quarta-feira, agosto 15, 2018

Fortalecendo Vínculos pela Palavra


No dia 18 de julho fomos ao Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos de Lagoa Santa para contar histórias. A oportunidade havia surgido quando a instituição fez uma visita ao Centro de Referência da Juventude e eu me ofereci para ir a Lagoa Santa contar histórias para as crianças e adolescentes. Deixei meu contato com a Ângela e posteriormente combinamos a visita.
No dia marcado, portanto, eu e Pâmela Machado, minha esposa, chegamos ao local e descobrimos um espaço muito bacana, repleto de verde, onde as crianças e adolescentes aprendem a mexer na terra, têm acesso à leitura, a outras formas de Cultura e ao esporte.
Enquanto esperávamos pela chegada de nossos ouvintes, fomos guiados pelo espaço. Conhecemos uma antiga fornalha de produção de cal, quase uma gruta mágica, perto de uma árvore centenária. Fomos também à biblioteca, que foi reformada. Por último conhecemos a sala de informática com vários computadores para uso dos jovens.
E porfalar em jovens, eles estavam chega do. Estivemos em roda, no refeitório, junto ao público. Perguntei quem gostava de ouvir histórias. Acho que umas três pessoas levantaram a mão. Disse então que estava naquele dia com eles para mostrar o gosto de ouvir e contar histórias.
Comecei a narrar "Anansi e a busca impossível". A atenção era total. Pâmela contou logo depois a história "O leão e o caçador". Fechei então com "As almas penadas". 
Foi prazeroso quando uma das crianças disse que na verdade eu era o Anansi.
Depois das apresentações, perguntei quem tinha gostado e todos levantaram as mãos. Fiquei deliciado. Fomos então convidados para um lanche e um gostoso bate papo com a equipe. Em seguida, fizemos um segundo passeio pelo lugar, conhecendo a horta e seus encantos.
Tínhamos que partir, por conta de outros compromissos, mas estávamos encantados com o lugar, a equipe e os jovens. Fomos totalmente cativados. Por isso, gostaria de deixar aqui meu mais sincero agradecimento à equipe do Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos de Lagoa Santa:
Lavina Rodrigues - coordenadora
Angela Costa - Prof. De arte
Thaís - Assistente Social
Tamires Gomes - Psicóloga
Jaedenis Rodrigues - Prof. De Esporte
Thiago Matheus - Oficineiro de informática
Silvana - Voluntária
Que possamos nos encontrar mais vezes, com muitas outras histórias para contar!

quarta-feira, agosto 08, 2018

Lançamento do CD do Coletivo Narradores

Por vezes, a sensação do dia-a-dia não nos deixa perceber que estamos em constante mudança. Para nossos sentidos e nossa parca noção de tempo, estamos em fluxo contínuo, como que em uma eterna viagem. Pela janela do nosso corpo (nossa consciência e não nossos olhos) vamos como que observando tudo o que nos acontece ao redor, algumas vezes com mais atenção que outras. Assim, é como se o tempo fosse algo imutável. Contamos com a memória para nos dizer que o tempo passou e com o sonho para nos garantir que o futuro virá. Essas são nossas principais garantias. Por isso, se não formos atentos, achamos que, assim como o tempo, somos e sempre seremos os mesmos.
Mas então acontecimentos marcantes de repente nos lançam em outro patamar. Como ritos de passagem, esses eventos nos mostram o quanto amadurecemos, como estamos prontos para desafios que a princípio acreditávamos serem impossíveis para nós.
O lançamento do primeiro CD do Coletivo Narradores foi um desses acontecimentos, um poderoso rito de passagem para mim, inaugurando um novo contador de histórias, chamado Samuel Medina. Porém, não foi apenas o lançamento em si, mas todo o processo que culminou nesse maravilhoso espetáculo. Acontecido no contexto da Segunda Candeia - Encontro Internacional de Narração Artística, o lançamento foi um divisor de águas em minha vida, pois teve diversas etapas que foram gradativamente vencidas, cada uma nos impulsionando a um outro degrau e nos fazendo enxergar mais longe.
Tudo começou com um sonho. Com a proposta da amiga Aline Cântia e o entusiasmo do grupo, começamos a pensar em uma forma de concretizá-lo. Pensamos então em fazer um financiamento coletivo. Os amigos da Companhia Pé de Moleque, Juliana Daher e Isaac Luiz, que também fazem parte do Coletivo, ofereceram sua experiência com a campanha para a publicação e lançamento de seu livro-CD O mundo de dentro e o mundo de fora. Por conta da experiência de sucesso, eles sugeriram usarmos a plataforma Benfeitoria.
Construímos um projeto, enviamos para o site e aguardamos. Fomos aprovados e contamos com todo o apoio da excelente equipe da Plataforma.
Seguiram-se os dias do prazo para captação. Foi uma correria, um sufoco, mas a cada nova pessoa contatada, pudemos ver o prestígio do Coletivo, o apoio da comunidade de narradores de histórias e também de frequentadores dos eventos culturais da Grande BH. No Primeiro Encontrão de Contadores de Histórias de BH, organizado por  Beatriz Myhrra e Pierre André, pudemos ver quantas pessoas embarcaram conosco neste sonho.
O passo seguinte foi gravar as histórias. Contamos com a direção de Aline Cântia e o apoio técnico do Chicó do Céu, que magistralmente nos acompanharam, enquanto repetíamos nossas histórias infindáveis vezes para que justamente a melhor expressão fosse captada pelo microfone.
Enquanto isso, a campanha prosseguia. A cada nova contribuição, vibrávamos como se fosse a primeira e única. Foram tantas e tantos que abraçaram nossa causa. Seus nomes estão no mural da página do Coletivo Narradores no Facebook. E o apoio foi tamanho, que alcançamos a meta mínima e a ultrapassamos. 
Prosseguimos então para a etapa seguinte: preparar o espetáculo de lançamento. O Coletivo convidou a artista Liz Schrickte. Com seu olhar, sua sensibilidade e seu profissionalismo, ela foi construindo conosco uma apresentação que carregasse nossa alma. Foram dias desafiadores de ensaios no Espaço Pigmalião. O cronograma estava apertado, com a Candeia próxima. Nosso compromisso, porém, era de oferecer uma apresentação de qualidade, que fosse inesquecível não apenas para o público, mas para nós, também. E apenas estar no Espaço Pigmalião já era uma experiência estética ímpar, ensaiando em meio aos fascinantes bonecos que lá habitam.
Assim, chegamos à Segunda Candeia artisticamente mais robustos, confiantes. Estávamos prontos. E a própria Candeia nos encheu de potência.
Tivemos então o privilégio e a responsabilidade de encerrarmos as apresentações da Segunda Candeia. Estávamos cansados por conta do longo percurso, mas alegres, de uma alegria tamanha. Éramos como o rio da narrativa do amigo Carlos Barbosa, que abre o espetáculo. Viramos vapor. Sentimos medo, vimos coisas inesquecíveis. Mas por fim, diante de tão bela platéia, era como se estivéssemos por fim chegando ao mar. Com a plena certeza de quem somos.

terça-feira, agosto 07, 2018

Vídeo: O Cravo e a Rosa

Bom dia! Mais uma experiência musical. Hoje, compartilho com vocês uma das músicas mais românticas de nossa Tradição Popular. 

Até a próxima!

sexta-feira, agosto 03, 2018

Memória de um sonho de pásaros

Esta foi a noite dos sonhos vívidos... Sonhei que morava novamente com meu irmão João Emílio Medina, que ele tinha voltado a ter quatro anos. Morávamos em uma casa ainda em obras, embora não seja aquela de nosso passado real, que construímos ao longo dos anos. João me chamava para irmos ao andar de cima, ainda incompleto. Lá, ficávamos olhando o horizonte e tudo tinha um significado maravilhoso e quase secreto. Foi então que ele puxou a manga de minha camisa e apontou para um passarinho que pousava em uma árvore. Sacudi os braços e um bando deles surgiu dentre as folhagens. Até no sonho fiquei sem fôlego com o espetáculo da debandada dos passarinhos. Era como se as folhas secas dessa árvore, inconformadas, buscassem no azul um outro jeito de ser.

Belo Horizonte, 3 de agosto de 2013.

quarta-feira, agosto 01, 2018

Segunda Candeia: A chama brilha mais forte

Já falei neste blog sobre a Primeira Candeia - Mostra Internacional de Narração Artística. Tendo acontecido em maio de 2017, ela foi um divisor de águas nas vidas de muitas pessoas - inclusive na minha. Fui instigado, movido, iluminado nesse magnífico evento.
Não seria estranho, portanto, que eu aguardasse a próxima edição com tanta ansiedade. Estava sedento por aprender mais, conhecer e ouvir mais. E posso dizer com tranquilidade que minhas expectativas foram superadas.
A Segunda Candeia teve sua abertura oficial no dia 13 de junho deste ano. Novamente, o Sesc Palladium acolheu esse evento tão incrível, realizado pelo Instituto Cultural Abrapalavra, nas pessoas de Aline Cântia, Chicó do Céu e toda a equipe.
Tivemos um momento lindo quando duas grandes pilastras da narração de histórias foram chamadas ao palco - Gislayne Matos e Regina Machado - para receberem as devidas homenagens. Foi uma grande surpresa para as duas. Em seguida, teve início o grande espetáculo de abertura.
A poderosa voz do Sérgio Pererê me impactou e preparou para o fenômeno que seria o espetáculo "Era uma vez África", com o camaronês Boniface Ofogo. Minha atenção foi totalmente sequestrada pela presença forte e serena desse mago da memória.
No segundo dia, estive sorvendo os preciosos momentos de fala com Gislayne e Regina, que contaram com a mediação de Júlia Grillo. O tema da mesa era a narração de histórias como linguagem artística. Jamais esquecerei quando Gislayne disse que a arte, em sua origem, significa "fazer bem feito".
Na mesma noite, Regina Machado nos presentearia com o espetáculo "Contos da Lua Nova".
Alcançamos o terceiro dia. Nele, tivemos um encontro muito especial na Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte, entre os convidados da Candeia e as pessoas que participam do Encontro Semanal de Contadoras de Histórias. Contando com a abertura e mediação da narradora baiana Luciene Souza, esse bate papo esquadrinhou passados e memórias. Escutamos relatos de nascimentos de narradores e sobre o que os impulsiona.
Quando anoiteceu, Júlia Grillo apresentou a aula-espetáculo "A polpa e a semente e o desenho das histórias". Foi o momento de saborear o conhecimento e a sabedoria dessa narradora que, mesmo jovem, tem uma trajetória já extensa nos caminhos da narração oral.
Para encerrar a noite de forma sublime, tivemos o espetáculo "Foi Coisa de Saci". Nele, Josiane Geroldi levou um autêntico saci ao palco e mostrou que aprendeu muitos truques com esse diabinho perneta.
Quando chegou o dia 16 de junho, sábado, o sentimento de nostalgia já me dominava. Não queria que essa maravilhosa festa acabasse. Tínhamos apenas mais uma noite de espetáculo. E por isso, a nostalgia era invadida pela expectativa. Afinal, eu estava entre as pessoas que se apresentariam.
Um dos pontos mais altos do sábado foi o do escritor Ricardo Azevedo com os Contadores da Vila, um grupo de narradores ainda jovens, mas já dispostos a domar o bicho bravo que é a Palavra Oral. Foi maravilhoso ver a surpresa naqueles rostos jovens, ao verem seu grande ídolo se levantar e andar até o palco, para conversar com eles.
Vale destacar aqui a mediação matreira do amigo e companheiro de coletivo, Rodrigo Teixeira. Com seu estilo fanfarrão, ele deixou as crianças muito tranquilas no palco. Preciso destacar também o papel da Bárbara Amaral, amiga e colega no Coletivo Narradores. Apesar de não estar no palco, ela foi mencionada com respeito e admiração pelas crianças. É incontestável que, ao fundar e orientar o grupo Contadores da Vila, Bárbara é uma das grandes responsáveis pelo sucesso que esses jovens contadores de histórias já são.
Após esse encontro tão bom, Josiane Geroldi recebeu Boniface Ofogo e Giuliano Tierno para falarem sobre o tema: "Contador de histórias Contemporâneo, que profissional é esse?". Foi uma conversa séria, sobre ética e responsabilidade. Fiquei movido pela fala do Boniface Ofogo sobre a importância de conhecermos a linguagem, a poesia, a filosofia, para sermos narradores ainda melhores.
Ainda havia muito para acontecer. Fomos embalados pela voz serena e envolvente da Emile Andrade, com seu espetáculo "Histórias de muitos mundos".
No espetáculo seguinte, não pude estar presente, embora desejasse com toda a força, pois a Mestra Rosana Mont’Alverne e seu filho Eduardo Flores apresentariam "O buscador da verdade". Porém, eu precisava me aprontar, pois logo chegaria o momento do Coletivo Narradores. Fiquei escutando e pescando o que podia, com o coração dando pinotes de expectativa.
Assim, às 21h, começou o último espetáculo da Segunda Candeia: o lançamento do CD do Coletivo Narradores. Tive o privilégio de dividir o palco com minha esposa, Pâmela Machado, mais as amigas e amigos Alessandra Nogueira, Bárbara Amaral, Carlos Roberto Barbosa, Fernando Chagas, Gislayne Matos, Isaac Luiz, Juliana Daher, Nadja Calábria e Rodrigo Teixeira. Para além do palco, a direção sensível e competente de Aline Cântia e Liz Schrickte me deixou seguro e confiante.
Aquele momento estará marcado para sempre na memória. Não foi a primeira vez que eu subi num palco. Mas era como se fosse. Aconteceu um nascimento ali. O Samuel Medina, aquele narrador de histórias, pode dizer sem dúvida alguma que nasceu de novo.
Eu nasci de novo.
Ainda que a Candeia no Sesc Palladium estivesse encerrada, havia mais um momento especial para marcar esse lindo festival. No domingo, pela manhã, o Rancho da Cultura, no povoado de Pompéu, em Sabará, abria as portas para celebrar a Palavra e as Histórias.
Infelizmente, pude curtir apenas um pequenino pedaço dessa despedida. Por causa de um problema no transporte, chegamos em tempo de ver apenas a última apresentação, feita pelo gigante Boniface Ofogo.
A Candeia para mim foi mais que um Encontro. Mais que uma Mostra. É na verdade um acontecimento que ultrapassa o espaço e o tempo. Não foi possível cobrir toda a programação, apesar de meus esforços. Ainda assim, posso dizer que onde eu não estava fisicamente, meus pensamentos lá se encontravam. Da mesma forma que, apesar de o festival já estar encerrado oficialmente, em minha alma ele perdura.
Para mim, a Candeia fica brilhando, eternamente. Cada voz é uma luz dessa chama que me banhou e me queimou também. Estou incendiado, para sempre. Sou também parte dessa chama, parte dessa luz.





terça-feira, julho 31, 2018

Relutante

Insone
Minha angústia me chama
Somente ela tenho
Por confidente.
A noite me rasga ao meio
O silêncio é curvo como um anzol.
Ardem os olhos
Mortiços
Vagos
Somente o peito parece vivo
Mas por enquanto
A cidade além das janelas
Apodrece.
Aquelas mesmas vozes
Continuam a chamar meu nome
Exigem testemunha
Para costurar
Nelas
Outros lamentos.

sábado, julho 28, 2018

Experiência musical: Teresinha de Jesus


Uma experiência diferente no canal. Resolvi compartilhar a gravação de uma música de nossa tradição popular: Teresinha de Jesus.

segunda-feira, julho 23, 2018

Vídeo: poema Viavasta, de Iacyr Anderson de Freitas

Olás! Trago para vocês um vídeo que está no YouTube há alguns dias. Nesse vídeo, recito o poema "Viavasta", do livro Viavária. Quem não viu ainda terá a oportunidade de assisti-lo por aqui!

Boa poesia! 

sexta-feira, maio 04, 2018

Te vendo um cachorro: Ingenuidade, malícia e o fazer artístico

Teo tem um grave problema. Ele foi praticamente acusado de estar escrevendo um romance. Sua vizinha de andar, maliciosamente batizada de Francesca, é a autora e disseminadora de tal delírio. Por conta disso, Teo é continuamente incomodado pelos demais moradores do prédio: um conjunto de fanáticos literatos, membros de um clube de leitura hardcore liderado pela própria Francesca.
O pior de tudo é que Teo nunca teve qualquer pretensão de escrever um romance. Ele é apenas um vendedor aposentado de tacos e agora deseja passar o fim de seus dias em suave embriaguez, lançando cantadas às senhoras solteironas que o cercam.
Assim, a partir desse enredo tragicômico, o leitor é convidado a se aventurar pelas páginas do romance Te vendo um cachorro, último volume da trilogia de Juan Pablo Villa-Lobos sobre o México.
Ambientado na Cidade do México, a narrativa assume um foco bem diferente dos seus antecessores. Se no primeiro o narrador é uma criança que habita uma isolada fortaleza do narcotráfico, e no segundo é um jovem morador de uma pequena cidade do interior mexicano, agora temos um narrador vivido e experiente, com toda a manha e canastrice de um cachorro velho que viveu em um ambiente mais complexo, tanto pelo lugar populoso, quanto pelo ofício cheio de artimanhas. Em dado momento, Teo começa um diálogo insólito com a frase que dá nome ao romance, criando uma situação absurdamente cômica.
É interessante observar que, embora não tenha interesse algum em escrever o tal romance, Teo tem um passado ligado ao fazer artístico. Seus devaneios, apontamentos e memórias perpassam angústias e ciladas que surgem na travessia de qualquer artista. E nosso anti-herói ainda declara com muito orgulho que seu ofício como taqueiro não deixa de ser um fazer artístico.
Assim, temos durante a leitura cenas que apresentam o impulso do artista como algo ingênuo e ao mesmo tempo malicioso. A ingenuidade estaria nas memórias de Teo, em sua juventude, quando ele desejava ser artista plástico e esboçava em seu caderno sua visão inexperiente de mundo através de desenhos. Já a malícia cerca o velho taqueiro alcoólatra, devasso, sempre pronto para comprar uma pílula azul e por isso passa a maior parte do tempo sendo enxotado pelas mulheres que ele canta. 
É assim que jovem e velho se aproximam, através da alegoria da mulher como musa inalcançável, embora sempre próxima. E a única forma de tocar a musa é através da arte. Seja por desenhos, palavras, ou por um delicioso taco, feito da carne do melhor vira-lata que foi possível encontrar.

Ficha Técnica 
Te vendo um cachorro
Juan Pablo Villa-Lobos 
Companhia das Letras 

sexta-feira, abril 20, 2018

Festa no Covil: sobre uma torre de palavras e sangue

Tóchtli é um garoto diferente. Confinado na fortaleza de seu pai, Yocault, o menino cresce em um ambiente adulto demais para ele. Seu pai é líder de um poderoso cartel mexicano e construiu sua fortaleza no meio do deserto. Tóchtli não conhece outras crianças, apenas pessoas ligadas às atividades ilícitas do pai, com excessão do tutor. Ele cresce sem referências infantis, apenas adultas. Inteligente e observador, o menino vai narrando as insólitas experiências ligadas ao brutal universo das drogas.
Assim tem início o enredo de Festa no Covil, de Juan Pablo Villa-Lobos. O romance é o primeiro da trilogia sobre o México e apresenta com um humor que oscila entre a inocência e a malícia infantis um dos aspectos mais violentos da realidade mexicana.
É interessante observar como Tóchtli se apresenta como um menino precoce e bem resolvido, a despeito das constantes dores de barriga, provavelmente de origem psicológica. Como uma espécie de "Rapunzel moderna, o menino vive isolado em sua fortaleza, tendo como principal passatempo colecionar chapéus e palavras difíceis. 
Outra observação que faço é a curiosa escolha do autor em dar apenas nomes astecas para suas personagens. Talvez seja um código estabelecido pelo próprio Yocault, para o caso de serem alvo de alguma investigação policial. Ou algo ainda mais complexo, como se esta fosse, de alguma maneira, uma faceta distorcida de resistência do povo mexicano. 
Considero genial a relação que o menino tem com as palavras. Cercado de "eufemismos", Tóchtli constrói sua rede de significados a partir do que observa e também através dos ensinos que recebe de um professor particular.
O romance de Villa-Lobos é envolvente, tanto pela escrita quanto pela empatia que o leitor vai estabelecendo com aquele menino solitário. Por vezes, a descrição de uma realidade cruel arranca risadas por sua fina ironia, pois Tóchtli ainda não tem condições de entender de fato o que se passa. Como exemplo, temos a cena em que o menino narra o momento em que um homem é levado à presença do chefão Yocault  espancado e depois retirado da sala, para ser executado. Tudo isso é narrado pela criança, que brinca com as palavras e fala como se de fato entendesse o que está se passando. 
Por vezes, esse olhar desprovido de experiências funciona como uma espécie de filtro, que desconstrói e expõe a crua realidade do meio em que o menino vive.
Elaborado e Inteligente, o texto de Villa-Lobos exerce um magnetismo sobre o leitor, provocando, instigando e incomodando a cada nova página. Assim, Festa no Covil é uma rica experiência de leitura sobre o exercício da força em seu estado bruto. E como essa mesma força, como um castelo de cartas, é frágil e precisa de um movimento para desabar.


Ficha Técnica 
Título: Festa no Covil
Autor: Juan Pablo Villa-Lobos 
Editora: Companhia das Letras 

quarta-feira, abril 18, 2018

Monteiro Lobato e o Dia Nacional do Livro Infantil


Quando se fala de Literatura Infantil, muitos costumam reduzi-la a um segmento menor, como se fosse uma literatura mais "fácil". Por muito tempo, os livros para crianças e jovens eram imbuídos de uma forte carga utilitária. Era necessário que os textos fossem instrutivos e edificantes.
Há 136 anos nasceu o homem que transformaria para sempre a literatura infantil. José Bento Renato Monteiro Lobato, patrono do livro infantil em nosso país, não foi apenas o percursor da literatura infantil brasileira da atualidade, mas também fundou uma nova forma de pensar e fazer livros para jovens leitores. Em sua homenagem, o dia 18 de abril passou a ser conhecido como o Dia Nacional do Livro Infantil.
Com Reinações de Narizinho, Lobato nos apresenta uma menina que surge pra aprontar mesmo. Afinal, o sentido da palavra "reinação" era travessura, brincadeira, bagunça. E Lúcia, ou Narizinho, a protagonista desse primeiro livro de Lobato, é uma menina esperta, contestadora, inventiva. Emília, sua boneca, era apenas uma muda coadjuvante. Quando ganha voz, a boneca vai lentamente adquirindo força e peso, até se tornar o principal ícone de Lobato. 
As aventuras de Narizinho, Emília e muitas outras personagens acontecem no Sítio do Picapau Amarelo. Inicialmente, o sítio surge como um lugar comum, pacato, típico cenário do interior paulista. Porém, assim como a boneca Emília, o próprio Sítio vai ganhando contornos cada vez mais fantásticos, quase míticos, a ponto de comportar dentro de si as maravilhosas terras do mundo das Fábulas e até mesmo a Terra do Nunca.
O aspecto revolucionário de Lobato não está apenas em sua literatura infantil, mas também em sua visão empreendedora como formador de leitores. Ele decidiu levar seus livros para perto de seus leitores, aonde os livros antes nunca tinham chegado. Suas edições eram ambiciosas em números de exemplares. Assim, o que poderia ser visto como uma aposta mal feita mostrou-se uma jogada que mudou os rumos de nosso mercado editorial.
Não dá para negar as polêmicas em torno de Monteiro Lobato. Sim, há passagens ofensivas e racistas em alguns de seus livros. Não há desculpa ou justificativa. É preciso marcar, contudo, que Lobato era um homem ciente de muitas de suas contradições e não deixava de evidenciá-las. Como exemplo, temos o desabafo de Emília no final de suas memórias, quando ela admite seu preconceito em relação à Tia Nastácia, fazendo um "mea culpa". 
Sei que isso não é suficiente, nem redime Lobato. Apesar disso, é importante observar que ele, apesar de ser contundente em suas ideias, não sabia ser intransigente e sempre esteve disposto a mudá-las.
Que o Dia Nacional do Livro Infantil seja sempre um marco. Não como celebração, mas como memória. Para que as pessoas não se esqueçam dos erros e acertos de Lobato e que sigam seu exemplo na ousadia, na coragem e na iventividade.

domingo, abril 15, 2018

Vídeo: Calendário, de Norma de Souza Lopes

Poema da Mestra Norma de Souza Lopes e declamado em uma tarde quente, na Praça da Estação, Belo Horizonte, Minas Gerais.


Para saber mais sobre a Norma:
http://normadaeducacao.blogspot.com.br/http://www.editorapatua.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=300em

sexta-feira, abril 06, 2018

Terras Secas: Um árido conflito


Arthur Boaventura está decidido a nunca mais escrever. Isso, às vésperas de receber uma premiação por sua obra poética.
Solteiro, na casa dos trinta, ele é um conceituado professor universitário.  Construiu uma sólida carreira acadêmica em literatura. Ainda assim, ele detesta tudo o que escreve.
Assim começa Terras Secas, romance de estreia da escritora mineira Paula Peregrina. Ela situa seu protagonista em Belo Horizonte, capital mineira, mas bem poderia estar em qualquer metrópole do mundo. Arthur é o retrato do homem contemporâneo: fragmentado, solitário, paranoico, e eternamente insatisfeito. Ele tem uma vasta bagagem cultural, mas isso apenas contribui para torná-lo mais vazio e confuso.
Ao retornar da premiação, Boaventura fica preso dentro do elevador do prédio em que mora. Acaba adormecendo. Ao acordar, descobre-se em um cenário inusitado: um céu violeta sem nuvens sustenta duas esferas opacas. Uma é de cor laranja; já a outra, prateada. O chão que se estende a perder de vista é amarelado e seco, de uma secura rachada e agreste. Ao longe, uma árvore torta cujos contornos do tronco são distorcido e as folhagens, difusas.
A partir daí, começa a extraordinária jornada de Arthur Boaventura. Ele não sabe mais quem é. Pior: não tem mais emoções. Tenta, contudo, entender onde está e a lógica desse mundo onírico. Trata-se de um ambiente hostil e enigmático que irá desafiar o protagonista e intrigar o leitor.
O texto de Paula Peregrina é agradável, acessível, a despeito da trama profunda e fantástica. Repleta de referências literárias, com destaque em Arthur Rimbaud, a obra dialoga com temas caros para as pessoas que desejam se aventurar na arte da escrita. É possível escrever em um mundo sem memória, sem tempo? As perguntas vão se desenrolando, desdobrando, desvelando. Apesar disso, às dúvidas permanecem.
Escrito de forma envolvente e bem elaborada, Terras Secas se apresenta como um romance que tanto agrada pela beleza do texto quanto pela profundidade do tema. Sem dúvida uma jornada épica para qualquer amante de boa literatura.

Ficha Técnica 
Terras Secas
Paula Peregrina
Editora do Pandorgas

quarta-feira, abril 04, 2018

Vídeo: A MENTIRA DA VERDADE - Joaquim Almeida


Uma narrativa da criação do mundo. Os opostos não precisam ser inimigos. Porém o que aconteceria se a Mentira declarasse guerra contra a Verdade? Narrativa belíssima que compartilho agora com vocês. O texto e os desenhos são de Joaquim de Almeida. Editora: Fundação SM.