domingo, setembro 13, 2026

E o sonho se tornou real duas por vezes…

Um relato de duas noites especiais


Sim, o título parece exagerado, mas eu garanto que não é. A publicação do meu livro Convergência é muito mais do que parece. Poucas pessoas testemunharam, mas esse sonho é muito mais antigo que o lançamento do meu primeiro livro solo, O Medalhão e a Adaga. Convergência tomou forma antes mesmo que eu me formasse em 2007. Quando escrevi o primeiro e o último conto do livro, ainda era programador de informática e fazia pequenas incursões culturais, contando histórias como voluntário em casas de acolhimento de idosos, escrevendo em meu blog e suspirando por ares menos pragmáticos.

Convergência já foi um apanhado de contos com uma proposta parecida, mas uma execução bem diferente que a atual. Um punhado de narrativas ficaram de fora, desta vez. Quem sabe, em outro momento, eu lance uma edição atualizada, com alguns desses textos revisitados. Fato é que esta publicação se conecta com o meu eu antigo e sonhador, com o Samuel que muitas vezes se sentia perdido e sem rumo, que pensava que ser escritor era uma aspiração longínqua demais.

Com isso, a noite do dia 9 de setembro foi especialmente significativa. E em diversos aspectos. O principal motivo foi justamente o que eu citei acima. Reconectar-me com o passado transformou a realização em um rito de passagem. Há ainda outros aspectos. A presença do Clube de Escritores de BH tornou o momento ainda mais marcante, em especial com a mediação do Emanoel Ferreira

Foi o Emanoel quem me convidou para o Clube. E sempre ressalto como eu me senti acolhido nesse coletivo tão diverso, mas tão sinérgico. Quando testemunhei, em 2024, a presença da Bianca Pontes e da Monique de Magalhães, além do Emanoel, no lançamento do meu livro Cicatriz, senti que havia encontrado mais do que amigos escritores com ideais em comum. Senti que estava encontrando minha família literária.

Por isso afirmo que minha família literária é o Clube de Escritores de Belo Horizonte, nas pessoas de Bianca Pontes, Emanoel Ferreira, Jadna Alana e Monique de Magalhães. 

Mas agora vamos aos eventos em si. Emanoel, muito à vontade em seu papel de mediador, foi bastante provocativo e irônico. E isso foi maravilhoso. Fizemos um bate-papo descontraído e muito bem-humorado, a despeito do peso presente nos temas que alguns contos abordam. Morte, sofrimento mental, fanatismo religioso, delírio, alguns desses assuntos surgiram e foram tratados com cuidado, mas também com contundência. E apesar da saia justa, foi muito gostoso responder às perguntas que o Emanoel fazia.

Considero importante destacar também o acolhimento que recebi por parte do Christian Coelho, fundador e coordenador do Espaço Cultural À Margem. Sempre solícito e disposto, o Christian foi um anfitrião incrível, que nos deixou à vontade e cuidou para que todas as pessoas fossem acolhidas. 

É importante destacar também a presença de outras pessoas. Minha família, é claro, esteve presente. A Brenda Linda Medina Lages, minha mãe, ainda fez uma participação especial, lendo o conto “Coisa-Ruim”. A pessoa a quem o livro está dedicado, Vívian Marchezini, também me honrou com sua presença. Já destaquei em outro texto, mas Vívian foi grande apoiadora para que o livro estivesse pronto e fosse enviado à editora Toma Aí Um Poema a tempo. Também destaco a presença do escritor Sérgio Fantini, que considero grande referência. Há contos no livro que surgiram a partir da oficina que o Sérgio ministrou no espaço Letras e Ponto. Por fim, também destaco a presença do Felipe Diógenes Ramos, fundador da Oficina de Prosa Poética. Há também textos produzidos nessa oficina, que acontece regularmente na Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte, às terças-feiras, em dois horários: 10h e 16h.

Acho muito importante destacar o apoio de Bianca Pontes e Monique de Magalhães na organização das compras dos exemplares e dos autógrafos. E também da Val Amaral na cobertura de vídeo e do Guilherme Gomes, que fez os registros fotográficos.

Por último, gostaria de mencionar a Nadja Calábria, contador de história, gestora de projetos e mentora de carreira. Há quatro anos, fiz uma mentoria com Nadja e o apoio dela foi (e ainda é) fundamental para minha caminhada.

Apesar de não mencionar cada pessoa pessoa presente, deixo aqui minha gratidão profunda. 

Agora, vamos à segunda edição do lançamento. Dessa vez, foi no espaço Taboca Pão de Queijo & Cia. Logo que entrei em contato dias antes, fui acolhido e atendido de forma atenciosa pelo Francisco. E no dia 11 de setembro, sexta-feira, não foi diferente. O evento desta vez teve um volume menor de pessoas, mas contou com presenças muito marcantes. Pâmela Bastos Machado, bibliotecária e grande apoiadora literária. Norma de Souza Lopes, a quem amo e admiro, como pessoa, poeta, articuladora de leitura e amiga. Andrea Paula, outra grande amiga que sempre expressa seu entusiasmo pela literatura. Jerusa Furbino, uma das coordenadoras do maravilhoso Assanharau, Rafa Mussolini, bibliotecário e agitador literário, à frente da Biblioteca do Minas Tẽnis. O Guilherme esteve também presente, junto com sua amiga, Stéfanie, que também participa do Clube de Escritores. Estiveram presentes o Enryw e o Newton, frequentadores da BPIJ-BH e que me prestigiaram. Destaco também a presença da Cacá, uma das minhas amigas mais antigas e uma pessoa que sempre me acolheu e me incentivou a continuar perseguindo o sonho de ser escritor. 

Deixo aqui mais uma vez meu agradecimento profundo ao Christian e ao Francisco. Além de todas as pessoas que me prestigiaram, tendo sido nominadas ou não. 

O vídeo com a edição da cobertura do dia 9 de setembro pode ser conferida no link abaixo: 


https://www.instagram.com/reel/DdJSL54xLlS/?stkn=MWhwaDZhemR0N3R4Ng==


Deixo também alguns registros fotográficos feitos pelo Guilherme nos dois dias:



terça-feira, setembro 08, 2026

Três convites – Uma só alegria



Quem acompanha o que eu faço já deve saber da expectativa que eu tenho com o lançamento do meu livro Convergência. E não se trata de um simples evento. É a convergência de anos de sonho, de escrita, de vontade. Esse livro é mais que um conjunto de textos buscando um alinhamento espiritual

Quando comecei a escrever o primeiro conto desse livro, eu devia ter menos de 25 anos. Hoje, tenho quase 45. Isso significa que mais de uma década – quase duas – separa a semente da árvore. E acho que a metáfora cabe muito bem aqui. Entendedores entenderão.

Contudo, preciso sempre deixar marcado como o cuidado que a equipe da editora Toma Aí Um Poema me deixou em estado de graça. Eu realmente me senti cuidado e ouvido. E esse foi um grande diferencial no processo. Agradeço imensamente à Mabelly Venson e a toda a equipe da TAUP!

Quero também agradecer a cada pessoa que me agraciou com seu apoio. Destaco aqui especialmente a galera do Clube de Escritores de BH, que tem sempre andado comigo nessa estrada da literatura, desde que nos conhecemos. E preciso nominar especialmente: Emanoel Ferreira, que me convidou para o Clube, aceitou fazer a orelha do livro e vai mediar o lançamento, Bianca Pontes, Monique de Magalhães e Jadna Alana. Pessoas que me acolheram prontamente e, apesar das minhas neuras, oferecem escuta e apoio.

Este post, porém, tem como objetivo deixar em uma página só os eventos de lançamento de Convergência. Dois acontecerão esta semana – o mais próximo é amanhã. Por isso, quero agradecer imensamente o Espaço Cultural À Margem, na pessoa do Christian, por topar fazer o lançamento do meu livro. Agradeço também à Taboca, na pessoa do Francisco. E, por último, agradeço à Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte, destacando toda a equipe, mas em especial a Flávia Paixão e a Daniela Chaves.

Seguem abaixo as datas e locais dos lançamentos:


  • 09 de setembro de 2026, quarta, 19h – Espaço Cultural À Margem – Rua Itapecerica, 848 - Lagoinha, Belo Horizonte/MG.

  • 11 de setembro de 2026, sexta, 19h – Taboca do Pão de Queijo & Cia – Rua Goiás, 14 - Centro, Belo Horizonte/MG.

  • 26 de setembro de 2026, sábado, 11h – Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de BH – Rua Espírito Santo, 593 - Centro, Belo Horizonte/MG.


Conto com as presenças de vocês. Quem não puder comparecer, contudo, pode sempre entrar em contato comigo para garantir seu exemplar de Convergência


domingo, agosto 30, 2026

Depois que eu conheci você

Esta foi a lua que eu consegui “capturar”.


Ontem, eu vi a lua

através de uma camada

translúcida

de nuvens

ela me olhava.

Em choque

percebi

era como seu olhar

a me espreitar

atrás de um véu

diáfano.

A lua nunca será um

satélite

depois que conheci

Você.


27/08/2026

sábado, agosto 29, 2026

Desbravar-se poeticamente: "Versos roubados" e a reescrita de si

Uma resenha, um livro, um percurso.


 


Faz um tempo enorme que eu não publico uma resenha. Na verdade, faz muito tempo que de fato eu não escrevo uma. E confesso que gosto de escrevê-las. O exercício me ajuda a pensar no que eu gosto em determinado livro, em como a leitura que fiz me toca. E de quais maneiras esses afetos se manifestam.

Quando li pela primeira vez Versos roubados, de Vívian Marchezini, imediatamente pensei: “Eu preciso falar desse livro!” E não foi porque havia um elemento afetivo, por conta do namoro com a autora. Sim, a paixão marcou a leitura, mas a exploração contínua dos poemas, a constante releitura, foram evidenciando que não era a paixão que motivava meu maravilhamento, mas o talento e a excelência da autora. 

Obra de estreia de Vívian Marchezini, Versos roubados vem com uma premissa interessante: o roubo evidenciado no título nada mais é que um método de escrita criativa. A pessoa abre um livro de poesia em uma página aleatória. Lê apenas o primeiro verso e o anota. Fecha o livro sem ter lido o resto do poema. Em seguida, escreve uma proposta de continuidade para o verso lido. Assim nasceram alguns dos poemas presentes neste livro da Vívian. Mas se engana quem acha que foram todos. Em termos absolutos, são 22 poemas escritos pelo método, num total de 65 (se eu tiver contado certo, é claro). Isso nos mostra que quase dois terços dos poemas não levam versos de homenagem a outras autoras e o resultado atesta que Vívian não se apoiou no método, tendo desenvoltura para produzir livremente.

E ainda falando de números, Versos roubados está dividido em cinco partes: “Despautar(se)”, “Escavar(se)”, “Fraturar(se)”, “Tecer(se)” e “Reflorir(se)”. Na primeira parte, a poeta como que abre caminhos, rompe fronteiras, traça destinos não cartografados. E essa cartografia é interior, como bem revela o “se” entre parênteses presente no título. Uma proposta de exploração anterior, para além dos parâmetros pré-estabelecidos, mas também como uma espécie de proposta de não se adequar, não encaixado em padrões ditados por outros. E o primeiro poema desta primeira parte, “Caderno pautado”, deixa isso patente.

Já a segunda aprofunda o movimento da parte anterior. Preparado o terreno, retirados os impedimentos, é hora da escavação. Há um mergulho em si, uma observação atenta de si mesmo, um mapeamento de afetos e memórias. A maternidade como desejo-realização-contradição aparece, assim como a identidade da escritora como alguém que se investiga.

Essa exploração, claro, traz perigos. É o que evidencia a terceira parte. A desconstrução, a fragmentação, seja ela intencional ou não, a perda de si, a percepção das interdições, da frustração, dos acidentes. E a pessoa-poética, lírica, resiste, pois precisa reconhecer esses perigos e lidar com eles. É momento de conhecer.

Vem então a quarta parte, com a reconstrução. Mas não é essa a palavra escolhida e sim o verbo “tecer”. Como algo muito mais artesanal, manual, singelo, íntimo. Menos pedra, mais fio. A persona-poética de Vívian tece a tessitura do texto e também de si mesma. É o momento da “Reza”, da descoberta da “Voz”, do encontro com as vozes de outras mulheres. 

Por fim, já pronta, a persona então segue para a quinta e última parte, para justamente dar frutos, realizar belezas, lançar para o mundo as maravilhas resultantes desse processo de transformação. Claro, não é uma romantização, uma idealização. As contradições estão presentes, como o belíssimo “Feliciteza”, meu poema preferido de toda a obra. Porém, essa parte é sem dúvida a mais solar do livro, celebrando a primavera e os recomeços, a beleza simples de coisas como um banho de chuva.

Agora, tudo o que escrevi pode ser desnecessário. Sim, este texto em nada se compara à experiência de ler Versos roubados e mergulhar nessa jornada íntima e poderosa. É um livro apaixonante, que nos faz querê-lo por perto, sorvendo a seiva poética, como se cada verso fosse um ramo de uma árvore frondosa e repleta de vida, gotejando alimento, sombra e fresco alento.


Ficha técnica 

Autora: Vívian Marchezini

ISBN: 978-65-83300-35-5

Ano: 2025

Páginas: 100

Gênero: Poesia

Editora: Escritoras Brasileiras

sexta-feira, agosto 28, 2026

Celebração de um percurso

Um relato sobre o Sarau de In-Formatura.

A turma quase toda junta.

O dia 22 de agosto foi incrível. Além de ter sido o último dia da 3a Mostra Era Uma Vez de Narração de Histórias da BPIJ, foi também o dia do nosso Sarau de In-Formatura, que marcou a conclusão do Curso de Pós-Graduação em Escrita Criativa pela Puc-Minas. 

Foi tudo na base da ousadia e do susto. Quando percebi que a gente não ia se encontrar para celebrar o fechamento deste ciclo, lancei no grupo do curso a ideia de fazermos um sarau para lermos textos que produzimos durante esse período. A primeira pessoa a topar foi a Monique de Magalhães, amiga e colega no Clube de Escritores de BH. A segunda foi a Tailze Melo, coordenadora do curso, que recebeu com entusiasmo a ideia. 

Conseguimos encontrar uma data e fomos construindo o evento, deixando que ele se formasse em nossos ventres criativos. Confesso que estava muito ansioso. A única pessoa que eu de fato conhecia era a Monique. Bem, eu já havia encontrado pessoalmente algumas pessoas do curso, mas é diferente. 

Foi muito gratificante ver a galera abraçando a proposta. E no sábado de manhã, quando encontrei por acaso a Letícia Silva em uma padaria aqui do centro de Belo Horizonte. Ela havia acabado de chegar na cidade. E passou o dia na Biblioteca! 

A segunda pessoa foi o Gabriel Pimentel, que veio de Brasília. Logo, a Tailze também chegou e os demais colegas foram também aparecendo. Fizemos uma visita mediada pelo espaço, antes que nos dirigíssemos ao miniauditório (sala multiuso) onde o sarau aconteceria. 

E de fato aconteceu. Tailze fez uma fala muito singela e afetuosa. Dividi a tarefa da condução com a Monique. A Alycia Moreira trouxe os exemplares do lindíssimo “Lexicografia do criar: verbetes de voos livres”, que a gente produziu durante o curso. Fizemos leituras dos nossos textos e tudo foi muito gostoso.

O fim do sarau foi marcado por uma foto coletiva e um mutirão de autógrafos. Depois, outra foto, agora com todo mundo que participou. 

Fechamos a noite em um bar na Rua Sapucaí. Fomos até lá atravessando o Viaduto Santa Tereza, marco literário para autores como Carlos Drummond de Andrade e Fernando Sabino.

Só posso dizer que foi um momento lindo. Eu me senti muito feliz por ver meus colegas no espaço onde amo trabalhar. E também pude encontrar a professora Carina Santos Gonçalves e o professor Diogo Rufatto. Além de outras pessoas, que prestigiaram o evento, tornando tudo mais bonito. 

Faço aqui a menção às amigas Bianca Pontes e Jadna Alana, que nos prestigiaram e representaram o Clube de Escritores de BH.

segunda-feira, agosto 24, 2026

Em primeira mão

Um relato de alguém que toma pela mão.



Conheci a Vívian Marchezini ano passado. A gente se aproximou por causa da literatura. Quando a editora Toma Ai Um Poema lançou a chamada para a antologia Verve Lasciva, ela me avisou e incentivou a inscrever um poema. Decidi submeter Re: Primavera, que eu havia escrito em resposta ao Primavera, da Vívian. 

Nós dois fomos selecionados. Tempos depois, ela me deu um toque: Havia um e-mail da TAUP convidando quem estava participando da antologia a submeter uma obra solo. 

Fiquei um pouco indeciso. Compartilhei isso com a Vívian e mais uma vez ela me encorajou a me jogar, a arriscar. Mais que isso, pois quando decidi enviar os contos de Convergência, teve um momento em que tocamos ideias, li trechos em voz alta para ela e trabalhamos lado a lado, cada um com seus escritos.

Foi um momento precioso e inédito. E que me deu força para afirmar que aquele era o momento de deixar Convergência nascer. Os textos presentes no livro são de períodos diversos, mas a ideia central que os une dialoga comigo há décadas. O próprio título nasceu há mais de 20 anos. Ele já intitulou um livro de contos bem diferente deste, em seu resultado final, mas confesso que muitos contos sobreviveram ao projeto antigo, embora com amadurecimento da linguagem e enredo. 

Ter este livro em mãos, impresso, com capa e orelha, é um marco muito importante para mim. Um verdadeiro rito de passagem. E mais uma vez é a prova de que um livro não se faz sozinho. Teve a Vívian, pessoa fundamental para este processo atual. Também teve a Mabelly Venson, que fez a preparação, e a Sheila Mendonça, que revisou. Teve a Jéssica Iancoski, que fez a capa. Toda a equipe de edição, o pessoal da gráfica, a galera que gerou a campanha e me deixou sempre informado do andamento. Teve o Emanoel Ferreira, que me agraciou com o texto da orelha.

E também teve cada uma das pessoas que apoiaram a campanha, comprando, compartilhando, torcendo, falando sobre. E volto mais uma vez à Vívian, que esteve perto durante esse percurso.

Então, fecho este texto contando que na última quarta-feira, dia 19 de agosto, dei o primeiro autógrafo em um exemplar de “Convergência”. E foi justamente para a Vívian. Para mim, era fundamental que ela fosse a primeira a ter o livro em mãos.

Em breve, voltarei com as informações sobre o lançamento, mas já dei início às entregas dos exemplares. 

Mais uma vez, muito obrigado! 


quinta-feira, agosto 20, 2026

Toda memória é uma cicatriz

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No rastro do tempo 

cofio as barbas de eras 

ferido estou de morte 

meu crepúsculo se avizinha. 


Naquilo que eu mais amo 

sinto minha perdição. 

Sou daqueles lentos 

para profundos entendimentos. 

Na cicatriz da memória 

repousa o engano. 


Sonhos que se fizeram areia 

assoprada para longe 

A espada cega 

enfiada em minha carne 

até os ossos.


O que fazer 

se toda memória 

é uma cicatriz? 

Deixar a dor de viver 

dilacerar a mente até 

tudo fazer algum sentido? 


Afago a própria ilusão 

de felicidade. 

Sobre os escombros de minha 

ruína particular. 

Onde ninguém mais 

pode alcançar.


Poema de abertura do meu livro Cicatriz (Litteralux, 2024).

sábado, agosto 15, 2026

O Clube de Escritores de BH na Livraria do Belas



Hoje, fomos ao encontro do Clube de Escritores de Belo Horizonte, que aconteceu na livraria do Belas, em plena Savassi, a um quarteirão da Praça da Liberdade. Abaixo, segue o resultado da produção escrita do exercício do desafio que fizemos:


15h52. Desafio

Inimigo, Carretel, Colheita


Quando criança, assisti um filme que me perseguiu com pesadelos por meses: "A colheita maldita”. Confesso que não tenho muita memória do enredo, sequer das cenas do filme. Apenas tenho nítida a sensação de perigo iminente, de urgência, de fuga, da presença de um inimigo oculto a me espreitar de além das bordas do sono.

Fato é que hoje tenho quase certeza de que nunca assisti esse filme. Os pesadelos ocorreram, minha mãe jurava que tinha que me sacudir quando eu, aos berros, acordava a casa inteira. Quando ainda estava viva, já no hospital, ela jurou que eu nunca vi o tal filme. Que a chamada transmitida na televisão, a mera vinheta comercial, havia inspirado meus pesadelos.

Isso me faz perceber que a vida é um carretel de memórias inventadas. A identidade e o pertencimento são ilusões. Eu nunca vi um filme que sempre achei ter visto. Então, qual das minhas memórias é confiável?

Será que o Tinho era real? Meu melhor e mais antigo companheiro de brincadeiras, ele entrou na minha vida pouco tempo depois que os pesadelos pararam. Tinho, com seus olhos injetados, seus dentes tortos.  Tinho, com seu cheiro forte e brincadeiras perigosas. Será que se hoje eu for ao sítio do vô Leôncio e procurar na cisterna, vou encontrar lá no fundo os ossos do meu amigo?


 

sexta-feira, agosto 14, 2026

Aquela experiência que é um presente do Universo


A gente, lendo junto


 Toda sexta, temos na Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte a atividade Lendo Junto, marcada sempre para ser realizada às 16h. Alguém da equipe fica à disposição para ler para as crianças que por acaso as famílias (geralmente mães ou avós) levarem para a atividade. 

Desta vez, eu era o leitor da vez. Separei um repertório de livros como Boa viagem, bebê! (Companhia das Letrinhas), da Beatrice Alemagna, A Bruxa Salomé, de Audrey e Don Wood (ed. Ática), e O Senhor Cavalo Marinho (ed. Kalandraka), de Eric Carle. 

Um pouco antes das 16h, chegaram a Lilia e a Geralda, trazendo o pequeno Antônio. Muito simpático e gentil com todas na Biblioteca, o Antônio cumprimentou a gente e depois seguiu para o espaço do acervo infantil. 

Logo que deu o horário, eu me aproximei, falei meu nome (Samuel, cara de papel) e perguntei se o Antônio e sua mãe, Lilia, gostariam de participar do Lendo Junto. A mãe respondeu que estavam lá para isso mesmo. Geralda, a avó de Antônio, estava um pouco afastada, mas disse que  também estava lá para participar. 

Fomos para o tatame colorido e apresentei o primeiro livro: Boa viagem, bebê. Logo que terminei a leitura, convidei que a gente imaginasse que o bebê protagonista do livro começaria a sonhar. E seus sonhos seriam justamente os próximos livros que eu estava disposto a ler. 

Antônio topou. Não apenas isso. Sempre atento e interessado, ele interagiu de forma afetuosa. Passeamos pelos cenários (e cardápio) de A bruxa Salomé”, fomos plateia de “Eustáquio: o Mágico Magnífico (Alexandre Rampazo, ed. Gato Leitor), mergulhamos no oceano com “Senhor Cavalo Marinho” e nos surpreendemos com Gatinho levado! (Adam Stower, Brinque-Book). 

Em dado momento, perguntei ao Antônio se ele achava que o bebê já poderia acordar,.ou se ele continuaria sonhando. Ao que ele respondeu prontamente que era para o bebê continuar no mundo dos sonhos. E nas leituras seguintes, sempre que eu terminava, Antônio dizia que o bebé não deveria deixar de sonhar. Dizia: “Eu acho que o bebê não vai acordar e tem que continuar sonhando.”

O Antônio não queria que as leituras acabassem. E isso foi uma das coisas mais lindas que aconteceram comigo nesta semana. Não é a primeira vez que uma criança dá esse tipo de retorno, mas toda vez que acontece, é como se fosse a primeira — e única.

Estou em estado de graça. Encantado com esse momento de conexão e devaneio. Senti que durante a tarde de hoje eu recebi um presente que, com certeza, pretendo carregar sempre junto ao coração.