Hoje, fomos ao encontro do Clube de Escritores de Belo Horizonte, que aconteceu na livraria do Belas, em plena Savassi, a um quarteirão da Praça da Liberdade. Abaixo, segue o resultado da produção escrita do exercício do desafio que fizemos:
15h52. Desafio
Inimigo, Carretel, Colheita
Quando criança, assisti um filme que me perseguiu com pesadelos por meses: "A colheita maldita”. Confesso que não tenho muita memória do enredo, sequer das cenas do filme. Apenas tenho nítida a sensação de perigo iminente, de urgência, de fuga, da presença de um inimigo oculto a me espreitar de além das bordas do sono.
Fato é que hoje tenho quase certeza de que nunca assisti esse filme. Os pesadelos ocorreram, minha mãe jurava que tinha que me sacudir quando eu, aos berros, acordava a casa inteira. Quando ainda estava viva, já no hospital, ela jurou que eu nunca vi o tal filme. Que a chamada transmitida na televisão, a mera vinheta comercial, havia inspirado meus pesadelos.
Isso me faz perceber que a vida é um carretel de memórias inventadas. A identidade e o pertencimento são ilusões. Eu nunca vi um filme que sempre achei ter visto. Então, qual das minhas memórias é confiável?
Será que o Tinho era real? Meu melhor e mais antigo companheiro de brincadeiras, ele entrou na minha vida pouco tempo depois que os pesadelos pararam. Tinho, com seus olhos injetados, seus dentes tortos. Tinho, com seu cheiro forte e brincadeiras perigosas. Será que se hoje eu for ao sítio do vô Leôncio e procurar na cisterna, vou encontrar lá no fundo os ossos do meu amigo?

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