sexta-feira, novembro 20, 2020

Ponciá Vicêncio - Quando a ausência também é forma de luta

Há livros que agem como divisores de águas em nossas vidas. Nesses casos, é impossível passar incólume por estes livros. A leitura deles sempre é um processo marcante e transformador.

Foi assim que me senti ao terminar Ponciá Vicêncio, romance de Conceição Evaristo. Era como se eu estivesse em um processo de troca de pele, sendo que a pele antiga era arrancada, ao invés de se desprender do corpo. Ao mesmo tempo, eu bebia a doçura de cada palavra da narrativa tecida por Conceição. Sorvia com sofreguidão essa narrativa cheia de pungência e afeto. Era também absorvido por ela, como se eu mesmo estivesse me liquefazendo.

Repleto de águas, a obra de Conceição Evaristo tem recebido cada vez mais atenção nos últimos anos. Tive o privilégio de adquirir meu exemplar de Ponciá Vicêncio em um evento que contava com a presença da autora. Assim, tenho o próprio traço anguloso e comprido de Conceição Evaristo na folha de rosto. 

Confesso, porém, uma falha minha. Tenho o romance há anos, mas não tinha separado tempo para empreender sua leitura. Pensava sempre que era preciso aplicar um tempo e um espaço próprios para começar a leitura. Posso dizer, contudo, que foram o tempo e o espaço que me escolheram. Em meio à pandemia que tantas vidas ceifa, estive por meses encerrado em meu apartamento, dedicado ao teletrabalho e procurando pensar menos em tanta tristeza e perda que me cercavam.

Comecei então a viajar pelos olhos de Ponciá, sem saber, contudo, que muita tristeza e muita perda me aguardavam.

O romance narra a vida de uma mulher desde sua infância em um interior perdido, sua busca por melhores condições de vida em uma grande cidade e seu posterior envelhecimento. Sem se ater apenas à trajetória da protagonista, cujo nome recebe o título do livro, a narrativa apresenta também outras duas buscas: um irmão pela irmã e uma mãe pelos filhos. 

Temos então três jornadas que se desenrolam de forma íntima e muito similar. As três pessoas, três grandes personagens da obra, estão em busca de algo, além de si mesmas e umas das outras. E nos desencontros, encontros e reencontros essas pessoas vão testemunhando um mundo em que a escravidão e a exploração continuam dolorosamente presentes, até mesmo em seus sobrenomes, "Vicêncio", que foram "emprestados" do sobrenome do antigo dono de seus ancestrais, um tal coronel Vicêncio.

O tom de denúncia é fortemente marcado no romance de Conceição Evaristo. Apesar da crueza e da violência presentes no texto, é importante destacar o lirismo da obra, carregado de afetividade e momentos de singular beleza. Foi possível observar, também, um certo carinho por nossa oralidade, através de marcações presentes no texto, bem como curiosos neologismos, que carregam a marca do lirismo próprio das falas de nossa gente.

É importante destacar, também, que a revolta não se apresenta vazia. Cada personagem reage à violência de forma própria, sem se tornarem meros joguetes do destino. Inclusive Ponciá, com suas ausências, com a herança do avô, com os choros-risos. Há uma resistência até mesmo nessa aparente passividade da protagonista. Apesar da melancolia que vai sendo construída através do patente sofrimento dela, é possível encontrar um resquício de força, que se revela não pela violência, mas pelo afeto, pelo cuidado com os seus.

Com um lirismo arrebatador, uma pungência marcante e um enredo envolvente, o romance Ponciá Vicêncio é uma obra transformadora. Um romance completo em que muitas diversas vidas se convergem e encontram uma voz de esperança contra uma realidade muitas vezes silenciadora.


Ficha Técnica

Ponciá Vicêncio

Conceição Evaristo

ISBN-13: 9788571602618

ISBN-10: 8571602611

Ano: 2006 

Páginas: 128

Idioma: português

Editora: Mazza Edições


Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/poncia-vicencio-1070ed1423.html

quarta-feira, novembro 11, 2020

Só tentando...


Vou tentar improvisar

Uma quadra nesta hora

Depois de fazer minha rima

Dou adeus e vou-me embora


Minha quadra é bem simples

Não tem muito improviso

É com versos bem bobinhos

Só rimar é que eu preciso


Quero também fazer trova

Direto do coração

Mas não sei se eu consigo

Dar forma à emoção


Meus versinhos tão fuleiros

Chegam a assustar o povo

Mas não chego a tomar jeito

Lá vou eu rimar de novo... 

sexta-feira, outubro 30, 2020

Ela

 


Ela


Aquela que

me leva a escutar

que toca meu peito

Mesmo nos momentos mais

Cinzentoz

Seu rosto é âncora

Os olhos farol

Sem ao menos perceber

Os gestos dela

As palavras

Ou a simples presença

Devolve ao mundo

Sua cor.


Feliz aniversário, Pâmela Bastos, meu Amor!

quarta-feira, outubro 28, 2020

Deixa eu te Contar: Contos de Assombração


No próximo sábado, dia 31 de outubro de 2020, às 19h (18h em Manaus/AM), estarei em uma calorosa conversa com a amiga Soraia Magalhães, do blog Caçadores de Bibliotecas (www.cazadoresdebibliotecas.com), em uma live sobre contos de assombração. Parte do projeto "Deixa eu te Contar", a live terá a presença também de Carolina Brandão e acontecerá no perfil do Instagram do Projeto (@deixaeutecontar_am).

Trata-se de um curso de narração de história promovido pela Universidade do Estado do Amazonas. Assim, terei a oportunidade de conversar sobre a arte de narrar histórias, sobre bibliotecas, leitura, livros e sustos!

Conto com a audiência de todas as pessoas que acompanham meu trabalho. O momento será descontraído, com oportunidade de muita conversa. A melhor parte de um vídeo ao vivo é justamente a interação. Portanto, aguardo vocês!

Correção (29/10/2020): a mediadora será a Soraia Magalhães. A Carolina Brandão fará o papel de anfitriã, participando rapidamente.






quarta-feira, outubro 21, 2020

Os motivos do silêncio

Imagem de <a href="https://pixabay.com/pt/users/philm1310-752382/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=2725302">philm1310</a> por <a href="https://pixabay.com/pt/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=2725302">Pixabay</a>
Por quase cinco meses, estive em silêncio neste espaço. Nesse período, andei me perguntando quando eu retomaria a escrita, as resenhas, este lugar tão meu, tão repleto de minha voz. Além disso, sentia que devia uma explicação para as pessoas que aqui chegavam, para encontrar as histórias guardadas no blog. Tantas perguntas, porém, que aparentavam ser nascidas apenas de minha alma. Ninguém mais parecia questionar o silêncio e seus motivos. 

Essa ausência de perguntas era também fonte de alívio. Afinal, se leitoras e leitores não demandavam por mais textos, por mais histórias guardadas, não precisava me preocupar tanto com a produção deste blog. Contudo, havia também a pulsão interna, a força motriz de meus próprios escritos. Eu meio que me sentia em dívida com essa força. Sentia que precisava dar uma justificativa a ela, na forma em que se materializa.

Apesar dessa necessidade, sentia como se estivesse amordaçado. O medo, o horror, a angústia e o luto me tomavam e enchiam minha boca de vazios e silêncios. Por um tempo, tentei escrever, sem mencionar a morte. Tentei não falar do horror, do ódio, da crueldade e do desprezo pela vida. Eu tentei, mas tanta maldade, tanto descaso pelo próximo acabou por me soterrar de tristeza. Silenciei.

Os dias foram passando e a contagem de mortos aumentava. A incerteza da morte se somava ao fato de não saber se os procedimentos de higienização serviriam mesmo para impedir o vírus. Estaria eu seguindo as instruções corretamente? Será que por um descuido, por uma distração, o inimigo invisível chamado CORONAVIRUS insidiosamente se infiltraria em meu lar e levaria alguém querido? Ou de repente me levaria do mundo? Além disso, enquanto lia sobre a contagem crescente de mortos, eu me perguntava quando essa doença chamada COVID-19 chegaria tão perto a ponto de levar alguém querido. Eu me questionava quando a estatística deixaria de ser um mero número e se tornaria uma parte infinita de meu mundo. 

E isso aconteceu mais cedo do que eu imaginava. A morte soprou em minha nuca, dando sinal de sua presença. Cheguei a imaginar que seria apenas um susto, uma mera lembrança, e não uma presença real. Ledo engano. A finitude da vida veio me conceder mais um nome à lista de familiares para sempre desaparecidos deste mundo. A COVID-19 levava de mim alguém próximo em primeiro grau, apagava em minha vida a possibilidade de um reencontro, de um conserto, de uma conciliação, ou pelo menos de uma despedida.

A essa realidade, somava-se o fato de que estávamos todos fisicamente isolados. A autoimposição de ficar encerrado em casa, saindo em momentos específicos, deu a muitas pessoas a sensação de encarceramento. Em meu caso, não foi diferente. Sentia o corpo enfraquecer, pela ausência de exercício. Saía para um ligeiro "banho de sol", sempre com máscara e tomando o cuidado com a higienização, logo que voltava para casa.

Nos momentos em que não me dedicava ao trabalho, continuei buscando refúgio nas histórias. Uma amiga passou a mandar áudios da sua leitura de As mil e uma noites. Acompanhei lives de diversas amigas e amigos nas plataformas de mídias sociais. Cultivei a escuta de um maravilhoso podcast - Histórias com Café - que sigo acompanhando. Comecei a cuidar de plantas. E também procurei manter minha disciplina na leitura. 

A jornada tem sido longa. Eu acabei por ver este período de pandemia como a travessia de um deserto. E nesse lugar ermo e seco, em que ainda me encontro, muitas foram as feras que me acossaram. A maior delas tinha a minha face. Distorcida, monstrificada, hedionda. Diante de minha própria feiura pude descobrir um pouco mais de mim. E reencontrar minha voz.

Que este humilde relato possa ser proveitoso para tantas pessoas que buscam sentido nestes períodos de escuridão, de dor e agonia. Que nele possamos nos reencontrar. E que as vozes possam, por fim, romper o silêncio, seja em gritos de revolta e dor; seja em risos e cantos de esperança.

segunda-feira, outubro 12, 2020

A lesma


Minhas mãos desfolhavam um molho de alface. Invadido pelo verde, meu olhar se decantava na cascata que a água da torneira fazia, envolvendo como um véu a hortaliça. Sentia uma serenidade perene. O tempo se estendia, líquido como a própria água que eu usava para lavar a alface.

Depois de separar cada folha, observei algo cinzento escapar pelas bordas verdes das menores folhas e escorrer para o ralo. Terminei de colocar as folhas na vasilha de plástico para desinfetá-las e voltei minha atenção para o centro da pia. Presos na malha de metal que protegia o ralo, alguns pedaços de alface, pequenos resquícios que não resistiram ao meu toque e à força da água, jaziam como vítimas anônimas de uma batalha.

Observei com mais atenção, enquanto mexia com cuidado no ralo, até encontrar a coisa cinzenta e cilíndrica que se escondia entre os pedaços de verde. Ela se aderiu com facilidade ao meu indicador esquerdo, de forma que ergui-a até os olhos. 

Era uma lesma. Devia ter menos de um centímetro de comprimento. Tímida, deixava seus olhos-antenas escondidos para logo em seguida estendê-los, tentando perceber o mundo alienígena onde se encontrava. Seu dorso cinza contrastava com o ventre esbranquiçado. 

Fiquei a ponderar o que fazer com ela. Fui lançado ao passado, nas férias em um quintal com uma enorme área coberta por ardósia. Lá, várias lesmas encontravam a morte após serem bombardeadas por pitadas de sal que eu e minha irmã cruelmente lançávamos nelas. Nossa crueldade se misturava à ingenuidade de acreditar que destruir algo diferente seria uma coisa boa a se fazer. Se era diferente, era mau. Ainda mais se fosse nojento, gosmento e tivesse olhos-antenas.

O absurdo de minhas ações infantis atingiu-me com toda a força. Afinal, por que matar uma lesma com sal? Por que torturar um ser várias vezes menor e mais fraco? Apenas por ser diferente? Apenas por ser mais fraco? Apenas por ter o poder para fazer isso? 

Enquanto a cena se repetia infinitamente em minha cabeça, deixei o apartamento. Tinha o dedo indicador da mão esquerda estendido. Na ponta, essa inusitada intrusa que eu descobrira quando lavava a alface. Desci as escadas com a atenção dividida entre os degraus e a minha "tripulante".

Fui até o pequeno canteiro que existe diante do meu prédio. Estendi o indicador até tocar a tenra folha de uma das plantas. Escolhi com cuidado. Escolhi uma folha que se aproximasse, ainda que vagamente, de uma alface, fosse pelo verde vivo, fosse pela fragilidade de sua textura. Demorou um pouco para que minha companheira entendesse que deveria desembarcar. A princípio, ela encolheu-se toda. Temi que estivesse sentindo alguma agressão, alguma violência. Era apenas estranhamento. 

Por fim, ela deixou meu dedo e ganhou a superfície verde. No seu ritmo lento como o próprio tempo, ela seguiu seu trajeto. Não sei para onde se dirigia. Talvez para a minha infância, para o meu passado, para a chance de uma outra história, em que lesmas não precisam sofrer pela cruel ignorância de um menino.

sexta-feira, outubro 09, 2020

O esquecimento das coisas - A beleza da inutilidade


O que é uma coisa? Como se define uma coisa? Por sua serventia? Por suas características físicas? Pela memória que evocam? Por tudo ou nada disso?

E se essa coisa é a própria linguagem? Ou a arte literária? Como explorar essa coisa ao máximo? Como afastar a linguagem de seus aspectos práticos, lançando-a completamente rumo ao seu viés poético? É possível fazer isso?

Ao ler O esquecimento das coisas, de Felipe Diógenes, fui constantemente provocado por estas perguntas. Trata-se de uma coletânea de textos experimentais, que passeiam entre o conto, a crônica e a poesia. Os 35 contos são elaborados na mais fina prosa poética. Seu mote é o cotidiano, a memória e a trivialidade dos objetos do dia-a-dia. 

É aí que está o pulo do gato. Felipe Diógenes, com maestria, explora o incomum em cada um desses aspectos. Assim, ele provoca um deslocamento de uso e de sentido, aproximando-se do nonsense, sem contudo entregar-se ao caos. Há um mecanismo interno que mantém na prosa poética de Diógenes um sentido interno, oculto, não utilitário. 

Assim, a memória perde os seus contornos, bem como o tempo, o cotidiano e cada um dos objetos pretensamente triviais. Um cone, um bule, uma mala. O que de poesia se pode tirar de cada um deles? Essa é uma pergunta que Diógenes busca responder.  É um livro rico e complexo, repleto de elementos que resgatam algo de trágico e cômico na linguagem, na memória e na metafísica. Em vários momentos eu me diverti com os deslocamentos, com as apropriações de sentido e os jogos de palavras. 

Para ilustrar a sutileza do humor e da poesia de Felipe Diógenes, destaco um trecho de "Remington":

"Ao analisar os ossos, não pense nas entrelinhas. Paulo Honório é um fazedor de ossos. O osso, separado, é também uma metáfora para osso, também separado. De todas as metáforas do mundo, escolher as catacreses. 'Catacreses Separadas', se entre aspas, é nome de tese. Gosto do pé de cadeira e do rosto da maçã. A maçã verde custa cinco. A maçã vermelha custa três. Sobre a maçã Argentina, irei perguntar ao Borges."

Posso por fim dizer que a leitura de O esquecimento das coisas foi um momento de deleite. Absorver-se na prosa poética, ser incomodado e provocado por ela, foram alguns dos muitos efeitos que este livro me causou. Certamente, para qualquer pessoa que quiser se aventurar nestas páginas, tal jornada será uma experiência indelével.


Ficha Técnica

O esquecimento das coisas

Felipe Diógenes

Ano: 2020 

Páginas: 120

Idioma: português

Editora: Patuá

Para adquirir o livro: https://www.editorapatua.com.br/produto/206750/o-esquecimento-das-coisas-de-felipe-diogenes


sexta-feira, maio 29, 2020

Um amor incomodo - O mergulho em uma busca delirante

Delia é a mais velha de três irmãs. Carrega em si as complicações do relacionamento que tem com a mãe, Amália que já é idosa e vive sozinha em Nápoles. Quando Delia recebe a notícia de que Amália foi encontrada morta, ela se lança em uma angustiante caçada, na tentativa de entender as circunstâncias da morte de sua mãe.

Assim tem início o conturbado romance  de estreia de Elena Ferrante, Um amor incômodo. A narrativa acontece em Nápoles, cidade populosa e obscura, repleta de vielas torpes e homens perversos. Delia busca entender as circunstâncias da morte da mãe, que foi encontrada em uma praia da costa italiana. A única peça de roupa que Amália usava era um sutiã de um grife cara de Nápoles. Não havia sinais de violência, o que dava a entender que se tratava de um acidente, ou um suicídio. 

O passado de Amália, porém, é conturbado e repleto de mistérios. Esse passado se relaciona às memórias mais submersas de Delia, que se vê obrigada a revisitá-las incessantemente. E a cada mergulho no passado, novas revelações vão surgindo e como um palimpsesto, os traços das recordações vão sendo reescritos, reconstruídos e remontados. 

Não é fácil seguir o fio narrativo de Delia. Como testemunha não confiável de suas próprias memórias, a protagonista nos arrasta como vítimas desse passado que ganha cores e formas múltiplas. Repletas de desejo e violência.

Outro elemento a ser observado no romance é o tom de angustiada denúncia. A todo momento somos levados a presenciar alguma cena de violência de um homem contra uma mulher. Cenas que muitas vezes se desenrolam em plena luz do dia, em maio a diversas pessoas. Essa banalização da violência vai além do incômodo e chega a ser quase insuportável. 

Com um enredo repleto de sombras e mistérios, num jogo fabuloso de contrastes, o romance Um amor incômodo certamente será um percurso selvagem e delirante, um mergulho na loucura e na perversidade, uma experiência literária de fôlego e estômago.

Ficha Técnica
Um amor incômodo
Elena Ferrante
ISBN-13: 9788551001370
ISBN-10: 855100137X
Ano: 2017 
Páginas: 176
Idioma: português
Editora: Intrínseca

segunda-feira, maio 25, 2020

Segunda vinda


Para aqueles
que aguardam
a volta de seu Cristo,
Saibam que ele 
já esteve aqui.
Já voltou.
E o que viu
O encheu
de horror 
E assim ele
deu suas costas
e partiu.
Para jamais
Voltar.

sexta-feira, maio 22, 2020

Os Fantásticos Livros Voadores de Modesto Máximo - Para aqueles que ainda virão

Em um dos primeiros momentos do curso Infâncias e Leituras, tive a oportunidade de assistir mais uma vez ao filme Os Fantásticos Livros Voadores de Modesto Máximo (The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore). Já de início afirmo que sempre encaro com entusiasmo as oportunidades de assistir a esta animação, tão singela e preciosa, que não raro arranca lágrimas de meus olhos.

Este filme é um dos mais incríveis que já assisti. Foi maravilhoso poder vê-lo novamente. Trata-se de uma narrativa fantástica, com alto grau de simbolismo e que apresenta uma narrativa muito clara e bem amarrada. Nela, Modesto Máximo (Morris Lessmore) é arrancado de sua vida comum e de suas palavras por um desastre que desarrumar todo o seu mundo. Suas cores são perdidas, sua voz é silenciada, o livro que representa a sua vida perde as palavras e se torna vazio.
O que parecia não ter conserto logo se mostra repleto de possibilidades. Modesto encontra um livro que o leva a uma casa de livros. 

Enquanto trabalhei na Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte, gostava de brincar com os livros como se estes fossem pássaros. Creio que eu tenha sido inspirado pelo filme. Ou talvez a analogia já estivesse em mim há mais tempo. O fato é que o filme usa dessa metáfora, ao mostrar os livros voando, com suas páginas abertas.

Apenas o livro da vida de Modesto Máximo não voa. 

A imagem dos diversos livros, de várias formas e tamanhos, adejando graciosamente é um espetáculo à parte. E justamente um desses livros passa a fazer o papel de companheiro de Modesto.

Não vou adiantar muita coisa do filme, pois acho que assisti-lo sem muitas informações preliminares, descobri-lo com um primeiro olhar é uma aventura ímpar a meu ver. Portanto, peço que só leiam os próximos parágrafos quem já tiver assistido ao filme.

Achei muito interessante que o livro que levou o protagonista para a casa dos livros não foi o mesmo que guiou a garotinha ao final da narrativa. Ou seja, cada um de nós tem o seu livro, aquele que podemos chamar de completamente nosso. O livro que nos apresenta aos demais, que nos encanta pela primeira vez. 

Também foi lindo observar que o senhor Modesto Máximo não foi embora sem antes deixar um pedaço de si, uma parte de sua história, ou toda a sua história. Seu livro agora havia ganhado vida, passando a ser mais uma das entidades encantadas que voavam pela casa dos livros. 

Da mesma maneira, somos convidados, pela leitura e pela escrita, a deixar nossas marcas, nossas pegadas através das palavras e traços, como nosso testemunho para aqueles que ainda virão.


terça-feira, maio 19, 2020

Memórias de leitura

As memórias afetivas são um fator muito forte na vida de uma pessoa. Mais profundas do que meras lembranças, tais memórias carregam junto a si uma miríade de sentidos, sejam estes físicos ou não. São aromas, sons, superfícies e até outros sentidos ainda mais sutis, além das emoções que os mesmos carregam.

Durante o curso Infâncias e Leituras, um dos exercícios foi justamente evocar as memórias afetivas que tenho das leituras mais antigas de minha infância. Nao foi difícil resgatá-las, pois as visito com muita frequência, como lugar dentro de mim para me (re)visitar e (re)conhecer.

Existem duas memórias muito próximas e não sei qual das duas é a primeira. São memórias de dois livros: Marcelo, Marmelo, Martelo, de Ruth Rocha, e Flicts, de Ziraldo.

Uma das memórias mais antigas que tenho é a imagem de Marcelo correndo e gritando, com a boca enorme, para avisar que a casinha do cachorro estava pegando fogo. Outra imagem bem forte é da última imagem do livro Flicts, quando a gente descobre que a lua é dessa cor, Flicts.

No caso de Flicts, eu não me lembro de quem lia para mim. Talvez fosse a minha mãe, mas não tenho certeza. Já com Marcelo, Marmelo, Martelo, eu tenho a recordação do meu irmão mais velho, Arthur, rindo e dizendo: "Embrasou a moradeira do latildo!" Ele me contou a história do Marcelo e de sua confusão com as palavras e seus sentidos. Lembro-me que rumos muito com o caso. 

Talvez o meu irmão, no auge dos seus cinco anos, tenha sido o meu primeiro mediador de leitura.

segunda-feira, maio 18, 2020

O que a leitura é para mim?


Muito se pode dizer sobre a leitura. Podemos, por exemplo, assumir um olhar meramente técnico, dizer que a leitura nada mais é que a decodificação de sinais, de forma a atribuir aos mesmos sentido. Ou podemos assumir, como eu, um viés mais amplo.

Não é possível falar de leitura sem pensar em Paulo Freire. O grande educador, em sua obra A importância do ato de ler(1981), fala sobre dois tipos de leitura: a leitura da palavra e a leitura do mundo. E ainda afirma que haveria uma preponderância de uma em relação à outra.

Certa vez, estava sentado em um banco na Estação São Gabriel, aqui de Belo Horizonte, aguardando o ônibus para o bairro Ribeiro de Abreu. Usava uma camisa preta, com a estampa de um mangá pouco conhecido aqui no Brasil - Gantz

De repente, um senhor se aproxima e aponta para o desenho em minha camisa. Ele dá um sorriso de reconhecimento e fala da apreciação do seu filho por desenhos desse tipo. Contou sobre Dragon Ball, dentre outras referências. 

Aquele senhor não conhecia o mangá cuja imagem estava estampada em minha camisa. Porém, observou o padrão da imagem e fez relações que estavam presentes em sua bagagem cultural. Para mim, esse episódio foi um exemplo inesquecível sobre as capacidades de leitura de mundo que as pessoas possuem. E tais capacidades muitas vezes são desprezadas por aquelas pessoas que se consideram "detentoras do saber".

Sei que ao falar de leitura aqui, não estou me referindo à leitura de mundo. Estou falando da leitura da palavra. Porém, para mim, não existe uma sem a outra. Em minha opinião, quanto mais aproximamos mundo e palavra, maior a possibilidade de pertencimento, de associações. Maior a possibilidade do jogo de sentidos.

Chego, porém, ao título deste texto. O que é a leitura para mim? E falo a leitura da palavra. Qual a sua importância em minha vida? A leitura sempre foi para mim uma possibilidade de escape, mas não de escapismo. A leitura ressignifica meus dias e concede a eles um caráter mágico, maravilhoso. A leitura concede sentido à minha existência.

Continuo a buscar a ampliação desse meu conceito de leitura. Tenho para mim que ler é um ato de liberdade e também de existência. Pela leitura eu reafirmo a minha (r)existência, meu lugar no mundo e todas as possibilidades que tal posicionamento me traz. Até quando não leio estou reafirmando a minha leitura, pois tenho nos livros e no texto escrito uma das minhas razões para permanecer neste mundo. Um dos maiores sentidos de meu ser. 

domingo, maio 17, 2020

Redemoinho de Histórias - Histórias Diversas

Hoje, eu e Pâmela teremos a alegria enorme de contar histórias no canal do Instagram Redemoinho de Histórias (@redemoinhodehistorias).

Eu pretendo narrar Lolô, de Grégoire Solotareff. Tenho no canal uvm vídeo em que faço a leitura desse livro tão maravilhoso. A Pam irá contar "A velha mulher do mundo", de tradição oral.

Fomos convidados na ocasião da abertura da nova temporada do Redemoinho de Histórias, com o espetáculo "Histórias Diversas".

Sinto-me profundamente honrado pelo convite e espero estar à altura de um projeto tão sensível e diverso. Conto com a presença de todo mundo!

Dia 17de maio de 2020, domingo, às 17h30, no perfil do Redemoinho de Histórias.



Vídeo: Pense em quantos anos foram necessários para chegarmos a este ano - Ana Martins Marques



Hoje declamo o poema de Ana Martins Marques presente em "O livro das semelhanças":

Pense em quantos anos foram necessários para chegarmos a este ano
quantas cidades para chegarmos a esta cidade
e quantas mães, todas mortas, até tua mãe
quantas línguas até que a língua fosse esta
e quantos verões até precisamente este verão
este em que nos encontramos neste sítio
exato
à beira de um mar rigorosamente igual
a única coisa que não muda porque muda sempre
quantas tardes e praias vazias foram necessárias para chegarmos ao vazio
desta praia nesta tarde
quantas palavras até esta palavra, esta


Mais histórias e poesias em: http://www.oguardiaodehistorias.com.br/

sexta-feira, maio 15, 2020

Esperando Bojangles - A eterna valsa de amor e loucura

Imagem: Amazon
Não há família normal. Este é um fato. Algumas pessoas defendem, inclusive, que a incubação das maiores patologias mentais de nossa sociedade está no seio das famílias, com seus valores, sua tradição e sua religião. Mas quando uma família sai completamente dos padrões, quando a loucura passa a ser uma espécie de parâmetro, como lidar com isso?

Esperando Bojangles, do francês Olivier Bourdeaut, é um exemplo disso. O romance é narrado por duas pessoas - pai e filho. A narrativa tem início pela voz do filho, que relata com inusitada inocência os comportamentos nada usuais dos pais. Sua mãe, por exemplo, recebe a cada dia um nome diferente pelo marido. Eles mantêm uma vida despreocupada e quase inconsequente, mesmo tendo uma criança para criar. O casal bebe muito e dança ainda mais. São completamente apaixonados e sustentam uma atitude de afetado descaso às regras. O pai é a única pessoa que recebe um nome fixo na narrativa: Georges. Já o menino é chamado de nosso filho, quando é Georges que assume a narrativa.

Olivier Bourdeaut nos guia em um romance ligeiro e engraçado. As situações mais inusitadas vão se desenhando aos nossos olhos, enquanto uma história de amor e loucura nos arrebata em risos e lágrimas. Os capítulos que pai e filho narram são alternados e, contrapondo-se ao olhar infantil, nós leitores vamos conhecendo um Georges apaixonado que não se abala com a loucura da mulher. Ele a abraça com todas as suas consequências.

Assim, vamos descobrindo um pouco das peculiaridades e condições dessa família e do homem que é capaz de sacrificar literalmente tudo pela mulher que ama. Apesar do contraponto da narrativa de pai e filho, é interessante perceber que o mesmo ar inocente perpassa também as palavras de Georges, enquanto ele narra seu encontro com a mulher de mil nomes, a mãe de seu filho e senhora de sua vida. 

Existem outras personagens igualmente cativantes e pitorescas. Uma delas é Madame Supérflua, uma grou que foi resgatada em uma viagem do casal e passou a ser um bicho de estimação, com direito a colares de pérolas. Outra personagem é a figura de um senador corrupto, amigo de Georges e responsável por sua riqueza. O senador também não é nomeado no romance, sendo chamado apenas de "o Lixo".

Este é um romance que, apesar de suas poucas páginas, tem uma mensagem profunda, estrondosa. Nele, valores e tradições são questionados de uma forma que, se não fosse pelo humor, seria dolorosamente incômoda. Totalmente longe do politicamente correto, o romance apresenta personagens disfuncionais, mas extremamente harmônicos em sua mecânica interna. Mostra pessoas que decidem ignorar conceitos como lógica, costumes, reputação, para viver, com toda a sua loucura e entrega, uma história de amor. 

* Um agradecimento especial a Norma de Souza Lopes, por ter me indicado este maravilhoso livro.

Ficha Técnica
Esperando Bojangles
Olivier Bourdeaut
 Nenhuma oferta encontrada
ISBN-13: 9788551300862
ISBN-10: 8551300865
Ano: 2017 
Páginas: 128
Idioma: português
Editora: Autêntica Editora