Subindo a rua
Uma multidão
Várias mulheres
E um homem
Não tenho
Problema nenhum
Em dizer
Que eram Elas.
Blog do escritor e contador de histórias Samuel Medina. Aqui você encontrará resenhas de livros, contos, crônicas, relatos de experiência e poemas. Além de informações sobre meus livros.
Subindo a rua
Uma multidão
Várias mulheres
E um homem
Não tenho
Problema nenhum
Em dizer
Que eram Elas.
Nuang é uma narrativa sobre prisão, escravização e liberdade. Uma narrativa aberta. Inspirada na cultura dos povos Banto, conta a trajetória de uma menina que tem em si o talento e a sabedoria para guiar seu povo rumo à libertação.
Ficha Técnica
Nuang - Caminhos da liberdade
Janine Rodrigues
Luciana Nabuco
ISBN-13: 9788592577070
ISBN-10: 8592577071
Ano: 2017 / Páginas: 38
Idioma: português
Editora: Piraporiando
Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/nuang-779998ed784723.html
Depois de meu encontro com as narrativas de Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo, fui tomado por um senso de urgência em ler mais autoras negras. Assim, li Jarid Arraes, Eliana Alves Cruz e, agora, mergulho na literatura de uma mulher de discurso forte, duro, poético e quase desesperado.
Sim, é possível perceber o senso de urgência no clamor Maria Firmina por um mundo diferente daquele que ela vive, onde a sociedade machista e preconceituosa de homens brancos, ricos e violentos usam de seus desmandos quase como deuses.
Estou terminando o livro Úrsula e outras obras. Logo que tiver terminado, pretendo falar um pouco mais sobre essa seminal experiência de leitura.
Úrsula e Outras Obras
Maria Firmina dos Reis
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ISBN-13: 9788540203471
ISBN-10: 8540203472
Ano: 2018
Páginas: 307
Idioma: português
Editora: edições câmara
Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/ursula-e-outras-obras-802621ed806431.html
Em meu percurso, sempre me esquivava em ler essa obra que hoje considero de leitura fundamental para qualquer pessoa, principalmente quem nasceu e mora no Brasil. Foi preciso que uma Pandemia se interpusesse em meu caminho para que eu começasse a pensar no quão fundamental era conhecer mais de perto Carolina Maria de Jesus.
Mergulhei então em um percurso errático, doído, calcado em crueza. Foi necessário percorrer o livro duas vezes. E digo que considerei necessário porque a cada página, percebia como eu havia sido negligente por ainda não ter lido Carolina.
Em seu diário, Carolina procura anotar tudo, como se tentando apreender em sua totalidade a realidade e o tempo em que vive. Como um escrevinhador compulsivo, senti imediatamente uma grande identificação. Também tenho meus diários e cadernos. O teor do texto, contudo, é outro. Enquanto meus diários costumam ser protocolares, Carolina devaneia, divaga, observa o mundo, poetiza a vida.
Há uma evidente genialidade no lirismo que se esconde nas páginas de Quarto de despejo. Essa não é a única marca de tal engenho. Carolina Maria de Jesus reflete, observa e questiona, sendo capaz de construir em seu diário máximas inesquecíveis. Eu me vi querendo anotar e memorizar cada uma das profundas observações de Carolina.
Ao mesmo tempo, é contundente observar o abandono ao qual a autora é relegada. Em um ambiente de penúria e animosidade, ela busca lutar com as armas que tem - as palavras - para sobreviver e criar seus filhos com dignidade. E essa talvez seja uma das maiores buscas de Carolina: dignidade para viver e se expressar através da arte literária.
Ao encerrar a leitura de Quarto de despejo, eu tinha a certeza de ter encontrado uma voz genial. E fui tomado pela tristeza por saber que essa voz foi e por vezes continua sendo censurada, cortada, silenciada.
Ficha Técnica:
Quarto de Despejo
Carolina Maria de Jesus
ISBN-13: 9780451529107
ISBN-10: 0451529103
Ano: 1993
Páginas: 173
Idioma: português
Editora: Francisco Alves
Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/quarto-de-despejo-7123ed730714.html
Foi assim que me senti ao terminar Ponciá Vicêncio, romance de Conceição Evaristo. Era como se eu estivesse em um processo de troca de pele, sendo que a pele antiga era arrancada, ao invés de se desprender do corpo. Ao mesmo tempo, eu bebia a doçura de cada palavra da narrativa tecida por Conceição. Sorvia com sofreguidão essa narrativa cheia de pungência e afeto. Era também absorvido por ela, como se eu mesmo estivesse me liquefazendo.
Repleta de águas, a obra de Conceição Evaristo tem recebido cada vez mais atenção nos últimos anos. Tive o privilégio de adquirir meu exemplar de Ponciá Vicêncio em um evento que contava com a presença da autora. Assim, tenho o próprio traço anguloso e comprido de Conceição Evaristo na folha de rosto.
Confesso, porém, uma falha minha. Tenho o romance há anos, mas não tinha separado tempo para empreender sua leitura. Pensava sempre que era preciso aplicar um tempo e um espaço próprios para começar a ler. Posso dizer, contudo, que foram o tempo e o espaço que me escolheram. Em meio à pandemia que tantas vidas ceifa, estive por meses encerrado em meu apartamento, dedicado ao teletrabalho e procurando pensar menos em tanta tristeza e perda que me cercavam.
Comecei então a viajar pelos olhos de Ponciá, sem saber, contudo, que muita tristeza e muita perda me aguardavam.
O romance narra a vida de uma mulher desde sua infância em um interior perdido, sua busca por melhores condições de vida em uma grande cidade e seu posterior envelhecimento. Sem se ater apenas à trajetória da protagonista, cujo nome recebe o título do livro, a narrativa apresenta também outras duas buscas: um irmão pela irmã e uma mãe pelos filhos.
Temos então três jornadas que se desenrolam de forma íntima e muito similar. As três pessoas, três grandes personagens da obra, estão em busca de algo, além de si mesmas e umas das outras. E nos desencontros, encontros e reencontros essas pessoas vão testemunhando um mundo em que a escravidão e a exploração continuam dolorosamente presentes, até mesmo em seus sobrenomes, "Vicêncio", que foram "emprestados" do sobrenome do antigo dono de seus ancestrais, um tal coronel Vicêncio.
O tom de denúncia é fortemente marcado no romance de Conceição Evaristo. Apesar da crueza e da violência presentes no texto, é importante destacar o lirismo da obra, carregado de afetividade e momentos de singular beleza. Foi possível observar, também, um certo carinho por nossa oralidade, através de marcações presentes no texto, bem como curiosos neologismos, que carregam a marca do lirismo próprio das falas de nossa gente.
É importante destacar, também, que a revolta não se apresenta vazia. Cada personagem reage à violência de forma própria, sem se tornarem meros joguetes do destino. Inclusive Ponciá, com suas ausências, com a herança do avô, com os choros-risos. Há uma resistência até mesmo nessa aparente passividade da protagonista. Apesar da melancolia que vai sendo construída através do patente sofrimento dela, é possível encontrar um resquício de força, que se revela não pela violência, mas pelo afeto, pelo cuidado com os seus.
Com um lirismo arrebatador, uma pungência marcante e um enredo envolvente, o romance Ponciá Vicêncio é uma obra transformadora. Um romance completo em que muitas diversas vidas se convergem e encontram uma voz de esperança contra uma realidade muitas vezes silenciadora.
Ficha Técnica
Ponciá Vicêncio
Conceição Evaristo
ISBN-13: 9788571602618
ISBN-10: 8571602611
Ano: 2006
Páginas: 128
Idioma: português
Editora: Mazza Edições
Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/poncia-vicencio-1070ed1423.html