sexta-feira, maio 04, 2018

Te vendo um cachorro: Ingenuidade, malícia e o fazer artístico

Teo tem um grave problema. Ele foi praticamente acusado de estar escrevendo um romance. Sua vizinha de andar, maliciosamente batizada de Francesca, é a autora e disseminadora de tal delírio. Por conta disso, Teo é continuamente incomodado pelos demais moradores do prédio: um conjunto de fanáticos literatos, membros de um clube de leitura hardcore liderado pela própria Francesca.
O pior de tudo é que Teo nunca teve qualquer pretensão de escrever um romance. Ele é apenas um vendedor aposentado de tacos e agora deseja passar o fim de seus dias em suave embriaguez, lançando cantadas às senhoras solteironas que o cercam.
Assim, a partir desse enredo tragicômico, o leitor é convidado a se aventurar pelas páginas do romance Te vendo um cachorro, último volume da trilogia de Juan Pablo Villa-Lobos sobre o México.
Ambientado na Cidade do México, a narrativa assume um foco bem diferente dos seus antecessores. Se no primeiro o narrador é uma criança que habita uma isolada fortaleza do narcotráfico, e no segundo é um jovem morador de uma pequena cidade do interior mexicano, agora temos um narrador vivido e experiente, com toda a manha e canastrice de um cachorro velho que viveu em um ambiente mais complexo, tanto pelo lugar populoso, quanto pelo ofício cheio de artimanhas. Em dado momento, Teo começa um diálogo insólito com a frase que dá nome ao romance, criando uma situação absurdamente cômica.
É interessante observar que, embora não tenha interesse algum em escrever o tal romance, Teo tem um passado ligado ao fazer artístico. Seus devaneios, apontamentos e memórias perpassam angústias e ciladas que surgem na travessia de qualquer artista. E nosso anti-herói ainda declara com muito orgulho que seu ofício como taqueiro não deixa de ser um fazer artístico.
Assim, temos durante a leitura cenas que apresentam o impulso do artista como algo ingênuo e ao mesmo tempo malicioso. A ingenuidade estaria nas memórias de Teo, em sua juventude, quando ele desejava ser artista plástico e esboçava em seu caderno sua visão inexperiente de mundo através de desenhos. Já a malícia cerca o velho taqueiro alcoólatra, devasso, sempre pronto para comprar uma pílula azul e por isso passa a maior parte do tempo sendo enxotado pelas mulheres que ele canta. 
É assim que jovem e velho se aproximam, através da alegoria da mulher como musa inalcançável, embora sempre próxima. E a única forma de tocar a musa é através da arte. Seja por desenhos, palavras, ou por um delicioso taco, feito da carne do melhor vira-lata que foi possível encontrar.

Ficha Técnica 
Te vendo um cachorro
Juan Pablo Villa-Lobos 
Companhia das Letras 

sexta-feira, abril 20, 2018

Festa no Covil: sobre uma torre de palavras e sangue

Tóchtli é um garoto diferente. Confinado na fortaleza de seu pai, Yocault, o menino cresce em um ambiente adulto demais para ele. Seu pai é líder de um poderoso cartel mexicano e construiu sua fortaleza no meio do deserto. Tóchtli não conhece outras crianças, apenas pessoas ligadas às atividades ilícitas do pai, com excessão do tutor. Ele cresce sem referências infantis, apenas adultas. Inteligente e observador, o menino vai narrando as insólitas experiências ligadas ao brutal universo das drogas.
Assim tem início o enredo de Festa no Covil, de Juan Pablo Villa-Lobos. O romance é o primeiro da trilogia sobre o México e apresenta com um humor que oscila entre a inocência e a malícia infantis um dos aspectos mais violentos da realidade mexicana.
É interessante observar como Tóchtli se apresenta como um menino precoce e bem resolvido, a despeito das constantes dores de barriga, provavelmente de origem psicológica. Como uma espécie de "Rapunzel moderna, o menino vive isolado em sua fortaleza, tendo como principal passatempo colecionar chapéus e palavras difíceis. 
Outra observação que faço é a curiosa escolha do autor em dar apenas nomes astecas para suas personagens. Talvez seja um código estabelecido pelo próprio Yocault, para o caso de serem alvo de alguma investigação policial. Ou algo ainda mais complexo, como se esta fosse, de alguma maneira, uma faceta distorcida de resistência do povo mexicano. 
Considero genial a relação que o menino tem com as palavras. Cercado de "eufemismos", Tóchtli constrói sua rede de significados a partir do que observa e também através dos ensinos que recebe de um professor particular.
O romance de Villa-Lobos é envolvente, tanto pela escrita quanto pela empatia que o leitor vai estabelecendo com aquele menino solitário. Por vezes, a descrição de uma realidade cruel arranca risadas por sua fina ironia, pois Tóchtli ainda não tem condições de entender de fato o que se passa. Como exemplo, temos a cena em que o menino narra o momento em que um homem é levado à presença do chefão Yocault  espancado e depois retirado da sala, para ser executado. Tudo isso é narrado pela criança, que brinca com as palavras e fala como se de fato entendesse o que está se passando. 
Por vezes, esse olhar desprovido de experiências funciona como uma espécie de filtro, que desconstrói e expõe a crua realidade do meio em que o menino vive.
Elaborado e Inteligente, o texto de Villa-Lobos exerce um magnetismo sobre o leitor, provocando, instigando e incomodando a cada nova página. Assim, Festa no Covil é uma rica experiência de leitura sobre o exercício da força em seu estado bruto. E como essa mesma força, como um castelo de cartas, é frágil e precisa de um movimento para desabar.


Ficha Técnica 
Título: Festa no Covil
Autor: Juan Pablo Villa-Lobos 
Editora: Companhia das Letras 

quarta-feira, abril 18, 2018

Monteiro Lobato e o Dia Nacional do Livro Infantil


Quando se fala de Literatura Infantil, muitos costumam reduzi-la a um segmento menor, como se fosse uma literatura mais "fácil". Por muito tempo, os livros para crianças e jovens eram imbuídos de uma forte carga utilitária. Era necessário que os textos fossem instrutivos e edificantes.
Há 136 anos nasceu o homem que transformaria para sempre a literatura infantil. José Bento Renato Monteiro Lobato, patrono do livro infantil em nosso país, não foi apenas o percursor da literatura infantil brasileira da atualidade, mas também fundou uma nova forma de pensar e fazer livros para jovens leitores. Em sua homenagem, o dia 18 de abril passou a ser conhecido como o Dia Nacional do Livro Infantil.
Com Reinações de Narizinho, Lobato nos apresenta uma menina que surge pra aprontar mesmo. Afinal, o sentido da palavra "reinação" era travessura, brincadeira, bagunça. E Lúcia, ou Narizinho, a protagonista desse primeiro livro de Lobato, é uma menina esperta, contestadora, inventiva. Emília, sua boneca, era apenas uma muda coadjuvante. Quando ganha voz, a boneca vai lentamente adquirindo força e peso, até se tornar o principal ícone de Lobato. 
As aventuras de Narizinho, Emília e muitas outras personagens acontecem no Sítio do Picapau Amarelo. Inicialmente, o sítio surge como um lugar comum, pacato, típico cenário do interior paulista. Porém, assim como a boneca Emília, o próprio Sítio vai ganhando contornos cada vez mais fantásticos, quase míticos, a ponto de comportar dentro de si as maravilhosas terras do mundo das Fábulas e até mesmo a Terra do Nunca.
O aspecto revolucionário de Lobato não está apenas em sua literatura infantil, mas também em sua visão empreendedora como formador de leitores. Ele decidiu levar seus livros para perto de seus leitores, aonde os livros antes nunca tinham chegado. Suas edições eram ambiciosas em números de exemplares. Assim, o que poderia ser visto como uma aposta mal feita mostrou-se uma jogada que mudou os rumos de nosso mercado editorial.
Não dá para negar as polêmicas em torno de Monteiro Lobato. Sim, há passagens ofensivas e racistas em alguns de seus livros. Não há desculpa ou justificativa. É preciso marcar, contudo, que Lobato era um homem ciente de muitas de suas contradições e não deixava de evidenciá-las. Como exemplo, temos o desabafo de Emília no final de suas memórias, quando ela admite seu preconceito em relação à Tia Nastácia, fazendo um "mea culpa". 
Sei que isso não é suficiente, nem redime Lobato. Apesar disso, é importante observar que ele, apesar de ser contundente em suas ideias, não sabia ser intransigente e sempre esteve disposto a mudá-las.
Que o Dia Nacional do Livro Infantil seja sempre um marco. Não como celebração, mas como memória. Para que as pessoas não se esqueçam dos erros e acertos de Lobato e que sigam seu exemplo na ousadia, na coragem e na iventividade.

domingo, abril 15, 2018

Vídeo: Calendário, de Norma de Souza Lopes

Poema da Mestra Norma de Souza Lopes e declamado em uma tarde quente, na Praça da Estação, Belo Horizonte, Minas Gerais.


Para saber mais sobre a Norma:
http://normadaeducacao.blogspot.com.br/http://www.editorapatua.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=300em

sexta-feira, abril 06, 2018

Terras Secas - Um árido conflito


Arthur Boaventura está decidido a nunca mais escrever. Isso, às vésperas de receber uma premiação por sua obra poética.
Solteiro, na casa dos trinta, ele é um conceituado professor universitário.  Construiu uma sólida carreira acadêmica em literatura. Ainda assim, ele detesta tudo o que escreve.
Assim começa Terras Secas, romance de estreia da escritora mineira Paula Peregrina. Ela situa seu protagonista em Belo Horizonte, capital mineira, mas bem poderia estar em qualquer metrópole do mundo. Arthur é o retrato do homem contemporâneo: fragmentado, solitário, paranoico, e eternamente insatisfeito. Ele tem uma vasta bagagem cultural, mas isso apenas contribui para torná-lo mais vazio e confuso.
Ao retornar da premiação, Boaventura fica preso dentro do elevador do prédio em que mora. Acaba adormecendo. Ao acordar, descobre-se em um cenário inusitado: um céu violeta sem nuvens sustenta duas esferas opacas. Uma é de cor laranja; já a outra, prateada. O chão que se estende a perder de vista é amarelado e seco, de uma secura rachada e agreste. Ao longe, uma árvore torta cujos contornos do tronco são distorcido e as folhagens, difusas.
A partir daí, começa a extraordinária jornada de Arthur Boaventura. Ele não sabe mais quem é. Pior: não tem mais emoções. Tenta, contudo, entender onde está e a lógica desse mundo onírico. Trata-se de um ambiente hostil e enigmático que irá desafiar o protagonista e intrigar o leitor.
O texto de Paula Peregrina é agradável, acessível, a despeito da trama profunda e fantástica. Repleta de referências literárias, com destaque em Arthur Rimbaud, a obra dialoga com temas caros para as pessoas que desejam se aventurar na arte da escrita. É possível escrever em um mundo sem memória, sem tempo? As perguntas vão se desenrolando, desdobrando, desvelando. Apesar disso, às dúvidas permanecem.
Escrito de forma envolvente e bem elaborada, Terras Secas se apresenta como um romance que tanto agrada pela beleza do texto quanto pela profundidade do tema. Sem dúvida uma jornada épica para qualquer amante de boa literatura.

Ficha Técnica 
Terras Secas
Paula Peregrina
Editora do Pandorgas

quarta-feira, abril 04, 2018

Vídeo: A MENTIRA DA VERDADE - Joaquim Almeida


Uma narrativa da criação do mundo. Os opostos não precisam ser inimigos. Porém o que aconteceria se a Mentira declarasse guerra contra a Verdade? Narrativa belíssima que compartilho agora com vocês. O texto e os desenhos são de Joaquim de Almeida. Editora: Fundação SM.

domingo, abril 01, 2018

Pantera Negra: Wakanda para além das telas

Ao final do filme "Pantera Negra" meu rosto estava coberto de lágrimas. Voltei-me para minha esposa e brinquei: "só eu pra chorar em final de filme de super-herói".
Mas meu pranto, embora forte e patético, não era melodramático, não tinha as lágrimas emotivas de um alívio catártico. Eu chorava por Wakanda, por esse sonho maravilhoso, esse mundo em que a potência dos povos africanos não é tolhida, massacrada ou usada. Chorei por achar que Wakanda seria apenas sonho.
Foi então que, depois de ler um pouco mais sobre o filme e, principalmente, depois do artigo O filme Pantera Negra e a questão da ancestralidade africana, constatei que Wakanda é sim viva e real. Ela se realiza no talento do diretor e roteirista, do elenco de talentosas pessoas, da cultura ancestral retratada na tela. Wakanda é também a diáspora do povo afrodescendente, sua resistência cultural, seus valores religiosos, tudo num substrato que sobrevive e cresce, como uma erva do coração.
Então eu chorei novamente, mas agora era um choro diferente, uma comoção e uma alegria, ao saber que Wakanda não é utopia. É ideal, mas também é real. Wakanda está em guerra. Um dia, espero, ela se erguerá, soberana, para contar uma outra história. Aquela que os colonizadores tentaram - e ainda tentam - apagar. 

terça-feira, março 20, 2018

Semana do Contador de Histórias

A Arte de Narrar Histórias é uma das mais antigas no mundo. Talvez antes mesmo do teatro, as pessoas já se reuniam ao redor de fogueiras, para falar sobre deusas e deuses, criaturas encantadas e maravilhas.

Desde que me entendo por gente, identifico-me com essa tradição. Eu contava histórias para irmãos e primos mais novos. Antes mesmo de chegar à adolescência, narrava episódios da bíblia para outras crianças, todo domingo. Fiz isso por quase dois anos. 

Sentia um desejo premente de compartilhar com as pessoas os filmes e desenhos animados que me encantavam. Por vezes, a empolgação era tanta que o objeto narrado ficava ofuscado. As pessoas acabavam se impacientando diante de tantos detalhes.

Ainda assim, a afinidade não se perdeu. Nasceu em mim o sonho de ser escritor, estimulado pelo desejo de contar histórias, fossem estas um pouco de mim, fossem um pouco das pessoas que encontrei em meu caminho.

Este relato tem duas intenções. A primeira foi homenagear todas e todos as(os) Contadoras(es) de histórias. Através de suas vozes sou ensinado, pouco a pouco, a ser mais gente. A segunda foi anunciar que hoje, Dia Internacional do Contador de Histórias, abre a Semana do Contador de Histórias, que acontecerá na Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte e tem como objetivo a celebração da Palavra Narrada e sua potência. Fica o convite para todo mundo de BH para que venha celebrar com a gente!




SEMANA DO CONTADOR DE HISTÓRIAS :: DE 20 A 24 DE MARÇO
Seminário, apresentações, oficinas e rodas de leitura.

VISITAS GUIADAS COM NARRAÇÃO DE HISTÓRIAS
Dia 20 de março, terça-feira, às 9h30 e às 14h30
Dia 23 de março, sexta-feira, às 14h30

Oficina CONTA PRA GENTE
Leitura compartilhada do livro O alvo, de Ilan Brenman e Renato Moriconi, seguida de conversas e reconto de histórias pelos participantes.
Mediação: Wander Ferreira
Público: livre
Dia 20 de março, terça-feira, às 14h30

RODA DE LEITURA ESPECIAL
Leitura de textos sobre a narração de histórias.
Mediação: Wander Ferreira e Samuel Medina
Dia 21 de março, quarta-feira, às 10h

ERA UMA VEZ... JOVEM
Apresentação do espetáculo "Mulheres de outrora, mulheres de agora".
Mediação: Grupo Prosa Mineira
Público: jovens e adultos
Dia 22 de março, quinta-feira, às 19h

ERA UMA VEZ...
Leitura e narração de histórias da literatura e da tradição oral.
Mediação: Narradoras de histórias voluntárias da BPIJ.
Público: livre
Dia 23 de março, sexta-feira, às 9h30

SEMINÁRIO: OS LUGARES DOS NARRADORES DE HISTÓRIAS
Com Juliana Anselmo e Carlos Roberto Barbosa
Dia 24 de março, sábado, às 9h30

Oficina ASPECTOS CÊNICOS DA NARRAÇÃO ARTÍSTICA DE HISTÓRIAS
A oficina chama a atenção para os aspectos cênicos do ato do narrador de histórias, seus recursos, técnicas e possibilidades, abordando, dentre outros temas, a presença física, voz, entonação, domínio de certas habilidades e jogo com a plateia.
Mediação: Érica Lima
Público: contadores de histórias, mediadores de leitura, bibliotecários, educadores, professores e demais interessados.
Vagas: 20
Dia 24 de março, sábado, às 13h às 14h30

Oficina (DES)CONSTRUINDO HISTÓRIAS
A partir da explicação dos elementos e símbolos comuns aos contos tradicionais, os participantes serão convidados a experimentar dois exercícios narrativos de improviso: no primeiro, inserir num conto símbolos oriundos de outro e verificar como esses elementos alteram o enredo; no segundo, deverão criar, espontânea e coletivamente, um conto com início, meio e fim, que possua os símbolos dos contos orais.
Mediação: Rodrigo Teixeira e Samuel Medina
Público: contadores de histórias, mediadores de leitura, bibliotecários, educadores, professores e demais interessados.
Vagas: 20
Dia 24 de março, sábado, às 14h30 às 16h

Local: Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte
Centro de Referência da Juventude
Praça da Estação, sem número – Centro
3277-8658 / bpij.fmc@pbh.gov.br

www.bhfazcultura.pbh.gov.br

segunda-feira, março 19, 2018

Lançamento da Campanha de Gravação do CD do Coletivo Narradores

 A vida é cheia de encontros. Alguns são efêmeros. Outros, consistentes e duradouros. Desde meados de 2017 comecei a caminhar junto de uma moçada bem bacana. Uma galera que conta histórias e ama o que faz. A maioria eu já conhecia pelos caminhos da Palavra Oral e cultivava uma grande admiração. Teve gente nova, é claro, tão admirável quanto as pessoas que eu já conhecia. 
Os encontros foram gerando afetos e deram assim início a um trabalho em conjunto, uma caminhada partilhada. Um grupo que gosta de sonhar junto e muito bem acordado. Dessa sinergia eu vi nascer o Coletivo Narradores. 
Tenho um enorme orgulho por fazer parte desse grupo. Somos doze pessoas, que sentem uma grande afinidade e transmitem energia umas para as outras. Durante o ano de 2017 realizamos apresentações maravilhosas. Uma delas eu relatei aqui no post Noite para renascer. Essa foi uma de outras noites mágicas que tivemos no espaço Santo Chá.
A partir de 2018 decidimos alçar voos maiores. E assim demos início ao projeto de gravação de nosso primeiro CD. Estamos na fase de captação de recursos e a campanha entrou no ar no dia 14 de março, na plataforma de croudfunding benfeitoria.com. O CD consistirá em faixas com algumas de nossas vozes. Assim, quem quiser acompanhar, conhecer um pouco mais e apoiar esse projeto, pode dar uma passadinha lá no endereço http://benfeitoria.com/coletivonarradores. O valor mínimo para apoio é de R$ 20,00, mas existem outras modalidades, com prêmios para contribuições mais generosas.
Estamos muito animados com o sucesso dessa campanha e por isso contamos com a participação de todo mundo. Convido os leitores deste blog a conhecerem um pouco mais nosso Coletivo através de nossa Página no Facebook.
Para ajudar um pouco mais vocês a conhecerem o Coletivo e entenderem o projeto, eis o vídeo que gravamos para o lançamento da Campanha:

Esperamos você lá no perfil do site da Benfeitoria! Seja nosso apoiador e faça parte da nossa história!

sábado, março 17, 2018

Vídeo: Lolô, de Grégoire Solotareff

Olás. Hoje compartilho com vocês a leitura do livro Lolô, escrito e ilustrado por Grégoire Solotareff. A tradução é de Michaela Nanni e a edição, da Companhia das Letrinhas. Aproveitem!



Sinopse: Um logo e um coelho. Seria essa uma amizade impossível? Nessa bela história, conhecemos uma amizade especial - como todas as amizades o são.


quinta-feira, março 08, 2018

Sobre o Dia Internacional da Mulher

Temor

[Pâmela Bastos Machado]


Desce a ladeira

a mulher
que nada teria a temer
não fosse a sombra
na escuridão
perto da árvore.

Desce a ladeira
a mulher
a tremer
tamanho o frio
que lhe causa o temor.

fixa seu olhar na sombra
como quem se impõe
(a despeito do temor)

reconhece-o
e desce a ladeira
em passos mais apressados
a mulher
a temer
um homem.

http://cadernodapam.blogspot.com.br/2016/10/temor.html?m=1



projetéis

[norma de souza lopes]

dirão
não, às pedras na mão
mais doçura mulher

violência
só as dos rituais de beleza
ou uma pistola apontada
para a própria testa



eu e minhas irmãs
carregamos entre os dedos
palavras napalm
poemas pedra
em honra às tantas
abatidas


http://normadaeducacao.blogspot.com.br/2018/02/projeteis.html?m=1



Queda

[Val Armanelli]


Ícaro, orgulhoso

Afunda sozinho
No mar

Nem pense,
Não tente me levar junto
Se suas asas são de cera,
Azar
Por que eu,
Eu não me apoio em próteses.

Voo sozinha
Livre
Com asas que nasceram das minhas costas
Nos buracos
Que você abriu
A facada

https://valarmanelli.wordpress.com/2018/02/08/queda/




quinta-feira, março 01, 2018

A parte que falta: Uma ode ao que não está lá

Falta uma parte. Ele percebe essa falta. Mais que percebe: ele a vive. Uma ausência que tolhe seus movimentos, que define sua existência, que impulsiona seus atos, que influencia seus planos. Por causa dessa falta, ele empreende uma longa e incerta busca, sem ao menos ter certeza se alcançará êxito e encontrará aquilo que preencherá esse grande vazio, essa falta que molda sua identidade. Mas ele não está triste. Sente uma esperança inabalável, uma fé profunda de que a parte que lhe falta está lá, em algum lugar, a sua espera.

Assim começa o maravilhoso livro A parte que falta, do escritor norteamericano Shel Silverstein. Um personagem sem nome, redondo, que rola quase sem parar, pois precisa alcançar o seu objetivo. O protagonista dessa narrativa, quase como um Pac-Man, prossegue em uma incansável e ávida busca. Precisa estar completo, precisa preencher justamente aquela parte que falta, para que ele se torne um círculo e possa rodar livremente. 

Sua esperança move dentro dele uma canção, que ele entoa enquanto atravessa os mais diversos obstáculos e enfrenta inúmeros desafios.

Um dos elementos mais fortes no traço de Silverstein é a simplicidade e, ao mesmo tempo, a incrível fluidez de seus desenhos. Não é preciso um cenário complexo ou um personagem rebuscado. A roda incompleta que é o herói dessa história pode ser qualquer um, eu ou você, o que torna a identificação do leitor com o protagonista algo quase certo. Além disso, o texto é carregado de um humor leve e descompromissado, apesar da profundidade com que Shel Silverstein aborda esse tema. Dessa forma, o autor cria uma obra singela, única, em que imagem e texto produzem um ambiente que nos arranca risos e, ao mesmo tempo, pode nos fazer chorar a qualquer momento.

É impressionante como Silverstein consegue, com o mínimo de palavras e imagens, criar uma narrativa tão densa e, em contrapartida, leve como o voo de uma borboleta. Tal fato vem apenas comprovar a genialidade do mesmo autor de A árvore generosa.

Com uma poética simples e poderosa, traços mínimos e ao mesmo tempo incrivelmente expressivos, A parte que falta é um livro que se abre para dentro, convidando o leitor a experimentar a ambígua beleza que pode haver na incompletude.

Ficha Técnica:
A parte que falta
Shel Silverstein
Tradução de Alípio Correia de Franca Neto
Editora Companhia das Letrinhas

quarta-feira, fevereiro 28, 2018

LIMERIQUES A CONTRA-GOLPE #10



UM REPÓRTER JÁ EXPERIENTE

DEU VACILO, CAUSOU ACIDENTE
QUANDO O ÁUDIO VAZOU
ELE SE EMBOLOU
E FALOU TEMER EX-PRESIDENTE!

segunda-feira, fevereiro 26, 2018

Reminiscências - Parte IV de IV

Ir para Reminiscências - Parte III de IV

 – Si-sim.
O jovem arqueiro desceu habilmente pelos galhos. Um vulto cruzou com ele numa velocidade surpreendente. Assustado, olhou para cima a tempo de ver Thin dar saltos enquanto subia pelos galhos, como se fosse um esquilo. Aldreth alcançou o chão e desceu a encosta aos tropeções. Correu rumo à pequena caverna. Enquanto aproximava-se, notas claras de uma suave canção alcançaram seus ouvidos.
Chegando à fenda, deparou-se com Uri sentado em frente a Lucan que, já desperto, tocava uma flauta de madeira. Ou melhor, quase fazia o pequeno instrumento chorar. A melodia era tão bela e aconchegante, que Aldreth entrou e sentou-se. Sentia-se confortável, uma felicidade crescente tomando conta do seu peito. Não sabia quanto tempo ficara a ouvir Lucan tocar seu instrumento, embora nem se importasse com isso. A flauta o fazia lembrar de ribeiros cristalinos, o sol incidindo em verdes folhas, o cheiro do pão fresco da sua mãe...
– Mas o que é isso!? – bradou alguém atrás de Aldreth, na entrada da fenda.
O rapaz deu um sobressalto, enquanto sentia com tristeza a música desaparecer. Lucan tinha um olhar assustado. Seridath estava parado na entrada da caverna, com seu olhar implacável. Thin estava um pouco atrás, meio que se divertindo ao prever o que iria acontecer.
– Mandei que os chamasse, garoto! – vociferou o guerreiro. – Não foi para ficar escutando música! E você, arauto, se pode tocar uma flauta, também poderá empunhar uma espada! De pé!
– A culpa foi minha, senhor Seridath – replicou Lucan. – Uri comentou que estava com fome e, como essa música faz esquecer muitos males, pensei que o agradaria se escutasse um pouco.
– Música não enche barriga, seu pedaço de bosta! – replicou Seridath, ainda furioso. – Essa tolice no mínimo irá denunciar nosso esconderijo aos inimigos. Quero todos fora!
Os três levantaram-se. Aldreth ainda estava atordoado pelas palavras duras. Aqueles olhos azuis, de gélida impiedade, sempre o perturbavam, mas ele não estava conformado com a injustiça sofrida pelo arauto. Aldreth queria que o bravo Uri falasse algo, já que o anão parecera tão satisfeito enquanto ouvia a música. Lucan mostrava dificuldades para se pôr de pé. Uri bateu levemente nas costas do arauto, enquanto o ajudava a se levantar.
– Foi uma bela música, meu rapaz – resmungou o anão. – Até esqueci a fome.
Seridath ouviu o comentário, mas manteve silêncio. Ele também ficara um tempo ouvindo a melodia da flauta de Lucan antes de interrompê-lo. E a música despertou nele imagens e sentimentos há muito adormecidos. Olhos verdes, bondosos, o fitavam, adornados por um rosto queimado de sol e cabelos castanhos, mas claros como o mel. Uma mão quente o afagando. Sorrisos, verdadeiros diamantes de alegria. Poesia de algum tempo perdido. E aquele caldo grosso que matava sua fome, perto da lareira, enquanto a neve batia de leve na janela.

O jovem balançou forte a cabeça, afastando aquelas lembranças, enquanto subia a colina com os outros. Detestara aquela música.

Continua...

sexta-feira, fevereiro 23, 2018

Se vivêssemos num lugar normal: quando as palavras não bastam

O que fazer quando as palavras são a sua única arma, mas esta se mostra totalmente inócua em um mundo em que a miséria e a loucura dominam? De que adianta o conhecimento, a retórica, a argumentação, se a força bruta, sempre surda, ignora todas as razões a ela apresentadas? Estas perguntas e muitas outras assombram o leitor de Se vivêssemos num lugar normal, segundo livro da trilogia sobre o México, escrita por Juan Pablo Villalobos.
Este é um livro totalmente irônico. O narrador é Orestes, apelidado Oreo, um rapaz no fim da infância e início da adolescência. Filho de um professor helenista, ele e os irmãos compartilham os insólitos nomes de figuras gregas. Aristóteles é o mais velho. O segundo, o narrador. Logo abaixo estão Arquíloco, Calímaco, Electra e, por último, Castor e Pólux, os chamados "gêmeos de mentira". 
A narrativa é repleta de um humor corrosivo. Logo de início Orestes vai desfiando os absurdos e as incoerências de uma família com um certo grau cultura, mas dominada pela pobreza.
Villalobos cria um narrador que passeia entre a inocência pueril e a maligna ironia adulta. Orestes, a todo o momento, trata de ideal e realidade, sendo esta última de uma crueldade óbvia. Um exemplo é quando o garoto fala de sua relação com o irmão mais velho e as disputas entre ambos. Oreo revela que é um excelente orador, usando de suas palavras para tentar vencer o outro, maior e mais forte. Aristóteles, por sua vez, pouca importância dá para os rebuscados argumentos do irmão mais novo. Resolve tudo na porrada mesmo.
O universo concebido por Villalobos é surreal. Mundo de fome, injustiça, corrupção e loucura. Um dos episódios mais insólitos acontece com o desaparecimento das duas crianças mais jovens, Castor e Pólux, ocorrido logo no início do livro. Tanto a polícia quanto a mídia tratam a situação de uma maneira que beira o ridículo, através da exploração do sofrimento da família. O policial responsável pelo caso se cerca de palavras de complacência, enquanto um canal de televisão procura explorar o caso através de sua espetacularização. E posso afirmar que qualquer semelhança com um certo país não pode ser mera coincidência.
Ainda assim, Se vivêssemos num lugar normal é um romance sobre o México, suas mazelas e desgraças. Uma obra contundente, mas que sustenta um bom humor, o que permite que o leitor siga pelo enredo sem que o gosto amargo na boca seja forte demais.

Ficha técnica:

Título: Se vivêssemos num lugar normal
Autor: Juan Pablo Villalobos
Tradução: Andreia Moroni
Editora: Cia das Letras