sexta-feira, dezembro 18, 2020

Quarto de despejo - A genialidade em meio ao abandono


Quando prestei o vestibular para a UFMG em 2001, havia entre as obras escolhidas o livro Quarto de despejo. Pouco sabia dessa obra autobiográfica, de uma autora vista como semianalfabeta. Ouvia que a obra era quase impossível de ser lida, por conta da quantidade de erros de português. E naquela época, quando eu ainda não havia desconstruído tantos dos preconceitos que ainda carrego, deixei de lado qualquer senso de obrigação em ler esse livro. Logicamente, não passei no vestibular. 

Em meu percurso, sempre me esquivava em ler essa obra que hoje considero de leitura fundamental para qualquer pessoa, principalmente quem nasceu e mora no Brasil. Foi preciso que uma Pandemia se interpusesse em meu caminho para que eu começasse a pensar no quão fundamental era conhecer mais de perto Carolina Maria de Jesus.

Mergulhei então em um percurso errático, doído, calcado em crueza. Foi necessário percorrer o livro duas vezes. E digo que considerei necessário porque a cada página, percebia como eu havia sido negligente por ainda não ter lido Carolina.

Em seu diário, Carolina procura anotar tudo, como se tentando apreender em sua totalidade a realidade e o tempo em que vive. Como um escrevinhador compulsivo, senti imediatamente uma grande identificação. Também tenho meus diários e cadernos. O teor do texto, contudo, é outro. Enquanto meus diários costumam ser protocolares, Carolina devaneia, divaga, observa o mundo, poetiza a vida.

Há uma evidente genialidade no lirismo que se esconde nas páginas de Quarto de despejo. Essa não é a única marca de tal engenho. Carolina Maria de Jesus reflete, observa e questiona, sendo capaz de construir em seu diário máximas inesquecíveis. Eu me vi querendo anotar e memorizar cada uma das profundas observações de Carolina. 

Ao mesmo tempo, é contundente observar o abandono ao qual a autora é relegada. Em um ambiente de penúria e animosidade, ela busca lutar com as armas que tem - as palavras - para sobreviver e criar seus filhos com dignidade. E essa talvez seja uma das maiores buscas de Carolina: dignidade para viver e se expressar através da arte literária.

Ao encerrar a leitura de Quarto de despejo, eu tinha a certeza de ter encontrado uma voz genial. E fui tomado pela tristeza por saber que essa voz foi e por vezes continua sendo censurada, cortada, silenciada.


Ficha Técnica:

Quarto de Despejo

Carolina Maria de Jesus

ISBN-13: 9780451529107

ISBN-10: 0451529103

Ano: 1993 

Páginas: 173

Idioma: português

Editora: Francisco Alves


Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/quarto-de-despejo-7123ed730714.html

2 comentários:

Pam disse...

Nossa, estou já querendo comprar pra ler. É mais difícil eu ler no celular como vc. Mas essa resenha me deixou muito desejosa pela leitura. Pensar na potência da Carolina Maria de Jesus e no quanto ela foi e ainda é negligenciada deixa a gente inconformado. Obrigada pela resenha!

Samuel Medina (Nerito Samedi) disse...

Pam, também não acho fácil ler no celular. Tenho um monte de livros digitais acumulados para ler. Faz parte.
Agora, recomendo que leia o quanto antes. Quero me familiarizar com toda a obra de Carolina. É um dever ético, estético e político!