Exuberante", de Brigitte Vasallo, com resenha de Érica Lima, e "Minha mãe vive aqui”, da escritora mexicana Isabel Zapata, resenhado por Caroline Craveiro.

É muito importante destacar o papel da Coluna Literária na divulgação de obras que, em muitos casos, não recebem o apelo midiático. Além disso, existe o elemento reflexivo e também literário, uma vez que as resenhas não deixam de ter a marca do estilo das autoras.

Para conferir a quinta edição da Coluna Literária, assim como as anteriores, basta acessar o blog do Portal Belo Horizonte.

Enfim, espero que todas as pessoas possam aproveitar essa quinta edição. E que venham as próximas!

(Em fundo verde em dois tons, com letras esmaecidas espalhadas, consta em preto o texto "EDIÇÕES CHÃO DA FEIRA". Em branco, o texto "CONFIRA EM: PORTALBELOHORIZONTE.COM.BR/BLOG 25 DE AGOSTO DE 2020". À direita, inclinado, está o termo "5ª EDIÇÃO". Abaixo, na extremidade direita, a palavra "COLUNA". Na faixa verde mais clara, em tamanho maior, cobrindo toda a parte debaixo, a palavra "literária" em itálico. Em letras pequenas, abaixo, o texto "APROXIMANDO PESSOAS, LIVROS E BIBLIOTECAS". No canto inferior direito, as marcas da Fundação Municipal de Cultura, da Secretaria Municipal de Cultura e da Prefeitura de Belo Horizonte )

quarta-feira, agosto 25, 2021

Cabeça de Luar

Imagem de Ponciano por Pixabay 


Era uma pessoa incomum.

Diziam que vivia na Lua.

Pessoa muito distraída,

trocava os pés pelas mãos.

E com a mão no queixo

olhava para cima, para a 

Lua

e suspirava.

Achava na Lua uma janela.

Por ela espiava sonhos.

Amores

Sabores.

E até mesmo temores.

De tanto espiar a Lua,

de tanto viver a Lua,

esta se enamorou e desceu.

Tanto que colou cabeça

com cabeça.

E essa pessoa, enluarada,

descobriu em si

uma eterna infinita

janela.


(Descrição: Em fundo preto, fotografia da Lua. A metade diagonal direita da lua está oculta)

sexta-feira, agosto 20, 2021

Palestra cênica "Para abrir uma janela" - uma paisagem de encantos e dores das mais belas


No último domingo, assisti a palestra cênica Para abrir uma janela, realizada dentro da programação do 4º FLI-BH. O responsável pelo espetáculo foi o ator Odilon Esteves, que por duas horas guiou nossos olhos, deixando-nos emocionalmente atados à sua presença, que tela nenhuma é capaz de diminuir.

Odilon Esteves esteve sozinho em cena, que se constituía em uma sala de apartamento, com alguns objetos que dialogavam com os textos que seriam apresentados, bem como uma pilha de livros, de onde os textos foram selecionados. Deu-se então início a uma experiência estética de voz, corpo e alguns objetos. Um exercício de escuta e deslumbramento.

Partindo da simpatia e carisma do artista, que nos envolve e fascina, até a escolha dos textos, que nos implodem. Odilon Esteves guiou com maestria sua fala, passeando pela poesia e pela prosa com graça e muita presença. Interagiu com o público nas escolhas dos textos que interpretou de forma ardente e apaixonada. foi o melhor e mais poderoso espetáculo do qual participei neste ano. Uma janela de encantos e dores das mais belas.

Faço um destaque para os textos "Porque escrevo 1", do Eduardo Galeano e "Nininha", do Guimarães Rosa, que simplesmente me destruíram!

O que mais poderia dizer do espetáculo Para abrir uma janela? Posso mais uma vez me apegar ao talento e no carisma do artista. E também falar da diversidade literária das obras abordadas, que envolveram poesia e prosa da mais fina sensibilidade. Poetas de diferentes continentes, histórias e palavras cuidadosamente trabalhadas em sua matéria e também na performance. E por fim, é importante destacar que Odilon foi como protagonista e ao mesmo tempo anfitrião, pois a maior estrela da noite foi a Palavra.


ESPETÁCULO – PARA ABRIR UMA JANELA- PALESTRA CÊNICA

com Odilon Esteves

Evento online

15 de agosto de 2021, 19h30-21h

(Descrição da imagem: Fundo azul. À esquerda, árvore de tronco grosso com livros pendurados nos galhos. Sentada no tronco, com uma perna encolhida e outra esticada está uma mulher negra de cabelos volumosos e óculos com um livro vermelho aberto. Acima, em quadro azul, a palavra "ESPETÁCULO". Fora do quadro o título "Para abrir uma janela - palestra cênica". Entre o quadro azul e a mulher está uma faixa vermelha com a data "15 de agosto, domingo", um quadro vermelho com a hora "19h30" e um retângulo cinza com a indicação "classificação livre". A imagem da acessibilidade em Libras vem em seguida. Abaixo, à direita, as logos do Instituto Periférico, a Fundação Municipal de Cultura, da Secretaria Municipal de Cultura e da Prefeitura de Belo Horizonte.)

quarta-feira, agosto 18, 2021

Urgente! - Pela manutenção do programa Conversações


Há alguns anos, conheci o Cláudio Henrique. Trocamos algumas ideias sobre pessoas comuns que são grandes leitoras, principalmente quem frequenta bibliotecas públicas. Fiquei de passar alguns contatos, a partir da minha experiência de trabalho na Biblioteca Pública Infantil e Juvenil.

Foi assim o meu primeiro contato com o Programa Conversações. Não imaginava que, tempos depois, eu estaria diante da câmera, para gravar um episódio sobre a Biblioteca Pública Infantil e Juvenil e sua atuação dentro do Centro de Referência da Juventude. 

Cláudio Henrique é uma pessoa incrível. Amável, observador e excelente ouvinte, ele sabe conduzir com maestria uma entrevista de forma a deixar a gente totalmente à vontade. Sei que como artista pode parecer algo simples pra mim, mas não é. Sempre tive problema com a minha autoimagem. Minha passagem pelo Conversações ajudou a mitigar esse problema.

Mas não é de mim que devo falar hoje e sim desse programa tão importante para a divulgação da literatura independente em Belo Horizonte. Conversações é mais do que um programa de literatura. É sobre pessoas, suas vidas reais e suas buscas por uma vida mais humana e legítima através das palavras. Um programa sobre dar voz e escuta a pessoas geralmente silenciadas em nossa sociedade.

Depois de tantos anos de história de um programa pioneiro, interessante e de alta qualidade, vem o Governo de Minas e decide encerrá-lo. O único programa na Rede Minas com um jornalista negro. E um programa que dá voz vez às periferias. Ao saber dessa notícia, fiquei aturdido. Mortificado. Não é apenas a história dos espaços e das leituras. São as histórias das pessoas que estão fadadas a desaparecer. 

Por isso, manifesto-me à favor da manutenção do Programa Conversações. E que esse ataque à cultura e à literatura, em especial a periférica, não prossiga. Que todas as pessoas se unam para que essa decisão desastrosa seja repensada e revertida, com urgência.

E deixo aqui meus cumprimentos ao Cláudio Henrique, guerreiro da cultura, que com as armas das palavras, da gentileza e da simpatia, concedeu escuta a tantas pessoas que, por outros meios teriam sido silenciadas.

https://www.brasildefatomg.com.br/2021/08/17/rede-minas-retira-programa-educativo-da-programacao-e-pode-inserir-outro-evangelico

https://www.instagram.com/p/CSsiLCqLjMy/?utm_medium=share_sheet

(Descrição da imagem: Em fundo branco, texto "Desmonte: Rede Minas retira programa educativo da programação e pode inserir outro evangélico. Emissora anunciou o fim do Conversações programa que populariza literatura independente e cultura produzida na periferia. Amélia Gomes, Belo Horizonte (MG) | 17 de Agosto de 20201 às 20:28". Abaixo, foto de dois homens. O primeiro, à esquerda, é negro, tem cabelos curtos e está de perfil direito, veste uma camisa xadrez. À direita o outro homem, branco, de cabelos e barba compridos, com uma blusa mostarda. Os dois manuseiam um livro. Atrás deles, paredes com vários grafites.)

segunda-feira, agosto 16, 2021

Uma perspectiva do Universo

Fonte: https://pixabay.com/pt/users/free-photos-242387/


Se o universo é infinito, e tudo cabe no infinito, todas as variações possíveis de nosso planeta e da nossa história também cabem nesse mesmo infinito. Ou seja, os mundos paralelos estão aqui ao lado, a um infinito de distância.

(Descrição da imagem: A silhueta de uma pessoa de perfil volta a cabeça para cima e contempla o céu estrelado. A tonalidade desse céu passeia entre o preto nas bordas, o amarelo embaixo e o azul à direita. Ao centro, poeira de estrelas formam uma nuvem)

sexta-feira, agosto 13, 2021

Amoras - Quando o Amor nos leva pela mão


Por vezes, quando a gente começa uma leitura, é importante se portar como uma criança, enquanto a voz narrativa é a pessoa adulta que nos toma pela mão e nos mostra as grandezas do mundo escondidas nas pequenas coisas. Há livros que fazem justamente isso com a gente.

O que dizer sobre Amoras, do Emicida? Um texto cheio de carinho e com profundidade. Há muito afeto nesse livro que fala de autoestima, de uma força que se revela na delicadeza. A partir do diálogo entre uma criança e seu pai, vai sendo tecida uma reflexão profunda, capaz de desconstruir preconceitos e estabelecer novos paradigmas.

Como algo tão pequeno, como as amoras, pode crescer tanto, a ponto de ser do tamanho do mundo inteiro? Pela genialidade do poeta, mas também pelo olhar infantil, que subverte valores e transcende a realidade.

Assim, além de evocar carinho e a afetividade, Emicida também homenageia grandes nomes da luta pela igualdade e justiça, sem assumir um discurso simplista ou panfletário.

Aldo Fabrini, com suas formas arredondadas e cores vivas, busca conferir às imagens todo o afeto presente no texto, criando um ambiente harmônico, pacífico, para a mensagem poética de Emicida frutificar.

Palavra e imagem em Amoras bailam com graça e leveza, tomando a leitora pela mão e fazendo uma leitura de sonho, um momento de entrega, um presente encantado.


(Descrição da imagem: Mão segura um livro retangular horizontal. Em fundo vinho, desenho de rosto do nariz para cima, com cabelos pretos, pele escura, olhos redondos, nariz alongado, orelhas pequenas. Os olhos estão voltados para cima, onde está o título do livro: AMORAS, sendo cada letra em uma cor, nas sequências rosa, amarelo e azul. Acima do título, o nome EMICIDA. Abaixo, à esquerda, Companhia das Letrinhas e à direita, ilustrações Aldo Fabrini. Além do livro há uma estante branca com as lombadas de outros livros)

Ficha Técnica

Amoras

Emicida

Desenhos de Aldo Fabrini

ISBN-13: 9788574068367

ISBN-10: 8574068365

Ano: 2018 

Páginas: 44

Idioma: português

Editora: Companhia das Letrinhas

Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/amoras-806507ed810638.html

quarta-feira, agosto 11, 2021

Perfeita




Você me pergunta

o que eu acho

Se esse cheirinho rançoso

Vem mesmo de você

Eu digo

Você é perfeita

Não peida

Nem caga 

Impossível pra você

Ter que se agachar 

para mijar.

Você 

Como toda princesa Disney

vive à base

de Prana.


Dedicado à Pam e nossos divertidos cafezes da manhã.


As histórias



As histórias 

São os bordados 

Na tessitura 

Do silêncio

segunda-feira, agosto 09, 2021

Prova



Convencido 

de que era 

Máquina 

Recorreu à faca 

e abriu o peito 

em busca 

de fios e circuitos 

ou ao menos 

engrenagens 

Surpreso, 

constatou 

que havia 

Nada.

domingo, agosto 08, 2021

Vídeo: O analfabeto político - Bertold Brecht

 


Olás a todas, todos e todes! Hoje trouxe um poema sobre conscientização política. Convido todas as pessoas a assistirem e dialogarem sobre! Um abraço!

sexta-feira, agosto 06, 2021

Niketche - Uma dança que muda o mundo



Rami é uma mulher amargurada. Há alguns dias que seu marido, Tony, saiu e não deu mais notícias. Ela desconfia da fidelidade dele, mas ainda não tem provas. Decide então descobrir a identidade da suposta amante e a verdade que se descortina a seus olhos é muito mais complexa e dolorosa.

Assim tem início Niketche: uma história de poligamia. Romance da autora moçambicana Paulina Chiziane. Ao descobrir cada um dos casos amorosos do marido, Rami despeja toda a sua amargura e desesperança como narradora. Ela ignora, porém, que seus atos provocarão uma mudança profunda nela e em todas as suas rivais.

Como narradora, Rami é uma voz melancólica e reflexiva. Desencantada com o mundo que massacra as mulheres e beneficia os homens, por mais que ela pense não haver esperança, suas atitudes são de uma resistência pacífica e tenaz. E tal resistência provoca impactos permanentes em seu casamento, bem como nas vidas que o atravessam.

Com uma narrativa pungente, dolorosa e repleta de digressões poéticas, Paulina Chiziane nos presenteia, leitoras e leitores, com um romance poderoso, um épico de amor e fúria.

(Descrição da capa: em fundo marrom, traços de corpos humanos se misturam e se entrelaçam. Os traços são feitos em diferentes tons de marrom, entre o claro, o avermelhado e o preto. Esses traços não possuem sexo, feições ou roupas, são contornos simples e vazados)


Ficha Técnica

Niketche: Uma história de poligamia

Paulina Chiziane

ISBN-13: 9786559210107

ISBN-10: 6559210103

Ano: 2021 

Páginas: 296

Idioma: português de Portugal 

Editora: Companhia de Bolso

Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/niketche-20540ed11780226.html

quinta-feira, agosto 05, 2021

A Coluna Literária celebra a chegada do FLI-BH


Está chegando no universo online o 4º FLI-BH - Festiva Literário Internacional de Belo Horizonte. Celebrando esse momento, a Coluna Literária lançou uma edição especial, falando sobre as mentes por trás desse maravilhoso trabalho. O tema escolhido é VIRANDO A PÁGINA: Livro e Leitura tecendo amanhãs. As curadoras do Festival são Madu Costa e Ana Elisa Ribeiro. A homenageada é a Mazza, Maria Mazarello Rodrigues, criadora da primeira editora voltada à literatura negra no Brasil. A identidade visual do festival leva o nome do monumental Nelson Cruz.

Em boa companhia com o Festival, dentro da programação do mesmo, acontece o Seminário "Adolescer: Sujeitos e Percursos Literários", que marca os 30 anos da Biblioteca Pública Infantil e Juvenil. Nele, participarei da última mesa, compartilhando o espaço com pessoas maravilhosas, a Ana Paula Cantagalli, a Érica Lima e o Rodrigo Teixeira, que será o mediador. A nossa mesa leva o título "Uma biblioteca para as juventudes". 

A programação completa pode ser acessada lá no Portal Belo Horizonte



(Descrição das imagens: Imagem um - fundo azul em dois tons, sendo o inferior azul claro e o superior azul escuro. Escrito em destaque está escrito "Edição especial fli-bh Coluna Literária aproximando pessoas, livros e bibliotecas". Imagem dois - em fundo amarelo e branco, uma faixa azul com a inscrição Seminário adolescer: sujeitos e percursos literários". À direita, a logomarca do fli-bh. Abaixo, as fotografias de Ana Paula Cantagalli, mulher de perfil direito, pele clara olhos grandes e cabelo preto liso, sorriso discreto, Érica Lima, mulher de perfil esquerdo, pele clara, óculos quadrados, cabelos castanhos anelados, sorriso aberto, e Samuel Medina, homem de frente, de pele clara, óculos quadrados, barba, sorriso, cabelo comprido castanho e liso. No centro, a informação 12 de agosto, 9h, fli.pbh.gov.br - inscrições em sympla.com/flibh. Abaixo, no fundo branco a fotografia de Rodrigo Teixeira, homem de pele clara, óculos quadrados, cabelo preto, comprido e anelado. À direita, o selo de 30 anos da Biblioteca Pública Infantil e Juvenil e o selo de acessibilidade em Libras).

quarta-feira, agosto 04, 2021

Genki Dama


O homem 

mais forte 

do mundo

só existe

quando todas

as outras pessoas 

erguem as

Mãos

E cedem 

nem que seja

Um pouquinho 

de sua força.

terça-feira, agosto 03, 2021

Justiça seja feita



Há um bom tempo, fiz uma postagem falando dos eventos que participei como ouvinte e acabei não falando do Segundo Encontro Mineiro de Bibliotecas Comunitárias. Falha minha. Com tantos eventos acontecendo simultaneamente, acabei deixando passar este, que é tão importante quanto os demais e com uma riqueza enorme de discussão e reflexão.

Como alguém que deseja guardar histórias, compartilhá-las, lembrá-las, acho fundamental falar deste evento, que teve à frente a rede de bibliotecas comunitárias Sou de Minas Uai.

O Encontro aconteceu em três dias: 21, 23 e 25 de junho, através da plataforma Zoom.

A primeira conversa contou com Sol Barreto, Marília Paiva e César Júnior, com mediação de Túlio Damascena e intervenção literária de Lourdinha Reis. O tema foi "Dinâmica e ações de incentivo à leitura". 

A segunda contou com Mônica Verdam, Macaé Evaristo e Fabíola Farias, com mediação de Agripina Vieira e intervenção literária de César Júnior. O tema foi "A incidência das políticas públicas do livro e mobilização de recurso".

A terceira e última conversa teve a participação de Renato Negrão, Carol Fernandes e Lavínia Rocha, com a mediação de Talita Rocha e Sãozinha na intervenção literária. Para fechar o encontro, o tema que norteou a conversa foi "Entre autores".

Foram três noites de rico diálogo. Nós, participantes, fomos continuamente provocados pelas falas tão ricas, em especial da Macaé Evaristo e da Fabíola Farias.

Que os próximos encontros sejam tão ricos quanto este. E que nós possamos cada vez mais apoiar a rede de bibliotecas comunitárias de nossas cidades e seus entornos.

E para quem quiser conhecer a rede Sou de Minas Uai, basta acessar sua página na internet: https://www.soudeminasuai.com/.

segunda-feira, agosto 02, 2021

Sarais



Ele me disse 

que ia aos sarais 

de toda a região. 

Alguém debochou 

E disse que a palavra 

tinha que ser 

"saraus".

Mas o deboche 

não viu 

É nessa roda 

de poesia que 

tantas pessoas saram 

seus ais

domingo, agosto 01, 2021

Vídeo: Vi Teófilo Otoni Florir - Brenda Linda Medina Lages



Homenagem de Brenda Linda Medina Lages à sua cidade natal, Teófilo Otoni, Minas Gerais.

Vi Teófilo Otoni Florir

Mais do que flor no jardim

Vi Teófilo Otoni Florir

Quis o Ipê Roxo pra mim

Ipê Roxo, Ipê Amarelo

Não importa sua cor.

Ao longo do rio eu te vi

Isso fez encher meu coração de amor

Fez também amar mais

A cidade onde eu nasci

Teófilo Otoni das Gerais

Sou apaixonada por ti

(Descrição do vídeo: mulher de pele marrom clara, cabelos grisalhos e encaracolados sorri e recita poema para Teófilo Otoni-MG. A mulher usa uma camisa preta debaixo de um casaco cinza de lã. Usa um óculos de armação rosada no alto da cabeça para prender os cabelos.)

sexta-feira, julho 30, 2021

O tigre que veio para o chá da tarde - Quando a vida apronta uma daquelas



Está tudo pronto para o chá. De repente, um tigre faminto chega, pedindo comida! É isso mesmo. Você não se equivocou. O livro conta o que o título já avisa.

O problema é que o tigre parece insaciável. Não tem problema. Deixe-o comer. Mãe e filha fazem isso, sempre encarando a situação com bom humor e doses enormes de afeto.

Judith Kerr traça então uma narrativa inusitada com total naturalidade. Atônito fiquei eu, enquanto lia. E curioso para saber como mãe e filha resolveriam a questão.

O livro O tigre que veio para o chá da tarde é uma daquelas obra sensíveis e poeticamente misteriosas, que exigem de nós certa dose de fabulação e conformidade. Não adianta estranharmos a situação inusitada. Ou melhor, adianta, sim. Talvez seja esse o desejo da autora.

Enquanto li, eu ficava cada vez mais surpreso com os acontecimentos. Não podia deixar de ter alguns calafrios com o sorriso enigmático do tigre. Era como se ele sempre escondesse alguma coisa, ou estivesse pronto para a qualquer momento devorar a menina e sua mãe.

Mas assim é a vida: Pronta para puxar nosso tapete e nos virar de ponta-cabeça. Em situações assim, o que devemos fazer? De repente, dar uma cambalhota!

(Descrição da imagem: Fotografia de mão de pele clara que segura um livro. A capa do livro tem fundo branco, criança de cabelos amarelos sentada em uma mesa, de frente. À direita, tigre também sentado à mesa. A criança está de blusa azul, vestido roxo e meia calça xadrez. Calça sapatos pretos. Ela está de perfil direito. Já o tigre está de frente, com as patas dianteiras pousadas sobre a mesa.) 


Ficha Técnica

O tigre que veio para o chá da tarde

Judith Kerr

Tradução de Érico de Assis

ISBN-13: 9786555110791

ISBN-10: 6555110791

Ano: 2021 

Páginas: 32

Idioma: português

Editora: HarperCollins


Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/o-tigre-que-veio-para-o-cha-da-tarde-11809265ed11810037.html

quarta-feira, julho 28, 2021

Para todo mundo


O direito à saúde e à vida deveria ser um direito de todas as pessoas. Infelizmente, há quem as transforme em mercadoria. E desta forma, quem tem pode pagar. Mas e quem não tem?

Meu sonho é que todas necessidades das pessoas se tornem direitos básicos. Meu sonho é que ninguém precise se degradar para ter a saúde que precisa, ou a cultura, ou os alimentos. A humanidade pode fazer isso. Sim, a humanidade pode ser melhor.

Na última quinta-feira, dia 15 de julho de 2021, eu recebi a primeira dose da vacina contra COVID-19. Dois dias antes, quando eu soube que minha faixa etária (39 anos) seria contemplada pela campanha de vacinação aqui em BH, senti meu coração pular de alegria. Eu me senti literalmente privilegiado. E um sobrevivente.

Só de pensar que tantas pessoas mais jovens e mais saudáveis que eu morreram de uma doença que já tem vacina, percebo o absurdo do mundo em que vivemos. Ao mesmo tempo, só de pensar que, se não fosse o SUS, talvez a vacinação estaria muito mais atrasada do que já está, percebo como o SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE é um gigante, um poderoso aliado para a nossa saúde, de todas as pessoas que vivem neste país. 

Por isso, sempre que souber de mais uma pessoa vacinada, sempre que for informado sobre uma nova faixa etária contemplada na campanha de vacinação, não irei hesitar. Vou vibrar e dizer: VIVA O SUS!

Descrição da imagem: Fotografia onde eu estou vestido com uma camiseta de cor vinho. Na camisa está estampado o desenho de um jacaré. À direita, recebo no braço a injeção da vacina. Sou branco, tenho os cabelos amarrados para trás, estou de máscara azul e óculos retangulares.