quarta-feira, março 25, 2015

Alternativo

Estou na beira
Boiando na superfície.
Tudo o que eu vejo e sinto
Não passa de senso comum
Ainda que pareça diferente
Profundo ou chocante
Nada mais é que puro
eco.

quarta-feira, março 18, 2015

Atrito


O telefone toca
é mais um som
a romper o sentido
a ferir outros sons
a impor outras urgências
mais um pouco do artificial
no atemporal da angústia.
O tempo não existe,
mas é uma faca a 
arrancar uma veia,
perfurar um osso,
amainar a alma.
Enquanto isso,
o telefone toca
pausadamente
metodicamente
ironica...
mente.

sexta-feira, março 13, 2015

Desejo Heroico

 
Eu, porém, vos digo, que qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, em seu coração, já cometeu adultério com ela.
Mateus 5:28.

Foi de relance, quando atravessava a rua, quando viu capa de um DVD erótico. Ergueu os olhos, desconcertado. Pediu perdão por ter pecado, ainda que seu olhar tivesse durado apenas um instante.
Mesmo nos quarteirões seguintes, a caminho do restaurante em que almoçava todos os dias, ele ainda pensava na imagem que ficara gravada em sua mente. Duas moças, uma morena e outra loira, ambas nuas e de costas, exibindo toda a fartura de suas nádegas, com as marcas deixadas pelos minúsculos biquínis definindo os contornos de suas peles bronzeadas. Balançou cabeça com força, como se assim conseguisse turvar essa imagem única, imperiosa.
Ergueu os olhos mais uma vez, enquanto seus lábios moviam-se numa prece inaudível. Não conseguia entender o que acontecia em seu interior. Nunca havia sentido o mínimo interesse nesses materiais duvidosos. Para ter sido atingido tão profundamente, no mínimo, já havia pecado e não se dera conta disso. E esse pecado oculto e ignorado seria consequência de seu afastamento espiritual. Desesperado, passou a tarde toda pelos cantos, no escritório onde trabalhava, em orações fervorosas que visavam purificar sua alma.
No caminho de volta para casa, em pé dentro do ônibus lotado, distraiu-se com o longo percurso e teve por fim alguns minutos sem ser assaltado pelas fantasias avassaladoras, ataques do demônio. Mas em casa, quando já tinha feito sua oração ao pé da cama, vestido com seu pijama, ele foi novamente invadido pelas mesmas imagens, sendo acompanhadas por um misto de expectativa, desejo e vergonha. Afastou novamente aquele turbilhão de pensamentos.
As imagens, contudo, não o abandonaram. Bastava passar perto da banca de jornais que seus olhos como que instintivamente buscavam a dupla exposta na capa do DVD. Para não alimentar a tentação, o jovem passou a evitar a banca, passando por outro caminho para chegar ao restaurante.
O desejo porém crescia cada vez mais intenso, as imagens cada vez mais vívidas. Passava noites em claro mergulhado em fantasias, sempre no martírio de sentir-se a criatura mais suja do mundo. A culpa era então novamente encoberta por imagens da pele morena, bronzeada, das marcas dos biquínis fazendo um jogo de claro-escuro.
Até que em certa noite, quando ele pensou que enlouqueceria, veio a resolução, clara como uma revelação divina, junto com uma expectativa infantil e por fim o sono reparador. Não havia mais imagens para torturá-lo, somente aquele silêncio que sucede a plena certeza. Quando a manhã chegou inexorável, a caminho para o trabalho, não foi mais assaltado por desejos irrefreáveis. Quem o visse até diria que seu rosto revelava uma maturidade marcante, de alguém que alcançara a sabedoria. Foi direto para a banca de jornais. Pediu logo o DVD erótico com simplicidade comedida, quase sereno. Recebeu o material, pagou e atravessou a rua olhando para o lado errado. O cobiçado DVD num instante escapou de suas mãos e um caminhão que passava no momento selou seu destino.

quinta-feira, março 12, 2015

A juventude massacrada pelo preconceito

Ele era um garoto. Não era como eu. Nos separava a idade, a cor da pele, configuração familiar. Mesmo assim, era para ser como eu. Em minha mente, nenhuma diferença conta quando somos humanos. Ou toda a diferença conta, para mais.
Era um menino. Seu rosto machucado, coberto de ataduras, escondido pelo tubo de respiração artificial, olhos cerrados. Ignorava que morria. Enquanto isso, as mãos violentas de um discurso insano, assassino, tentavam limpar-se do sangue tão jovem. Tão meu.
Um menino. Mais uma vítima de um monstro chamado intolerância. Uma besta alimentada pelo hipócrita discurso a favor de uma família de plástico, uma família que cobre com cera as pústulas de sua luxúria. Que pinta com esmalte de "amor" suas caras sedentas por sangue. Mentes que clamam pelo escândalo, pela arena, pelo auto de fé.
Um simples garoto. Agora, ícone de minha revolta. Sua imagem ferida, inconsciente, atravessa minha garganta. Filho de um casal homoafetivo. Filho de um casal gay, filho de uma família. 
Não o conheci, mas seu sofrimento reverbera em meus ouvidos, por cada vez que alguém sofre por ser ele mesmo. Por cada vez que o desrespeito se torna navalha, punho, marreta. 
Estou nauseado, mortificado. Ele era apenas um menino, gente! E morreu por não ter sua família lavrada em estatuto.

quarta-feira, março 11, 2015

Sonda















Perfurar a palavra
extrair dela o seu sentido
fazer dela um
outro algo mais,
uma nova fronteira
e alcançar o 
nada deve haver
sequer o som,
que não passe de
um efeito
defeito nosso 
de existir.

segunda-feira, março 09, 2015

O Assalto - Parte II de III

Ir para O Assalto - Parte I de III

 Os portões foram abertos. De dentro surgiram rapidamente homens montados a cavalo, que circundaram os supostos camponeses, deixando-os isolados das carroças. O chiado das espadas sendo desembainhadas ecoou em coro. Um homem alto, loiro, guiou seu cavalo até parar à frente de Balgata, que segurava em sua mão direita um pequeno saco de couro. O bandido parecia ser tão alto quanto o capitão, e a montaria acentuava seu tamanho de forma assustadora. Estava coberto de uma bela cota de malha e a empunhadura prateada de sua espada refulgia. Seu rosto era longo, com as faces levemente encovadas e os olhos pequenos e estreitos. O cabelo loiro estava muito bem aparado e o homem cobria-se com uma capa verde-musgo impecável. Suas botas de cano longo, com caneleiras de ferro, eram novas. Era o segundo no comando do bando, homem de confiança de Berak, e agora usava uma das melhores vestimentas do Conde de Arnoll.
– Deixa eu ver seu pagamento, homem! – disse o cavaleiro, tomando o saco da mão do capitão com a ponta de sua espada. Balgata manteve silêncio.
O homem abriu avidamente o saco de couro. Sua expressão de ganância foi desaparecendo e dando lugar a perplexidade. Ele voltou o rosto indignado a Balgata.
– Que merda e essa?! – Perguntou, lançando o saco de couro aos pés de Balgata.
Dentro do saco estavam guardadas diversas pontas de metal, usadas para as flechas dos arqueiros. Furioso, o bandido ordenou ataque. Balgata, em contrapartida, bradou:
– Formação circular, homens! Unir escudos!
Instantaneamente, dos trapos velhos surgiram escudos que se uniram, formando uma barreira contra as lâminas inimigas. Sobre a cabeça daqueles que fechavam os escudos, os arqueiros ergueram-se e iniciaram seus disparos. Pela proximidade dos inimigos, não havia como errar. Duas supostas crianças, robustas, retiraram suas capas, revelando suas barbas grisalhas, e lançaram suas esferas explosivas contra alguns homens perto do portão. A explosão levou consigo três bandidos, deixando dois seriamente feridos. Os cavalos dos demais se assustaram com o estrondo e empinaram, relinchando. Homens caíram para a morte sob as espadas dos atacantes. O bandido loiro também foi derrubado, mas conseguiu se defender com habilidade, puxando o seu escudo redondo para junto do corpo e bloqueando a espada de Balgata. O capitão trocou golpes rápidos com seu oponente, fazendo as lâminas emitirem sons agudos e melancólicos. Era o choro da morte. Com habilidade, Balgata rebateu a estocada veloz e tratou de enfiar a lâmina de sua espada no ventre do inimigo, aquele homem alto e loiro que logo abandonou sua expressão altiva. O capitão lançou o corpanzil do oponente contra os demais bandidos e deu um brado de guerra, dando alguns passos para trás, de volta à relativa segurança da formação de escudos.

O assalto começara. Agora faltava a ajuda de Seridath e seus malignos servos.

Continua...

domingo, março 08, 2015

Caleidoscópio

Recolha em teu seio meus rostos
espalhados
espelhados
pelo prisma de teus olhos
Breves faces espectrais
ícones
soltos
em segundos que se apagam
qual velas trôpegas
e gotas arquejantes passageiras
não
quero mais que tudo
mais que quero
você
não
deixo
de querer-te
toda
inteira
e não diluída em momentos
quero você na pura essência
excelência
de mulher

sexta-feira, março 06, 2015

quarta-feira, março 04, 2015

Miragem

Você sabia que te espero?
Covarde, sempre.
Observo as nuvens
em suas formas aleatórias
e em todas 
imagino seu rosto.
E ainda assim,
você não me responde.
Sua voz não galga o vento
e os campos
nunca lembram seus cabelos.

sexta-feira, fevereiro 27, 2015

Rani e o Sino da Divisão - Conheçam os incríveis Animais de Festa

Quem acompanha tanto meu trabalho na Biblioteca quanto meus percursos pela escrita, sabe que eu sou um grande admirador da literatura de fantasia, sobretudo a nacional. Já passaram por este blog alguns escritores contemporâneos que tive o prazer de conhecer, fosse pessoalmente ou por meios digitais. E foi com grande satisfação que pude conhecer o trabalho de Jim Anotsu. Mais especificamente, seu romance Rani e O Sino da Divisão.

Narrado pela protagonista, uma adolescente headbanger, o romance de pronto nos apresenta a cidade de Graúna por um viés meio sombrio. A caminho da escola, Rani tem um encontro inusitado com um menino esquisito, principalmente por seu tênis verde fluorescente. Esse é o Pietro, um dos grandes parceiros de Rani em sua jornada xamânica.

Sim, Rani é uma xamã, embora não o saiba no início de sua narrativa. Seu encontro com o Pietro, um vampiro nada convencional, inaugura uma série de incidentes sobrenaturais bem como seu ingresso entre os Animais de Festa, uma espécie de fação contra-cultura no mundo sobrenatural. A vida de Rani está em perigo, pois um poderoso xamã conhecido como Aiba está assassinando e devorando o coração de outros xamãs. Com a ajuda de seus novos amigos e de Marina, sua colega de sala e companheira de banda de garagem, Rani terá que encontrar o Sino da Divisão, o único objeto capaz de deter seu poderoso inimigo.

O mais impressionante no romance de Anotsu é que ele é muito mais do que uma sinopse pode sugerir. Ao abrir o livro, prepare-se para uma enxurrada de referências musicais e culturais, com animes, quadrinhos, bandas, filmes, seriados, livros, tudo permeado com um senso de humor genuíno. Os personagens criados por Anotsu, sejam eles desconhecidos ou retirados de algum panteão mitológico, são espirituosos, refinados e originais. As referências várias estão lá, mas claramente o autor fez mais do que inseri-las: deu-lhes alma própria. 

Há uma surpreendente sinergia entre os personagens, até mesmo entre Aiba e Rani, e isso torna o livro ainda mais cativante. Não posso deixar de falar de Marina, responsável por alguns dos melhores momentos do livro, com destaque à interpretação da música "God Save The Queen", do Sex Pitols. 

Vale destacar também como a narradora é capaz de despertar profunda empatia, mesmo com seu humor sardônico, suas dúvidas, inseguranças, sua enorme capacidade de criar as mais pessimistas metáforas que se pode imaginar. Ao ser advertida de que precisa limpar a negatividade em sua mente, ela responde: "Isso vai ser complicado. Eu sou uma garota do século XXI, noventa por cento do meu DNA é constituído de sarcasmo e negatividade."

Talvez isso seja o mais atraente no texto de Jim Anotsu. Rani é uma adolescente que busca não mentir para si mesma, que entende que está em uma das fases mais cruciais de sua vida e que precisa de mais maturidade do que aparenta ter. Isso aproxima muito o leitor, que sente acompanhar a história de uma pessoa real, com dramas reais.

Enfim, eu poderia continuar escrevendo, estender essa resenha a infinitos parágrafos e não vou conseguir dar forma ao que eu senti ao ler Rani e O Sino da Divisão. Garanto, contudo, que o leitor que tiver esse livro em mãos terá também a oportunidade de uma experiência divertida e ao mesmo tempo profunda. Um rito de passagem de uma jovem xamã rumo ao autoconhecimento.

Ficha técnica:
ISBN: 9788582351871
Ano: 2014 / Páginas: 320
Idioma: português 
Editora: Gutenberg


quarta-feira, fevereiro 25, 2015

Areia

"Porque derramarei água sobre o sedento, e rios sobre a terra seca..." Isaías 44:3

A lâmpada incandescente vacila. Mais um efeito da maldita estiagem. No barraco de um cômodo, a mãe ora. Faz três dias que a água falta no morro. As roupas, amontoadas sem lavar. O marido, recém-empregado, já não tem camisa limpa. As crianças, sem tomar banho. Ela, no fim de uma menstruação, sentindo-se imunda. O último balde de água acabara no dia anterior, para fazer comida. E agora, junto com a falta d'água, a ameaça do racionamento da eletricidade.
Suspirou, pensando novamente no marido. Na época em que ele conseguira o emprego de porteiro de um edifício na Savassi, a alegria quase virou aflição. Temia perder o benefício do governo, o único provento que impedira que a família de seis pessoas passasse fome. Felizmente, não foi preciso; o salário do marido não era alto o suficiente para causar o corte do benefício.
Do barraco sobe um odor acre, mistura de comida velha, urina e suor. Banheiro sem lavar, quase faltando água até para beber. Quem sabe no dia seguinte a prefeitura manda um caminhão pipa para abastecer as casas do morro? Quando ainda não havia saneamento, a água era fornecida assim. O caminhão pipa chegava e despejava água em vários tonéis de plástico. Seus donos então vendiam a água aos moradores retardatários, muitas vezes munidos apenas de latas de tinta ou panelas para guardar o mínimo de água para seu uso.
E então, de repente, havia máquinas revirando o chão do morro, cavando, plantando no chão enormes blocos de concreto. E no morro passou a ter água encanada e esgoto. Mas o que realmente mudou a vida da família, quando antes eles eram obrigados a contar com a simpatia e solidariedade de outros, foi a tal bolsa. Já não eram obrigados a comer só farinha com café pra enganar a fome. Podiam, com dignidade, comprar seu alimento.
Mas agora tudo parecia incerto. Boatos corriam de que o benefício poderia ser cortado. O noticiário anunciava uma enorme crise. E para piorar, a estiagem provocando o racionamento de água e energia. 
Puxando mais um suspiro, ela apoia os braços na janela, olhando ao longe a escuridão que termina nos limites do morro. Lá em baixo, na Savassi, a luz mantém sua presença, forte e pungente. No prédio em que o marido trabalha não faltará energia. Lá ele poderá assistir seu futebol na televisão portátil comprada com o primeiro salário. Lá o elevador não para, o comércio não dorme e a beleza passeia em casulos metálicos hiperluminosos. Na Savassi, as fontes não secam e a luz não se apaga. 
E nesse momento, como numa epifania, ela se vê num gigantesco monte de areia. Lá embaixo, a rocha. Lá, onde tudo é mais vívido, nítido, em alta definição. Enquanto os barracos, o morro, ela, os filhos e vizinhos, o morro todo são a sombra, a falta, a incerteza. Um absurdo monte de areia. Uma enorme duna que numa insaciável voragem traga de si para si todas as coisas.

terça-feira, fevereiro 24, 2015

Vídeo da Terça - Se eu morresse amanhã

Boa noite! Mais um vídeo poético. Confiram:


Se eu morresse amanhã, Álvares de Azevedo

Se eu morresse amanhã viria ao menos
fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!

Quanta glória pressinto em meu futuro,
que aurora porvir e que manhã?
Eu perdera chorando essas coroas
se eu morresse amanhã!

Que sol! Que céu azul! Que doce n'alva
acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanta dor no peito
se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora
a ânsia da glória, o dolorido afã.
A dor no peito emudecera ao menos
se eu morresse amanhã!

segunda-feira, fevereiro 23, 2015

O Assalto - Parte I de III

Ir para A Cidadela - Parte IV de IV


Escuridão. Profundo abismo, frio. Seridath estava absorto, imerso no interior de uma fenda inescrutável. Parecia longe, distante de qualquer realidade. Era como um sonho e, ao mesmo tempo, era como ter os sentidos aguçados ao extremo. Seridath sabia que essa era mais uma das provas para conquistar Lorguth. E também sabia que estava com problemas. Ao seu redor, começava a sentir uma crescente onda de inquietação em sua espada. Aliás, tudo ao redor era Lorguth. Estava nos domínios da lâmina e lutava para não ser invadido e coberto por sua enorme ânsia maligna. Não havia palavras, pois seria impossível verbalizar a disputa que ocorria. Ela não queria de forma alguma obedecer a seus comandos. Lorguth estava intransigente em seus desejos. Estava excitada, pois podia sentir uma aura de emanando ao longe, como o brilho de um nítido farol. A aura cujo dono era um ser poderoso e maligno, que dormira ao longo dos séculos e agora despertara em busca de vítimas para satisfazer seu apetite.

Seridath simplesmente sabia essas coisas. Ou melhor, Lorguth compartilhava com ele essas valiosas informações. E a espada era clara em suas ambições. Queria provar do líder que movia aquele exército de mortos. De nada valia para ela tomar as vidas inúteis de uns poucos humanos. Mas o cavaleiro lutava, em silêncio, para impôr sua vontade e erguer suas vítimas para a peleja em frente a Arnoll.

Enquanto isso, Balgata e os outros, disfarçados de camponeses, esperavam a abertura dos portões. Quando começasse a batalha, aquilo viraria um abismo de Merf e Nibala. E se algo desse errado, as coisas que Seridath controlava poderiam matar a todos, inimigos e aliados. Essa expectativa mexia com as entranhas do capitão. Ele podia ver o medo saltar dos olhos de seus companheiros. “Temos camponeses demais aqui,” suspirou. Uma luta como aquela não era lugar para homens inexperientes. Na pior das hipóteses, aqueles aldeões seriam um estorvo, mas se tivessem sorte, poderiam formar uma linha que oferecesse resistência. 

Todos vestiam mantos longos e tinham espadas e escudos escondidos sob os mesmos. Os aldeões de Keraz receberam escudos de reserva que estavam nas carroças. Agora, restava somente aguardar que os bandidos tivessem mordido a isca. Balgata e os demais precisariam apenas sustentar a porta, enquanto Seridath enviaria seus “servos” para invadirem a cidadela e matarem tantos inimigos quanto possível. O capitão transpirava, sentindo um ultrajante enjoo. Eles tinham pouca chance de vitória.


sexta-feira, fevereiro 20, 2015

O Aprendiz - o início de um caminho de sombras

Tom Ward é um rapaz normal no início da adolescência. De forma equilibrada, dispõe de uma certa dose de inocência, ignorância e medo. E esse temor não é infundado. Afinal, Tom vive em um mundo em que ogros, bruxas, aparições e entidades malignas são reais. Um mundo onde a escuridão parece crescer a cada dia.
O rapaz teria uma vida relativamente simples não fosse sua condição de nascimento. Afinal, ele é o sétimo filho e por isso seu pai encontra dificuldades de conseguir para ele um ofício que vá garantir seu sustento. Assim, a única saída para o rapaz é se tornar aprendiz de um Caça-Feitiço.
Nesse mundo repleto de seres malignos, o Caça-Feitiço é responsável por impedir o avanço das trevas, aprisionando ogros, purificando espíritos e sepultando bruxas. É um serviço penoso, solitário e competência acima de qualquer erro. Afinal, um desvio pode ser fatal.
E assim, através da voz de Tom, Joseph Delaney vai apresentando ao leitor um mundo sobretudo sombrio, mas extramente fascinante. O protagonista e narrador é antes de tudo sincero e franco, dando ao texto um tom de confidência. E dessa forma o leitor acaba vestindo a pele de Tom, sendo levado a sentir seus medos, dificuldades e aflições. É através dos olhos dele que somos apresentados ao Caça-Feitiço, um homem grave, ossudo e duro como uma pedra, como se tivesse sido talhado por anos de experiência enfrentando criaturas maléficas. 
Além disso, já de início o leitor é informado de que o ofício de Caça-Feitiço, embora seja bem remunerado, não goza de boa reputação entre as pessoas. Sendo assim, Tom já sabe que terá uma carreira solitária pela frente. E seus problemas já começam quando ele conhece Alice, uma garota de sua idade que tem alguma ligação com bruxas. E curiosamente, a menina tem sapatos de bicos pontudos, tipo de pessoa contra quem o mestre de Tom o advertira.
Percebe-se, assim, que a grande força do livro O Aprendiz está na interação entre os personagens. Eles são marcantes sem descambarem para o caricatural, o que dá um tom de autenticidade ao texto. Outro ponto interessante é a relação que o romance faz com o ato de escrita. Em seu aprendizado, Tom é instruído a manter dois cadernos, sendo um para anotar as aulas recebidas por seu mestre e outro para servir de diário. Desta forma, o romance em si, narrado por Tom, assume um aspecto metalinguístico, o que faz o leitor imaginar se está lendo o caderno mantido como diário ou um outro texto, derivado desse caderno.
Repleto de imagens fortes, numa matiz de cores sombrias e densas, O Aprendiz é um romance excelente para quem procura uma boa aventura com doses de suspense, sem abrir mão de uma reflexão literária.

Ficha Técnica
ISBN: 9788528613155
Ano: 2008 / Páginas: 224
Idioma: português
Editora: Bertrand Brasil

Perfil do livro no Skoob: http://www.skoob.com.br/livro/1092ED1452

Carnaval

Poesia nas ruas
Corpos inaugurando belezas
E um mero espectador, noturno,
à janela do apartamento.
Carnaval poesia,
num tempo novo
De amores e proezas.
Enquanto a terra ainda gira,
renovando sua cota de tristezas.
Mas o bloco não para
desce a rua
toma a praça
abre o peito
ganha voz.
E o olhar mortiço,
Já seco de lágrimas,
Acompanha de longe o bloco
E aguarda.