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sábado, novembro 20, 2021

segunda-feira, junho 14, 2021

Lido: Nuang - Caminhos da Liberdade - Janine Rodrigues e Luciana Nabuco



Nuang é uma narrativa sobre prisão, escravização e liberdade. Uma narrativa aberta. Inspirada na cultura dos povos Banto, conta a trajetória de uma menina que tem em si o talento e a sabedoria para guiar seu povo rumo à libertação. 


Ficha Técnica 

Nuang - Caminhos da liberdade

Janine Rodrigues

Luciana Nabuco 

ISBN-13: 9788592577070

ISBN-10: 8592577071

Ano: 2017 / Páginas: 38

Idioma: português

Editora: Piraporiando


Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/nuang-779998ed784723.html



sábado, junho 12, 2021

Lendo: Úrsula e outras obras - Maria Firmina dos Reis


Quando soube de Maria Firmina dos Reis, fiquei encantado, interessado e igualmente incomodado. Como ainda não havia sido apresentado à primeira romancista negra brasileira? E não é apenas isso. Ela foi, muito antes de Castro Alves, uma voz ferrenha contra a escravidão. 

Depois de meu encontro com as narrativas de Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo, fui tomado por um senso de urgência em ler mais autoras negras. Assim, li Jarid Arraes, Eliana Alves Cruz e, agora, mergulho na literatura de uma mulher de discurso forte, duro, poético e quase desesperado.

Sim, é possível perceber o senso de urgência no clamor Maria Firmina por um mundo diferente daquele que ela vive, onde a sociedade machista e preconceituosa de homens brancos, ricos e violentos usam de seus desmandos quase como deuses.

Estou terminando o livro Úrsula e outras obras. Logo que tiver terminado, pretendo falar um pouco mais sobre essa seminal experiência de leitura.


Úrsula e Outras Obras

Maria Firmina dos Reis

 Nenhuma oferta encontrada

ISBN-13: 9788540203471

ISBN-10: 8540203472

Ano: 2018

Páginas: 307

Idioma: português

Editora: edições câmara


Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/ursula-e-outras-obras-802621ed806431.html

sexta-feira, dezembro 18, 2020

Quarto de despejo - A genialidade em meio ao abandono


Quando prestei o vestibular para a UFMG em 2001, havia entre as obras escolhidas o livro Quarto de despejo. Pouco sabia dessa obra autobiográfica, de uma autora vista como semianalfabeta. Ouvia que a obra era quase impossível de ser lida, por conta da quantidade de erros de português. E naquela época, quando eu ainda não havia desconstruído tantos dos preconceitos que ainda carrego, deixei de lado qualquer senso de obrigação em ler esse livro. Logicamente, não passei no vestibular. 

Em meu percurso, sempre me esquivava em ler essa obra que hoje considero de leitura fundamental para qualquer pessoa, principalmente quem nasceu e mora no Brasil. Foi preciso que uma Pandemia se interpusesse em meu caminho para que eu começasse a pensar no quão fundamental era conhecer mais de perto Carolina Maria de Jesus.

Mergulhei então em um percurso errático, doído, calcado em crueza. Foi necessário percorrer o livro duas vezes. E digo que considerei necessário porque a cada página, percebia como eu havia sido negligente por ainda não ter lido Carolina.

Em seu diário, Carolina procura anotar tudo, como se tentando apreender em sua totalidade a realidade e o tempo em que vive. Como um escrevinhador compulsivo, senti imediatamente uma grande identificação. Também tenho meus diários e cadernos. O teor do texto, contudo, é outro. Enquanto meus diários costumam ser protocolares, Carolina devaneia, divaga, observa o mundo, poetiza a vida.

Há uma evidente genialidade no lirismo que se esconde nas páginas de Quarto de despejo. Essa não é a única marca de tal engenho. Carolina Maria de Jesus reflete, observa e questiona, sendo capaz de construir em seu diário máximas inesquecíveis. Eu me vi querendo anotar e memorizar cada uma das profundas observações de Carolina. 

Ao mesmo tempo, é contundente observar o abandono ao qual a autora é relegada. Em um ambiente de penúria e animosidade, ela busca lutar com as armas que tem - as palavras - para sobreviver e criar seus filhos com dignidade. E essa talvez seja uma das maiores buscas de Carolina: dignidade para viver e se expressar através da arte literária.

Ao encerrar a leitura de Quarto de despejo, eu tinha a certeza de ter encontrado uma voz genial. E fui tomado pela tristeza por saber que essa voz foi e por vezes continua sendo censurada, cortada, silenciada.


Ficha Técnica:

Quarto de Despejo

Carolina Maria de Jesus

ISBN-13: 9780451529107

ISBN-10: 0451529103

Ano: 1993 

Páginas: 173

Idioma: português

Editora: Francisco Alves


Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/quarto-de-despejo-7123ed730714.html

sexta-feira, novembro 20, 2020

Ponciá Vicêncio - Quando a ausência também é forma de luta

Há livros que agem como divisores de águas em nossas vidas. Nesses casos, é impossível passar incólume por estes livros. A leitura deles sempre é um processo marcante e transformador.

Foi assim que me senti ao terminar Ponciá Vicêncio, romance de Conceição Evaristo. Era como se eu estivesse em um processo de troca de pele, sendo que a pele antiga era arrancada, ao invés de se desprender do corpo. Ao mesmo tempo, eu bebia a doçura de cada palavra da narrativa tecida por Conceição. Sorvia com sofreguidão essa narrativa cheia de pungência e afeto. Era também absorvido por ela, como se eu mesmo estivesse me liquefazendo.

Repleta de águas, a obra de Conceição Evaristo tem recebido cada vez mais atenção nos últimos anos. Tive o privilégio de adquirir meu exemplar de Ponciá Vicêncio em um evento que contava com a presença da autora. Assim, tenho o próprio traço anguloso e comprido de Conceição Evaristo na folha de rosto. 

Confesso, porém, uma falha minha. Tenho o romance há anos, mas não tinha separado tempo para empreender sua leitura. Pensava sempre que era preciso aplicar um tempo e um espaço próprios para começar a ler. Posso dizer, contudo, que foram o tempo e o espaço que me escolheram. Em meio à pandemia que tantas vidas ceifa, estive por meses encerrado em meu apartamento, dedicado ao teletrabalho e procurando pensar menos em tanta tristeza e perda que me cercavam.

Comecei então a viajar pelos olhos de Ponciá, sem saber, contudo, que muita tristeza e muita perda me aguardavam.

O romance narra a vida de uma mulher desde sua infância em um interior perdido, sua busca por melhores condições de vida em uma grande cidade e seu posterior envelhecimento. Sem se ater apenas à trajetória da protagonista, cujo nome recebe o título do livro, a narrativa apresenta também outras duas buscas: um irmão pela irmã e uma mãe pelos filhos. 

Temos então três jornadas que se desenrolam de forma íntima e muito similar. As três pessoas, três grandes personagens da obra, estão em busca de algo, além de si mesmas e umas das outras. E nos desencontros, encontros e reencontros essas pessoas vão testemunhando um mundo em que a escravidão e a exploração continuam dolorosamente presentes, até mesmo em seus sobrenomes, "Vicêncio", que foram "emprestados" do sobrenome do antigo dono de seus ancestrais, um tal coronel Vicêncio.

O tom de denúncia é fortemente marcado no romance de Conceição Evaristo. Apesar da crueza e da violência presentes no texto, é importante destacar o lirismo da obra, carregado de afetividade e momentos de singular beleza. Foi possível observar, também, um certo carinho por nossa oralidade, através de marcações presentes no texto, bem como curiosos neologismos, que carregam a marca do lirismo próprio das falas de nossa gente.

É importante destacar, também, que a revolta não se apresenta vazia. Cada personagem reage à violência de forma própria, sem se tornarem meros joguetes do destino. Inclusive Ponciá, com suas ausências, com a herança do avô, com os choros-risos. Há uma resistência até mesmo nessa aparente passividade da protagonista. Apesar da melancolia que vai sendo construída através do patente sofrimento dela, é possível encontrar um resquício de força, que se revela não pela violência, mas pelo afeto, pelo cuidado com os seus.

Com um lirismo arrebatador, uma pungência marcante e um enredo envolvente, o romance Ponciá Vicêncio é uma obra transformadora. Um romance completo em que muitas diversas vidas se convergem e encontram uma voz de esperança contra uma realidade muitas vezes silenciadora.


Ficha Técnica

Ponciá Vicêncio

Conceição Evaristo

ISBN-13: 9788571602618

ISBN-10: 8571602611

Ano: 2006 

Páginas: 128

Idioma: português

Editora: Mazza Edições


Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/poncia-vicencio-1070ed1423.html

sexta-feira, maio 29, 2020

Um amor incomodo - O mergulho em uma busca delirante

Delia é a mais velha de três irmãs. Carrega em si as complicações do relacionamento que tem com a mãe, Amália que já é idosa e vive sozinha em Nápoles. Quando Delia recebe a notícia de que Amália foi encontrada morta, ela se lança em uma angustiante caçada, na tentativa de entender as circunstâncias da morte de sua mãe.

Assim tem início o conturbado romance  de estreia de Elena Ferrante, Um amor incômodo. A narrativa acontece em Nápoles, cidade populosa e obscura, repleta de vielas torpes e homens perversos. Delia busca entender as circunstâncias da morte da mãe, que foi encontrada em uma praia da costa italiana. A única peça de roupa que Amália usava era um sutiã de um grife cara de Nápoles. Não havia sinais de violência, o que dava a entender que se tratava de um acidente, ou um suicídio. 

O passado de Amália, porém, é conturbado e repleto de mistérios. Esse passado se relaciona às memórias mais submersas de Delia, que se vê obrigada a revisitá-las incessantemente. E a cada mergulho no passado, novas revelações vão surgindo e como um palimpsesto, os traços das recordações vão sendo reescritos, reconstruídos e remontados. 

Não é fácil seguir o fio narrativo de Delia. Como testemunha não confiável de suas próprias memórias, a protagonista nos arrasta como vítimas desse passado que ganha cores e formas múltiplas. Repletas de desejo e violência.

Outro elemento a ser observado no romance é o tom de angustiada denúncia. A todo momento somos levados a presenciar alguma cena de violência de um homem contra uma mulher. Cenas que muitas vezes se desenrolam em plena luz do dia, em maio a diversas pessoas. Essa banalização da violência vai além do incômodo e chega a ser quase insuportável. 

Com um enredo repleto de sombras e mistérios, num jogo fabuloso de contrastes, o romance Um amor incômodo certamente será um percurso selvagem e delirante, um mergulho na loucura e na perversidade, uma experiência literária de fôlego e estômago.

Ficha Técnica
Um amor incômodo
Elena Ferrante
ISBN-13: 9788551001370
ISBN-10: 855100137X
Ano: 2017 
Páginas: 176
Idioma: português
Editora: Intrínseca

domingo, maio 17, 2020

Vídeo: Pense em quantos anos foram necessários para chegarmos a este ano - Ana Martins Marques



Hoje declamo o poema de Ana Martins Marques presente em "O livro das semelhanças":

Pense em quantos anos foram necessários para chegarmos a este ano
quantas cidades para chegarmos a esta cidade
e quantas mães, todas mortas, até tua mãe
quantas línguas até que a língua fosse esta
e quantos verões até precisamente este verão
este em que nos encontramos neste sítio
exato
à beira de um mar rigorosamente igual
a única coisa que não muda porque muda sempre
quantas tardes e praias vazias foram necessárias para chegarmos ao vazio
desta praia nesta tarde
quantas palavras até esta palavra, esta


Mais histórias e poesias em: http://www.oguardiaodehistorias.com.br/

sexta-feira, maio 08, 2020

Mamãe & Eu & Mamãe - A maternidade reconquistada

Maya Angelou é uma mulher incrível. Digo isso no presente porque, apesar de Maya já ter falecido, sua figura se mantém viva através de seu trabalho artístico, de seu ativismo, da força de suas palavras.
Autora de uma poesia potente e dona de uma mente incansável, Maya foi uma mulher forte e corajosa, uma desbravadora. Sua vida foi inaugurada por tragédias ainda muito cedo. Ainda assim, ela teve A força de superá-las, por intransponíveis que parecessem.

Um dos livros de Maya Angelou que retrata suas superações é Mamãe & Eu & Mamãe. Autobiográfico, o livro fala um pouco sobre essas tragédias, mas se foca principaente no resgate da relação entre mãe e filha e no quanto essa relação foi importante para Maya Angelou como artista, mulher e mãe. 

É interessante observar na narrativa a profunda e incontestável admiração que Maya sempre nutriu pela mãe. Inicialmente, tratava-se de uma admiração distante. Ela conta que sua mãe parecia uma artista de cinema, uma madame. 

O distanciamento se dava também pelo ressentimento. Quando era bem pequena, Maya foi enviada, junto com o irmão, para morar com a avó paterna. Eles só voltariam a morar com a mãe anos depois, quando Maya já estava no final da infância. Essa ausência teria causado em Maya e em seu irmão um distanciamento que parecia impossível de transpor. Tanto que ela não conseguia chamar Vivian de mãe, mas de "Lady".

A distância entre as duas, porém, vai sendo vencida pela franqueza, respeito e, sobretudo, pelo amor. Em nenhum momento, Vivian tentou se desculpar por ter mandado seus filhos para longe. Porém, ela se esforçou ao máximo para estar presente em suas vidas.

Foi impossível não me apaixonar pela pessoa de Vivian Baxter. Uma mulher altiva mas compassiva. Sempre disposta a ajudar, a tratar a filha como igual, sem deixar de oferecer a ela seu regaço de mãe. Repleto de fotos com Maya e Vivian juntas, trata-se de uma obra cálida e terna. Mamãe & Eu & Mamãe é uma homenagem e uma declaração de amor, além da mensagem forte de que com amor e dedicação, as relações de mãe e filha antes distantes entre si podem se transformar em laços impossíveis de serem rompidos. 

Ficha Técnica 
Mamãe & Eu & Mamãe
Maya Angelou
ISBN-13: 9788501114136
ISBN-10: 8501114138
Ano: 2018 
Páginas: 176
Idioma: português
Editora: Rosa dos Tempos

Perfil do livro no Skoob:

quarta-feira, abril 29, 2020

A biblioteca, as leituras de afeto e a oportunidade de escolha

Bruna e Sophia são crianças que por cerca de dois anos visitaram a Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte, onde trabalhei. Levadas por suas mães aos sábados, em geral mensalmente, essas meninas faziam questão que eu acompanhasse suas escolhas e que lesse para elas. 

Durante esse período, fizemos várias descobertas de bons livros. Alguns eu oferecia para ler, mas elas logo rejeitavam. Outros, pediam para que eu interrompesse a leitura pela metade. Havia aqueles, porém, que as encantavam a ponto de pedirem que fossem lidos novamente. 

Tanto a mãe de Sophia quanto a de Bruna são leitoras. Elas trocavam comigo suas experiências de leitura, o que tornava mais rica a mediação com as crianças. Além disso, ambas levavam muitos livros para casa, depois de longa exploração do acervo.

Sophia costumava exigir total dedicação. Já Bruna aceitava dividir minha atenção com outras crianças. Havia momentos em que elas participavam de oficinas literárias ou narrações de histórias. Contudo, a maior parte de nossas interações acontecia em leituras que eu fazia para elas, a partir de livros que escolhiam entre os exemplares disponíveis no acervo.

Foi fundamental o compromisso que as mães de Bruna e Sophia assumiram com a leitura e com a visitação à biblioteca. Mais ainda, elas deram às filhas, na mais tenra idade, o direito de escolher suas leituras. Esse protagonismo foi assumido pelas crianças com muita propriedade e consciência.

Existem muitas outras crianças, bem como suas mães e seus pais, que dão vida aos sábados da Biblioteca Pública Infantil e Juvenil. Assim como há inúmeras crianças e suas famílias que frequentam as 22 bibliotecas culturais de Belo Horizonte e tantas outras bibliotecas, espalhadas pelo país. Porém, decidi registrar aqui essas experiências com as duas meninas e suas mães pelo exemplo que elas são, de afetividade, de compromisso, de busca pelo prazer da literatura e pela silenciosa mensagem de que a Biblioteca é um lugar de muitos encontros.

domingo, abril 12, 2020

Vídeo: Crespim - Jussara Santos e Vivien Gonzaga

Crespim é um anjo diferente. Não quer tocar harpa ou trombeta. Quer tocar percussão. Assim, ele apronta a maior confusão. Seu desafio é unir um amor meio atrapalhado. Ele conseguirá? Vamos descobrir!



Ficha Técnica 
Crespim
Jussara Santos  
Desenhos de Vivien Gonzaga 
Editora Impressões de Minas

sexta-feira, março 20, 2020

Fragmentos de mulher - Ajuntando estilhaços de triste beleza

Tudo o que Lídia Maisha busca é paz. Negra, moradora de uma pequena cidade no interior de Minas, a menina cresce vendo sua inteligência ser desperdiçada e seu futuro ameaçado. Pobreza e exclusão, machismo e outras mazelas perseguem a menina, que no entanto continua a sonhar, mesmo diante de todas as dificuldades.

Assim tem início o romance memorialístico Fragmentos de mulher, de Ana Reis. Com um texto conciso, direto e muito bem equilibrado, a narradora desfia seus percalços, num tom confessional que de primeira conquista o leitor.

Apesar de uma leitura sucinta e ligeira, os leitores inadvertidos não podem pensar que se trata de um texto leve. A prosa de Ana Reis é densa pela crueza da realidade da protagonista, de sua franqueza, de seus questionamentos diante das injustiças de um mundo que insiste em lhe fechar as portas.

Porém, a obra também surge banhada de luminosidade, como anuncia o girassol da capa. Assim, quem se aventurar pelas páginas de Fragmentos de mulher encontrará um texto belo, uma prosa firme e o relato de uma vida que sempre buscou por raios de luz.

Ficha Técnica 

Título: Fragmentos de mulher 
Autora: Ana Reis 
Editora: Mulungu
Páginas: 112

sexta-feira, março 13, 2020

Interiorana - Luta e afeto em pura poesia

Há poemas que nos tomam pela mão e nos guiam por seus lugares, suas veredas familiares. Outros, nos estapeiam, esmerilham, massacram, arrasam. E quando um poema faz as duas coisas ao mesmo tempo?

Interiorana, de Nívea Sabino, é um pouco assim. Livro de estreia de Nívea e recentemente reeditado, recolhe em si poemas de protesto, lirismo e uma certa dose de homenagem a sua terra natal, Nova Lima, sem esquecer BH, que a acolheu e acolhe.

Assim, a leitura de Interiorana passa por uma miríade de sentimentos e impressões. Guerreira das palavras, participante de Slams, Nívea mostra sua agilidade com uma linguagem afiada para o combate. Porém, ela não se esquece do amor e de suas belezas. Somos então brindados por versos cálidos, que suavizam o clima de luta, sem acobertá-lo. 

Há também aqueles poemas que cantam os lugares que Nívea elege como seus. Não se esquece da denúncia ao falar da exploração do ouro em Nova Lima, bem como de outras explorações, ainda muito patentes. Ela não se esquece também de cantar o bar e seu lugar em BH, em um belo jogo de palavras.

Não posso deixar de falar das belíssimas ilustrações de Raíssa Agrissano que compõem o livro, dialogando de forma simbiótica com os poemas, em uma composição que transpõe os limites das Artes e permitem uma rica experiência sinestésica.

Não há como passar incólume pelos poemas de Nívea Sabino. E atravessar Interiorana é vivenciar uma Minas por tantos silenciada, repleta de lutas e desafios. Sobretudo, belezas.

Ficha Técnica 
Interiorana
Nívea Sabino
ISBN-13: 9788554095703
ISBN-10: 8554095707
Ano: 2018 
Páginas: 140
Idioma: português
Editora: O Lutador

Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/livro/841621ED846780

domingo, março 08, 2020

Um dia que é todo dia

Sou daqueles que sabem como um parabéns pode ser vazio, se não houver consciência e respeito.

Não queria, porém, passar por omisso. Afinal, num mundo de performance e personas, o silêncio também grita.

Fica difícil fazer as palavras deixarem o lugar comum. Qualquer tentativa pode soar pálida ou oportunista.

Afinal, este dia que finda marca uma luta que está longe de acabar, infelizmente. E essa luta é diária, contra toda forma de violência.

Que todos possamos, antes de qualquer coisa, lembrar. E que com nossa memória, possamos reviver os sacrifícios feitos, para que mais sacrifícios não precisem ocorrer.

Não é apenas um dia. É sempre.

Originalmente publicado no Facebook dia 8 de março de 2016.

segunda-feira, março 02, 2020

MATER

CANSADO ESTOU
DOS DIREITOS
PATERNOS
O PATER
QUE TOMA
USA E DEPOIS
DESCARTA
EVOCO
O PODER
DO VENTRE
DO SEIO
DO FEMININO
QUE SEJA
O TEMPO
DAS DEUSAS
QUE VENHA
ABAIXO O
MASCULINO
QUERO
O DIREITO
A UMA
MÁTRIA

sexta-feira, fevereiro 28, 2020

Um defeito de cor - a voz e a força de uma mulher negra

Há muitos anos vinha desejando ler Um defeito de cor, obra épica de Ana Maria Gonçalves. Adiei por tempo demais. Até que o destino nos colocou juntos: fui escalado para mediar uma mesa com a Ana Maria e com Marcelino Feire no terceiro FLI-BH. 

Assim, o desafio de ler essa obra de centenas de páginas era algo do qual não poderia mais fugir. Afinal, essa é a obra de referência da autora e o motivo de sua escolha para a mesa com o tema que unia a vivência e a escrita.

Foi com essas questões em mente que dei início à leitura de Um defeito de cor. E o que a princípio seria uma leitura técnica se tornou um percurso selvagem e apaixonado, através da voz de uma africana, chamada Kehinde, que confidencia em uma longa carta sua vida, suas escolhas e lutas.

De fato, Kehinde é, antes de tudo, uma lutadora. Vítima e testemunha de uma abjeta violência ainda em sua terra natal, a ainda menina vai desenhando aos olhos dos leitores suas experiências com uma grande carga de inocência. Mesmo quando, mais tarde, ela e a irmã são sequestradas e levadas como escravas, a menina mantém essa pureza que a faz forte, capaz de superar as violências.

A partir do percurso feito para atravessar o Atlântico, tem início o que eu considerei a parte mais difícil do livro. Ter consciência quase gráfica das violações suportadas pelos africanos escravizados é algo diante do qual é impossível ficar indiferente. O sofrimento é visceral, implacável, repleto de crueza, não poupando idosos ou crianças. Na travessia, todas as dignidades foram estupradas das pessoas e, para mim, é impossível não pensar em reparação. 

O enredo prossegue, assim como as violências, já em solo colonial. A narrativa, porém, assume um pouco mais de leveza, a partir da inteligência e tenacidade de Kehinde, que busca assumir o leme da própria vida, mesmo em condições tão adversas. A resistência e inventividade de Kehinde por vezes lhe garantem consequências desastrosas.

Outro ponto a se destacar na narrativa é a profunda curiosidade espiritual de Kehinde. Ela tem memórias de ritos e cultos realizados em África e na medida que pode, vai expandindo seu conhecimento na tradição de seus antepassados.

É preciso destacar que o livro de Ana Maria Gonçalves busca em fatos históricos ancorar sua narrativa. Sendo assim, somos apresentados a personagens e acontecimentos que marcaram a história da Bahia do século XIX, bem como de outros lugares, como a Costa de Mina, na África. 

É importante destacar também que a vida de Kehinde, nomeada no Brasil como Luísa Gama, se entrelaça à vida de uma pessoa fundamental para o movimento abolicionista. Fazer tal descoberta, enquanto lia o prefácio, trouxe-me lágrimas aos olhos.

Com uma narrativa densa, mas nem um pouco enfadonha, repleta pelo esmero em detalhes históricos e na profundidade de suas personagens, Um defeito de cor é um épico imperdível para quem quer conhecer mais sobre sua história e seu povo.

Ficha Técnica 
ISBN-13: 9788501071750
ISBN-10: 8501071757
Ano: 2006
Páginas: 952
Idioma: português
Editora: Record

sexta-feira, fevereiro 07, 2020

Vídeo: A moça tecelã - Marina Colasanti

Olás a todas! Compartilho com vocês o primeiro vídeo de 2019:


Leitura do conto presente no livro "Antes de virar gigante", da série Para Gostar de Ler Júnior, da Editora Ática.



sexta-feira, julho 12, 2019

O peso do pássaro morto - O peso de uma vida quebrada

Quanto pesa um pássaro em pleno voo? Qual a diferença desse mesmo pássaro, depois de morto? Quanto pesa uma vida? Como medir a memória que se tem, mesmo aquela que se tem, a despeito de não desejá-la?

Assim como essas perguntas podem gerar inúmeras outras, há livros que nos lançam em torvelinos de questionamento. Da mesma forma que revisitamos nossas lembranças com a fórmula "e se?", muitas narrativas nos tocam a ponto de tomá-las como nossas. Assim, começamos a usar essa mesma fórmula no enredo. "E se ela não tivesse feito aquela viagem? E se ele tivesse agido diferente?"

O peso do pássaro morto foi um livro que me arrebatou de tal maneira que ao seu término eu me senti em suspenso. Era como se minha memória não existisse mais, como se minhas palavras estivessem fadadas ao silêncio, tal era a força das palavras desse livro.

Romance de estreia de Aline Bei, este é um livro pungente. O enredo segue um trecho da vida de uma mulher, sendo ela a narradora. Esse é o primeiro grande impacto do livro. Narrado em tom intimista, o texto faz do leitor um voyeur, alguém que inadvertidamente penetra na mente de outra pessoa e a observa em silêncio. 

Ao mesmo tempo, o tom da narrativa soa confessional. Assim, somos também cúmplices da narradora, ao darmos escuta a essa menina-mulher em sua jornada de amadurecimento e descoberta. 

Esse, também a meu ver, é o segundo grande impacto que o livro tem. Nesse pêndulo, o leitor é intruso e convidado. A narradora é perspicaz, espirituosa e cativante. Creio ser impossível não se apaixonar por ela. E não se comover com os impasses que ela sofre em sua trajetória.

Por fim, esse é o terceiro impacto que o livro causou sobre mim. Já nas palavras da menina que era levada pela mãe para ser benzida por um curandeiro, podemos ver a sensibilidade poética da narradora. E a poesia é evidente também no ritmo do texto, construído em verso livre. 

Este não é um livro fácil. Ou feliz. É um texto forte e poderoso. Uma narrativa profunda e visceral. De um impacto semelhante a uma pedra que derruba um pássaro em pleno voo.

Ficha Técnica 
O peso do pássaro morto 
Aline Bei 
Editora NOS
Ano: 2017
Páginas: 167

quarta-feira, junho 26, 2019

Poesia em Turbilhão: Segundo ConVerso de LiteraRua


A Poesia é algo livre. Por vezes, tentamos encerrá-la em formas, mas ela acaba escapando. E o maravilhoso disso é que ela nos puxa para fora de nossa própria gaiola. Nos desconstrói e transforma, fazendo de nós parte dela, num turbilhão de sentidos.

Podemos ver esse fenômeno acontecer quando a Poesia deixa o papel e a tela para habitar as vozes e espaços. Eventos como o Segundo ConVerso de LiteraRua, que procurou celebrar a Poesia, especialmente Marginal.

O ConVerso de LiteraRua foi organizado e produzido pelo Circuito Metropolitano de Saraus.

Compareci ao Usina da Cultura no sábado, dia 15 de junho, às 9h. No centro do salão, cadeiras em roda em frente ao palco, onde algumas pessoas terminavam de fazer os últimos ajustes de som. Cumprimentei o bibliotecário, Diego Dávila, além de outras pessoas da equipe. Andei um pouco pelo espaço, timidamente observando o movimento que crescia.

A primeira roda de conversa, com o tema "Experiência do fazer em espaço público, direito à cidade e ocupação política" contou com a presença de Renato Negrão e Thais Kas. O mediador foi Rogério Coelho, que deu início com uma reflexão ao falar de LiteraTerra.

Negrão e Kas apresentaram suas vivências no fazer cultural e na difusão da poesia marginal. Foi muito interessante ver duas pessoas de perfis tão diferentes, uma da velha guarda e outra da geração mais recente de agitadores poéticos. Em dado momento, Renato passou um livro objeto de sua autoria e assinalou a importância de termos memória, de buscarmos os arquivos ainda vivos da poesia marginal da década de 1990.

Enquanto isso, Thais Kas falou sobre suas referências e os desafios atuais de sua poesia. Além disso, falou de seu amor pela produção, em especial nas ações da Coletiva Manas, da qual faz parte.

Ao final da mesa, o Coletivo Terra Firme se apresentou. Em seguida, fiz um passeio pela feira e já adquiri alguns materiais independentes, zines e marcadores de escritoras que estavam expondo.

Houve então a pausa para o almoço. Aproveitei para escapulir e almoçar em casa. Não participei das atividades da tarde, embora desejasse muito, mas precisava de um descanso. Enquanto eu estava fora, ocorreram as oficinas "Criação de performance poética" pelo Nosso Sarau, de Sarzedo, e "Escrita Criativa-poética" do Sarau Biqueira Cultural, de Ribeirão das Neves.

Cheguei a tempo de pegar o início da segunda roda: "Formação de leitores e público por meio da LiteraRua marginal de Saraus & Slams em diálogo em escolas & Bibliotecas públicas", com Oliver Lucas, Norma De Souza Lopes, Rodrigo Teixeira e Marta Passos. Mediando essa galera estavam Joi Gonçalves e Bim Oyoko.

A fala foi rica e profunda, a partir de diversas visões. A abordagem acadêmica e conceitual de Marta Passos dialogou com a vivência de Norma de Souza Lopes, Oliver Lucas e Rodrigo Teixeira. Este último apresentou uma fala descontraída e repleta de humor, quase como um comediante de stand up. Norma enriqueceu a conversa ao apresentar seu extenso e exaustivo trabalho de mediação de leitura, assim como Oliver também o fez.

Ficou presente com força em minha mente a fala de Marta Passos sobre a política como a contestação da ordem estabelecida. Segundo ela, é o que a poesia marginal faz, sendo ela um dinâmico e transformador fazer político.

Infelizmente, perdi o show da banda Mascucetas, pois precisava ir ao evento "Caldos, Causos e Violas", no Espaço Suricato. Uma festa com sua própria história e que também fala de Arte e Resistência.

No domingo, cheguei cedo para a oficina "Confecção de Zines & Livros" pelo Coletivo Lanternas, de Venda Nova. O mediador, Digô, foi extremamente atencioso e paciente. Fiquei encantado ao ter em mãos dois novos cadernos para serem transformados em histórias e relatos.

No andar de cima da Usina, acontecia a oficina "Edição de vídeo-foto-poesia", pelo Coletivo Avoante, daqui mesmo de BH.

Saímos para o almoço e retornamos para a terceira roda: "Mercado Literário das editoras & feiras independentes, políticas de incentivo à cultura e a profissionalização da literarua marginal". Para discutir a questão, ouvimos Nívea Sabino, Flávia Denise, Jomaka e Walisson Gontijo. Foi uma conversa de desafios e identidades. 

Nívea contestou muito a lógica de uma profissionalização do artista marginal. Inclusive ela defendeu seu profissionalismo, e com muita propriedade. Flávia falou de sua pesquisa e do conceito incerto de "escritor independente". Sua fala me fez refletir, principalmente depois de ter escrito um texto abordando esse assunto. 

Jomaka então fez um poderoso relato de experiência como escritor trans e ativista na luta antimanicomial. Sua experiência é sofrida e angustiante, mas também encorajadora e potente.

A experiência de Walisson Gontijo, na criação da editora Impressões de Minas junto com Elza, foi muito rica e ajudou a vislumbrar um pouco esse cenário de feiras de editoras independentes a partir do olhar de um editor.

Ao final do dia, pudemos assistir a intervenção da Coletiva Manas, com performances de Lelê Cirino, Jéssica Rodrigues, Débora Rosa e Bruxa. Outras poetas se apresentaram quando o microfone foi aberto.

Aconteceram então plenárias para discutir as ações do Circuito. Não fiquei, pois estava exausto. Porém, deixei claro meu interesse em acompanhar os desdobramentos, como amante da poesia falada e dos saraus da Grande BH.

O evento foi potente, para mim. Reencontrei pessoas, conheci novas faces e fiquei encantado com os trabalhos e livros de muita gente que lá estava. Se pudesse, compraria tudo. E também fui impactado com as falas profundas e responsáveis de todas as pessoas envolvidas. Gostaria de saudar o envolvimento de toda a galera do Circuito Metropolitano de Saraus, em espacial de Camila Félix, DuduLuiz Souza e Vito Julião. E para todas as pessoas envolvidas. Foi maravilhoso estar nesse turbilhão poético!








sexta-feira, junho 21, 2019

Borda - sobre uma melancolia de luz

Por vezes, a Poesia nos pega pela mão e nos leva até a beira do precipício. Ela então nos convida a debruçar e olhar o vazio que existe lá embaixo. E se nos negamos a isso, ela nos pega pelas bochechas e nos faz olhar em seus olhos - onde veremos o mesmo vazio. Podemos até fechar os olhos, mas nós já entramos em sua dança, e ela nos conhece muito bem. É impossível sairmos imunes.

Foi assim que me senti ao terminar Borda, de Norma de Souza Lopes. A voz da poeta belo-horizontina me levou ao silêncio e ao vazio. Mas esse mesmo vazio escondia uma semente de múltiplas possibilidades.

Não há como ler a poesia de Norma e não se sentir um pouco ela. Afinal, ela vai deixando marcas de sua alma nos versos, como "metassinaturas". Sua história marca a palavra de seus Poemas como as cavernas com pinturas rupestres.

Há uma tristeza resignada em seus poemas. Não devemos confundir, porém, com conformismo. Sua resignação está mais para uma voz que admite seus silêncios, seus tropeços, sua condição. Mas nessa mesma resignação é firmada a trincheira da resistência e da luta.

Ainda que haja essa tristeza na maior parte dos poemas, algo como a certeza de que o Amor é miragem, há como que traços de luminosidade, apontando para uma esperança despretensiosa. A voz poética não quer ter razão. Apenas se permite sonhar, a despeito da dor, da angústia, do sofrimento e da rejeição.

Uma tristeza luminosa que nos aponta para o vazio e o escuro que em nós existe, enquanto nos convida a abraçar esse breu, fazer dele um ponto de calor e aconchego, onde possamos fazer brilhar nossa própria luz.

Ficha Técnica 
Borda
Norma de Souza Lopes 
Número de Páginas: 100
Formato: 14x21 
Editora Patuá

Aproveito para compartilhar aqui o vídeo em que eu declamo o poema "Tombo", que faz parte do livro: