terça-feira, agosto 04, 2015

De volta com os vídeos de terça!

Olá, pessoal, boa noite! Estou retomando os vídeos de terça. Hoje trago para vocês o poema "Tombo", do livro Borda, da excelentíssima poeta Norma de Souza Lopes.

Apreciem sem moderação!


sexta-feira, julho 03, 2015

Dom Quixote - do que há de trágico e triste mas muito divertido

Desde criança alimentava um certo fascínio por Dom Quixote. Acho que a semente de tal fascínio veio por uma certa identificação comum. Afinal, desde criança eu era apaixonado por histórias de cavalaria. Ficava inebriado pela imagem das armaduras de placas, os estandartes, as justas. O código dos cavaleiros davam um tom heroico a esses guerreiros e isso fazia com que os admirasse ainda mais. Isso foi muito antes de ter lido Bernard Cornwell, com seus cavaleiros beberrões, assassinos e estupradores. Foi numa época em que assistia clássicos sobre o Rei Arthur e seus cavaleiros para, depois disso, ir brincar no quintal fingindo ser Lancelot (todo mundo sempre quis ser Lancelot!).
Pensar que um homem já na meia-idade teria a audácia de assumir um comportamento assim sem dúvida foi um fator sedutor para sempre ter Dom Quixote como uma espécie de companheiro de brincadeiras. Além disso, como todos os grandes clássicos, somos alcançados por seus símbolos mesmo não os tendo lido. E por isso a imagem do Quixote e de seu fiel escudeiro, Sancho Pança, visitaram meu imaginário desde cedo.
Havia, porém, algo que me contrariava. Eu não havia lido a obra de Cervantes. Ainda não. Cheguei a adquirir o Novelas Exemplares, o qual não li. Sentia que seria um absurdo ler qualquer coisa de Cervantes antes de ter me aventurado pelos caminhos do Cavaleiro da Triste Figura.
Em meu último aniversário fui presenteado com os dois volumes do Quixote. Trata-se de uma nova tradução, feita por Ernani Ssó, um projeto tão engenhoso quanto o próprio fidalgo da Mancha, publicado pelo selo Penguin Companhia. Embora tendo finalmente os livros em meu poder, decidi esperar um pouco mais.
Neste ano, então, lancei-me de cabeça nessa aventura. E como foi deliciosa! Conheci o herói que, de tanto ler livros de cavalaria, procurou se fazer cavaleiro e partiu pelo mundo a reparar injustiças. O problema era que a mente distorcida do herói via problemas onde não havia, criando situações que tanto têm de comédia quanto de tragédia. O Quixote é teimoso, voluntarioso e também um pouco perigoso. Em muitos momentos esteve a ponto de cometer terríveis enganos, por conta de sua loucura. Para seu bem, tanto a sorte quanto a vontade no narrador trataram de salvar nosso herói de tantas enrascadas auto-impostas.
Chegando ao final do primeiro volume, estava um pouco cansado. Situações tristes haviam me deixado muito desmotivado e isso interferiu minha leitura. Mesmo assim, decidi iniciar o segundo volume e como fui recompensado! A continuação das aventuras de Dom Quixote e Sancho Pança é ainda mais divertida que a primeira narrativa. Nele, Sancho chega a receber maior atenção por parte do narrador, sendo ele protagonista de algumas das melhores passagens da narrativa.
Assim, garanto que ler O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha é mais do que a obrigação de ler um clássico. É a garantia de humor inteligente, refinado, da genialidade de um escritor morto há quase quatro séculos e que permanece eterno. 

Ficha Técnica
ISBN-13: 9788563560551
ISBN-10: 8563560557
Ano: 2012 
Páginas: 1328
Idioma: português 
Editora: Penguin Companhia

terça-feira, junho 30, 2015

Vídeo de Terça: As Trapalhadas de Zé Bocoió

Boa noite! Compartilho com vocês o vídeo da minha apresentação na formatura do primeiro módulo do curso "A Arte de Narrar Histórias", realizado pelo Instituto Cultural Aletria.



E então, o que acharam? Se tiverem gostado, ajudem a divulgar o canal e o blog, ok? ^_^

quinta-feira, junho 11, 2015

Distraídas astronautas - uma jornada de sentidos

Já falei algumas vezes sobre a maravilhosa poesia de Simone Teodoro. Sinto-me como um pupilo clandestino dessa grande poeta. E por isso, falar de sua obra de estreia se torna tão desafiador para mim.
Aprendi muito sobre poesia participando de um projeto criado pela Simone, chamado Estação da Poesia. Sobretudo, pude aprender ainda mais lendo Simone. E minha proximidade com a autora permitiu testemunhar um longo e profícuo período de fazer poético e que culminou no livro Distraídas astronautas.
O leitor que se aventura em Distraídas astronautas é convidado a uma experiência estética que não se priva da força do desejo, da entrega e da dor. Um desejo carregado de um homoerotismo sinuoso, refinado. Uma voz que prima pelo feminino, pelo jogo de claro e escuro da relação romântica.
Ler Simone é para mim uma jornada silenciosa. Esse silêncio, contudo, é polifônico, rico, diverso, plural. Silêncios que bradam. É navalha cortando igualmente carne e seda. São poemas intimistas, muitos deles doloridos, revelando um eu lírico aturdido ante o absurdo da realidade, mas também maravilhado com belezas singelas que essa mesma realidade reserva para os olhares mais argutos.

Ficha técnica:
Ano: 2014
Páginas: 100
Editora: Patuá

terça-feira, junho 09, 2015

Vídeo de terça: Deserto


A tarde se fratura.
E o outono tem sempre
esse gosto de fim, que te aniquila.

O vento escuro suga tua alma
(aberta confusamente)
para a solidão das pedras frias: a matéria triste das montanhas.

Melancolias alcoólicas te povoam.

Bolhas de sonhos explodem no ventre
infecundo das estrelas.

Em vão, estendes os braços trágicos
a procura da alavanca que possa
frear o irreversivel.

Estás só, estática esfinge
sem enigma.


Deserto, Simone Teodoro. In: Distraídas astronautas, São Paulo: Editora Patuá.

quarta-feira, junho 03, 2015

Exercício de método

Marca na pele.
A dor do fogo
é como uma constante memória.
A dor do fogo
nunca deixa de acontecer
Meu dedo passeia pela ferida.
Crostas fazendo vez de
cordilheira.
Meu pequenino
himalaia.
Alcanço o meio da ferida
e com o indicador
perfuro a casca. Aperto.
Aperto.
Até que se derrame
um pequeno
trecho de
mim.

terça-feira, junho 02, 2015

Vídeo de terça: Sentimento do mundo


Olá! Trago para vocês mais um vídeo-poema. Neste eu declamo Sentimento do mundo, de Carlos Drummond de Andrade. Espero que gostem!

sexta-feira, maio 29, 2015

Rio 2054: sobre um futuro que se quer esquecer

Há muito li Rio 2054, de Jorge Lourenço, e me cobrava uma resenha. Fui agraciado por um exemplar do livro em uma promoção feita pelo próprio autor. Recebi um duplo presente.
Sim, afirmo que foi duplo. Além do livro, fui brindado com uma narrativa equilibrada, enxuta, vívida e ligeira. O narrador criado por Lourenço é econômico sem cair no minimalismo. Seus cenários são facilmente visualizados pelo leitor: um mundo decadente, onde a distância entre ricos e pobres torna-se quase surreal. Uma distopia repleta de elementos tecnológicos verossímeis. 
Outro ponto muito bacana são os personagens, com destaque em Miguel, o protagonista, que assume a posição de anti-herói, alguém que vive à margem dessa sociedade mas que lentamente percebe estar no olho de uma tempestade que irá sacudir seus fundamentos.
Para deixar mais forte o suspense, tentei ser o mais econômico possível em relação ao enredo desse ótimo livro. Destaco apenas que um dos pontos fortes é a ação quase vertiginosa, alucinada. Além disso, os chamados geeks e demais amantes da cultura pop irão reconhecer diversas referências a clássicos do gênero, desde mangás/animes até obras literárias e cinematográficas.
Imerso em um vívido universo ciberpunk, Rio 2054 certamente é uma das melhores narrativas futuristas escritas em solo brasileiro. Uma obra quase premonitória sobre um futuro que deveria ser esquecido.

Ficha Técnica:

Rio 2054
Os filhos da revolução
ISBN-13: 9788576798644
ISBN-10: 8576798646
Ano: 2013
Páginas: 374
Editora: Novo Século

quarta-feira, maio 27, 2015

Perfis

I

Era pequenina e linda. Seus olhos de um castanho forte, vívido, acompanhavam o tom dos seus cabelos. Sua cor mais forte, o vinho.
Tinha uma enorme aliança de noivado. Era a imagem do desejo interdito. Ele, de longe, suspirava.
Até que, certa manhã, ela surgiu no trabalho sem a aliança. Uma fagulha de possibilidade surgiu no peito dele. 
A rotina do dia os envolveu, até que os pôs lado a lado. No meio da intensa correria ela apertou a manga da camisa dele, sussurrando algo suavemente. 
Ele não entendeu de pronto. Inclinou-se para ouvir melhor. E arquejante ela repetiu o sussurro: "Você quer casar comigo?"

II

Olhos atentos, rosto sempre sério, ela escondia sua doçura sob uma dissimulada austeridade. 
Calada, dizia-se tímida, embora para ele essa timidez se mesclasse a um fortuito desinteresse.
O que ele mais amava nela eram aqueles cabelos que negros toldavam seus ombros. Davam a ela um ar de Minerva.
E ele nunca soube seus reais pensamentos. Os olhos negros engoliam qualquer questão, qualquer esboço de ideia. Tragavam o que ele pudesse pensar.
Ela, esfinge.

III

Um rosto completo. Não haveria melhor definição para ela, a plenitude em pessoa. Seu sorriso era de Senhora, embora fosse ainda tão moça.
Os óculos realçavam o ar de autoridade, de alguém douta em vida.
Mas para ele olhá-la era ser fogo.
Seu porte altivo, sua voz suave, seu olhar potente, tudo isso para ele se transmutava em pura chama. Até mesmo toda a franqueza dela tornava o fogo ainda mais selvagem. E impossível.
Afinal, sua Senhora por outro firmara o compromisso. Era apenas a amiga, alta, esguia, forte. Noiva. Ele maldizia sua sina de amar noivas.
E o fogo, a cada momento mais forte, quase a o engolir. Uma chama que a tudo consome. 
De repente, não trabalhavam mais juntos. Ela precisava de total dedicação ao casamento. Longe dela, sem seu altivo olhar e porte tão sublime, ele sentiu o fogo perder força até se extinguir. Ainda que tentasse avivá-lo com a memória, seus esforços foram inüteis. Ao morrer, esse fogo nada deixou, sequer cinzas para untar sua tristeza.

IV

Feroz, a imagem dela o devorava. Ele, tiras de carne, o vazio. O olhar dela o aniquilava. Paralisado, inebriado pelo veneno que a imagem dela transmitia.
Com toda a sua doçura ela não escondia suas garras. Simples e múltipla. Uma força da natureza.




terça-feira, maio 26, 2015

Complexo de Ana Júlia

Já ouvi dizer que o maior azar da banda Los Hermanos foi justamente fazer sucesso com a música "Ana Júlia". Poxa, acho isso uma injustiça. Não que a música em si seja boa. Na verdade é um chiclete que não sai do ouvido. Porém, não deixa de ter o seu quinhão. Talvez por retratar uma situação tão comum, provocando em várias pessoas um laço de identificação.
E por isso, dou o valor devido à música, por sua letra tão verdadeira. Principalmente para esta pessoa que vos escreve. Sim, sou mais um de tantos rapazes "bonzinhos" que sofrem o fatídico complexo de Ana Júlia. 
Veja bem: você é um jovem sensível, educado, tem alguma cultura e tudo isso o faz achar que seja um bom partido para as garotas. Geralmente, você acaba se identificando com os protagonistas atrapalhados das comédias românticas, mesmo que você não seja o tipo ridículo, quase idiota, que aparece nesses filmes. Ainda assim, você é aquele que quer ficar com Mary. 
Ela pode ser uma amiga, uma conhecida, ou até mesmo alguém que você encontra circunstancialmente. Isso pode acontecer de primeira ou pode ir lentamente tomando forma em sua mente. A verdade é que em algum momento você toma a consciência de que ela é a pessoa. Começa então seu lento caminho a uma dolorosa porém inevitável decepção.
No fundo, você já suspeita disso. Contudo, como um bom produto da civilização calcada na cultura de massa, acredita que pode viver uma grande história de amor. Você chega a pensar que merece isso. E essa ideia o faz fantasiar noites e noites uma vida que nunca será sua. 
Então, lentamente, você vai tomando coragem. Ou não. Pode ser que tudo fique no nível platônico e que vocês nunca tenham uma vida em comum. Mas também você pode até viver um período de relativa felicidade ao lado dela, situação geralmente destinada aos mais afortunados. Até ela perceber que você não é quem ela quer.
Chega então o terceiro ato dessa tragicomédia. É quando você finalmente a vê com outro cara. Um cara. Para você, o cara não parece merecê-la. Ele não chega a seus pés, embora toque violão, ou tenha um carro, ou simplesmente um sorriso melhor que o seu. Ou talvez ele não tenha nada visível que o diferencie de você, a não ser o escolhido dela.
Sim, chegamos ao ponto crucial desta crônica: a escolha dela. Não importa que ele seja alguém sem carinho. Não importa que seja um espinho no coração dela. Pois isso não vai fazer com que ela goste de você. Estar com ele foi escolha dela e pronto, E se não for com ele, será com outro, menos com você.
Então, meu amigo, não adianta cantar "Ana Júlia", pois ela não ficará comovida. Você apenas parecerá mais patético. O que você deve fazer é esquecer tudo e seguir em frente. E esperar heroicamente a próxima decepção.

sexta-feira, maio 22, 2015

Viril



Sou homem,
não mereço confiança.
Sou fruto de um erro cósmico.
Materialidade da ideia
de força, insânia
e pedra bruta.
Humano não é chancela
para qualquer virtude
ou talento,
apenas se for húmus,
adubo para
o verdadeiro sexo.
Sou homem,
tenho em minhas mãos
o peso de tantos atos
contra elas.
E que meu corpo, ainda que de
macho,
seja sacrifício,
sirva de alimento

a todas as viúvas.

quarta-feira, maio 20, 2015

Sobre preciosas surpresas

Na sexta passada, recebi à tarde uma galerinha de 4 anos. No calor da apresentação que fazia da biblioteca, esqueci o livro que leria para as crianças. Meio afobado, corri o olho pelos livros mais próximos expostos no espaço lúdico e me deparei com o lindíssimo "Estrela do céu, estrela do mar", da Anna Göbel. Um livro de imagens. Seria minha primeira experiência de leitura compartilhada de uma obra assim. Foi uma maravilhosa surpresa quando, ao terminar a leitura, uma menininha deu um sonoro suspiro e sorriu. Os aplausos vieram em seguida. Fiquei simplesmente encantado.

O grupo foi bem grande nesta quarta. Vieram para a Roda de Leitura. Depois de cumprir o desafio de ler quadrinhos para eles, fomos conduzi-los para a mesa de leituras. Um dos meninos parou perto de mim e ordenou: Para a mão! Pensei: Ih, deve ser alguma brincadeira... Resignado, estendi a mão. E o menino depositou em minha palma uma bala de caramelo, a mesma que o meu avô adorava. Comovido, resolvi deixá-la para depois do almoço. Foi a melhor sobremesa do ano!

quinta-feira, maio 14, 2015

Invernal



Cego meu peito
de um eu inflexível
a ponta da lança
fere a terra
e sangra
Mutismo é fome
estão tristes
todas as estrelas.
Sinto falta do que nunca foi
do que poderia ter sido.
E dos olhos que se.
distanciam.
Meu eco é seco,
oco, um gemido lúgubre
e frio.

terça-feira, maio 05, 2015

Plano


Porque deus amou o mundo
de tal maneira
que deu seu filho unigênito
para que TODO aquele que nele crê
não pereça, mas tenha a vida eterna.

Agora, siga-me nesta brincadeira
faça uma pequena operação.
Tire o TODO e ponha o SOMENTE.
E depois troque pelo APENAS
e a equação não deixará resto.
E o sentido ainda será o mesmo.

sexta-feira, maio 01, 2015

Sobre liberdade de expressão em mídias sociais


Fiquei aturdido com a quantidade de pessoas denunciando bloqueios e textos excluídos no Facebook. Muita gente, tanto quem apoia ou se solidariza em relação aos professores do Paraná quanto quem critica o movimento.
Isso me deixa preocupado, pois penso que uma mídia social deveria atuar como uma terceira via, permitir o debate a a circulação de ideias. Lógico que não estou falando da veiculação de discursos de ódio e intolerância.
Agora, o que senti ao ver fotos, vídeos e relatos com o que aconteceu no Paraná, o que senti foi HORROR. Ficou claro o uso da força das instituições, dos três poderes, para coibir e massacrar uma manifestação. E para piorar, os massacrados são justamente professores lutando contra o assalto à sua aposentadoria.
Entrei em claro este primeiro de maio. Tive uma das minhas febres de consciência. Devorei uma penca de textos sobre intolerância. Sobre pessoas que sofrem diretamente o discurso de ódio, em especial por criticá-lo.
E assim, fiquei cansado. Parecia que tinha tomado uma surra. Pois um pouco da minha ingenuidade e do meu idealismo continua se assustando com pessoas que defendem o uso da força e sustentam ideias que beiram o surreal.
Bem, enquanto nossa quitina não fica exposta, continuaremos fingindo sermos feitos de carne, sangrando nossos medos, nossos ódios, lutando contra o peso da bota que nos esmaga. Enquanto parte de nós faz o papel de peso dessa mesma bota.

#somostodosprofessores