quinta-feira, outubro 23, 2014

Cercado mas não vencido: Max e os felinos

Filho de um peleiro de Berlim, Max se envolve com a esposa de um membro do Partido Nazista. Descoberto o romance, o rapaz é obrigado a fugir para o Brasil. Começa assim uma série de aflições sofridas pelo rapaz em seu exílio.
Max e os felinos está dividido em três capítulos que também poderiam ser chamados de atos. Cada um está ligado a uma espécie de felino. O primeiro é um tigre; o segundo, um jaguar e o terceiro, uma onça.
É interessante observar que o livro demonstra a evolução, o amadurecimento do personagem diante das adversidades. Há, em contraponto, uma gradual diminuição do porte do felino, que assume um papel alegórico. A cada ato a postura de Max muda do medo paralisante ao total enfrentamento. E assim o protagonista se fortalece diante dos desafios, pois reconhece que o medo é uma ameaça interna, maior que qualquer perigo que possa cercá-lo.
Ao mesmo tempo, podemos considerar o segundo ato como a alegoria da sociedade regida por governos totalitários, onde a passividade e o medo que o cidadão comum sente alimenta e fortalece um regime que, quando não oprime o povo, está totalmente alheio a suas necessidades. Dessa forma, o livro não somente se constitui numa bela história de superação, amadurecimento e coragem, mas também um retrato contundente de um processo histórico que nós brasileiros também enfrentamos durante o Estado Novo. A proposta então é a resistência, o enfrentamento. O monstro teme ser enfrentado e é capaz de consumir-se quando tal acontece. 
Não podemos esquecer a deliciosa prosa de Moacyr Scliar, artesão da prosa. Com seu talento, ele faz de Max e os felinos uma experiência de prazer e reflexão.

Ficha Técnica
Editora: L&PM
Ano: 1981
Páginas: 78

Perfil do livro no Skoob: http://www.skoob.com.br/livro/12086-max-e-os-felinos

quinta-feira, setembro 25, 2014

Um sábado literário



Neste último sábado realizamos aqui na Biblioteca Pública Infantil e Juvenil o evento Mochila Literária. Trata-se de um projeto criado pela autora Adriana Vargas e que busca reunir jovens autores com o propósito de mútua divulgação.
A organizadora desta edição, Carla Montebeler, deu a ideia de realizá-lo na Biblioteca e como consegui a autorização, fomos nos organizando, fazendo a divulgação junto às redes sociais e trocando ideias.
Foi um sábado muito conturbado. Eu realizei uma oficina chamada Publique seu livro pela manhã. Ao todo tivemos 16 participantes, todos muito interessados no tema. Acredito que eles tenham ficado satisfeitos com o resultado da oficina.
Logo após fechar a Biblioteca, fui recolhido pelo motorista do Sítio Escola 4 Elementos para uma feira literária que lá ocorria. Um pouco tenso, tive meu nervosismo dissipado ao desfrutar da companhia da escritora Rosana Mont'Alverne durante o trajeto. Tivemos então uma agradável conversar bastante sobre literatura.
No evento literário pude falar de minhas obras e de minha paixão pela escrita. Depois do bate-papo, fui conduzido pela escola para conhecer suas dependências. Em seguida, fiquei em uma sala para a sessão de autógrafos. Foi ótimo ver quantas crianças estavam interessadas pelo meu livro! O único problema foi que O Medalhão e a Adaga não estava disponível para venda e por isso só autografei o Patos Selvagens.
Não pude ficar até o final do evento, pois tinha que estar na Biblioteca às 18h30. Fui novamente transportado pelo motorista do Sítio Escola, chegando no horário marcado. De 18h30 às 19h30 fiquei prestando auxílio à equipe do projeto para que o espaço ficasse pronto na hora certa.
O evento começou mesmo às 20h e contou com um bom público. Foi uma noite gostosa e agradável. Pudemos conversar com bastante descontração, brincando uns com os outros e respondendo a perguntas do público. Ao final pude autografar O Medalhão e a Adaga para algumas pessoas. Dessa vez, o Patos Selvagens estava em falta. Ainda assim, senti que minha obra foi contemplada ao longo do dia.
Creio que eventos como estes contribuem para o desenvolvimento da literatura em nossa cidade e seu entorno. Se desejamos uma cidade literária, uma cidade de leitores, devemos promover mais encontros entre autores e leitores. Acredito que essa é uma forma rica de oxigenar a literatura, propor diálogos sólidos e enriquecer os escritores de material humano para suas obras. Sim, pois acredito que um dos grandes fenômenos da boa literatura é causar no leitor a impressão de ver-se no texto lido. E um escritor só pode alcançar esse nível de sinergia pelo amadurecimento e pelo encontro.
Bem, acredito que esse sábado foi mais rico do que posso medir e que seus resultados irão reverberar ao longo de nossas carreiras literárias.

Um agradecimento especial a aos autores Carla Montebeler, Ledinilson Moreira, Poliana Nogueira, Thais Lopes e Sterlayni Duarte e às blogueiras Renata Ávila, Alessandra Santos Reis, Letícia Pimenta, Paulina Pimenta e Brenda Ellen.

Segue agora um vídeo feio pela Paulina Pimenta com parte do bate papo entre autores.



sexta-feira, setembro 05, 2014

Momento Pandeguice



Deixando aqui um vídeo bem bobo. Afinal, é bom dar gargalhadas e debochar um pouquinho de vez em quando...

Essa musiquinha foi feita em homenagem àquela gosma que nos salva de ácaros, bactérias e outros intrusos.

O Catarro Verdão

Verde e gosmento no meio do dedão
esta é a história do Catarro Verdão

O Catarro Verdão tem múltipla função:
Ele cola seu dever, é uma boa refeição.
Em casa ou na escola, no recreio ou na aula
ele sempre te atende não te deixa na mão.

Ele cola porcelana, borracha e madeira.
Serve pra modelar, é uma boa brincadeira.
Você que está em casa desligue a televisão.
O Catarro Verdão é sua diversão!

Não é mole, meu irmão, ser um catarrão!

quarta-feira, setembro 03, 2014

Revoada dos Patos Selvagens



Sim, meu amado filho finalmente alçou voo. Eu, pai todo orgulhoso, vi suas vigorosas asas enquanto me enchia de orgulho. O dia 30 de agosto foi maravilhoso. Ainda que eu estivesse extremamente ansioso, consegui me segurar, manter a calma, e curtir com gosto esse maravilhoso momento.
O caminho até o lançamento foi longo e árduo. Começou há mais de um ano, quando enviei o original para a editora RHJ. Durante alguns meses fiquei ansioso mas lentamente fui me desprendendo. Acho que em parte por causa de uma autoestima deficitária. Enfim, achava que meu texto não convenceria. 
Assim eu me mantive em silêncio sobre esse livro enquanto voltava todas as minhas forças para a obra que estava para nascer, O Medalhão e a Adaga
Curiosamente, um mês após o lançamento, recebi um e-mail da editora RHJ expressando o interesse na publicação de meu texto. Exultei, fui às nuvens. Naquele momento eu me senti como alguém que ganha na loteria. 
A partir desse primeiro e-mail deu-se início a um longo processo editorial. Eu aguardei com muita ansiedade o findar desse processo. Era assaltado por dúvidas atrozes, cheguei a sonhar que a editora entrava em contato comigo para dizer que meu livro era péssimo e não seria mais publicado. Foram momentos de sono escasso e atribulado.
Quando finalmente senti o livro em minhas mãos, fiquei maravilhado. Seguiu-se então a espera para organização do lançamento. Era preciso planejar uma data, fazer contatos, estimar público, organizar a agenda, levar aos amigos os convites.
E finalmente chega o dia 30 de agosto. Eu não me aguentava de tanta expectativa. Estava como um pião, sem parar um momento. O plano era fazer um bate-papo, mas as pessoas foram chegando, pedindo autógrafo, e assim a fila se formou e o papo ficou para outro momento.
Foi assim que eu pude assentar, mas sem descanso. Seguiu-se um longo período atendendo, dando autógrafos, tirando fotos, sorrindo, abraçando leitores. E fui agraciado com a presença de amigos que mostraram todo o seu afeto. A presença dessas pessoas foi fundamental para fortalecer meu desejo de escrever ainda mais - e melhor!
Assim, ao chegar o horário de fecharmos a Biblioteca, eu estava com o estômago vazio (não havia parado nem para beber água) e o coração cheio, transbordando. O sonho não foi apenas realizado, eu pude lançar meu livro ao lado da escritora e professora Ana Elisa Ribeiro, uma pessoa por quem nutro uma enorme admiração. Meu sonho ultrapassou todas as expectativas.
Fica aqui, então, meu agradecimento à Ana Elisa, à minha família, aos meus amigos e em especial a Ana Luiza de Freitas Rezende, que foi um apoio mais que sólido neste bom momento.

Programação de setembro de 2014 na Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de BH



Programação BPIJBH – Setembro/2014


Literatura


Oficina Fábrica de Monstros
Leitura dos livros Pequeno manual de monstros caseiros e Mais um pequeno manual de monstros caseiros, de Stanislav Marijanovic. Criação de perfis de monstros a partir das narrativas lidas.Com Israel Ribeiro
Público: Crianças (8 a 12 anos)
Vagas: 15
Dia 11, quinta, às 14h30.

Oficina O vizinho monstruoso
Leitura do livro Condominio dos Monstros, de Alexandre Gomes e criação de um novo personagem para habitar a Rua Mortinho da Silva, número 13. Com Samuel Medina.
Público: infantil (6 a 10 anos)
Vagas: 20
Dia 12, sexta, às 10h30

Voz da Poesia
Leitura de poemas de diversos autores, em voz alta, buscando novas percepções de sentido e musicalidade. Com Sérgio Fantini.
Dia 18, quinta, às 14h30

Oficina borboletras

Leitura do poema “Borboleta Amarela”, do livro em duas escritas Nas Asas da Poesia, de Simone Pedersen, seguida de um bate-papo sobre poesia. Em seguida, os participantes serão estimulados a elaborar seus próprios poemas. Com Wander Ferreira.
Público: infantil (6 a 10 anos)
Vagas: 15
Dia 19, sexta, às 10h30.

Oficina Conte um conto
Leitura compartilhada de contos de autores brasileiros e conversa descontraída sobre a história. Com Sérgio Fantini
24, quarta, às 9h30

Oficina Carta para o mundo das fadas
Leitura compartilhada do livro O carteiro chegou, de Janet & Allan Ahlberg e proposta de exercício da recriação literária dos clássicos infantis, através de cartas escritas pelas crianças presentes.Com Israel Ribeiro
Público: Crianças (8 a 12 anos)
Vagas: 15
Dia 25, quinta, às 14h30.



Era uma vez jovem
Narração de histórias para jovens e adultos. Com o Grupo Via do Conto.
Público: Jovem
Dia 25, quinta, às 19h.

Curso Panorama do livro para crianças e jovens

O curso propõe uma reflexão sobre os livros, principalmente os destinados a crianças e jovens, desde a perspectiva histórica até a diversidade de gêneros, passando por sua materialidade.Com a consultora editorial e Publisher da Revista Emília, Dolores Prades.
Público: profissionais do livro e da leitura
Informações e inscrições a partir do dia 10 de setembro no blog:panoramadolivro.blogspot.com

Dias 29 e 30, segunda e terça, de 8h às 20h


FORMAÇÃO PERMANENTE

Roda de Leitura
Encontro para estudos sobre leitura e literatura infantil e juvenil, bem como prática de leitura em voz alta. Com Wander Ferreira e Samuel Medina.
Aberto a novos interessados.
Públicos: juvenil e adulto (mediadores de leitura, educadores e interessados em geral)
Dias 3, 10 e 17, quartas, às 9h30.
Dia 24, quarta, às 9h30 – Roda de Leitura Especial

Encontro semanal de contadores de histórias
Reunião para seleção e pesquisa de textos literários, exercícios de narração e trocas de vivências. Com Samuel Medina e Érica Lima.
Aberto a novos interessados.
Dias 5, 12, 19 e 26, sextas, às 9h45.


Conheça a BIBLIOTECA

Visitas monitoradas
Para conhecimento dos espaços, acervos (literário, informativo e quadrinhos) e participação nas atividades da biblioteca.
Públicos: infantil, juvenil, universitário e demais interessados.
Agendamento pelo telefone 3277-8672, de terça a sexta, das 9 às 17h.
Visitação: terças e quintas, às 9h30; quartas e sextas, às 14h30.
Mais informações: bpij.fmc@pbh.gov.br

SERVIÇOS

Empréstimo de livros e quadrinhos. Acervo disponível para consulta local com obras informativas e literárias voltadas, sobretudo, para os públicos infantil e juvenil.
Acesso à internet (Telecentro). De terça a sexta, das 9 às 17h30; sábados, das 9h30 às 13h.


AOS SÁBADOS

Dia 13
Sessão de autógrafos com os poetas Rômulo Garcias, autor de Clandestino (Asa de papel) e Adri Aleixo, autora de Des.caminhos (Patuá).
Público: Jovens e adulto
Às 10h

Dia 20
Oficina Giroletras
Leitura de textos literários para a primeira infância. Com Samuel Medina
Público: infantil
Vagas: 20
Às 10h

Oficina Publique seu livro
Uma apresentação sobre os métodos atuais de publicação, apresentando dicas sobre como enviar o original a uma editora ou como publicar de forma independente. Com Samuel Medina.
Vagas: 25
Às 11h

Mochila Literária
Evento que conta com a participação de vários autores, tanto de Belo Horizonte quanto de outras cidades. Serão realizados debates, conversas com leitores e sessões de autógrafos.
Às 19h

Dia 27
Leituras em quadrinhos
Clube de leitura que se reúne quinzenalmente para ler e discutir temas relacionados aos quadrinhos, sua linguagem e relação com outras mídias. Com Afonso Andrade.
Públicos: juvenil e adulto
Às 10h

Era uma vez...
Hora do conto: leitura e narração de histórias da literatura e da tradição oral. Com Maria Célia, Cidinha e Maria Tereza, contadoras de histórias voluntárias da Biblioteca Infantil e Juvenil.
Público: infantil
Às 10h30




BIBLIOTECA PÚBLICA INFANTIL E JUVENIL DE BELO HORIZONTE
23 anos partilhando leituras
Horário de funcionamento: de terça a sexta, das 8h30 às 17h30
Aos sábados, das 9h às 13h
Rua Carangola, 288 – Térreo – Santo Antônio. CEP: 30.330-240
3277-8658
Ônibus: 5102 e 9103, SC01 e SC02 (Av. Contorno)

quarta-feira, agosto 27, 2014

Profilaxia

Brisa

Foi uma noite só...
E ela partiu.
Levou embora meu desejo
meu impulso viril.

Agora ando em busca
sempre em busca
De uma outra ideia
Outra loucura
Que me venha
redimir.

Culpa

Sinta seu próprio nojo
Guarde-o em seu peito.
Este será de longe
o maior tesouro
que você
alcançará.
Rasgue este texto
falsa
profecia
A poeirinha chamada
Deus
continua a cutucar
o canto
do seu olho.

Fenecer

A fome da morte
é uma fome de norte
De um sentido forte
Mais seguro que a sorte

Simples demagogia
pensar que a poesia
em sentido se fia
ou na certeza se avia.

Quase um

Eu era vários
Os nomes todos acumulados
memória de
mil homens
todo um povo
saído
de um Egito espectral.
Tudo pra ser inteiro, completo,
mas as palavras faltaram
foram poucas.
E assim permaneço
rascunho
plano
incompleto.

Belo Horizonte, 27 de agosto de 2014

terça-feira, agosto 12, 2014

Lançamento de um pato e uma carta



Atenção! Meu novo livro, Patos Selvagens, será lançado no dia 30 de agosto de 2014, às 11h, na Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte. Será um lançamento conjunto com a incrível escritora, pesquisadora e poeta Ana Elisa Ribeiro, com seu E-mail de Caminha, uma releitura da carta de Pero Vaz de Caminha à Coroa Portuguesa em ocasião do "descobrimento" do Brasil.

O endereço:

Rua Carangola, 288 - Térreo - Santo Antônio - Belo Horizonte - MG

Ônibus: 9103, 5102, 8108 (esquina da Carangola com a Contorno)

Contato: bpij.fmc@pbh.gov.br (31) 3277-8658

Confirme sua presença no evento pelo Facebook: https://www.facebook.com/events/931420243551025/?fref=ts

Confira um pouco mais sobre as obras a serem lançadas:






Todo mundo sabe que o escrivão Pero vaz de Caminha mandou uma carta ao Rei dom Manuel para contar sobre o achamento do Brasil, aliás da terra de Vera Cruz. A carta data de 1500, em Porto Seguro. O documento sobreviveu a tempestades e trovoadas, ficou guardado em Portugal durante séculos, até que alguém o encontrou e publicou. Pois bem, mas e se Caminha tivesse e-mail em 1500? Este livro propõe um exercicio divertido de imaginação e de reflexão sobre linguagens e mídias, transformada nos e-mails e nos tweets de Caminha, a carta ganha outra feição e dá muito pano pra manga.









Há muitos mistérios sobre um lago assombrado pela imagem de uma bela jovem. Quando Nerito, um corajoso aventureiro, passa a se envolver com este enigma, decide lançar-se em busca de respostas. Qual será o seu destino? Acompanhe Nerito nesta emocionante jornada.

quarta-feira, agosto 06, 2014

Portais: mundos imersos em mundos

Conheci o Ledinilson, autor de Portais, há uns bons dez anos. Na época, eu trabalhava como programador, assim como ele. Nenhum dos dois imaginava que tanto tempo depois, quando já não tínhamos mais contato, seríamos novamente companheiros de trabalho, só que agora no mundo das letras.
Foi assim que pude também ler Portais, uma trama fantástica com toques de ficção científica. No livro, quatro amigos que estudam na Faculdade de Engenharia da UFOP se veem subitamente envolvidos em uma trama internacional, ao descobrirem que suas linhagens estão ligadas a poderosos clãs destinados a guardar as chaves dos portais: artefatos que podem criar aberturas no espaço-tempo, levando a dimensões onde não apenas a física é diferente, mas onde as ideias chegam a ter forma. Através desses portais seria então possível ter contato com qualquer objeto que tenha sido alguma vez concebido. 
Dessa forma, Miguel, Gabriel, Rafael e Mikaela se lançam em uma corrida pela sobrevivência não apenas deles, mas de toda a humanidade.
Repleto de cenas de ação e com boas doses de romance e humor, Portais é uma narrativa que garante bons momentos de diversão.


Ficha técnica
Edição: 2
Editora: Dracaena
ISBN: 9788564469846
Ano: 2012
Páginas: 332

sexta-feira, agosto 01, 2014

Retórica

Trigo, sal e blues.
A noite se fecha sobre meus olhos.
As pontas dos edifícios tremulam.
Dou mais um trago de minha garrafa 
e as palavras descem queimando por minha garganta.
Embriagado estou,
contaminado,
cativo
de
mim

quarta-feira, julho 30, 2014

Engenharia Social

Fonte: http://www.freeimages.com/profile/edu

Da venda de enciclopédias tirava o seu sustento. Veio a internet e destruiu seu ganha-pão. Deu uma guinada: virou cabo eleitoral.

terça-feira, julho 29, 2014

Quando a sombra ficou no lugar

Noventa e três,
tempo de sonhos
Nascem mazelas no lugar
A poeira da rua unta nossos pés
enquanto o caminho, interrompido
corta pela metade qualquer desejo
Éramos muitos,
poucos olhavam
Era tudo quase fraterno
Veneno (Marco Antônio) fala digavar
Adão como toda a pasta de dente
Cuei acha a minha camisa folgada demais pra ele
Tobinha acerta uma pedra na nuca de Meio-quilo
E o Manchinha, sempre tão afobado
queria apenas uma namorada
Éramos muitos
poucos os sonhos
"Não é permitido"
sussurravam as pedras
A cada dobra de esquina

domingo, julho 27, 2014

A Cidadela - Parte III de IV

Ir para A Cidadela - Parte II de IV

Uma presença inegável respondeu como algo que invadia sua mente qual uma onda. Lorguth atendia ao seu chamado com uma vivacidade incrível. Da lâmina emanavam sentimentos muito próprios, mas era difícil para Seridath identificá-los, distingui-los dos seus próprios sentimentos. Mais uma vez o rapaz teve medo. Temeu ser subjugado. Lembrou-se então da vergonha que sentira quando a espada não funcionou. Aquilo tudo era parte do teste e, para ser aprovado, ele precisava dominar sua arma, fazê-la erguer suas vítimas para que elas novamente lutassem por ele.
O rapaz levou um bom tempo para conseguir separar os seus pensamentos dos de Lorguth. Quando sentia cansaço mental por causa do exercício, deixava de tocar a lâmina para conseguir certificar-se de seu próprio eu. Mas logo ele já conseguia identificar a presença da consciência da espada junto à sua própria. Percebeu que Lorguth transbordava volúpia. Ela havia impulsionado a querela contra Balgata e o desprezo contra Aldreth. Talvez ela o tivesse impelido a ingressar na Companhia. Até aquele momento, o rapaz não fizera nada mais do que obedecer aos impulsos caóticos de sua companheira.
Outro sentimento forte na lâmina era uma euforia quase pueril. Lorguth não estava interessada no sangue dos homens dentro da cidadela. Ela ansiava provar o sangue de algo maior, mais forte. Seridath sentiu uma palavra surgir involuntária em sua mente: “Tominaro”. O cavaleiro surpreendeu-se, desconhecendo o significado dessa palavra. Mas havia também outra coisa, a expectativa de um encontro. A espada transmitiu a Seridath que havia um ente incrivelmente poderoso naquele exército de mortos. Talvez mais de um.
Aquilo era um problema para Seridath. Balgata e os outros esperavam que ele cumprisse sua parte. O guerreiro precisava invocar os servos de Lorguth antes que a caravana chegasse à cidadela. Ele acreditava que todos os entes vivos que fossem mortos pela sua espada deveriam tornar-se como aqueles dois monstros que surgiram em Keraz. Na verdade, deveriam ser três, o número de vítimas que Seridath fizera em sua primeira luta. E se as usas suposições estivessem corretas, os argros e as criaturas mutantes engrossariam suas fileiras.
Se três monstros fizeram aquele estrago em Keraz, as novas vítimas seriam uma temida força, e Seridath contava com isso. O plano era simples: Balgata e alguns homens teriam que segurar os portões abertos até que os servos invadissem e matassem qualquer inimigo, poupando somente quem estivesse desarmado. O capitão parecera vacilante na adoção a esse plano, mas as opções de que dispunha eram realmente escassas. 
Enquanto Seridath estava imerso em sua luta pessoal com Lorguth, os sobreviventes se preparavam para dar início ao plano para tomar Arnoll. Balgata ainda lançou um olhar para trás, para o interior do bosque, esperando que sua escolha não os condenasse. Era um risco que estava disposto a correr. 
Nas entranhas do bosque, Seridath continuava a fazer suas descobertas, como que mergulhado em profunda meditação. O jovem começava a distanciar-se da realidade sensível e física, para penetrar em uma densa escuridão. Lentamente ele começou a perceber que agora era a espada que o conectava ao mundo real. Deixou-se levar, ainda que com cuidado, por esse caminho escuro, penetrando nas sombras profundas.

Continua...

sábado, julho 26, 2014

Ébrio

tolhido de sentidos
ele persevera.
Vence colinas
escala montanhas
e persevera.
Não fosse a linguagem
ele estaria morto.
Morta sua aspiração
Morto seu ideal
mas ele persevera
e fala
fala
e não se
cala
sua voz ecoa
pelas galerias
num
vazio
eco

sexta-feira, julho 25, 2014

Fábulas para adulto perder o sono


O que dizer de tão fabulosa obra de Adriane Garcia? Com o perdão do trocadilho, ler essa obra poética que conquistou o Prêmio Paraná de Literatura, é de fato uma surpreendente jornada ao mundo de nossas fantasias infantis. E na tentativa de buscar adjetivos que façam jus à potência desse livro, acabo caindo no clichê, no lugar-comum. 
Contudo, creio que essa seja a grande força da poesia de Adriane Garcia. Em sua obra ela revisita esses tantos clichês e os revitaliza, ressignifica, chega até mesmo a devolver um pouco de seu caráter sombrio, desprovido dessa roupagem homogeneizante do politicamente correto.
Assim, Garcia aposta nessa inesgotável fonte que é nossa literatura oral e tece uma urdidura que se destaca justamente em sua diferença, em sua ousadia. São poemas que equilibram graça e aspereza, num jogo de morte e assopra que vai quase como um gingado, uma dança de sedução.
Ainda que faltem palavras, o apelo permanece. E o convite: venha você também perder o sono. 

quarta-feira, julho 23, 2014

Média

No meio do caminho 
Fonte: http://www.freeimages.com/profile/senjur
tinha um viaduto
Braços e pernas
esmagados
pelo dolo
grama e concreto
servindo aos 
mesmos
fins ao
mesmo
dEUS.
A dança do fogo
o jogo de imagens
a língua amputada
a vida apagada.
No meio do viaduto
tinha um 
carro
No meio do campo
tinha uma
bola
No meio do ano
tinha um
engano.

Belo Horizonte, 12/07/2014