sexta-feira, julho 30, 2021

O tigre que veio para o chá da tarde - Quando a vida apronta uma daquelas



Está tudo pronto para o chá. De repente, um tigre faminto chega, pedindo comida! É isso mesmo. Você não se equivocou. O livro conta o que o título já avisa.

O problema é que o tigre parece insaciável. Não tem problema. Deixe-o comer. Mãe e filha fazem isso, sempre encarando a situação com bom humor e doses enormes de afeto.

Judith Kerr traça então uma narrativa inusitada com total naturalidade. Atônito fiquei eu, enquanto lia. E curioso para saber como mãe e filha resolveriam a questão.

O livro O tigre que veio para o chá da tarde é uma daquelas obra sensíveis e poeticamente misteriosas, que exigem de nós certa dose de fabulação e conformidade. Não adianta estranharmos a situação inusitada. Ou melhor, adianta, sim. Talvez seja esse o desejo da autora.

Enquanto li, eu ficava cada vez mais surpreso com os acontecimentos. Não podia deixar de ter alguns calafrios com o sorriso enigmático do tigre. Era como se ele sempre escondesse alguma coisa, ou estivesse pronto para a qualquer momento devorar a menina e sua mãe.

Mas assim é a vida: Pronta para puxar nosso tapete e nos virar de ponta-cabeça. Em situações assim, o que devemos fazer? De repente, dar uma cambalhota!

(Descrição da imagem: Fotografia de mão de pele clara que segura um livro. A capa do livro tem fundo branco, criança de cabelos amarelos sentada em uma mesa, de frente. À direita, tigre também sentado à mesa. A criança está de blusa azul, vestido roxo e meia calça xadrez. Calça sapatos pretos. Ela está de perfil direito. Já o tigre está de frente, com as patas dianteiras pousadas sobre a mesa.) 


Ficha Técnica

O tigre que veio para o chá da tarde

Judith Kerr

Tradução de Érico de Assis

ISBN-13: 9786555110791

ISBN-10: 6555110791

Ano: 2021 

Páginas: 32

Idioma: português

Editora: HarperCollins


Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/o-tigre-que-veio-para-o-cha-da-tarde-11809265ed11810037.html

quarta-feira, julho 28, 2021

Para todo mundo


O direito à saúde e à vida deveria ser um direito de todas as pessoas. Infelizmente, há quem as transforme em mercadoria. E desta forma, quem tem pode pagar. Mas e quem não tem?

Meu sonho é que todas necessidades das pessoas se tornem direitos básicos. Meu sonho é que ninguém precise se degradar para ter a saúde que precisa, ou a cultura, ou os alimentos. A humanidade pode fazer isso. Sim, a humanidade pode ser melhor.

Na última quinta-feira, dia 15 de julho de 2021, eu recebi a primeira dose da vacina contra COVID-19. Dois dias antes, quando eu soube que minha faixa etária (39 anos) seria contemplada pela campanha de vacinação aqui em BH, senti meu coração pular de alegria. Eu me senti literalmente privilegiado. E um sobrevivente.

Só de pensar que tantas pessoas mais jovens e mais saudáveis que eu morreram de uma doença que já tem vacina, percebo o absurdo do mundo em que vivemos. Ao mesmo tempo, só de pensar que, se não fosse o SUS, talvez a vacinação estaria muito mais atrasada do que já está, percebo como o SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE é um gigante, um poderoso aliado para a nossa saúde, de todas as pessoas que vivem neste país. 

Por isso, sempre que souber de mais uma pessoa vacinada, sempre que for informado sobre uma nova faixa etária contemplada na campanha de vacinação, não irei hesitar. Vou vibrar e dizer: VIVA O SUS!

Descrição da imagem: Fotografia onde eu estou vestido com uma camiseta de cor vinho. Na camisa está estampado o desenho de um jacaré. À direita, recebo no braço a injeção da vacina. Sou branco, tenho os cabelos amarrados para trás, estou de máscara azul e óculos retangulares. 

segunda-feira, julho 26, 2021

Sinto saudade dos abraços


Sinto saudade dos abraços.

Dizer isso é pouco.

Sinto falta do toque 

do calor. 

Desse pertencimento 

que só se transmite assim, 

pele na pele. 

Ai como sinto 

com toda força 

o não sentir.

sexta-feira, julho 23, 2021

O Crime do Cais do Valongo - O poder das vozes de além




É difícil falar de um livro tão complexo e rico como O crime do Cais do Valongo. Escrito como uma narrativa composta, com mais de uma voz, o texto de Eliana Alves Cruz nos brinda com um enredo envolvente, com motivo histórico, mostrando que muitas de nossas mazelas são antigas.

No romance, conhecemos Nuno, um rapaz jovem e alegre, amante da vida e muito esperto. Por saber que, sendo mestiço, tem poucas chances de ascensão social, Nuno busca nos negócios uma chance de melhorar sua vida. O problema é que o jovem tem uma dívida com um português, aparentado com o Intendente Geral de Polícia, que responde diretamente a D. João VI.

A situação se complica para Nuno quando o credor da dívida aparece morto e seu corpo, mutilado. Temendo que a culpa caísse sobre ele, o jovem inicia uma investigação por conta própria, enquanto se aproxima do responsável pelo caso, o intendente em pessoa.

Além da voz de Nuno, temos também Muana Lómuè. Ela foi escravizada e trabalhava para a vítima. Moçambicana, Muana tem poderes que os olhares europeus não conseguem explicar. Muana fala de seu povo, macua, e sua Grande Mãe, Nipele. Muana tem capacidade de enxergar os mortos. Há outras duas personagens que trabalhavam para a suposta vítima: Roza e Marianno. Cada um deles tem características marcantes e poderes misteriosos.

Enquanto acompanhamos as vozes de Nuno e Muana, vamos nos questionando qual seria o verdadeiro crime. Não seriam os horrores provocados pelos traficantes das pessoas escravizadas? Cada capítulo se abre com um anúncio de jornal e alguns deles são de pessoas vendidas para o tráfico de escravizados. Os anúncios foram de fato consultados em documentos dos jornais do Brasil colonial. E mostram a vileza dos portugueses em negociar vidas inocentes, inclusive crianças. 

Um elemento interessante é que a autora com sua obra homenageia o romance policial, com reviravoltas e mistérios que envolvem cada personagem. O livro, porém, não é um romance policial e sim uma obra de denúncia social e um romance histórico. Uma obra poderosa sobre a resistência de povos que foram retirados à força de sua terra, mas que lutaram para que sua terra não fosse arrancada deles.


Ficha Técnica

O crime do Cais do Valongo

Eliana Alves Cruz

 Nenhuma oferta encontrada

ISBN-13: 9788592736279

ISBN-10: 8592736277

Ano: 2018 

Páginas: 202

Idioma: português

Editora: Malê


Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/o-crime-do-cais-do-valongo-782206ed787048.html

segunda-feira, julho 19, 2021

A moça na janela

Imagem de Frank Winkler por Pixabay 

Ele morava sozinho. Uma das janelas do seu apartamento dava para uma casa abandonada.

Uma noite, ele acordou e não conseguiu mais dormir. Foi beber uma água. Enquanto virava o copo na boca, olhava distraidamente pela janela.

Havia uma luz na casa abandonada. Era uma luz fraca, de lamparina, candeeiro. Ele não deu muita importância. Até que a imagem de uma bela moça surgiu na janela. A moça era jovem e tinha uma beleza melancólica. 

No dia seguinte, ao ir para o trabalho, passou em frente à casa. Ela tinha a mesma imagem de decrépito abandono. Achou que havia sonhado.

A insônia continuou. Era sempre no mesmo horário que ele despertava e perdia o sono. Da cozinha, via a moça melancólica. Uma noite, ele percebeu que a moça se despia sob luz da lamparina. Excitado, ele não conseguia tirar os olhos dela.

Quando então a moça virou-se para a janela e fitou o rapaz. Ele estremeceu, enquanto ouviu alguém sussurrar em seu ouvido esquerdo:

- Tá olhando o quê?

sexta-feira, julho 16, 2021

Nós: Uma antologia de literatura indígena - As vozes de todos no silêncio de cada um


Para quem acredita no na ilusão de "povo brasileiro", como se fôssemos uma só nação, certamente sua ideia acolhe um grande equívoco. No início da invasão europeia, a terra que no futuro se tornaria Brasil era formada por várias etnias diferentes, cada uma com sua língua, cultura e valores. Mais de quinhentos anos de massacres não conseguiram, felizmente, calar muitos desses povos, que continuam firmes em sua luta de resistência. E eles continuam a contar suas histórias. E algumas delas estão reunidas no livro Nós.

Nós é uma antologia de contos indígenas. Organizado por Maurício Negro, o livro traz contos que abordam a vida na comunidade, bem como recontos de mitos de origem, sempre primando pelo tratamento literário. Ao final de cada conto, há uma nota sobre o povo representado na narrativa, bem como uma nota da autoria. São 12 pessoas que assinam os contos, que são 10.

As narrativas abordam o amor, a amizade, a morte e a origem Algumas estão situadas em um relativo presente; já outras remontam o tempo mítico, em que humanos, animais e plantas falavam a mesma língua.

Foi bom conhecer tantas diferentes visões de mundo. Até a forma de falar apresenta um tom coloquial que não deixa de ter certa cerimônia, certo tom solene, como se assumisse um ar sagrado para a palavra.

Maurício Negro assina também as ilustrações. Seu traço busca homenagear as feições dos povos originários, sem cair no figurativo, muito menos no caricatural. São desenhos que mostram o propósito do ilustrador de homenagear os povos originários.

Com o texto de quarta capa assinado por Daniel Munduruku, Nós é um mergulho no meio de muitas vozes. E tal mergulho deve ser feito com respeito, com oferta de escuta. Como se na voz de todos estivesse guardado o silêncio de cada um.


Nós: Uma antologia de literatura indígena

Vários autores.

Organização de Maurício Negro

ISBN-13: 9788574068640

ISBN-10: 8574068640

Ano: 2019 

Páginas: 128

Idioma: português

Editora: Companhia das Letrinhas


Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/nos-918784ed925269.html

quinta-feira, julho 15, 2021

Grupo Afeto - Conta Comigo


No próximo sábado, terei o privilégio de participar da laive Conta Comigo, do Grupo Afeto. Será um momento maravilhoso de histórias, brincadeiras e muito Afeto. Venha assistir e prestigiar! Conto com a presença de todes!

Sábado 17/07/2021 às 16h, no Instagram do Grupo Afeto!

quarta-feira, julho 14, 2021

O que é felicidade

Imagem de Free-Photos por Pixabay

O menino tinha um amigão. Era um amigo do peito. Especial. Eles estudavam na mesma escola, na mesma sala. Um dia, a professora deu um dever para a sala. Era para responder: O que é felicidade? O menino ficou aflito. Espremeu a cabeça um montão de vezes, mas a folha continuava em branco. Uma menina já de primeira falou, alegre: "Felicidade é quando minha mãe chega em casa". O menino gostou daquela resposta. Que pena que ele não tinha pensado naquilo.

O amigão chamou o menino para dormir na casa dele. Foi muito legal. Comeram sanduíches, tomaram sorvete, jogaram videogame até tarde. Seria aquilo a felicidade? O menino ficou pensando, antes de dormir.

No dia seguinte, foram tomar café com a família do amigo. O pai do amigo não estava, mas chegou ainda no meio do café da manhã. Ele passou a mão na cabeça do amigo, fazendo um cafuné nos cabelos bagunçados dele. Chamou o amigo de "filhão".

O menino sentiu uma coisa estranha no peito. Um tipo de buraco. Não conseguia se lembrar do seu pai. Nem sabia se tinha pai. Ficou na dúvida, perguntando para si mesmo se ele tinha ou não tinha pai. E se ele não tivesse pai? O que ele teria feito de errado para não merecer um pai?

E foi nessa hora que o menino entendeu. Foi nessa hora que ele descobriu que felicidade era ter um carinho como aquele. Felicidade era ter um pai pra chamar a gente de "filhão".

segunda-feira, julho 12, 2021

Muitas vezes


Muitas vezes 

me disseram 

para não andar

olhando 

pro chão. 

Mas esqueceram 

de dizer 

quantas pequenas belezas 

perto do chão estão!

sexta-feira, julho 09, 2021

Os 77 Melhores Contos de Grimm - Um voo pela fantasia


É inegável a contribuição que os irmãos Wilhelm e Jacob Grimm deram para o universo da literatura infantil. Com sua obra da extensão de toda uma vida, os dois pesquisadores da tradição oral recolheram diversas preciosidades da oralidade. O resultado de seu trabalho reverbera até hoje. Estando em domínio público, as narrativas contam com inúmeros recontos e adaptações, além de seleções e coleções diversas. Um desses projetos de seleção de contos é a bela obra em dois volumes Os 77 Melhores Contos de Grimm

Trata-se de uma seleção interessante e bem diversificada. São narrativas que falam de sorte, pureza e reviravoltas aventureiras. As abordagens e enredos variam, em algumas, temos a heroína injustiçada que ao final encontra o seu par no príncipe do reino. Outras mostram heróis que partem em busca do destino. Há inclusive aquelas dedicadas aos heróis simples mas bondosos, que acabam sendo agraciados pela sorte. 

Atravessar esse panorama tão diverso de narrativas foi uma jornada prazerosa. Senti falta, porém, de "A Madrinha Morte". Reconheci, contudo, diversos contos, que já havia lido. O reconhecimento é sempre bem-vindo, pois nele há um quê de pertencimento. Quando reconhecemos um conto, é como se reencontrássemos uma migo querido.

Sendo assim, a seleção de Os 77 Melhores Contos de Grimm acaba por trazer uma questão fundamental no universo da leitura e da literatura: a subjetividade. A qualidade de "melhor" para cada um desses 77 contos foi concedida por uma pessoa. Sendo assim, cada uma e cada um de nós pode também decidir e criar sua lista das "melhores histórias". Com isso, a pessoa terá consigo seus contos favoritos, aqueles que elegeu, contribuindo também para o legado dos Grimm com um olhar pessoal e muito próprio.

Esta minha reflexão, contudo, não expressa um incômodo, mas um fato. Sempre temos a liberdade de escolhermos as narrativas que mais nos tocam, que mais conversam conosco. Isso sem, contudo, deixar de aproveitar as escolhas de repertório que as outras pessoas tiveram. Conhecer Os 77 Melhores Contos de Grimm foi uma forma de entender essa maravilhosa obra dos irmãos Grimm por uma lente específica, o que me fez perceber narrativas que talvez ficariam perdidas, não fosse o trabalho dessa primorosa edição da Nova Fronteira.

Com histórias maravilhosas, narrativas humorísticas e contos de exemplo, Os 77 Melhores Contos de Grimm é um rasante maravilhoso por através do trabalho magnífico dos Grimm. É antes de tudo uma homenagem aos dois pesquisadores e um presente a nós, leitores.


Ps: um agradecimento eterno à Áurea Lana Leite, que compartilhou comigo este magnífico trabalho. 


Ficha Técnica:

Os 77 Melhores Contos de Grimm

Irmãos Grimm

Tradução de Íside M. Bonini

Ilustrações de Ramirez

Introdução e organização de Luciana Sandroni

ISBN-13: 9786556400815

ISBN-10: 6556400815

Ano: 2018 

Páginas: 640

Idioma: português

Editora: Nova Fronteira

Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/os-77-melhores-contos-de-grimm-793913ed11682267.html

quinta-feira, julho 08, 2021

Clube do livro online


A leitura é, antes de tudo, uma atividade social. Pela leitura, nós nos acercamos do mundo, que é formado por uma coletividade de sentidos, transformando a individualidade em algo comum. Na leitura literária, então, esse processo é ainda mais evidente e rico, uma vez que é através dela que entramos em mentes alheias, estabelecemos diálogos através do tempo e nos redescobrimos nas outras pessoas.

Sendo assim, ler junto é uma potencialização desse poder socializador da leitura. Os clubes de leitura são interessantes iniciativas para para isso. Com o objetivo de fortalecer vínculos e criar outros, bem como de estimular as potencialidades que eu mencionei acima, a amiga Shirley Rodriguez, do Grupo Afeto, criou o Clube do livro online. Tenho participado há algumas semanas e garanto que a experiência tem sido mais do que enriquecedora. Por isso, convido todas as pessoas que quiserem a participar também. Caso alguém deseje fazer parte, basta acessar nosso grupo no WhatsApp(https://chat.whatsapp.com/Dr3CIEiYciFG1MEZKxWUXB). Na atual edição, que é a primeira, estamos lendo A marca de uma lágrima, do grande Pedro Bandeira.

O Clube do livro online se reúne às terças-feiras, a partir de 18h. Quem quiser colar com a gente será muito bem-vinda e bem-vindo e bem-vinde!

quarta-feira, julho 07, 2021

Agonia


Escurece 

o dia morre 

e eu 

ainda não acendi 

a luz do quarto. 

Prefiro a penumbra 

O crepúsculo é o momento 

em que toda alma morre 

Alguns param e notam 

outros apenas engolem 

mais um rivotril.


segunda-feira, julho 05, 2021

Coluna Literária aborda clássicos da literatura brasileira na atualidade



A terceira edição da Coluna Literária saiu na última quarta-feira, dia 30 de junho de 2021. Com textos de Érica Lima, Ericka Martin, Lídia Mendes e Samuel Medina, a publicação da Gerência de Bibliotecas e Promoção da Leitura / FMC teve como destaque obras clássicas em domínio público.

Tendo a consciência de que um clássico se mantém justamente por sua atemporalidade, a Coluna levou em consideração também obras cujas abordagens coincidissem com os dias atuais. Foram apresentadas resenhas de Relíquias da Casa Velha, de Machado de Assis, por Érica Lima e A alma encantadora das ruas, de João do Rio. Para fechar a edição, foi apresentado o perfil literário de Maria Firmina dos Reis.

Para conferir a 3a edição da Coluna Literária, basta acessar o Blog do Portal Belo Horizonte.

Édipo ao avesso


Penso em Telêmaco

como ele

fui um quase

órfão

Filho de um pai

ausente

como um deus.

E outro

presente

grande

também divino

abraãmico

E que podia

me pendurar pelas orelhas

se contestado.

Não fui como Telêmaco.

Tive dois pais.

E pelos dois 

Fui negado

à condição de 

Filho.