quarta-feira, abril 08, 2020

Quando as trevas fazem vez de luz

Imagem: Mikhail Timofeev
Sempre evito fazer referências bíblicas. Coisa do meu passado, de experiências ruins com o horror que sentia quando eu via uma pessoa falar de amor ao próximo e declarar, logo em seguida, que deus deveria "pesar a mão" contra alguém que não fosse cristão evangélico.

Evito referências bíblicas porque sei como elas podem ser usadas para oprimir, discriminar, massacrar, justificar o injustificável. Porém, algumas vezes sou surpreendido com absurdos tão grandes que acabo recorrendo à própria bíblia para tentar refletir um pouco.

O atual presidente se diz cristão. Declara que o Brasil é um país cristão. Costuma falar de deus a cada pronunciamento que faz. E assim continua a vender sua imagem de representante do povo cristão no Brasil.

Então, paro sou levado a refletir sobre as palavras e ações de Bolsonaro e concluo que as coisas estão no mínimo deslocadas. Para não dizer o pior.

No evangelho de Mateus, no capítulo 6, Jesus começa o famoso Sermão da Montanha. E em dado momento ele declara: "se a luz que há em ti forem trevas, quão grandes serão essas trevas!"

Não sou um estudioso da Bíblia. Fazem anos que não a consulto, mas fiquei inculcado com esse trecho, que me veio depois de ouvir um presidente falar que uma pandemia que já matou milhares de pessoas ser "uma gripezinha" e que o cuidado que as pessoas estão tendo não passa de "histeria".

E me recordo de outras coisas que o sujeito disse ao longo de sua carreira política. Uma de suas primeiras polêmicas foi colocar na mesma frase as palavras "estupro" e "merece". Uma frase claramente ofensiva, sobre a qual nem vale discutir aqui. Só vou argumentar que a frase dele faz tanto sentido quanto dizer: "só não como cocô porque não é doce."

Essa não foi a única frase cruel e criminosa de tantas. Nem vale elencar todas aqui. Destaco apenas aquelas que me causaram profundo nojo. Ele disse, por exemplo, que o crime de extermínio era bem-vindo no Rio de Janeiro. Sua fala está nos anais da assembleia legislativa do Rio. Todo mundo lembra de sua abjeta homenagem a um torturador durante a votação do impeachment.

Uma de suas mais recentes declarações foi reclamar sobre um comprovante. "Querem comprovante de tudo." Afinal, ele se declara acima de qualquer suspeita, não tem que dar satisfação a ninguém. Ao que parece, nem aos seus eleitores.

E assim continua sua trajetória em perverter as coisas. Com Bolsonaro, crime é defendido, não é preciso ter comprovante, estupro está ligado a merecimento, pandemia é gripezinha.

Eu simceramente gostaria que, nessa última, ele não estivesse errado.

Um pedido

Fonte: Barbara Bonanno
Eu esqueci o nome dela. Sei que veio de Vitória. Que decidiu tentar a vida em BH com a prostituição. Que depois de ser muito maltratada pela cafetina, decidiu fugir. Que agora está na rua, esperando vaga em algum abrigo.

Tudo isso ela me disse quando nos abordou - eu e a Pam - quando atravessávamos a Praça da Estação. Disse que era travesti e perguntou se a gente tinha algum preconceito. Somente após a negativa que ela contou sua história.

Antes de tudo, porém, ela disse o seu nome. E justamente o seu nome eu esqueci. Talvez a história não tenha sido esquecida por ser algo tão comum na vida de tantas meninas e mulheres, cis ou trans. E igualmente tão brutal.

Enquanto ela falava, eu vasculhava os bolsos em busca do que tinha em dinheiro. Mas o que eu não podia lhe dar era dignidade. E isso me doeu mais ainda. Ela agradeceu, mais a intenção que a quantia pobre, e foi se afastando.

Logo que viramos as costas, Pam me disse que a conhecia. Contou que há oito meses, aproximadamente, a mesma moça a havia abordado, contando a mesma história. E antes que qualquer sentimento diferente da empatia brotasse em mim, Pam logo sentenciou:

"Se trezentas vezes ela me pedisse, trezentas eu ajudaria."

segunda-feira, abril 06, 2020

O machismo perverso de Bolsonaro

Autor: Pataxó
Há um ditado que diz que não se deve chutar cachorro morto.  Politicamente, considero que Jair Bolsonaro, vulgo Bozo, está tão morto que só falta sepultar, pois já cheira mal. Porém, como alguns de seus seguidores continuam a sacudir sua carcaça mórbida, nua e imoral por aí, acho muito necessário que a gente continue batendo, chutando e dando porrada nesse morto que muitos insistem que continua vivo e bem. Vai que a carcaça levanta pra morder mais alguém, como é seu comportamento.

Não sou um adepto da política a ponto de usar meu blog pessoal, exclusivo para a divulgação literária, como plataforma pafletária. Nunca fui disso, e creio que nunca serei. A questão é que o bolsonarismo é um problema grande demais para que eu use de diletantismo para não me posicionar politicamente. Inclusive, mais de uma vez discursei aqui, em crônicas e poemas, sobre como esse monstro estava crescendo, a ponto de atingir uma escala incontrolável.

Que Bolsonaro representa a camada mais egoísta e preconceituosa de nossa sociedade, todo mundo já sabe. São pessoas que usam o intangível patriotismo como desculpa para destilar ódio contra principalmente os mais pobres. Não apenas estes, mas também contra qualquer ideia de diferença, seja social, científica, religiosa, bem como as pessoas mais vitimadas pelos preconceitos que ainda tornam a humanidade enferma e em estado de pré-civilização.

Outro dos maiores perigos do bolsonarismo é inverter o significado das palavras, onde honesto é um homem que admite sonegar impostos e realizar transações financeiras sem qualquer documento comprobatório - e ainda ridicularizar a existência de quem o faz; onde as pessoas achem bonito que um parlamentar não preste conta da verba que usa; onde as palavras estupro e merecimento aparecem em uma mesma frase, ignorando o fato de que ninguém merece ser estuprado; onde um político homenageia um torturador e defende, literalmente, o crime de extermínio.

Sim, o bolsonarismo é perigoso, tal qual um animal peçonhento. Ou melhor, é ainda mais, pois até mesmo um bicho peçonhento segue uma lógica de sobrevivência. O bolsonarismo é maligno pois estimula a insanidade através do ódio autodestrutivo. Um ódio que procura assegurar as coisas como estão, que busca preservar uma ideia de honra de homens que agridem as mulheres por sua existência. E esse ódio é capaz de implodir tudo para que não haja mudança.

E um dos maiores problemas do bolsonarismo é justamente a defesa do machismo estrutural. Não é novidade a ninguém quantas vezes Jair Bolsonaro foi ofensivo com mulheres, seja em foro pessoal, ao dizer em tom de troça que a própria filha foi resultado de uma "fraquejada", seja como um todo, ao declarar que nunca contrataria uma mulher no lugar de um homem.

A última de Bolsonaro, de que tenho notícia, foi dizer que a gravidez precoce seria culpa de mães e avós. Ancorado em argumentos do igualmente perverso Alexandre Garcia, Bolsonaro deu a seguinte declaração:

"Na semana passada, falei de uma menina que deu à luz pela terceira vez aos 16 anos de idade sendo aidética. Isso que eu falei. O que faltou? Faltou uma mãe, uma avó, pra não começar a fazer sexo tão cedo. Qualquer pessoa com HIV, além do problema de saúde dela gravíssimo, que nós temos pena, é custoso para todo mundo. Vocês focaram no que o aidético é oneroso no Brasil. Tô levando porrada de tudo quando é grupo de pessoas que tem esse problema lamentavelmente."

Tem que levar porrada mesmo. E muita.

Fontes:




sexta-feira, abril 03, 2020

É m livro - Humor e reflexão no passar das páginas

Ontem, dia 2 de abril de 2020, foi comemordo o Dia Internacional do Livro Infantil. A data foi escolhida em ocasião do nascimento de Hans Christian Andersen, um dos maiores nomes da literatura infantil e dos contos de fadas do mundo. Para não deixar a data passar batido, resolvi então falar sobre o próprio livro em si, através do engraçado e criativo É um Livro, de Lane Smith.

Um macaco está sentado, tranquilamente lendo seu livro. Até que um burro se aproxima e pergunta o que ele tem em suas mãos. "É um livro" - responde o macaco. Começa assim um engraçado diálogo em que o burro, um entusiasta da tecnologia, tenta entender um objeto que não entra na internet, não acessa o Twitter, não manda mensagens, não precisa de senha, log in e nem de bateria.

Através do divertido diálogo, o objeto livro é apresentado ao leitor, num divertido jogo de significados. Este objeto vai sendo apresentado justamente pelo que não é, mediante o contraste com as características que smartphoes e gadjets ostentam ao serem operados por seus usuários.

E interessante observar o traço suave de Lane Smith com desenhos longos e arredondados, algo que a pesquisadora Yolanda Reyes aponta como elementos visuais atrativos para os bebês e demais pequenos leitores. As texturas remetem ao giz de cera, tão comum em atividades artísticas infantis.

Outro ponto a se observar é a homenagem que o autor faz à literatura universal ao mostrar qual livro o macaco está lendo. Ao mesmo tempo, ele faz uma brincadeira com a linguagem abreviada que os jovens utilizam para trocar mensagens.

Vale também apontar o aspecto interativo que o livro tem em si. E não estou falando apenas do alvo desta resenha. Ao observarmos como os bebês manuseiam os livros, podemo perceber que há nestes objetos características interativas que representam a própria ideia de tempo e sucessão. As páginas podem ser passadas, pode-se adiantar e retornar nas mesmas. Todo livro é antes de tudo um brinquedo.

Com um humor inocente e desenhos que primam pela estética, sem perder a jovialidade, É um Livro certamente é um boa pedida para ser o primeiro livro de alguém. Seja este alguém de qualquer idade.



Ficha Técnica
É um Livro
Lane Smith
ISBN-13: 9788574064512
ISBN-10: 8574064513
Ano: 2010
Páginas: 32
Idioma: português
Editora: Companhia das Letrinhas


Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/e-um-livro-132166ed146594.html

quarta-feira, abril 01, 2020

Sobre estrelas cadentes

Quem me conhece sabe que desde bem pequeno cultivo o sonho de ser escritor. Logo que o primeiro livro me capturou e encheu de fascínio, decidi: Quero fazer as pessoas sentirem o que sinto ao ler. Se alguém me perguntar que sensação seria essa, talvez eu tenha dificuldade em responder. É aí que a coisa fica complicada. Como provocar nas outras pessoas algo que nem eu sei divisar?

Porém, lá estava eu, um franzino e cabeçudo, dizendo aos quatro cantos que seria escritor quando crescesse. Também, pudera! Entre ser escritor e astronauta, a primeira ocupação seria muito mais alcançável.

Ledo engano. Fui crescendo e descobrindo como era difícil saber o que seria preciso para se tornar um escritor. Qual curso fazer? Que caminho tomar? Era tudo muito difícil e nebuloso. Sem falar que tem escritor que não ajuda. Certa vez, eu viajei para o lançamento do livro com o bate-papo com o autor. Um rapaz ao meu lado perguntou o que era necessário para ser escritor. Ao que o autor encheu o peito e disse:

- Pra ser escritor, você tem que ser bom!

Saí do evento decepcionado. Claro, não havia comparecido achando que teria a fórmula de Flamel, mas a empáfia do dito autor me revirou o estômago.

Porém, fui persistente. Participei de oficinas literárias. Inscrevi meus textos em concursos, integrei coletâneas literárias. Depois de vários percalços, lá estava eu, no lançamento de meu primeiro romance "O Medalhão e a Adaga".

Como um bom pai, passei a acompanhar o que os leitores estavam achando do livro. Criei um perfil dele no Skoob, a rede social de livros e leitores. E fiquei de camarote esperando quantas estrelas cada leitura daria.

Os primeiros dias após o lançamento do livro foram de empolgação, acompanhando lá no Skoob o crescimento de leitores. Era como se meu próprio filho fosse crescendo. Logicamente, esses primeiros leitores eram do meu círculo de amigos e por isso a maioria deu 5 estrelas após a leitura.

Mas certo dia, qual não foi minha surpresa ao descobrir que alguém  havia dado 4 estrelas ao meu livro. Ponderei. Tudo bem, ainda era muito bom. Os hotéis 4 estrelas são excelentes. Ter 4 estrelas é estar acima da média. Acabei me acalmando.

Só que não parou por aí. Veio o dia em que eu encontrei um leitor que deu 3 estrelas para meu livro. Tive uma sensação de estranhamento. Afinal, meu objetivo era que o livro fosse bem recebido, que o livro agradasse, que empolgasse meus leitores. Porém, três estrelas ainda se enquadram na lógica da boa avaliação. O melhor hotel em que estive tinha 3 estrelas.

Mas então eu finalmente cheguei à primeira vez que recebia uma avaliação abaixo da média. Logo depois, uma nota ainda pior. Alcancei a marca de uma estrela. Pronto, tinha chegado ao fundo do poço. 

Era para eu ficar aturdido. Não sei se estava vacinado, ou simplesmente cansado, mas não liguei como imaginei que ligaria. Não fui ao chão. Essa experiência só reforçou o fato de que preciso continuar aprendendo.

segunda-feira, março 30, 2020

Um dia

Um dia, o mundo acordou diferente. Obrigados a uma quarentena, em reclusão forçada, os patrões começaram a ter mais tempo para pensar. E a preocupação na queda dos lucros foi lentamente se tornando apreensão pelas vidas de seus funcionários.

Alguns, de suas fortalezas tecnológicas, passaram a ter sonhos inquietantes em que escutavam os gritos de quem era obrigado a trabalhar e ficava doente. E infectavam seus entes queridos. E infectavam outros que estavam nas ruas, e assim espalhavam a doença.

Outros patrões, simplesmente por aumentarem suas leituras durante o ócio, percebiam como eram idiotas as ideias de egoísmo, preconceito, desrespeito e descaso. Começaram a mudar suas convicções. 

Primeiro timidamente, um movimento começou a aumentar. Empresários, banqueiros, industriários e grandes comerciantes começaram a se articular. Enquanto se organizavam, notificavam seus políticos de estimação. Exigiam um esforço conjunto.

Uma enorme cadeia de apoio foi criada. Através das maravilhas da tecnologia, os produtores e distribuidoras de alimentos e itens essenciais fizeram seus bens chegarem a quem mais precisava. Equipamentos de prevenção eram gratuitamente colocados à disposição de caminhoneiros, operários e brigadistas voluntários.

A concorrência desapareceu. O dinheiro, ao que parece, tornou-se supérfluo. Afinal, os bens eram produzidos por prioridade e mantidos à disposição.

Alguns tentaram se aproveitar da situação, é claro. Mas diante da abundância, perceberam que não adiantava estocar itens para vender depois. Toda a riqueza estava direcionada para proteger as pessoas.
Indústrias farmacêuticas liberaram patentes de remédios. Produziram testes como se não houvesse amanhã. Dar era a nova palavra de ordem.

Eu observava tudo isso maravilhado. Como brigadista voluntário, via de perto os olhares luminosos que as pessoas lançavam quando recebiam em mãos aquilo que elas não poderiam conseguir em segurança. Algumas tentavam me pagar, acreditando que algum gesto de gratidão era necessário. Com um sorriso, eu negava o dinheiro, papel agora sem qualquer valor.

Estava feliz. Estava maravilhado. E foi com essa sensação de maravilhosa satisfação que acordei desse sonho.

domingo, março 29, 2020

Vídeo: Yakuba - Thierry Didieu

Boa noite! Trago a vocês, mais um vídeo do canal. De agora em diante, compartilharem aqui os vídeos aos domingos. Espero que apreciem!

"Amanhece na savana africana. E, para o jovem Yakuba, é um dia especial: ele está prestes a se tornar um guerreiro. Para provar sua coragem, precisa, no entanto, enfrentar um leão. Sob o sol escaldante, o menino-homem caminha, com medo, e finalmente encontra o inimigo. Ansioso, ele corre para lutar, mas é paralisado pelo olhar do grande felino, que está ferido. Agora Yakuba deve decidir: ou mata o animal, e ganha o respeito da tribo, ou o poupa, e se torna homem a seus próprios olhos."

Yakuba
Thierry Dedieu

ISBN-13: 9788501101839
ISBN-10: 8501101834
Ano: 2016 
Páginas: 40
Idioma: português
Editora: Galera Júnior

Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/livro/577535ED578665

sexta-feira, março 27, 2020

O Anel dos Löwenskölds - Do objeto ao desejo




É possível que um pequeno objeto - um anel - atravesse gerações, alterando o curso de vidas inteiras e causando infortúnios em todos aqueles que dele se aproximam? Não estou falando da famosa trilogia de fantasia que tomou as telas dos cinemas há quase vinte anos. Nem do clássico nórdico que inspirou a citada trilogia, além de peças de teatro e óperas. 

Estou me referindo a uma obra bem mais modesta. O Anel dos Löwenskölds, romance de Selma Lagerlöf, conta uma história que a princípio parece prosaica, ao falar de um anel que um antigo rei sueco, Carlos XII, deu a um general de uma região do interior do país. Como último desejo do militar, a joia foi enterrada com o dono. 

Assim tem início uma história de cobiça, roubo e maldição. Roubado da sepultura, o anel passa anos desaparecido, sem contudo deixar de determinar de forma implacável o destino das pessoas ao seu redor. A narrativa despretensiosa de Selma Lagerlöf conduz o leitor pelos infortúnios que vão se desenrolando. Há um certo tom de mistério que vai crescendo, transformando um enredo de suspense policial rumo a um terror sobrenatural.

Foi curioso observar o título que inevitavelmente nos faz pensar em outras narrativas mais conhecidas. O título pode ser uma remota referência ao mito nórdico, numa forma de intertextualidade. Selma é uma autora escandinava com profundas ligações com a tradição oral de sua terra. Ao mesmo tempo, a narrativa apresenta um caso particular mas dá ao mesmo dimensões de saga, com protagonistas que vão dando lugar a outros, na medida que o anel altera de forma irreversível suas vidas. 

Leitores acostumados com obras mais contemporâneas podem estranhar um pouco o estilo da narrativa. O texto que li está traduzido para o Português de Portugal, o que pode causar ainda mais estranhamento em alguns. Quem aprecia narrativas do final do século XIX e início do século XX, vai encontrar no romance de Lagerlöf um excelente exemplo de narrativas de época.

Com um texto ligeiro e refinado, guiando o leitor por uma série de desventuras provocadas pelo desejo e suas consequências, O Anel dos Löwenskölds é uma narrativa ímpar, que estreia uma trilogia e certamente irá atrair os leitores por seus mistérios e sua requintada ironia.






Ficha Técnica:
O Anel dos Löwenskölds
Selma Lagerlöf
ISBN-13: 9789898872074
ISBN-10: 9898872071
Ano: 2017
Páginas: 128
Idioma: português de Portugal
Editora: E-Primatur

Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/o-anel-dos-lowenskolds-673062ed868684.html

quarta-feira, março 25, 2020

Picardias evangélicas

Sou de família evangélica. Por isso, passei boa parte de minha juventude em eventos e atividades da igreja, como acampamentos, gincanas e excursões. Quem imagina que esses encontros eram o exemplo da espiritualidade muito se engana. 

Em uma igreja que frequentei em minha adolescência, Batista, havia o costume de alguns jovens fazerem um mural de fotos com os flagras inusitados. Lembro que tiraram uma fotografia em que eu estava agachado, enquanto batia a mão na parte de trás da bermuda. Na legenda, havia algo assim: "Acho que aquela plantinha que usei pra me limpar era urtiga".

Os chamados acampamentos eram sítios alugados durante os feriados prolongados onde nós, adolescentes e jovens, nos divertíamos. Sim, havia culto, oração e estudo bíblico, mas também muita piscina, futebol, peteca e brincadeiras. Algumas eram mais inocentes, como as brincadeiras de roda. Outras, de iniciativa dos mais debochados do grupo, poderiam ser até um pouco nojentas.

Tenho a lembrança, por exemplo, de um colega de igreja, um dos mais populares entre as meninas, que à noite ficava enrolado em um cobertor, andando de um lado para o outro. Quem não o conhecia ignorava que ele estava soltando puns. Ele então se aproximava se alguém mais distraído e abria o cobertor, liberando a fedentina. 

Havia também aqueles que estavam determinados a não deixar as outras pessoas dormirem. Eram piadas, sons estranhos, gargalhadas e deboches. E de repente a conselheira dos jovens, filha do pastor, aparecia, chamava à atenção, brigava. Ficavam todos em silêncio, como se nada tivesse acontecido. Bastava ela dar as costas para tudo recomeçar.

As noites podiam ser também perigosas para quem não estivesse preparado. Dormir a sono solto podia significar acordar no dia seguinte com o rosto todo rabiscado ou coberto de pasta de dente.

Os congressos imauguravam os relacionamentos. Realizado pelas igrejas batistas de Venda Nova, reunia um número enorme de jovens em alguma escola da região. Acontecia no Carnaval e era o evento mais badalado do ano. 

Uma brincadeira chamada "Viuvinha" muitas vezes estabelecia as dinâmicas das paqueras. E ai de quem não fosse popular e se arriscasse a participar da brincadeira. Tomava chá de cadeira. 

O acontecimento mais curiosamente engraçado de que tenho lembrança, porém, ocorreu em minha infância, em um evento em que eu não participei, mas testemunhei de camarote. Eu morava em Teófilo Otoni e frequentava a Primeira Igreja Presbiteriana naquela cidade. 

Havia um grupo de adolescentes que, se não me falha a memória, gostavam de se chamar "os ratões", ou algo parecido. Eram grandes e fortes. Sua brincadeira predileta era dar cintadas nos colegas, principalmente os mais fracos. Também gostavam de mudar as letras das músicas da igreja para versos de deboche. A música com o verso: "Solta o cabo da nau" virava: "Solta o arroto, animal".

Enfim, houve um final de semana em que os adolescentes dormiram na igreja, numa noite do pijama, de sábado para domingo. Eu, que ainda era da UCP - União de Crianças Presbiterianas - fiquei de fora. Meu irmão mais velho, porém, estava nesse retiro.

Era manhã de domingo. Em frente ao imponente templo, irmãs e irmãos da igreja, com roupas distintas e olhar sisudo, cumprimentavam-se e trocavam impressões sobre semana. Eram quase nove horas da manhã, quando teria início a Escola Dominical.

De repente, algumas pessoas começam a olhar para cima, sendo seguidas por outras. Mecanicamente, imito o gesto. Alguma coisa flutua no ar, descendo lentamente. Uma coisa leve, diáfana, ondeante, que só podia ter sido lançada da torre da igreja.

Era uma cueca. As pessoas seguiram com o olhar, em silêncio, aquela peça de roupa íntima, provavelmente usada, que algum adolescente havia lançado de uma das janelas da torre da igreja. 

As pessoas se aglomeravam ao redor do objeto. Ninguém se atreveu a pegá-lo. Nimguém se aproximou demais. Ninguém disse coisa alguma. As feições estavam mais fechadas, sérias. Eu, de tão surpreso, nem conseguia rir. Enquanto isso, todos permaneciam em roda, como que observando uma pessoa acidentada.

Uma melodia solene tocou, dando início ao culto. Todos nós entramos. Ninguém disse coisa alguma naquele momento. E nas semanas seguintes, o comportamento reprovável dos adolescentes foi repetido como exemplo a não ser seguido. A boca pequena, falavam que fora um dos ratões, um dos mais ousados, que tinha feito a façanha, mas sua identidade nunca foi revelada. E assim a vida voltou à sua normalidade.

O acontecimento mais marcante de minha infância na igreja evangélica foi uma cueca descendo do céu.

segunda-feira, março 23, 2020

Vontade, sentimento estrangeiro



Hoje quero andar pelas montanhas
desnudar minha alma sob o céu
desvelar meus olhos sobre as águas
Repousar à beira de um lago calmo

Hoje eu quero ver sorrir uma estrela
Abraçar teu corpo tão cinético
Balançar suavemente seus oblíquos cabelos
Ao som do vento a mover os galhos secos

Da árvore de nosso encontro
Planta plantada qual adaga em meu peito
Em minha memória dos dias em que juntos
olhamos pra frente como um só coração

E sentir frustração por ver tudo morto
Não saber se chorar, se gritar, se morrer
é melhor que a vida sem tua companhia
é melhor do que os dias sem poder te ver

sexta-feira, março 20, 2020

Vídeo: Os três soldados e a princesa nariguda - Irmãos Grimm

Era uma vez três soldados já velhos, que foram dispensados pelo rei sem nenhuma aposentadoria. Assim, eles tiveram que...

Quer saber o resto? Assista! Este conto está no livro "Contos maravilhosos infantis e domésticos", dos Irmãos Grimm. Editora Martins Fontes.

Feliz Dia do Contador de Histórias!

Histórias de todos os cantos!

Fragmentos de mulher - Ajuntando estilhaços de triste beleza

Tudo o que Lídia Maisha busca é paz. Negra, moradora de uma pequena cidade no interior de Minas, a menina cresce vendo sua inteligência ser desperdiçada e seu futuro ameaçado. Pobreza e exclusão, machismo e outras mazelas perseguem a menina, que no entanto continua a sonhar, mesmo diante de todas as dificuldades.

Assim tem início o romance memorialístico Fragmentos de mulher, de Ana Reis. Com um texto conciso, direto e muito bem equilibrado, a narradora desfia seus percalços, num tom confessional que de primeira conquista o leitor.

Apesar de uma leitura sucinta e ligeira, os leitores inadvertidos não podem pensar que se trata de um texto leve. A prosa de Ana Reis é densa pela crueza da realidade da protagonista, de sua franqueza, de seus questionamentos diante das injustiças de um mundo que insiste em lhe fechar as portas.

Porém, a obra também surge banhada de luminosidade, como anuncia o girassol da capa. Assim, quem se aventurar pelas páginas de Fragmentos de mulher encontrará um texto belo, uma prosa firme e o relato de uma vida que sempre buscou por raios de luz.

Ficha Técnica 

Título: Fragmentos de mulher 
Autora: Ana Reis 
Editora: Mulungu
Páginas: 112

quinta-feira, março 19, 2020

Dia do Contador de Histórias 2020

Dia 20 de março é celebrado o Dia do Contador de Histórias. Para não deixar passar batido em um momento em que o país precisa se recolher, nós estaremos contando histórias online, com a hastag #históriasdetodoscantos. Serão 24 horas de histórias. Assim, Quem quiser acompanhar pelo Facebook, basta acessar o link: https://www.facebook.com/Hist%C3%B3rias-de-todos-os-cantos-101286441515296.


Eu estarei em meu perfil do Instagram @neritosamedi contando uma história recolhida pelos Irmãos Grimm. Deixo o nome escondido, será uma surpresa...

Quem quiser me assistir, basta acessar meu Instagram às 7h da manhã. 

Até lá!

Tortura

Reflexo louco das horas mortas
poesia maldita pérfida e torta
navalha cega qual frio corta
o peito insone por trás das portas

Cálido vento vindo de terras
há muito já mortas a apodrecer
Inóspito sítio repleto de feras
nascidas do próprio anoitecer

A bruma é a forma de um grito nascido
Do sol que agoniza ao fim da tarde
Mesclado ao forte e intenso bramido
de um mar furioso que em fogo arde

O grito é silêncio dentro em meu peito
falar eu não posso ainda que tento
dessa dor aguda ferida sem jeito
A sina que assina todo meu tormento