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| Objeto provocador |
Epílogo
Então aconteceu o inevitável: o ser humano alcançou os limites do Universo. Ultrapassou a Via Láctea. Em seguida, cruzou todas as galáxias no caminho. Incontáveis anos-luz foram finalmente contados, pois a distância foi vencida.
No Planeta-Mãe, que havia eras deixara de se chamar “Terra”, trilhões de pessoas aguardavam a transmissão do momento em que o Fim do Universo seria alcançado. Não havia pessoa humana que não tivesse os olhos colados em seu transmissor virtual. “Olhos” é forma de expressão, uma vez que, com os implantes cibernéticos, as telas surgiam dentro da mente do espectador, em seu campo de visão. Já aqueles que haviam contratado a cobertura premium poderiam curtir uma simulação em tempo real, como se fossem parte da corajosa tripulação. Ou poderiam ser um corpo celeste próximo do evento, ou até mesmo o próprio módulo espacial.
As colônias humanas, tão numerosas quanto os corpos celestes, tamém acompanhavam o resultado da expedição. Ninguém falava de outra coisa. O limite final havia sido por fim alcançado. O módulo, ironicamente batizado de “Babel”, iria concluir um mito antigo, unindo os seres humanos em um só coração, uma só alma, uma só mente.
Então, o módulo enfim chegou. Era ali, o limite. O final. A fronteira. Era lisa. Impenetrável. Invisível. O veículo espacial só não colidiu e foi estraçalhado porque os sensores captaram a misteriosa energia da barreira a tempo.
O ultra computador de bordo analisou a composição da barreira. Constatou ser ela feita de uma partícula nunca antes identificada. Prosseguiu a análise e buscou projetar o formato da barreira, que de fato não era reta, mas curva. Apesar das dimensões astronômicas, foi possível ao ultra computador valer-se da capacidade de processamento via léptons, compartilhada por outros computadores espalhados pelas colônias e também no Planeta-Mãe.
Ao fim de uma década, foi possível concluir os cálculos necessários e criar um modelo da barreira. Era côncava. Para dentro. E propagava-se por todo o Universo, até fechar-se em si mesma, encerrando toda a matéria.
O Governo Universal tentou ocultar a verdade, mas já era tarde. A hiperconectividade impediu o abafamento e logo os remanescentes da Mídia Livre alardeavam a Manchete, dando ao Universo a alcunha de Mônada.
As tentativas de romper a barreira foram várias. Um modelo teórico apresentou a hipótese de que a energia necessária para realizar um furo de meio centímetro na barreira seria equivalente àquela usada para manter unida toda a massa presente no Universo. Para romper a barreira, seria necessário detonar em fissão nuclear todos os átomos presentes em seu interior.
Esse foi o princípio do fim. Bastou saber-se aprisionado, o ser humano sucumbiu. A claustrofobia espalhou-se qual epidemia. Mundos inteiros detonaram suas ogivas, pulverizando-se. Guerras sobre guerras coroaram a angustiante insânia. A Vida em todo o Universo acabou.
Do lado de fora da Mônada, A esfera que ela de fato era repousava em uma estrutura, junto com muitas outras. Esta estrutura de dimensões impossíveis girava, movida por uma alavanca. E os Eternos aguardavam qual esfera seria por fim tirada no sorteio.
Perfeita
A Face lisa
e fria
Ovo
Núcleo
Fato
Fausto
É impossível
haver Vida
nela.
Apenas promessa.
Ao abandonar
enfim
a perfeição
Será quando
poderá
de uma vez por
todas
Viver.
Prosa Poética da Tarde
Lampejo
Superfícies oníricas
evocam reflexos
diáfanos.
Aturdido estou.
Ofuscado.
A luz era muita
refratada
em múltiplas faces
prismáticas.
Mundos inteiros
surgiram assim.
Depois, deixaram
de existir.
Eu apenas continuei:
Desejo.
Fato
Aquela colina
já abrigou um Castelo.
Nuvens passaram
ventos
chuvas.
Hoje nada resta
do que um dia
foi
agremiação de pedras
a acolher
amores e
intrigas.
O Senhor Castelão
possuía
dois olhos de vidro.
“Para ver longe”, dizia.
Espiava o futuro
distante
e via apenas pradaria.
Não compreendia.
Foi incapaz de enxergar
a própria
Ruína.
Ode
Faltam vinte minutos
para o Fim do Mundo.
Num canto escuro,
as crianças se encolhem.
Abraçam os joelhos e
tremem.
A cozinha está
só poeira.
As janelas
exibem vidros
quebrados.
Mãos pequenas
se cortaram
nos cacos.
O tempo
mordeu os anos.
Rasgou pele
moeu ossos.
Ninguém
foi capaz
de impedir.
Apenas um único
observador
Testemunhou
E, resignado,
compôs uma ode.
Lamentação
Aquela
era a casa
mais sozinha
do mundo.
Num mundo
mais sozinho
que todos
os outros
do universo.
Por mais
estrelado
que seja o
céu
cada estrela
vaga solitária no
Vazio.
Triste.
Lúgubre.
Melancólico.
É o olhar
de quem escreveu
este poema.
Traste
Começar de um jeito
e terminar de outro
é algo demasiadamente
humano.
Ainda assim,
tremo.
O desprezo
que sinto
diante do espelho
embrulha meu
estômago
Faz a bile dançar
em meu
esôfago.
Preciso de afago.
Mas nada espero.
Um cão vadio
vale mais.
Ainda que seja
hidrófobo.
Sabe aquele cuspe
que em breve
vai secar?
Pois é
Sou eu.
Alerta
Depois deste poema
o mundo terá acabado.
O último deverá
apagar a luz
fechar a porta
e desaparecer
para sempre.
Deus acordou
do sonho que chamou
“humanidade”
e convenceu-se
de que era
pesadelo.
Em vingança,
quis existir
no coração dos homens
para aí fazer habitar
o horror e o pesadelo.
Foi assim que nasceu
o Mal.
Esse mesmo que vai
devorar a carcaça do
Mundo
Agora
que ele acabou.
