sexta-feira, maio 22, 2015

Viril



Sou homem,
não mereço confiança.
Sou fruto de um erro cósmico.
Materialidade da ideia
de força, insânia
e pedra bruta.
Humano não é chancela
para qualquer virtude
ou talento,
apenas se for húmus,
adubo para
o verdadeiro sexo.
Sou homem,
tenho em minhas mãos
o peso de tantos atos
contra elas.
E que meu corpo, ainda que de
macho,
seja sacrifício,
sirva de alimento

a todas as viúvas.

quarta-feira, maio 20, 2015

Sobre preciosas surpresas

Na sexta passada, recebi à tarde uma galerinha de 4 anos. No calor da apresentação que fazia da biblioteca, esqueci o livro que leria para as crianças. Meio afobado, corri o olho pelos livros mais próximos expostos no espaço lúdico e me deparei com o lindíssimo "Estrela do céu, estrela do mar", da Anna Göbel. Um livro de imagens. Seria minha primeira experiência de leitura compartilhada de uma obra assim. Foi uma maravilhosa surpresa quando, ao terminar a leitura, uma menininha deu um sonoro suspiro e sorriu. Os aplausos vieram em seguida. Fiquei simplesmente encantado.

O grupo foi bem grande nesta quarta. Vieram para a Roda de Leitura. Depois de cumprir o desafio de ler quadrinhos para eles, fomos conduzi-los para a mesa de leituras. Um dos meninos parou perto de mim e ordenou: Para a mão! Pensei: Ih, deve ser alguma brincadeira... Resignado, estendi a mão. E o menino depositou em minha palma uma bala de caramelo, a mesma que o meu avô adorava. Comovido, resolvi deixá-la para depois do almoço. Foi a melhor sobremesa do ano!

quinta-feira, maio 14, 2015

Invernal



Cego meu peito
de um eu inflexível
a ponta da lança
fere a terra
e sangra
Mutismo é fome
estão tristes
todas as estrelas.
Sinto falta do que nunca foi
do que poderia ter sido.
E dos olhos que se.
distanciam.
Meu eco é seco,
oco, um gemido lúgubre
e frio.

terça-feira, maio 05, 2015

Plano


Porque deus amou o mundo
de tal maneira
que deu seu filho unigênito
para que TODO aquele que nele crê
não pereça, mas tenha a vida eterna.

Agora, siga-me nesta brincadeira
faça uma pequena operação.
Tire o TODO e ponha o SOMENTE.
E depois troque pelo APENAS
e a equação não deixará resto.
E o sentido ainda será o mesmo.

sexta-feira, maio 01, 2015

Sobre liberdade de expressão em mídias sociais


Fiquei aturdido com a quantidade de pessoas denunciando bloqueios e textos excluídos no Facebook. Muita gente, tanto quem apoia ou se solidariza em relação aos professores do Paraná quanto quem critica o movimento.
Isso me deixa preocupado, pois penso que uma mídia social deveria atuar como uma terceira via, permitir o debate a a circulação de ideias. Lógico que não estou falando da veiculação de discursos de ódio e intolerância.
Agora, o que senti ao ver fotos, vídeos e relatos com o que aconteceu no Paraná, o que senti foi HORROR. Ficou claro o uso da força das instituições, dos três poderes, para coibir e massacrar uma manifestação. E para piorar, os massacrados são justamente professores lutando contra o assalto à sua aposentadoria.
Entrei em claro este primeiro de maio. Tive uma das minhas febres de consciência. Devorei uma penca de textos sobre intolerância. Sobre pessoas que sofrem diretamente o discurso de ódio, em especial por criticá-lo.
E assim, fiquei cansado. Parecia que tinha tomado uma surra. Pois um pouco da minha ingenuidade e do meu idealismo continua se assustando com pessoas que defendem o uso da força e sustentam ideias que beiram o surreal.
Bem, enquanto nossa quitina não fica exposta, continuaremos fingindo sermos feitos de carne, sangrando nossos medos, nossos ódios, lutando contra o peso da bota que nos esmaga. Enquanto parte de nós faz o papel de peso dessa mesma bota.

#somostodosprofessores

quarta-feira, abril 29, 2015

Superfície

Sob os nossos pés
impávidos, incansáveis
correm rios de fezes
urina e dejetos
a cultura do inútil
a desgraça em
produto
Acima, luzes,
o fulgor de uma nova era
a imagem multiplicada
à enésima potência
enquanto lama pútrida
escorre
longe de olhares mais
sensíveis
não nos bastou
a podridão de nossas entranhas
passamos então a despejar
nas entranhas da terra
nossa miséria.

quarta-feira, abril 15, 2015

Metafísica

Sonhar é também perder-se
e o amor é mais um
tipo de sonho.
Sonhar é também olhar-se
através do espelho de Alice
é também amar-se
mas sobretudo
deixar se perder.
Perder-se é também 
achar-se
na falta,
em outro lugar.

quarta-feira, abril 08, 2015

Tá com pena? Leva pra casa!

O primeiro que encontrei foi o Adriano, mais conhecido como Manchinha. Esse menino era um terror. A primeira vítima foi meu irmão. Assaltado e agredido.
Tomando as dores dele, fiz questão de um dia, passando de bicicleta, ameaçar que pegaria o menino. Não sabia que ele tinha vários colegas por perto. Bastou um assobio para que eu fosse cercado. Tive que suplicar para ser solto, sem contudo deixar de levar uma pedrada nas costas.
Morávamos no pé da favela do Boiadeiro, em Teófilo Otoni. Como o Manchinha e sua turma também era dessa favela, passamos pro maus bocados para não nos encontrarmos com ele.
Depois de altos e baixos, passamos a morar em um bairro distante chamado São Jacinto. Minha mãe, que já havia ensaiado a política de "levar para casa", começou a atuar efetivamente acolhendo as crianças "infratoras" da cidade.
Aquele mesmo menino, o Adriano, o Manchinha, dividiu conosco o pão e o café com leite. Não apenas ele, mas alguns dos seus irmãos, como o Adão, o Tobinha e o Marco Antônio. Este chegou a morar conosco por um tempo.
Sei que o Adriano está morto. Não chegou aos dezoito anos. Dos demais não tenho notícias. Por conta da saúde de minha mãe, deixamos Teófilo Otoni e os programas sociais. E até hoje, quando alguém na televisão faz esse comentário babaca sobre levar um criminoso para casa, não respondo. Essas pessoas não fazem ideia do que estão falando.

terça-feira, abril 07, 2015

Vídeo de terça: finalmente de volta!



Estrela Bela

Ouvir sua voz é como ter o sol pra mim
A luz que vem do teu olhar me faz tão bem!
Sentindo o teu doce toque eu posso reparar
que o calor que de ti vem bem ao meu lado está...

Olhar ao teu lado e ver como o nascer do sol
Radiante e linda, brilha igual farol
Pedaço do sonho no meu caminhar
Ao teu lado estrela bela eu quero andar.


Esta melodia foi composta há anos, mas finalmente pude contar com a parceria do meu irmão João Emílio Medina para instrumentalizá-la.

domingo, abril 05, 2015

Vestindo memórias


Gastamos parte da nossa manhã contemplando os telhados do bairro pela varanda. Ela parecia curiosa com os próprios pés, ou com as reentrâncias de sua alma, eu não saberia dizer. Minha curiosidade não conseguiu vencer as barreiras de rugas e tempo. Ao menos a princípio.
Fiz-me à sua disposição. Larguei livro, celular, qualquer coisa que me distraísse dela, que disputasse com ela a atenção. Ela então começou a comentar sobre sapatos perdidos. E eu me perguntando se não seriam metáforas para os filhos, pelo menos para os irremediavelmente perdidos.
De repente, ela ergueu a cabeça. Seus olhos pareciam perfurar os meus. Contou-me sobre o fogo que devorou parte de sua história. E contou-me mais. Falou de sua luta para trabalhar. Das dificuldades da distância. Das cartas que meu avô lhe escrevia, uma por dia. 
E senti um desejo enorme de mergulhar nessas memórias deles, em fazer parte deles, além do simples DNA. Queria banhar-me em suas almas. Eu queria me vestir de suas vidas. Queria pra mim aquelas cartas.

quarta-feira, abril 01, 2015

Reconhecimento

Não é mera frieza,
Nem desdém.
Sou um daqueles abortados
para fortes sentimentos.
Os sonhos que alimento
há muito perderam a validade.
Nada que eu faça
trará qualquer calor.
No frio da decomposição
alimento meus dramas.
Minha paixão é fogo-fátuo.

quarta-feira, março 25, 2015

Alternativo

Estou na beira
Boiando na superfície.
Tudo o que eu vejo e sinto
Não passa de senso comum
Ainda que pareça diferente
Profundo ou chocante
Nada mais é que puro
eco.

quarta-feira, março 18, 2015

Atrito


O telefone toca
é mais um som
a romper o sentido
a ferir outros sons
a impor outras urgências
mais um pouco do artificial
no atemporal da angústia.
O tempo não existe,
mas é uma faca a 
arrancar uma veia,
perfurar um osso,
amainar a alma.
Enquanto isso,
o telefone toca
pausadamente
metodicamente
ironica...
mente.

sexta-feira, março 13, 2015

Desejo Heroico

 
Eu, porém, vos digo, que qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, em seu coração, já cometeu adultério com ela.
Mateus 5:28.

Foi de relance, quando atravessava a rua, quando viu capa de um DVD erótico. Ergueu os olhos, desconcertado. Pediu perdão por ter pecado, ainda que seu olhar tivesse durado apenas um instante.
Mesmo nos quarteirões seguintes, a caminho do restaurante em que almoçava todos os dias, ele ainda pensava na imagem que ficara gravada em sua mente. Duas moças, uma morena e outra loira, ambas nuas e de costas, exibindo toda a fartura de suas nádegas, com as marcas deixadas pelos minúsculos biquínis definindo os contornos de suas peles bronzeadas. Balançou cabeça com força, como se assim conseguisse turvar essa imagem única, imperiosa.
Ergueu os olhos mais uma vez, enquanto seus lábios moviam-se numa prece inaudível. Não conseguia entender o que acontecia em seu interior. Nunca havia sentido o mínimo interesse nesses materiais duvidosos. Para ter sido atingido tão profundamente, no mínimo, já havia pecado e não se dera conta disso. E esse pecado oculto e ignorado seria consequência de seu afastamento espiritual. Desesperado, passou a tarde toda pelos cantos, no escritório onde trabalhava, em orações fervorosas que visavam purificar sua alma.
No caminho de volta para casa, em pé dentro do ônibus lotado, distraiu-se com o longo percurso e teve por fim alguns minutos sem ser assaltado pelas fantasias avassaladoras, ataques do demônio. Mas em casa, quando já tinha feito sua oração ao pé da cama, vestido com seu pijama, ele foi novamente invadido pelas mesmas imagens, sendo acompanhadas por um misto de expectativa, desejo e vergonha. Afastou novamente aquele turbilhão de pensamentos.
As imagens, contudo, não o abandonaram. Bastava passar perto da banca de jornais que seus olhos como que instintivamente buscavam a dupla exposta na capa do DVD. Para não alimentar a tentação, o jovem passou a evitar a banca, passando por outro caminho para chegar ao restaurante.
O desejo porém crescia cada vez mais intenso, as imagens cada vez mais vívidas. Passava noites em claro mergulhado em fantasias, sempre no martírio de sentir-se a criatura mais suja do mundo. A culpa era então novamente encoberta por imagens da pele morena, bronzeada, das marcas dos biquínis fazendo um jogo de claro-escuro.
Até que em certa noite, quando ele pensou que enlouqueceria, veio a resolução, clara como uma revelação divina, junto com uma expectativa infantil e por fim o sono reparador. Não havia mais imagens para torturá-lo, somente aquele silêncio que sucede a plena certeza. Quando a manhã chegou inexorável, a caminho para o trabalho, não foi mais assaltado por desejos irrefreáveis. Quem o visse até diria que seu rosto revelava uma maturidade marcante, de alguém que alcançara a sabedoria. Foi direto para a banca de jornais. Pediu logo o DVD erótico com simplicidade comedida, quase sereno. Recebeu o material, pagou e atravessou a rua olhando para o lado errado. O cobiçado DVD num instante escapou de suas mãos e um caminhão que passava no momento selou seu destino.

quinta-feira, março 12, 2015

A juventude massacrada pelo preconceito

Ele era um garoto. Não era como eu. Nos separava a idade, a cor da pele, configuração familiar. Mesmo assim, era para ser como eu. Em minha mente, nenhuma diferença conta quando somos humanos. Ou toda a diferença conta, para mais.
Era um menino. Seu rosto machucado, coberto de ataduras, escondido pelo tubo de respiração artificial, olhos cerrados. Ignorava que morria. Enquanto isso, as mãos violentas de um discurso insano, assassino, tentavam limpar-se do sangue tão jovem. Tão meu.
Um menino. Mais uma vítima de um monstro chamado intolerância. Uma besta alimentada pelo hipócrita discurso a favor de uma família de plástico, uma família que cobre com cera as pústulas de sua luxúria. Que pinta com esmalte de "amor" suas caras sedentas por sangue. Mentes que clamam pelo escândalo, pela arena, pelo auto de fé.
Um simples garoto. Agora, ícone de minha revolta. Sua imagem ferida, inconsciente, atravessa minha garganta. Filho de um casal homoafetivo. Filho de um casal gay, filho de uma família. 
Não o conheci, mas seu sofrimento reverbera em meus ouvidos, por cada vez que alguém sofre por ser ele mesmo. Por cada vez que o desrespeito se torna navalha, punho, marreta. 
Estou nauseado, mortificado. Ele era apenas um menino, gente! E morreu por não ter sua família lavrada em estatuto.