sexta-feira, janeiro 15, 2021

Sem gentileza - Dor e perda rumo à esperança


O que fazer quando o seu destino parece traçado? Como reagir quando esse destino não oferece alternativa e tudo parece conspirar contra todas as suas tentativas de uma vida um pouco menos cruel? Quando homens que deveriam proteger só trazem desgraça e tristeza?

Talvez essas sejam algumas das questões que atravessam a mente e o coração da jovem Mvelo. Com apenas 15 anos, a garota precisa cuidar da mãe aidética, enquanto se vê vítima de uma violência brutal. Essas não são as únicas aflições da jovem. Moradora de uma favela na África do Sul, Mvelo se vê cercada das piores condições de vida, com ninguém a quem recorrer a não ser ela mesma.

Assim tem início o romance Sem gentileza, de Futhi Nshingila. Ambientado em uma África do Sul após o apartheid, a narrativa mostra como a segregação racial ainda se faz presente na sociedade sul-africana, principalmente através da pobreza, do descaso do governo, da ausência de moradia digna e de acesso à saúde. Outras tantas mazelas cercam Mvelo e sua mãe. Por exemplo, a exploração religiosa e o machismo predatório que vitimam muitas jovens negras.

Nem tudo é desgraça e tristeza, porém. Mvelo encontra em Nonceba, uma jovem advogada, uma figura de referência, alguém que é capaz de se impor, que não se submete a homem algum. Além disso, Nonceba parece protegida pelos espíritos ancestrais. As pessoas que a temem pensam que Nonceba é feiticeira. O poder dessa mulher, de fato, por vezes parece sobrenatural. Contudo, o que mais é perceptível na personalidade de Nonceba é seu pulso firme, além de sua competência e da total confiança em si mesma.

Através de uma escrita direta e concisa, Nshingila guia o leitor, convidando-o a testemunhar diversas vidas e histórias, com momentos cruciais de morte e vida, ressaltando a força da ancestralidade que vai de encontro com os valores ocidentais e brancos. Assim, com um romance repleto de dor e perda, a autora vai traçando um texto de denúncia, expondo as mazelas a que estão submetidas tantas mulheres africanas.

Durante a leitura de Sem gentileza, talvez o leitor irá se perguntar: "Será que existe alguma esperança?" Contudo, mais do que procurar um alívio para as personagens do romance, certamente é fundamental a cada um de nós refletir nosso papel nessa teia, nesse emaranhado de vidas que continuam sofrendo os efeitos de séculos de violência, preconceito e segregação.


Sem gentileza

Futhi Ntshingila

 R$ 26,91 até R$ 44,90

ISBN-13: 9788583180791

ISBN-10: 8583180792

Ano: 2016 

Páginas: 160

Idioma: português

Editora: Dublinense


Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/sem-gentileza-593558ed594744.html

quarta-feira, janeiro 13, 2021

Vídeo: O mal do Lobo Mau - Cláudio Fragata e Luiz Maia



Um lobo doente e uma ovelha enfermeira. Isso só pode dar confusão. Acompanhe as peripécias do lobo adoentado. Será que ele sara ou não? E o que será da ovelha se ele resolver fazer uma refeição?


Ficha Técnica:


"O mal do Lobo Mau"

Claudio Fragata

Luiz Maia

ISBN-13: 9788538520269

ISBN-10: 8538520261

Ano: 2009 

Páginas: 24

Idioma: português

Editora: Positivo




Mais histórias e poesias em: http://www.oguardiaodehistorias.com.br/

sexta-feira, janeiro 08, 2021

Canção sem palavras - Sobre tudo que é impossível dizer


Há livros que prometem reverberar para sempre em nós. Por vezes nos arrebatando apenas uma vez, por outras nos atraindo para mais uma leitura. Foi o que aconteceu comigo quando terminei de ler Canção sem palavras, de Laura Cohen Rabelo.

Romance de viagem, esse livro conta o périplo de Maria Teresa, Matê, por fronteiras e continentes. A maior parte da narrativa, porém, acontece em Israel. Matê é judia e por isso tem o direito a uma viagem por esse país, financiada pelo programa birthright

A oportunidade dessa viagem torna-se também uma possibilidade de mudança e transformação. Antes de viajar, Matê estava em crise. Violonista de sucesso, ela faz um duo com o namorado, Arie. Tudo parecia estar dando certo para eles até que o rapaz decide romper o relacionamento e desaparecer. Matê se sente traída e abandonada. Para quem tinha tantas certezas, agora tudo parece incerto.

Assim, a moça empreende uma viagem que também representará um mergulho em seu interior, na história de seu povo e de sua própria família. Como todo rito de passagem, essa jornada muda profundamente a jovem, assim como o deserto, que parece sempre o mesmo, está em constante mudança. 

Ainda que escrevesse milhares de palavras, talvez não conseguiria expressar tudo o que esse romance significou para mim. As referências musicais, os elementos geográficos e históricos, a escrita lírica e ao mesmo tempo contida de Laura Cohen Rabelo, esses e outros elementos elevam esse livro à condição de obra-prima. 

A narrativa fala de muito do que não pode ser dito, por mais que as pessoas tentem verbalizar. A relação entre Matê e as pessoas que ela ama, por exemplo, ou mesmo o que o violão significa para ela, ou como toda a jornada que faz vai movendo o seu interior, na certeza de que nada é permanente.

Por fim, ao terminar a leitura, também me senti contaminado por esse sentido que não conseguia definir. Algo que parecia saudade, nostalgia, uma pequena e doce tristeza. No deserto do meu interior, nesse deserto marcado no tempo em que estamos, o deserto chamado pandemia, pude ser impactado pela certeza de que tudo muda, de que tudo vai mudar.


Ficha Técnica

Canção sem palavras

Laura Cohen Rabelo

ISBN-13: 9788594940148

ISBN-10: 8594940149

Ano: 2017 

Páginas: 280

Idioma: português

Editora: Scriptum


Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/cancao-sem-palavras-745393ed748336.html

quarta-feira, janeiro 06, 2021

Convite - Contar Histórias - Universidade da Cidade - UFMG


Quero fazer um convite. Estaremos hoje dando início a encontros literários no canal do Espaço do Conhecimento da UFMG (youtube.com/espacoufmg).

Confira a Programação:

06/01 - A poesia na boca (leituras de Cora Coralina) – Equipe da Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte

13/01 - Do terror ao riso na literatura brasileira – Equipe da  Biblioteca do Centro Cultural Liberalino Alves de Oliveira

20/01 - Leituras de Conceição Evaristo – Equipe da  Biblioteca do Centro Cultural Vila Santa Rita

27/01 - Do chapéu à fita - os muitos modos de contar uma história (leitura do conto "Fita verde no cabelo", de Guimarães Rosa) – Equipe da  Biblioteca Centro Cultural Salgado Filho

Vamos lá?


 



segunda-feira, janeiro 04, 2021

Pesadelos de Pandemia

Fonte: https://pixabay.com/pt/photos/lugares-perdidos-keller-elevador-1928727/

Ele tinha pressa, pois a reunião estava para começar. Não precisava correr, era só ligar o computador, mas a pressa o fazia pensar em sair correndo para não chegar atrasado. Como a maioria das coisas que acontecem em sonho, isso não fazia sentido.

Conseguiu então fazer o notebook funcionar. Entrou em reunião através do link, mas foi como se adentrasse pesados portões. Apesar disso, estava com o microfone e câmera desligados. Até aí, tudo bem.

Foi subitamente chamado para fazer uma apresentação. Porém, ele não tinha preparado nada; havia se esquecido da tarefa. Mesmo assim, tinha que apresentar alguma coisa. Resolveu improvisar.

Abriu o microfone e começou a falar. Foi aí que percebeu: estava pelado. Conferiu a câmera e sentiu alívio ao constatar que ela estava fechada. Então por que todos estavam rindo como se vissem algo ridículo? O alívio deu lugar à desconfiança e esta, ao medo. Passou a achar que todos conseguiam ver que estava pelado, mesmo com a câmera desligada. Também não conseguia entender como sabia que todos riam dele, se a tela do notebook também estava desligada. 

Seu maior pesadelo acontecia: acessar uma reunião de teletrabalho com a sensação de ter esquecido de ligar o computador. 

sexta-feira, dezembro 18, 2020

Quarto de despejo - A genialidade em meio ao abandono


Quando prestei o vestibular para a UFMG em 2001, havia entre as obras escolhidas o livro Quarto de despejo. Pouco sabia dessa obra autobiográfica, de uma autora vista como semianalfabeta. Ouvia que a obra era quase impossível de ser lida, por conta da quantidade de erros de português. E naquela época, quando eu ainda não havia desconstruído tantos dos preconceitos que ainda carrego, deixei de lado qualquer senso de obrigação em ler esse livro. Logicamente, não passei no vestibular. 

Em meu percurso, sempre me esquivava em ler essa obra que hoje considero de leitura fundamental para qualquer pessoa, principalmente quem nasceu e mora no Brasil. Foi preciso que uma Pandemia se interpusesse em meu caminho para que eu começasse a pensar no quão fundamental era conhecer mais de perto Carolina Maria de Jesus.

Mergulhei então em um percurso errático, doído, calcado em crueza. Foi necessário percorrer o livro duas vezes. E digo que considerei necessário porque a cada página, percebia como eu havia sido negligente por ainda não ter lido Carolina.

Em seu diário, Carolina procura anotar tudo, como se tentando apreender em sua totalidade a realidade e o tempo em que vive. Como um escrevinhador compulsivo, senti imediatamente uma grande identificação. Também tenho meus diários e cadernos. O teor do texto, contudo, é outro. Enquanto meus diários costumam ser protocolares, Carolina devaneia, divaga, observa o mundo, poetiza a vida.

Há uma evidente genialidade no lirismo que se esconde nas páginas de Quarto de despejo. Essa não é a única marca de tal engenho. Carolina Maria de Jesus reflete, observa e questiona, sendo capaz de construir em seu diário máximas inesquecíveis. Eu me vi querendo anotar e memorizar cada uma das profundas observações de Carolina. 

Ao mesmo tempo, é contundente observar o abandono ao qual a autora é relegada. Em um ambiente de penúria e animosidade, ela busca lutar com as armas que tem - as palavras - para sobreviver e criar seus filhos com dignidade. E essa talvez seja uma das maiores buscas de Carolina: dignidade para viver e se expressar através da arte literária.

Ao encerrar a leitura de Quarto de despejo, eu tinha a certeza de ter encontrado uma voz genial. E fui tomado pela tristeza por saber que essa voz foi e por vezes continua sendo censurada, cortada, silenciada.


Ficha Técnica:

Quarto de Despejo

Carolina Maria de Jesus

ISBN-13: 9780451529107

ISBN-10: 0451529103

Ano: 1993 

Páginas: 173

Idioma: português

Editora: Francisco Alves


Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/quarto-de-despejo-7123ed730714.html

sexta-feira, novembro 20, 2020

Ponciá Vicêncio - Quando a ausência também é forma de luta

Há livros que agem como divisores de águas em nossas vidas. Nesses casos, é impossível passar incólume por estes livros. A leitura deles sempre é um processo marcante e transformador.

Foi assim que me senti ao terminar Ponciá Vicêncio, romance de Conceição Evaristo. Era como se eu estivesse em um processo de troca de pele, sendo que a pele antiga era arrancada, ao invés de se desprender do corpo. Ao mesmo tempo, eu bebia a doçura de cada palavra da narrativa tecida por Conceição. Sorvia com sofreguidão essa narrativa cheia de pungência e afeto. Era também absorvido por ela, como se eu mesmo estivesse me liquefazendo.

Repleta de águas, a obra de Conceição Evaristo tem recebido cada vez mais atenção nos últimos anos. Tive o privilégio de adquirir meu exemplar de Ponciá Vicêncio em um evento que contava com a presença da autora. Assim, tenho o próprio traço anguloso e comprido de Conceição Evaristo na folha de rosto. 

Confesso, porém, uma falha minha. Tenho o romance há anos, mas não tinha separado tempo para empreender sua leitura. Pensava sempre que era preciso aplicar um tempo e um espaço próprios para começar a ler. Posso dizer, contudo, que foram o tempo e o espaço que me escolheram. Em meio à pandemia que tantas vidas ceifa, estive por meses encerrado em meu apartamento, dedicado ao teletrabalho e procurando pensar menos em tanta tristeza e perda que me cercavam.

Comecei então a viajar pelos olhos de Ponciá, sem saber, contudo, que muita tristeza e muita perda me aguardavam.

O romance narra a vida de uma mulher desde sua infância em um interior perdido, sua busca por melhores condições de vida em uma grande cidade e seu posterior envelhecimento. Sem se ater apenas à trajetória da protagonista, cujo nome recebe o título do livro, a narrativa apresenta também outras duas buscas: um irmão pela irmã e uma mãe pelos filhos. 

Temos então três jornadas que se desenrolam de forma íntima e muito similar. As três pessoas, três grandes personagens da obra, estão em busca de algo, além de si mesmas e umas das outras. E nos desencontros, encontros e reencontros essas pessoas vão testemunhando um mundo em que a escravidão e a exploração continuam dolorosamente presentes, até mesmo em seus sobrenomes, "Vicêncio", que foram "emprestados" do sobrenome do antigo dono de seus ancestrais, um tal coronel Vicêncio.

O tom de denúncia é fortemente marcado no romance de Conceição Evaristo. Apesar da crueza e da violência presentes no texto, é importante destacar o lirismo da obra, carregado de afetividade e momentos de singular beleza. Foi possível observar, também, um certo carinho por nossa oralidade, através de marcações presentes no texto, bem como curiosos neologismos, que carregam a marca do lirismo próprio das falas de nossa gente.

É importante destacar, também, que a revolta não se apresenta vazia. Cada personagem reage à violência de forma própria, sem se tornarem meros joguetes do destino. Inclusive Ponciá, com suas ausências, com a herança do avô, com os choros-risos. Há uma resistência até mesmo nessa aparente passividade da protagonista. Apesar da melancolia que vai sendo construída através do patente sofrimento dela, é possível encontrar um resquício de força, que se revela não pela violência, mas pelo afeto, pelo cuidado com os seus.

Com um lirismo arrebatador, uma pungência marcante e um enredo envolvente, o romance Ponciá Vicêncio é uma obra transformadora. Um romance completo em que muitas diversas vidas se convergem e encontram uma voz de esperança contra uma realidade muitas vezes silenciadora.


Ficha Técnica

Ponciá Vicêncio

Conceição Evaristo

ISBN-13: 9788571602618

ISBN-10: 8571602611

Ano: 2006 

Páginas: 128

Idioma: português

Editora: Mazza Edições


Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/poncia-vicencio-1070ed1423.html

quarta-feira, novembro 11, 2020

Só tentando...


Vou tentar improvisar

Uma quadra nesta hora

Depois de fazer minha rima

Dou adeus e vou-me embora


Minha quadra é bem simples

Não tem muito improviso

É com versos bem bobinhos

Só rimar é que eu preciso


Quero também fazer trova

Direto do coração

Mas não sei se eu consigo

Dar forma à emoção


Meus versinhos tão fuleiros

Chegam a assustar o povo

Mas não chego a tomar jeito

Lá vou eu rimar de novo... 

sexta-feira, outubro 30, 2020

Ela

 


Ela


Aquela que

me leva a escutar

que toca meu peito

Mesmo nos momentos mais

Cinzentoz

Seu rosto é âncora

Os olhos farol

Sem ao menos perceber

Os gestos dela

As palavras

Ou a simples presença

Devolve ao mundo

Sua cor.


Feliz aniversário, Pâmela Bastos, meu Amor!

quarta-feira, outubro 28, 2020

Deixa eu te Contar: Contos de Assombração


No próximo sábado, dia 31 de outubro de 2020, às 19h (18h em Manaus/AM), estarei em uma calorosa conversa com a amiga Soraia Magalhães, do blog Caçadores de Bibliotecas (www.cazadoresdebibliotecas.com), em uma live sobre contos de assombração. Parte do projeto "Deixa eu te Contar", a live terá a presença também de Carolina Brandão e acontecerá no perfil do Instagram do Projeto (@deixaeutecontar_am).

Trata-se de um curso de narração de história promovido pela Universidade do Estado do Amazonas. Assim, terei a oportunidade de conversar sobre a arte de narrar histórias, sobre bibliotecas, leitura, livros e sustos!

Conto com a audiência de todas as pessoas que acompanham meu trabalho. O momento será descontraído, com oportunidade de muita conversa. A melhor parte de um vídeo ao vivo é justamente a interação. Portanto, aguardo vocês!

Correção (29/10/2020): a mediadora será a Soraia Magalhães. A Carolina Brandão fará o papel de anfitriã, participando rapidamente.






quarta-feira, outubro 21, 2020

Os motivos do silêncio

Imagem de <a href="https://pixabay.com/pt/users/philm1310-752382/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=2725302">philm1310</a> por <a href="https://pixabay.com/pt/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=2725302">Pixabay</a>
Por quase cinco meses, estive em silêncio neste espaço. Nesse período, andei me perguntando quando eu retomaria a escrita, as resenhas, este lugar tão meu, tão repleto de minha voz. Além disso, sentia que devia uma explicação para as pessoas que aqui chegavam, para encontrar as histórias guardadas no blog. Tantas perguntas, porém, que aparentavam ser nascidas apenas de minha alma. Ninguém mais parecia questionar o silêncio e seus motivos. 

Essa ausência de perguntas era também fonte de alívio. Afinal, se leitoras e leitores não demandavam por mais textos, por mais histórias guardadas, não precisava me preocupar tanto com a produção deste blog. Contudo, havia também a pulsão interna, a força motriz de meus próprios escritos. Eu meio que me sentia em dívida com essa força. Sentia que precisava dar uma justificativa a ela, na forma em que se materializa.

Apesar dessa necessidade, sentia como se estivesse amordaçado. O medo, o horror, a angústia e o luto me tomavam e enchiam minha boca de vazios e silêncios. Por um tempo, tentei escrever, sem mencionar a morte. Tentei não falar do horror, do ódio, da crueldade e do desprezo pela vida. Eu tentei, mas tanta maldade, tanto descaso pelo próximo acabou por me soterrar de tristeza. Silenciei.

Os dias foram passando e a contagem de mortos aumentava. A incerteza da morte se somava ao fato de não saber se os procedimentos de higienização serviriam mesmo para impedir o vírus. Estaria eu seguindo as instruções corretamente? Será que por um descuido, por uma distração, o inimigo invisível chamado CORONAVIRUS insidiosamente se infiltraria em meu lar e levaria alguém querido? Ou de repente me levaria do mundo? Além disso, enquanto lia sobre a contagem crescente de mortos, eu me perguntava quando essa doença chamada COVID-19 chegaria tão perto a ponto de levar alguém querido. Eu me questionava quando a estatística deixaria de ser um mero número e se tornaria uma parte infinita de meu mundo. 

E isso aconteceu mais cedo do que eu imaginava. A morte soprou em minha nuca, dando sinal de sua presença. Cheguei a imaginar que seria apenas um susto, uma mera lembrança, e não uma presença real. Ledo engano. A finitude da vida veio me conceder mais um nome à lista de familiares para sempre desaparecidos deste mundo. A COVID-19 levava de mim alguém próximo em primeiro grau, apagava em minha vida a possibilidade de um reencontro, de um conserto, de uma conciliação, ou pelo menos de uma despedida.

A essa realidade, somava-se o fato de que estávamos todos fisicamente isolados. A autoimposição de ficar encerrado em casa, saindo em momentos específicos, deu a muitas pessoas a sensação de encarceramento. Em meu caso, não foi diferente. Sentia o corpo enfraquecer, pela ausência de exercício. Saía para um ligeiro "banho de sol", sempre com máscara e tomando o cuidado com a higienização, logo que voltava para casa.

Nos momentos em que não me dedicava ao trabalho, continuei buscando refúgio nas histórias. Uma amiga passou a mandar áudios da sua leitura de As mil e uma noites. Acompanhei lives de diversas amigas e amigos nas plataformas de mídias sociais. Cultivei a escuta de um maravilhoso podcast - Histórias com Café - que sigo acompanhando. Comecei a cuidar de plantas. E também procurei manter minha disciplina na leitura. 

A jornada tem sido longa. Eu acabei por ver este período de pandemia como a travessia de um deserto. E nesse lugar ermo e seco, em que ainda me encontro, muitas foram as feras que me acossaram. A maior delas tinha a minha face. Distorcida, monstrificada, hedionda. Diante de minha própria feiura pude descobrir um pouco mais de mim. E reencontrar minha voz.

Que este humilde relato possa ser proveitoso para tantas pessoas que buscam sentido nestes períodos de escuridão, de dor e agonia. Que nele possamos nos reencontrar. E que as vozes possam, por fim, romper o silêncio, seja em gritos de revolta e dor; seja em risos e cantos de esperança.

segunda-feira, outubro 12, 2020

A lesma


Minhas mãos desfolhavam um molho de alface. Invadido pelo verde, meu olhar se decantava na cascata que a água da torneira fazia, envolvendo como um véu a hortaliça. Sentia uma serenidade perene. O tempo se estendia, líquido como a própria água que eu usava para lavar a alface.

Depois de separar cada folha, observei algo cinzento escapar pelas bordas verdes das menores folhas e escorrer para o ralo. Terminei de colocar as folhas na vasilha de plástico para desinfetá-las e voltei minha atenção para o centro da pia. Presos na malha de metal que protegia o ralo, alguns pedaços de alface, pequenos resquícios que não resistiram ao meu toque e à força da água, jaziam como vítimas anônimas de uma batalha.

Observei com mais atenção, enquanto mexia com cuidado no ralo, até encontrar a coisa cinzenta e cilíndrica que se escondia entre os pedaços de verde. Ela se aderiu com facilidade ao meu indicador esquerdo, de forma que ergui-a até os olhos. 

Era uma lesma. Devia ter menos de um centímetro de comprimento. Tímida, deixava seus olhos-antenas escondidos para logo em seguida estendê-los, tentando perceber o mundo alienígena onde se encontrava. Seu dorso cinza contrastava com o ventre esbranquiçado. 

Fiquei a ponderar o que fazer com ela. Fui lançado ao passado, nas férias em um quintal com uma enorme área coberta por ardósia. Lá, várias lesmas encontravam a morte após serem bombardeadas por pitadas de sal que eu e minha irmã cruelmente lançávamos nelas. Nossa crueldade se misturava à ingenuidade de acreditar que destruir algo diferente seria uma coisa boa a se fazer. Se era diferente, era mau. Ainda mais se fosse nojento, gosmento e tivesse olhos-antenas.

O absurdo de minhas ações infantis atingiu-me com toda a força. Afinal, por que matar uma lesma com sal? Por que torturar um ser várias vezes menor e mais fraco? Apenas por ser diferente? Apenas por ser mais fraco? Apenas por ter o poder para fazer isso? 

Enquanto a cena se repetia infinitamente em minha cabeça, deixei o apartamento. Tinha o dedo indicador da mão esquerda estendido. Na ponta, essa inusitada intrusa que eu descobrira quando lavava a alface. Desci as escadas com a atenção dividida entre os degraus e a minha "tripulante".

Fui até o pequeno canteiro que existe diante do meu prédio. Estendi o indicador até tocar a tenra folha de uma das plantas. Escolhi com cuidado. Escolhi uma folha que se aproximasse, ainda que vagamente, de uma alface, fosse pelo verde vivo, fosse pela fragilidade de sua textura. Demorou um pouco para que minha companheira entendesse que deveria desembarcar. A princípio, ela encolheu-se toda. Temi que estivesse sentindo alguma agressão, alguma violência. Era apenas estranhamento. 

Por fim, ela deixou meu dedo e ganhou a superfície verde. No seu ritmo lento como o próprio tempo, ela seguiu seu trajeto. Não sei para onde se dirigia. Talvez para a minha infância, para o meu passado, para a chance de uma outra história, em que lesmas não precisam sofrer pela cruel ignorância de um menino.

sexta-feira, outubro 09, 2020

O esquecimento das coisas - A beleza da inutilidade


O que é uma coisa? Como se define uma coisa? Por sua serventia? Por suas características físicas? Pela memória que evocam? Por tudo ou nada disso?

E se essa coisa é a própria linguagem? Ou a arte literária? Como explorar essa coisa ao máximo? Como afastar a linguagem de seus aspectos práticos, lançando-a completamente rumo ao seu viés poético? É possível fazer isso?

Ao ler O esquecimento das coisas, de Felipe Diógenes, fui constantemente provocado por estas perguntas. Trata-se de uma coletânea de textos experimentais, que passeiam entre o conto, a crônica e a poesia. Os 35 contos são elaborados na mais fina prosa poética. Seu mote é o cotidiano, a memória e a trivialidade dos objetos do dia-a-dia. 

É aí que está o pulo do gato. Felipe Diógenes, com maestria, explora o incomum em cada um desses aspectos. Assim, ele provoca um deslocamento de uso e de sentido, aproximando-se do nonsense, sem contudo entregar-se ao caos. Há um mecanismo interno que mantém na prosa poética de Diógenes um sentido interno, oculto, não utilitário. 

Assim, a memória perde os seus contornos, bem como o tempo, o cotidiano e cada um dos objetos pretensamente triviais. Um cone, um bule, uma mala. O que de poesia se pode tirar de cada um deles? Essa é uma pergunta que Diógenes busca responder.  É um livro rico e complexo, repleto de elementos que resgatam algo de trágico e cômico na linguagem, na memória e na metafísica. Em vários momentos eu me diverti com os deslocamentos, com as apropriações de sentido e os jogos de palavras. 

Para ilustrar a sutileza do humor e da poesia de Felipe Diógenes, destaco um trecho de "Remington":

"Ao analisar os ossos, não pense nas entrelinhas. Paulo Honório é um fazedor de ossos. O osso, separado, é também uma metáfora para osso, também separado. De todas as metáforas do mundo, escolher as catacreses. 'Catacreses Separadas', se entre aspas, é nome de tese. Gosto do pé de cadeira e do rosto da maçã. A maçã verde custa cinco. A maçã vermelha custa três. Sobre a maçã Argentina, irei perguntar ao Borges."

Posso por fim dizer que a leitura de O esquecimento das coisas foi um momento de deleite. Absorver-se na prosa poética, ser incomodado e provocado por ela, foram alguns dos muitos efeitos que este livro me causou. Certamente, para qualquer pessoa que quiser se aventurar nestas páginas, tal jornada será uma experiência indelével.


Ficha Técnica

O esquecimento das coisas

Felipe Diógenes

Ano: 2020 

Páginas: 120

Idioma: português

Editora: Patuá

Para adquirir o livro: https://www.editorapatua.com.br/produto/206750/o-esquecimento-das-coisas-de-felipe-diogenes


sexta-feira, maio 29, 2020

Um amor incomodo - O mergulho em uma busca delirante

Delia é a mais velha de três irmãs. Carrega em si as complicações do relacionamento que tem com a mãe, Amália que já é idosa e vive sozinha em Nápoles. Quando Delia recebe a notícia de que Amália foi encontrada morta, ela se lança em uma angustiante caçada, na tentativa de entender as circunstâncias da morte de sua mãe.

Assim tem início o conturbado romance  de estreia de Elena Ferrante, Um amor incômodo. A narrativa acontece em Nápoles, cidade populosa e obscura, repleta de vielas torpes e homens perversos. Delia busca entender as circunstâncias da morte da mãe, que foi encontrada em uma praia da costa italiana. A única peça de roupa que Amália usava era um sutiã de um grife cara de Nápoles. Não havia sinais de violência, o que dava a entender que se tratava de um acidente, ou um suicídio. 

O passado de Amália, porém, é conturbado e repleto de mistérios. Esse passado se relaciona às memórias mais submersas de Delia, que se vê obrigada a revisitá-las incessantemente. E a cada mergulho no passado, novas revelações vão surgindo e como um palimpsesto, os traços das recordações vão sendo reescritos, reconstruídos e remontados. 

Não é fácil seguir o fio narrativo de Delia. Como testemunha não confiável de suas próprias memórias, a protagonista nos arrasta como vítimas desse passado que ganha cores e formas múltiplas. Repletas de desejo e violência.

Outro elemento a ser observado no romance é o tom de angustiada denúncia. A todo momento somos levados a presenciar alguma cena de violência de um homem contra uma mulher. Cenas que muitas vezes se desenrolam em plena luz do dia, em maio a diversas pessoas. Essa banalização da violência vai além do incômodo e chega a ser quase insuportável. 

Com um enredo repleto de sombras e mistérios, num jogo fabuloso de contrastes, o romance Um amor incômodo certamente será um percurso selvagem e delirante, um mergulho na loucura e na perversidade, uma experiência literária de fôlego e estômago.

Ficha Técnica
Um amor incômodo
Elena Ferrante
ISBN-13: 9788551001370
ISBN-10: 855100137X
Ano: 2017 
Páginas: 176
Idioma: português
Editora: Intrínseca

segunda-feira, maio 25, 2020

Segunda vinda


Para aqueles
que aguardam
a volta de seu Cristo,
Saibam que ele 
já esteve aqui.
Já voltou.
E o que viu
O encheu
de horror 
E assim ele
deu suas costas
e partiu.
Para jamais
Voltar.