quarta-feira, abril 15, 2015

Metafísica

Sonhar é também perder-se
e o amor é mais um
tipo de sonho.
Sonhar é também olhar-se
através do espelho de Alice
é também amar-se
mas sobretudo
deixar se perder.
Perder-se é também 
achar-se
na falta,
em outro lugar.

quarta-feira, abril 08, 2015

Tá com pena? Leva pra casa!

O primeiro que encontrei foi o Adriano, mais conhecido como Manchinha. Esse menino era um terror. A primeira vítima foi meu irmão. Assaltado e agredido.
Tomando as dores dele, fiz questão de um dia, passando de bicicleta, ameaçar que pegaria o menino. Não sabia que ele tinha vários colegas por perto. Bastou um assobio para que eu fosse cercado. Tive que suplicar para ser solto, sem contudo deixar de levar uma pedrada nas costas.
Morávamos no pé da favela do Boiadeiro, em Teófilo Otoni. Como o Manchinha e sua turma também era dessa favela, passamos pro maus bocados para não nos encontrarmos com ele.
Depois de altos e baixos, passamos a morar em um bairro distante chamado São Jacinto. Minha mãe, que já havia ensaiado a política de "levar para casa", começou a atuar efetivamente acolhendo as crianças "infratoras" da cidade.
Aquele mesmo menino, o Adriano, o Manchinha, dividiu conosco o pão e o café com leite. Não apenas ele, mas alguns dos seus irmãos, como o Adão, o Tobinha e o Marco Antônio. Este chegou a morar conosco por um tempo.
Sei que o Adriano está morto. Não chegou aos dezoito anos. Dos demais não tenho notícias. Por conta da saúde de minha mãe, deixamos Teófilo Otoni e os programas sociais. E até hoje, quando alguém na televisão faz esse comentário babaca sobre levar um criminoso para casa, não respondo. Essas pessoas não fazem ideia do que estão falando.

terça-feira, abril 07, 2015

Vídeo de terça: finalmente de volta!



Estrela Bela

Ouvir sua voz é como ter o sol pra mim
A luz que vem do teu olhar me faz tão bem!
Sentindo o teu doce toque eu posso reparar
que o calor que de ti vem bem ao meu lado está...

Olhar ao teu lado e ver como o nascer do sol
Radiante e linda, brilha igual farol
Pedaço do sonho no meu caminhar
Ao teu lado estrela bela eu quero andar.


Esta melodia foi composta há anos, mas finalmente pude contar com a parceria do meu irmão João Emílio Medina para instrumentalizá-la.

domingo, abril 05, 2015

Vestindo memórias


Gastamos parte da nossa manhã contemplando os telhados do bairro pela varanda. Ela parecia curiosa com os próprios pés, ou com as reentrâncias de sua alma, eu não saberia dizer. Minha curiosidade não conseguiu vencer as barreiras de rugas e tempo. Ao menos a princípio.
Fiz-me à sua disposição. Larguei livro, celular, qualquer coisa que me distraísse dela, que disputasse com ela a atenção. Ela então começou a comentar sobre sapatos perdidos. E eu me perguntando se não seriam metáforas para os filhos, pelo menos para os irremediavelmente perdidos.
De repente, ela ergueu a cabeça. Seus olhos pareciam perfurar os meus. Contou-me sobre o fogo que devorou parte de sua história. E contou-me mais. Falou de sua luta para trabalhar. Das dificuldades da distância. Das cartas que meu avô lhe escrevia, uma por dia. 
E senti um desejo enorme de mergulhar nessas memórias deles, em fazer parte deles, além do simples DNA. Queria banhar-me em suas almas. Eu queria me vestir de suas vidas. Queria pra mim aquelas cartas.

quarta-feira, abril 01, 2015

Reconhecimento

Não é mera frieza,
Nem desdém.
Sou um daqueles abortados
para fortes sentimentos.
Os sonhos que alimento
há muito perderam a validade.
Nada que eu faça
trará qualquer calor.
No frio da decomposição
alimento meus dramas.
Minha paixão é fogo-fátuo.

quarta-feira, março 25, 2015

Alternativo

Estou na beira
Boiando na superfície.
Tudo o que eu vejo e sinto
Não passa de senso comum
Ainda que pareça diferente
Profundo ou chocante
Nada mais é que puro
eco.

quarta-feira, março 18, 2015

Atrito


O telefone toca
é mais um som
a romper o sentido
a ferir outros sons
a impor outras urgências
mais um pouco do artificial
no atemporal da angústia.
O tempo não existe,
mas é uma faca a 
arrancar uma veia,
perfurar um osso,
amainar a alma.
Enquanto isso,
o telefone toca
pausadamente
metodicamente
ironica...
mente.

sexta-feira, março 13, 2015

Desejo Heroico

 
Eu, porém, vos digo, que qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, em seu coração, já cometeu adultério com ela.
Mateus 5:28.

Foi de relance, quando atravessava a rua, quando viu capa de um DVD erótico. Ergueu os olhos, desconcertado. Pediu perdão por ter pecado, ainda que seu olhar tivesse durado apenas um instante.
Mesmo nos quarteirões seguintes, a caminho do restaurante em que almoçava todos os dias, ele ainda pensava na imagem que ficara gravada em sua mente. Duas moças, uma morena e outra loira, ambas nuas e de costas, exibindo toda a fartura de suas nádegas, com as marcas deixadas pelos minúsculos biquínis definindo os contornos de suas peles bronzeadas. Balançou cabeça com força, como se assim conseguisse turvar essa imagem única, imperiosa.
Ergueu os olhos mais uma vez, enquanto seus lábios moviam-se numa prece inaudível. Não conseguia entender o que acontecia em seu interior. Nunca havia sentido o mínimo interesse nesses materiais duvidosos. Para ter sido atingido tão profundamente, no mínimo, já havia pecado e não se dera conta disso. E esse pecado oculto e ignorado seria consequência de seu afastamento espiritual. Desesperado, passou a tarde toda pelos cantos, no escritório onde trabalhava, em orações fervorosas que visavam purificar sua alma.
No caminho de volta para casa, em pé dentro do ônibus lotado, distraiu-se com o longo percurso e teve por fim alguns minutos sem ser assaltado pelas fantasias avassaladoras, ataques do demônio. Mas em casa, quando já tinha feito sua oração ao pé da cama, vestido com seu pijama, ele foi novamente invadido pelas mesmas imagens, sendo acompanhadas por um misto de expectativa, desejo e vergonha. Afastou novamente aquele turbilhão de pensamentos.
As imagens, contudo, não o abandonaram. Bastava passar perto da banca de jornais que seus olhos como que instintivamente buscavam a dupla exposta na capa do DVD. Para não alimentar a tentação, o jovem passou a evitar a banca, passando por outro caminho para chegar ao restaurante.
O desejo porém crescia cada vez mais intenso, as imagens cada vez mais vívidas. Passava noites em claro mergulhado em fantasias, sempre no martírio de sentir-se a criatura mais suja do mundo. A culpa era então novamente encoberta por imagens da pele morena, bronzeada, das marcas dos biquínis fazendo um jogo de claro-escuro.
Até que em certa noite, quando ele pensou que enlouqueceria, veio a resolução, clara como uma revelação divina, junto com uma expectativa infantil e por fim o sono reparador. Não havia mais imagens para torturá-lo, somente aquele silêncio que sucede a plena certeza. Quando a manhã chegou inexorável, a caminho para o trabalho, não foi mais assaltado por desejos irrefreáveis. Quem o visse até diria que seu rosto revelava uma maturidade marcante, de alguém que alcançara a sabedoria. Foi direto para a banca de jornais. Pediu logo o DVD erótico com simplicidade comedida, quase sereno. Recebeu o material, pagou e atravessou a rua olhando para o lado errado. O cobiçado DVD num instante escapou de suas mãos e um caminhão que passava no momento selou seu destino.

quinta-feira, março 12, 2015

A juventude massacrada pelo preconceito

Ele era um garoto. Não era como eu. Nos separava a idade, a cor da pele, configuração familiar. Mesmo assim, era para ser como eu. Em minha mente, nenhuma diferença conta quando somos humanos. Ou toda a diferença conta, para mais.
Era um menino. Seu rosto machucado, coberto de ataduras, escondido pelo tubo de respiração artificial, olhos cerrados. Ignorava que morria. Enquanto isso, as mãos violentas de um discurso insano, assassino, tentavam limpar-se do sangue tão jovem. Tão meu.
Um menino. Mais uma vítima de um monstro chamado intolerância. Uma besta alimentada pelo hipócrita discurso a favor de uma família de plástico, uma família que cobre com cera as pústulas de sua luxúria. Que pinta com esmalte de "amor" suas caras sedentas por sangue. Mentes que clamam pelo escândalo, pela arena, pelo auto de fé.
Um simples garoto. Agora, ícone de minha revolta. Sua imagem ferida, inconsciente, atravessa minha garganta. Filho de um casal homoafetivo. Filho de um casal gay, filho de uma família. 
Não o conheci, mas seu sofrimento reverbera em meus ouvidos, por cada vez que alguém sofre por ser ele mesmo. Por cada vez que o desrespeito se torna navalha, punho, marreta. 
Estou nauseado, mortificado. Ele era apenas um menino, gente! E morreu por não ter sua família lavrada em estatuto.

quarta-feira, março 11, 2015

Sonda















Perfurar a palavra
extrair dela o seu sentido
fazer dela um
outro algo mais,
uma nova fronteira
e alcançar o 
nada deve haver
sequer o som,
que não passe de
um efeito
defeito nosso 
de existir.

segunda-feira, março 09, 2015

O Assalto - Parte II de III

Ir para O Assalto - Parte I de III

 Os portões foram abertos. De dentro surgiram rapidamente homens montados a cavalo, que circundaram os supostos camponeses, deixando-os isolados das carroças. O chiado das espadas sendo desembainhadas ecoou em coro. Um homem alto, loiro, guiou seu cavalo até parar à frente de Balgata, que segurava em sua mão direita um pequeno saco de couro. O bandido parecia ser tão alto quanto o capitão, e a montaria acentuava seu tamanho de forma assustadora. Estava coberto de uma bela cota de malha e a empunhadura prateada de sua espada refulgia. Seu rosto era longo, com as faces levemente encovadas e os olhos pequenos e estreitos. O cabelo loiro estava muito bem aparado e o homem cobria-se com uma capa verde-musgo impecável. Suas botas de cano longo, com caneleiras de ferro, eram novas. Era o segundo no comando do bando, homem de confiança de Berak, e agora usava uma das melhores vestimentas do Conde de Arnoll.
– Deixa eu ver seu pagamento, homem! – disse o cavaleiro, tomando o saco da mão do capitão com a ponta de sua espada. Balgata manteve silêncio.
O homem abriu avidamente o saco de couro. Sua expressão de ganância foi desaparecendo e dando lugar a perplexidade. Ele voltou o rosto indignado a Balgata.
– Que merda e essa?! – Perguntou, lançando o saco de couro aos pés de Balgata.
Dentro do saco estavam guardadas diversas pontas de metal, usadas para as flechas dos arqueiros. Furioso, o bandido ordenou ataque. Balgata, em contrapartida, bradou:
– Formação circular, homens! Unir escudos!
Instantaneamente, dos trapos velhos surgiram escudos que se uniram, formando uma barreira contra as lâminas inimigas. Sobre a cabeça daqueles que fechavam os escudos, os arqueiros ergueram-se e iniciaram seus disparos. Pela proximidade dos inimigos, não havia como errar. Duas supostas crianças, robustas, retiraram suas capas, revelando suas barbas grisalhas, e lançaram suas esferas explosivas contra alguns homens perto do portão. A explosão levou consigo três bandidos, deixando dois seriamente feridos. Os cavalos dos demais se assustaram com o estrondo e empinaram, relinchando. Homens caíram para a morte sob as espadas dos atacantes. O bandido loiro também foi derrubado, mas conseguiu se defender com habilidade, puxando o seu escudo redondo para junto do corpo e bloqueando a espada de Balgata. O capitão trocou golpes rápidos com seu oponente, fazendo as lâminas emitirem sons agudos e melancólicos. Era o choro da morte. Com habilidade, Balgata rebateu a estocada veloz e tratou de enfiar a lâmina de sua espada no ventre do inimigo, aquele homem alto e loiro que logo abandonou sua expressão altiva. O capitão lançou o corpanzil do oponente contra os demais bandidos e deu um brado de guerra, dando alguns passos para trás, de volta à relativa segurança da formação de escudos.

O assalto começara. Agora faltava a ajuda de Seridath e seus malignos servos.

Continua...

domingo, março 08, 2015

Caleidoscópio

Recolha em teu seio meus rostos
espalhados
espelhados
pelo prisma de teus olhos
Breves faces espectrais
ícones
soltos
em segundos que se apagam
qual velas trôpegas
e gotas arquejantes passageiras
não
quero mais que tudo
mais que quero
você
não
deixo
de querer-te
toda
inteira
e não diluída em momentos
quero você na pura essência
excelência
de mulher

sexta-feira, março 06, 2015

quarta-feira, março 04, 2015

Miragem

Você sabia que te espero?
Covarde, sempre.
Observo as nuvens
em suas formas aleatórias
e em todas 
imagino seu rosto.
E ainda assim,
você não me responde.
Sua voz não galga o vento
e os campos
nunca lembram seus cabelos.

sexta-feira, fevereiro 27, 2015

Rani e o Sino da Divisão - Conheçam os incríveis Animais de Festa

Quem acompanha tanto meu trabalho na Biblioteca quanto meus percursos pela escrita, sabe que eu sou um grande admirador da literatura de fantasia, sobretudo a nacional. Já passaram por este blog alguns escritores contemporâneos que tive o prazer de conhecer, fosse pessoalmente ou por meios digitais. E foi com grande satisfação que pude conhecer o trabalho de Jim Anotsu. Mais especificamente, seu romance Rani e O Sino da Divisão.

Narrado pela protagonista, uma adolescente headbanger, o romance de pronto nos apresenta a cidade de Graúna por um viés meio sombrio. A caminho da escola, Rani tem um encontro inusitado com um menino esquisito, principalmente por seu tênis verde fluorescente. Esse é o Pietro, um dos grandes parceiros de Rani em sua jornada xamânica.

Sim, Rani é uma xamã, embora não o saiba no início de sua narrativa. Seu encontro com o Pietro, um vampiro nada convencional, inaugura uma série de incidentes sobrenaturais bem como seu ingresso entre os Animais de Festa, uma espécie de fação contra-cultura no mundo sobrenatural. A vida de Rani está em perigo, pois um poderoso xamã conhecido como Aiba está assassinando e devorando o coração de outros xamãs. Com a ajuda de seus novos amigos e de Marina, sua colega de sala e companheira de banda de garagem, Rani terá que encontrar o Sino da Divisão, o único objeto capaz de deter seu poderoso inimigo.

O mais impressionante no romance de Anotsu é que ele é muito mais do que uma sinopse pode sugerir. Ao abrir o livro, prepare-se para uma enxurrada de referências musicais e culturais, com animes, quadrinhos, bandas, filmes, seriados, livros, tudo permeado com um senso de humor genuíno. Os personagens criados por Anotsu, sejam eles desconhecidos ou retirados de algum panteão mitológico, são espirituosos, refinados e originais. As referências várias estão lá, mas claramente o autor fez mais do que inseri-las: deu-lhes alma própria. 

Há uma surpreendente sinergia entre os personagens, até mesmo entre Aiba e Rani, e isso torna o livro ainda mais cativante. Não posso deixar de falar de Marina, responsável por alguns dos melhores momentos do livro, com destaque à interpretação da música "God Save The Queen", do Sex Pitols. 

Vale destacar também como a narradora é capaz de despertar profunda empatia, mesmo com seu humor sardônico, suas dúvidas, inseguranças, sua enorme capacidade de criar as mais pessimistas metáforas que se pode imaginar. Ao ser advertida de que precisa limpar a negatividade em sua mente, ela responde: "Isso vai ser complicado. Eu sou uma garota do século XXI, noventa por cento do meu DNA é constituído de sarcasmo e negatividade."

Talvez isso seja o mais atraente no texto de Jim Anotsu. Rani é uma adolescente que busca não mentir para si mesma, que entende que está em uma das fases mais cruciais de sua vida e que precisa de mais maturidade do que aparenta ter. Isso aproxima muito o leitor, que sente acompanhar a história de uma pessoa real, com dramas reais.

Enfim, eu poderia continuar escrevendo, estender essa resenha a infinitos parágrafos e não vou conseguir dar forma ao que eu senti ao ler Rani e O Sino da Divisão. Garanto, contudo, que o leitor que tiver esse livro em mãos terá também a oportunidade de uma experiência divertida e ao mesmo tempo profunda. Um rito de passagem de uma jovem xamã rumo ao autoconhecimento.

Ficha técnica:
ISBN: 9788582351871
Ano: 2014 / Páginas: 320
Idioma: português 
Editora: Gutenberg