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segunda-feira, abril 13, 2020

Os melhores japoneses do Brasil

Fonte: Mangá Gantz, de Oku Hiroya
Nunca imaginei que um dia concordaria com o Reinaldo Azevedo. Usando de ironia, o cronista publicou um texto em que rotula Jair Bolsonaro e Alexandre Garcia "pais e maridos e japoneses exemplares".

A piada surgiu a partir de um trecho de uma palestra de Alexandre Garcia, onde ele propunha a "troca" da população do Brasil pela do Japão. Segundo a "teoria" do jornalista, nosso país levaria no máximo dez anos para se tornar uma potência. Tal vídeo foi compartilhado pelo presidente e causou mal estar mas redes sociais.

Não foi a primeira vez (e talvez não seja a última) que Garcia usou sua posição privilegiada para espalhar seu preconceito como se o mesmo fosse uma lei universal. Como muitos "pensadores" do Brasil, Alexandre Garcia representa a voz de uma parcela conservadora da sociedade. Um grupo que sempre dispôs de poder e hegemonia, que desde o período colonial usa de violência física e simbólica para silenciar qualquer tipo de pensamento contrário, qualquer tentativa de questionar o status quo.

Tal declaração de Garcia, inclusive, vai de encontro a uma pérola de Jair Bolsonaro. O político teria dito que nunca viu japonês pedir esmola, em uma declaração que despreza a realidade de um país que desconhece, bem como reforça um preconceito profundo contra o próprio brasileiro, em especial aquele em situação de rua.

Por vezes eu me pergunto por que pessoas como Bolsonaro e Garcia desprezam tanto o provo brasileiro. Porém, creio que todos sabemos a resposta e ela é por demais hedionda, abjeta, nojenta, para ser verbalizada.

Para alguém como eu, que há mais de vinte anos assiste animes e lê mangás, expoentes da cultura pop japonesa, Bolsonaro facilmente se assemelha à figura do valentão enorme e malvado, aquele vilão primário, que não tem um pingo de profundidade ou misericórdia, usando sua força para intimidar por prazer. Já Garcia corresponde à figura do típico bajulador, que anda às voltas desse vilão, para ganhar vantagens.

Pouco sabem os dois que nas narrativas dos mangás, os heróis existem para proteger os mais fracos, para cuidar de quem precisa, para estender a mão e buscar o entendimento. Os mais icônicos heróis de mangás são órfãos, vivem na pobreza e lutam contra o preconceito. 

Encerro este texto me lembrando de Gantz, um mangá que foi adaptado para anime no início dos anos 2000. A narrativa tem início quando o herói e seu amigo de infância saltam em uma linha de metrô para salvar um mendigo que, bêbado, acabou caindo e corre perigo de ser atropelado pelo trem. Enquanto os dois jovens se colocam nessa situação perigosa, várias pessoas apenas assistem, algumas até mesmo com celulares, para filmar o atropelamento iminente.

Acredito que Jair Bolsonaro e Alexandre Garcia, em uma situação como essa, ficariam só assistindo, como bons japoneses que acreditam ser.

quarta-feira, abril 08, 2020

Um pedido

Fonte: Barbara Bonanno
Eu esqueci o nome dela. Sei que veio de Vitória. Que decidiu tentar a vida em BH com a prostituição. Que depois de ser muito maltratada pela cafetina, decidiu fugir. Que agora está na rua, esperando vaga em algum abrigo.

Tudo isso ela me disse quando nos abordou - eu e a Pam - quando atravessávamos a Praça da Estação. Disse que era travesti e perguntou se a gente tinha algum preconceito. Somente após a negativa que ela contou sua história.

Antes de tudo, porém, ela disse o seu nome. E justamente o seu nome eu esqueci. Talvez a história não tenha sido esquecida por ser algo tão comum na vida de tantas meninas e mulheres, cis ou trans. E igualmente tão brutal.

Enquanto ela falava, eu vasculhava os bolsos em busca do que tinha em dinheiro. Mas o que eu não podia lhe dar era dignidade. E isso me doeu mais ainda. Ela agradeceu, mais a intenção que a quantia pobre, e foi se afastando.

Logo que viramos as costas, Pam me disse que a conhecia. Contou que há oito meses, aproximadamente, a mesma moça a havia abordado, contando a mesma história. E antes que qualquer sentimento diferente da empatia brotasse em mim, Pam logo sentenciou:

"Se trezentas vezes ela me pedisse, trezentas eu ajudaria."

segunda-feira, março 30, 2020

Um dia

Um dia, o mundo acordou diferente. Obrigados a uma quarentena, em reclusão forçada, os patrões começaram a ter mais tempo para pensar. E a preocupação na queda dos lucros foi lentamente se tornando apreensão pelas vidas de seus funcionários.

Alguns, de suas fortalezas tecnológicas, passaram a ter sonhos inquietantes em que escutavam os gritos de quem era obrigado a trabalhar e ficava doente. E infectavam seus entes queridos. E infectavam outros que estavam nas ruas, e assim espalhavam a doença.

Outros patrões, simplesmente por aumentarem suas leituras durante o ócio, percebiam como eram idiotas as ideias de egoísmo, preconceito, desrespeito e descaso. Começaram a mudar suas convicções. 

Primeiro timidamente, um movimento começou a aumentar. Empresários, banqueiros, industriários e grandes comerciantes começaram a se articular. Enquanto se organizavam, notificavam seus políticos de estimação. Exigiam um esforço conjunto.

Uma enorme cadeia de apoio foi criada. Através das maravilhas da tecnologia, os produtores e distribuidoras de alimentos e itens essenciais fizeram seus bens chegarem a quem mais precisava. Equipamentos de prevenção eram gratuitamente colocados à disposição de caminhoneiros, operários e brigadistas voluntários.

A concorrência desapareceu. O dinheiro, ao que parece, tornou-se supérfluo. Afinal, os bens eram produzidos por prioridade e mantidos à disposição.

Alguns tentaram se aproveitar da situação, é claro. Mas diante da abundância, perceberam que não adiantava estocar itens para vender depois. Toda a riqueza estava direcionada para proteger as pessoas.
Indústrias farmacêuticas liberaram patentes de remédios. Produziram testes como se não houvesse amanhã. Dar era a nova palavra de ordem.

Eu observava tudo isso maravilhado. Como brigadista voluntário, via de perto os olhares luminosos que as pessoas lançavam quando recebiam em mãos aquilo que elas não poderiam conseguir em segurança. Algumas tentavam me pagar, acreditando que algum gesto de gratidão era necessário. Com um sorriso, eu negava o dinheiro, papel agora sem qualquer valor.

Estava feliz. Estava maravilhado. E foi com essa sensação de maravilhosa satisfação que acordei desse sonho.