Mostrando postagens com marcador Paixão. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Paixão. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, janeiro 15, 2024

Balada de amor ao vento - Uma vida inteira de amor



A linda Sarnau está apaixonada. Seu coração foi capturado pelo belo Mwando. Há, porém, muitas dificuldades esperando esse possível romance. Mwando está estudando para ser padre. O amor dos dois será mais forte que a suposta vocação do rapaz? Este é um dos muitos percalços que Sarnau irá enfrentar para viver este amor.

Balada de amor ao vento, romance de estreia de Paulina Chiziane, é uma narrativa poética e melancólica, repleta de saudade e tristeza. No primeiro capítulo, Sarnau já se aproxima do fim de sua vida e começa a se lembrar dos encontros e desencontros que teve com Mwando. Como narradora, ela vai desfiando essas memórias. O amor se realiza, com Mwando correspondendo aos sentimentos de Sarnau e sendo por isso expulso da escola de padres. Os dois se entregam a esse amor, mas logo Mwando é prometido a outra mulher.

Sarnau pouco tempo tem para sofrer essa desilusão amorosa, pois ela é logo escolhida para ser a primeira esposa do príncipe herdeiro de Mambone. O casamento, porém, não será dos mais perfeitos. Nguila, o herdeiro do trono, além de mulherengo é violento e isso tornará a vida de Sarnau terrível.

A narrativa então se desdobra em duas, contando para nós, leitoras e leitores, a vida tanto de Sarnau quanto de Mwando, de forma intercalada.

A narrativa de Paulina Chiziane é maravilhosamente profunda e repleta de reflexões. As descrições resultam em imagens poéticas lindas, com elementos pitorescos e naturais. Nas digressões que Sarnau faz como narradora, ela denuncia todo o machismo da sociedade em que está incluída, em especial os efeitos funestos da poligamia. O sofrimento da mulher é evidenciado nesse processo.

Mwando também tem sua cota de tristezas. Em seus encontros e desencontros com o amor, ele também sofrerá e não será pouco. Porém, diferentemente de Sarnau, Mwando será o maior responsável por seus próprios sofrimentos. Ele não deixa, porém, de ser também uma vítima do sistema em que vive, sendo assim um homem de contradições.

Com uma prosa poética e de certa forma idílica, além das denúncias que carrega e o enredo repleto de percalços, Balada de amor ao vento é um livro belo e triste. Mas daquelas tristezas que não podemos deixar de evitar. Um livro que, como a vida, é feita de encontros e despedidas.


Ficha Técnica

Balada de amor ao vento

Paulina Chiziane

ISBN-13: 9789722115575

ISBN-10: 972211557X

Ano: 2003 

Páginas: 149

Idioma: português de Portugal 

Editora: Editorial Caminho


Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/balada-de-amor-ao-vento-67544ed74571.html

segunda-feira, dezembro 11, 2023

A Esposa do Rei - Filha do mundo azul



Everlin, ou simplesmente Lin, é uma jovem comum que tem um segredo. Na adolescência, ela se apaixonou por um misterioso garoto. Essa paixão a marcou para sempre, de tal forma que a moça se considera incapaz de se apaixonar novamente.

A vida comum de Lin vira de pernas pro ar quando, em um acidente de avião, a moça vai parar em uma ponte de Einstein-Rosen, que a transporta para um mundo sem tecnologia, onde as mulheres são proibidas de estudar e as pessoas diferentes, com traços incomuns, são vistas como especiais.

Lin é salva por um nômade, mas acaba sendo levada pelos soldados do rei, como pagamento da dívida de seu salvador. Assim, ela vai parar no harém do monarca. Por ter traços orientais, a jovem é considerada uma verdadeira raridade. O rei do país quer que ela aceite a condição de esposa mas, por mais belo e sedutor que ele seja, Lin se sente incapaz de se apaixonar e esquecer seu amor do passado.

O texto de M. Okuno é atraente, cativante. Repleto dos elementos da cultura pop, como referências a filmes e músicas, o enredo atrai e captura nossa leitura. O maior conflito é justamente a reiterada e exaustiva investida de Sete, o Rei, para conquistar Lin. Ela se sente fisicamente atraída, mas suas emoções continuam cativas de seu amor da adolescência.

Enquanto resiste às investidas de Sete, Lin busca aprender tudo sobre o mundo em que está, enquanto tenta encontrar uma forma de voltar para o seu mundo - o mundo azul, que é a forma como nosso planeta é conhecido naquela terra.

Com elementos românticos e algumas reviravoltas, A Esposa do Rei é o livro ideal para quem gosta de histórias de amor, mesmo aquelas em que o amor parece perdido no passado.


Ficha Técnica

A esposa do rei

Grupo Editorial The Books

 Nenhuma oferta encontrada

ISBN-13: 9788554906672

ISBN-10: 8554906675

Ano: 2019 / Páginas: 273

Idioma: português

Editora: The Books



Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/a-esposa-do-rei-993290ed994878.html

domingo, agosto 01, 2021

Vídeo: Vi Teófilo Otoni Florir - Brenda Linda Medina Lages



Homenagem de Brenda Linda Medina Lages à sua cidade natal, Teófilo Otoni, Minas Gerais.

Vi Teófilo Otoni Florir

Mais do que flor no jardim

Vi Teófilo Otoni Florir

Quis o Ipê Roxo pra mim

Ipê Roxo, Ipê Amarelo

Não importa sua cor.

Ao longo do rio eu te vi

Isso fez encher meu coração de amor

Fez também amar mais

A cidade onde eu nasci

Teófilo Otoni das Gerais

Sou apaixonada por ti

(Descrição do vídeo: mulher de pele marrom clara, cabelos grisalhos e encaracolados sorri e recita poema para Teófilo Otoni-MG. A mulher usa uma camisa preta debaixo de um casaco cinza de lã. Usa um óculos de armação rosada no alto da cabeça para prender os cabelos.)

sábado, junho 12, 2021

Lendo: Úrsula e outras obras - Maria Firmina dos Reis


Quando soube de Maria Firmina dos Reis, fiquei encantado, interessado e igualmente incomodado. Como ainda não havia sido apresentado à primeira romancista negra brasileira? E não é apenas isso. Ela foi, muito antes de Castro Alves, uma voz ferrenha contra a escravidão. 

Depois de meu encontro com as narrativas de Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo, fui tomado por um senso de urgência em ler mais autoras negras. Assim, li Jarid Arraes, Eliana Alves Cruz e, agora, mergulho na literatura de uma mulher de discurso forte, duro, poético e quase desesperado.

Sim, é possível perceber o senso de urgência no clamor Maria Firmina por um mundo diferente daquele que ela vive, onde a sociedade machista e preconceituosa de homens brancos, ricos e violentos usam de seus desmandos quase como deuses.

Estou terminando o livro Úrsula e outras obras. Logo que tiver terminado, pretendo falar um pouco mais sobre essa seminal experiência de leitura.


Úrsula e Outras Obras

Maria Firmina dos Reis

 Nenhuma oferta encontrada

ISBN-13: 9788540203471

ISBN-10: 8540203472

Ano: 2018

Páginas: 307

Idioma: português

Editora: edições câmara


Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/ursula-e-outras-obras-802621ed806431.html

sexta-feira, novembro 20, 2020

Ponciá Vicêncio - Quando a ausência também é forma de luta

Há livros que agem como divisores de águas em nossas vidas. Nesses casos, é impossível passar incólume por estes livros. A leitura deles sempre é um processo marcante e transformador.

Foi assim que me senti ao terminar Ponciá Vicêncio, romance de Conceição Evaristo. Era como se eu estivesse em um processo de troca de pele, sendo que a pele antiga era arrancada, ao invés de se desprender do corpo. Ao mesmo tempo, eu bebia a doçura de cada palavra da narrativa tecida por Conceição. Sorvia com sofreguidão essa narrativa cheia de pungência e afeto. Era também absorvido por ela, como se eu mesmo estivesse me liquefazendo.

Repleta de águas, a obra de Conceição Evaristo tem recebido cada vez mais atenção nos últimos anos. Tive o privilégio de adquirir meu exemplar de Ponciá Vicêncio em um evento que contava com a presença da autora. Assim, tenho o próprio traço anguloso e comprido de Conceição Evaristo na folha de rosto. 

Confesso, porém, uma falha minha. Tenho o romance há anos, mas não tinha separado tempo para empreender sua leitura. Pensava sempre que era preciso aplicar um tempo e um espaço próprios para começar a ler. Posso dizer, contudo, que foram o tempo e o espaço que me escolheram. Em meio à pandemia que tantas vidas ceifa, estive por meses encerrado em meu apartamento, dedicado ao teletrabalho e procurando pensar menos em tanta tristeza e perda que me cercavam.

Comecei então a viajar pelos olhos de Ponciá, sem saber, contudo, que muita tristeza e muita perda me aguardavam.

O romance narra a vida de uma mulher desde sua infância em um interior perdido, sua busca por melhores condições de vida em uma grande cidade e seu posterior envelhecimento. Sem se ater apenas à trajetória da protagonista, cujo nome recebe o título do livro, a narrativa apresenta também outras duas buscas: um irmão pela irmã e uma mãe pelos filhos. 

Temos então três jornadas que se desenrolam de forma íntima e muito similar. As três pessoas, três grandes personagens da obra, estão em busca de algo, além de si mesmas e umas das outras. E nos desencontros, encontros e reencontros essas pessoas vão testemunhando um mundo em que a escravidão e a exploração continuam dolorosamente presentes, até mesmo em seus sobrenomes, "Vicêncio", que foram "emprestados" do sobrenome do antigo dono de seus ancestrais, um tal coronel Vicêncio.

O tom de denúncia é fortemente marcado no romance de Conceição Evaristo. Apesar da crueza e da violência presentes no texto, é importante destacar o lirismo da obra, carregado de afetividade e momentos de singular beleza. Foi possível observar, também, um certo carinho por nossa oralidade, através de marcações presentes no texto, bem como curiosos neologismos, que carregam a marca do lirismo próprio das falas de nossa gente.

É importante destacar, também, que a revolta não se apresenta vazia. Cada personagem reage à violência de forma própria, sem se tornarem meros joguetes do destino. Inclusive Ponciá, com suas ausências, com a herança do avô, com os choros-risos. Há uma resistência até mesmo nessa aparente passividade da protagonista. Apesar da melancolia que vai sendo construída através do patente sofrimento dela, é possível encontrar um resquício de força, que se revela não pela violência, mas pelo afeto, pelo cuidado com os seus.

Com um lirismo arrebatador, uma pungência marcante e um enredo envolvente, o romance Ponciá Vicêncio é uma obra transformadora. Um romance completo em que muitas diversas vidas se convergem e encontram uma voz de esperança contra uma realidade muitas vezes silenciadora.


Ficha Técnica

Ponciá Vicêncio

Conceição Evaristo

ISBN-13: 9788571602618

ISBN-10: 8571602611

Ano: 2006 

Páginas: 128

Idioma: português

Editora: Mazza Edições


Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/poncia-vicencio-1070ed1423.html

domingo, maio 17, 2020

Vídeo: Pense em quantos anos foram necessários para chegarmos a este ano - Ana Martins Marques



Hoje declamo o poema de Ana Martins Marques presente em "O livro das semelhanças":

Pense em quantos anos foram necessários para chegarmos a este ano
quantas cidades para chegarmos a esta cidade
e quantas mães, todas mortas, até tua mãe
quantas línguas até que a língua fosse esta
e quantos verões até precisamente este verão
este em que nos encontramos neste sítio
exato
à beira de um mar rigorosamente igual
a única coisa que não muda porque muda sempre
quantas tardes e praias vazias foram necessárias para chegarmos ao vazio
desta praia nesta tarde
quantas palavras até esta palavra, esta


Mais histórias e poesias em: http://www.oguardiaodehistorias.com.br/

quarta-feira, maio 13, 2020

Muito ainda para refletir

Quem tem acompanhado o blog pode observar que minhas últimas reflexões tiveram o olhar sobre as infâncias, suas leituras e os espaços em que elas se atravessam. Ressalto que as reflexões foram motivadas pelas atividades do curso Infâncias e Leituras, realizado pelo Polo Itaú Cultural, em parceria com o Laboratório Emília de formação. 

Refletir e escrever sobre o tema abordado foi muito proveitoso para mim. Destaco o exercício de retorno às origens e memórias de leituras iniciais, o que reforçou ainda mais minha identidade como leitor, escritor e mediador de leitura. Ao final de cada atividade proposta, predominava o sentimento de gratidão pela oportunidade ímpar desse mergulho no passado, o qual proporcionou um melhor entendimento de mim mesmo, de meus propósitos e sentidos na vida.

Reforço que muito mais há para falar e explorar a partir das anotações feitas durante o curso. Continuarei a compartilhá-las aqui e conto com as leituras das pessoas que aqui comparecem, para podermos expandir ainda mais nossos horizontes. 

quarta-feira, maio 06, 2020

O que eu aprendi com meus leitores


Com meus leitores aprendi que não há preconcepção que não possa ser desconstruída. Aprendi que muitas vezes a criança que mais atrapalha é justamente a que mais está gostando da leitura e não sabe como dizê-lo. Aprendi que não há como a criança para quem eu leio gostar de um livro se eu mesmo não gostar.

Foram muitas as descobertas. Aprendi a não olhar a criança com superioridade. Nossas inteligências e experiências apenas são diferentes. Entender a criança a partir de uma horizontalidade e uma disposição de escuta é muito importante.

Com meus leitores eu aprendi que sempre é possível ser surpreendido e esperar o retorno das crianças, antes de tirar conclusões precipitadas. Quando eu achava que a criança já estaria consada de tanta leitura, ela pedia mais. Quando eu pensava que um texto específico já estaria batido e desinteressante, as crianças queriam que o mesmo texto fosse lido mais de uma vez sequida.

Aprendi que a leitura compartihada com as crianças é uma experiência de intensa troca, de constante descoberta. Nós estamos lendo para elas, mas elas também nos estão lendo. Elas buscam conexão.

A leitura compartilhada para as crianças é como um jogo. Não é um ato meramente protocolar. Trata-se de uma brincadeira também, assim como as demais atividades da criança são, para ela, como brinquedo. 

Ao mesmo tempo, a leitura compartilhada é também um momento para a criança descobrir outras formas de se relacionar com o mundo. O momento de silenciosa escuta. O momento de abrir a janela para dentro.

segunda-feira, abril 27, 2020

O objeto de nosso desejo

Muito se pode dizer sobre o livro. Existem conceituações práticas e outras mais românticas. Os mais pragmáticos podem apenas afirmar que o livro é um objeto que serve para armazenar informações. Já os românticos vão chamá-lo de "janela para outros mundos", "objeto que nos faz viajar sem sair do lugar", entre outras definições ufanistas. 

Nenhuma delas, porém, vai abarcar todas as dimensões do livro. Sim, trata-se de um objeto de múltiplas dimensões. O livro é, antes de tudo, um lugar de muitos lugares. Um espaço de muitos espaços. Não foi à toa que o escritor Jorge Luis passou sua vida inteira perseguindo a ideia do livro e da biblioteca, explorando suas infindáveis facetas, buscando ultrapassar seus limiares.

O livro é um objeto de aprendizado. Ao afirmar isso, não quero dizer que ele deva servir para o aprendizado, ou que ele deva servir para algo. Como um objeto sólido, ele pode servir para muita coisa: pode impedir que um monte de papéis sejam levados pelo vento. Pode segurar uma porta. Pode até servir como projétil a ser arremessado contra uma testa incauta. E pode, inclusive, servir para nada.

Como disse anteriormente, o livro tem múltiplas dimensões. Trata-se de um artefato cultural. Em si ele encerra milênios de história humana. Ele evoluiu, mudou ao longo dos séculos. Não é à toa que os objetos mais importantes das duas maiores religiões do mundo sejam justamente livros.

Portanto, o livro atrai para si um fascínio único. Posso arriscar sem errar muito que ele é um dos poucos artefatos que reúnem em si o espírito da memória humana. É um objeto interativo, feito para ser manuseado, explorado, descoberto. Sendo assim,  ele estimula a sensibilidade de seus leitores. Basta dar um livro a uma criança para observar como ela se ocupará por um bom tempo apenas em manuseá-lo de várias maneiras, experimentando qual seria a forma correta de lidar com esse objeto misterioso. 

Através dessa interação, o leitor tem como refletir sobre o tempo, a memória, os sentidos. O livro é um objeto navegável, pois nele podemos ir para frente e para trás, podemos pular páginas, retornar em algum trecho que nos tenha chamado atenção. 

Esse aspecto interativo do objeto livro foi evocado por mim anteriormente. Porém, sou tão fascinado com tal poder de interação que não me canso de evocá-lo. Perder-me em páginas de um livro, apenas para folheá-lo, ainda é algo muito recorrente para mim.

Alegoria do próprio conceito humano de tempo, cada livro nos permite construir uma relação pessoal e específica com ele. Assim como cada pessoa é única, sua relação com cada livro também o será, seja de forma consciente ou não. Esta relação pode então se expandir, crescer, transformando no livro em uma ideia que ultrapassa suas dimensões físicas. 

E assim o livro se torna um outro lugar. Um jardim secreto, um esconderijo para além do tempo, o lugar onde se revela e se esconde o nosso desejo.

sexta-feira, abril 24, 2020

As aventuras de Ana Clara - O encanto que se revela na saudade

Esta é uma resenha de afeto. Uma homenagem, um relato de um precioso achado. Uma declaração de amor.

Conheci As aventuras de Ana Clara há cerca de 9 anos, durante o Salão do Livro Infantil e Juvenil. Estava a trabalho no estande da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte, montado como um ponto de leitura. Nos expositores havia algumas centenas de livros novos, comprados pelo projeto Belo Horizonte Cidade Leitora. 

Eu dividia o estande com o Rodrigo Teixeira. Com o objetivo de tornar meu turno mais proveitoso, comecei a explorar os livros. Eram todos recém-comprados e muitos eu não conhecia. Rodrigo se aproximou com um exemplar de As aventuras de Ana Clara. Senti um interesse imediato. Adoro aventuras.

Assim que comecei a ler, já fui tomado por uma forte emoção. Comecei a chorar no meio do estande, em pleno evento, enquanto conhecia a história de um amor que se esvai até desaparecer. 

Descobri que o livro escrito por Luísa Nóbrega e desenhado por Deyson Gilbert é uma ode à simplicidade da vida e da grande sabedoria escondida nas pequenas coisas.

O texto de Luísa Nóbrega carrega um ar de despretensiosa simplicidade. Em tom de confissão, a narradora vai nos relatando com uma linguagem direta três episódios que carregam em seus silêncios muito de poesia. E o traço de Deyson Gilbert reforça esse tom, com cores suaves que lembram fotografias antigas e linhas tênues, evocando memórias evanescentes.

Mesmo depois de tantos anos, ainda sou tomado pela emoção quando meus dedos passam as páginas desse livro. A voz sai embargada, quase sumida, como se fosse quase impossível oralizar algo que se segreda no silêncio. Como se fosse tomado por uma profunda e irreparável saudade por tudo o que não vivi e, ao mesmo tempo, todos experimentamos juntos.

* Serei eternamente grato ao Rodrigo Teixeira por ter me apresentado esse livro. E também por ter me dado um exemplar de presente. Amo você, cara!

Ficha Técnica

As Aventuras De Ana Clara
Série girassol
Luísa Nóbrega
Deyson Gilbert
ISBN-13: 9788516066499
ISBN-10: 8516066495
Ano: 2010
Páginas: 48
Idioma: português
Editora: Moderna

Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/livro/176505ED196669

sexta-feira, abril 17, 2020

Crespim - Quando os anjos também sabem batucar

Crespim é um anjinho muito diferente. Ele não curte ficar de bobeira, tocando harpa ou trombeta. Seus talentos são mais voltados para os instrumentos de percussão. Além disso, seu visual difere dos anjos europeus - ele é um anjo com um cabelo volumoso, sarará. E sua alegria combina totalmente com as raízes africanas que compõem o povo brasileiro. Sua madrinha, que é meio anjo meio fada, passa aperto com o anjinho mas também se diverte.

Esse é apenas o começo de Crespim, de Jussara Santos. Escrita com leveza, humor e muito ritmo, a história desse anjinho é também uma história de amor, do encontro entre Amélia e João, um casal de jovens apaixonados. Para além de seu papel de anjo da guarda, Crespim faz vezes de cupido, selando assim um amor que também é abençoado pelos céus.

O texto de Jussara Santos é repleto de poesia. Suas rimas saem do lugar-comum e por vezes lançam mão do nonsense como recurso de humor. A alegria e a jovialidade estão presentes a todo momento, seja no jeito espevitado e bagunceiro de Crespim, seja no amor atrapalhado de João, que mistura olhares e cores ao se encontrar com Amélia.

Os desenhos de Vivien Gonzaga apresentam formas e cores que dialogam muito bem com o texto. As imagens de Crespim transmitem graça. Carlota, sua madrinha, transmite uma mistura de autoridade e afeto. Já o casal Amélia e João é retratado com o típico ar que passeia entre a inocência e a vontade.

Assim, o livro Crespim, com seu humor e seu romantismo juvenil, com sua alegria e os batuques do protagonista, mostra logo a que vem, destinando-se a crianças de todas as idades. E mostra que o Amor é a força que impulsiona todos nós.

Ficha Técnica
Crespim
Jussara Santos
Vivien Gonzaga (desenhos)
ISBN-13: 9788563612106
ISBN-10: 8563612107
Ano: 2013 
Páginas: 36
Idioma: português
Editora: Impressões de Minas


 Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/livro/1159411ED1160200

quarta-feira, abril 15, 2020

Reflexões sobre leitores e leituras

Trabalho ativamente como mediador de leitura há quase dez anos. Existem duas dimensões quando falamos dessa mediação. A primeira, é a dimensão prática, o trabalho diário com os leitores. Já a segunda é a dimensão reflexiva. Pensar nossa atuação como mediadores é fundamental para o desenvolvimento de estratégias cada vez mais eficazes. 

Dessa forma, é importante refletir sobre o objeto de nossa atuação. O que a leitura representa para nós? Existe a conceituação acadêmica, mas para mim, a leitura também atravessa aspectos afetivos e identitários. Pensar a leitura também significa pensar em quem sou como pessoa.

Leitura vai muito além de decifrar um texto escrito. Há uma extensa discussão conceitual sobre isso. A meu ver, a leitura é a produção de sentido através da inferência e da interpretação de um texto, relacionando seus sentidos com a bagagem de conhecimento do leitor. 

Sendo assim, cada leitura é única, pois cada leitor também o é. Além disso, um texto pode ser uma sequência de sinais gráficos ou uma tela de cinema, ou uma melodia. Desta maneira, quanto maior nossa bagagem de conhecimento, maior a variedade de ferramentas para enriquecer os sentidos que produzimos ao ler.

É importante que cada leitor valorize e respeite sua trajetória pessoal. O pertencimento e a familiaridade são muito importantes para a construção de um ambiente rico de possibilidades. Acredito que cada experiência e trajetória são valiosas na composição de cada sujeito leitor. As memórias de infância e sua relação com a fabulação propiciam uma disposição para a leitura e para a experimentação de novas narrativas.

Como dito anteriormente, cada leitura é única. Ler um texto novamente se torna uma experiência diferente da leitura acontecida em sua primeira vez. A diversidade de leitores também proporciona a diversidade de leituras. Diante disso, cada mediador precisa manter uma postura de escuta ativa e acolhimento.

Como disse Antônio Cândido, todo ser humano necessita de fabulação. A leitura literária permite esse fenômeno, assim como outras linguagens artísticas. Na literatura, porém, o foro é mais íntimo. A imaginação é estimulada ao máximo. Na leitura literária, o leitor não apenas adquire vocabulário e conhecimento. Ele adquire experiência sinestésica e cultiva a empatia pela diferença.

Ainda parafraseando Antônio Cândido, se a literatura é uma necessidade básica, ela também é um direito inerente ao ser humano. Garantir a cada pessoa o acesso ao universo literário é garantir um mundo um pouco mais justo.

Por fim, o mediador precisa se apresentar como alguém acessível, empático, disposto a aprender com seu público, a construir junto uma trajetória de leitura. Ao mesmo tempo, ele precisa se comprometer com a pesquisa, com a busca por novos horizontes literários, de forma a apresentar ainda mais possibilidades a cada um de seus leitores.

Atualização de 25/04/2020 - Caso alguém tenha ficado em dúvida quanto ao termo "leitura literária", esclareço que se trata da leitura para além de seu aspecto puramente pragmático, não se resumindo apenas à decodificação de sinais linguísticos, mas também  um exercício estético de apreciação da literatura, devaneio da imaginação e da fruição poética.

domingo, abril 12, 2020

Vídeo: Crespim - Jussara Santos e Vivien Gonzaga

Crespim é um anjo diferente. Não quer tocar harpa ou trombeta. Quer tocar percussão. Assim, ele apronta a maior confusão. Seu desafio é unir um amor meio atrapalhado. Ele conseguirá? Vamos descobrir!



Ficha Técnica 
Crespim
Jussara Santos  
Desenhos de Vivien Gonzaga 
Editora Impressões de Minas

quarta-feira, outubro 30, 2019

quarta-feira, setembro 04, 2019

Momento Mágico

Momento mágico. Eu atravessava a Praça da Estação e tive o olhar sequestrado por esse ipê em toda a sua majestade.

Minha mente foi invadida por um verso escutado na infância. Nesse verso, a Poeta deseja que um ipê seja seu.

Não cheguei a desejar esse ipê que domina a frente do Museu de Artes e Ofícios. Eu não me senti à altura. Desejei apenas ter comigo esse momento, para sempre, num sonho que se repete. 

Se existir vida após a morte, quero que seja como ver esse ipê rosado em seu ápice de floração.

Belo Horizonte, 4 de agosto de 2019


segunda-feira, agosto 05, 2019

Mesmo depois

Prometo ser fiel
Em ações e palavras
Que minha poesia
jamais verá
outra musa.
Prometo ouvir
Atentamente
Todo que você
tiver a dizer.
Observar seus silêncios
com respeito e cuidado.
Prometo não te sufocar
com meus ciúmes
E te cobrir de beijos
Todos os meus dias
E...
Quem sabe?
Mesmo depois.

quarta-feira, julho 24, 2019

Entre dois amores


De repente, tenho que administrar atenção entre dois amores. Enquanto Aurélio ganha carinho, Haku come pelas beiradas, chama a atenção lambendo as costas da minha mão. 

Sei que Haku é a mais independente. Esse carinho que ela me faz é totalmente gratuito. Ela não é de ficar no colo, nem de se enroscar na gente. Normalmente, ela só se aproxima quando outro gato está comigo. Arisca, vive de sobressaltos e escapulidas.

Já Aurélio se coloca como senhor, ocupa todo o espaço, reina em minha barriga e com as patas vai afofando essa almofada humana que sou. O único que se permite tanta proximidade e tão íntima troca de carinhos. 

Com o cuidado de quem cuida do que é seu, ele lambe meu rosto. Sua língua áspera vai me deixando sua marca. 


segunda-feira, julho 22, 2019

Vestígio (Para Pam)

Hoje me dei conta
de como o seu cheiro
É digital
a marcar os meus espaços
Seu cheiro dá contorno
Aos meus instantes.
E faz a sua ausência
mais pungente.
Como mancha de sangue
o seu cheiro não sai fácil.
E nessa mancha
Eu me deito.
Em silêncio aguardo
Que você volte
Para renovar a dor
da sua ausência.

quarta-feira, julho 03, 2019

Caldos, Causos e Violas - A força e o sabor da Palavra


Ninguém que me conhece duvida que eu valorize a Palavra. Dela eu tiro meu pão. Dela eu me acerco quando preciso de sentido para minha vida. Ela me alimenta em todos os aspectos. E não apenas a palavra escrita, mas também aquela que vive solta, nos ouvidos e bocas de pessoas que muitas vezes são ignoradas em suas escutas. Ainda assim, elas resistem e continuam a inventar sentidos e temperos para nossa fala e, muitas vezes, também para nossa escrita.

Nos dias 14 e 15 de junho Belo Horizonte foi o centro de uma roda de palavras e sabores. Idealizado pelo Instituto Abrapalavra, foi um evento intimista e singelo. Ocorrido em uma biblioteca e em um espaço cultural, tinha o aconchego e a acolhida como principais ingredientes.

Na manhã da sexta-feira, dia 14, a Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de BH recebeu o grande Sebastião Farinhada. Com sua viola, ele cantou melodias de congado e compartilhou um pouco de sua vivência. Também falou sobre a importância da memória popular, da cultura do campo. Relatou os desafios na luta pela agroecologia. A roda de conversa aconteceu em conjunto do Encontro Semanal de Contadoras de Histórias.

Nós ouvimos, conversamos e comemos broa de fubá com café. Havia também água aromatizada com alecrim. Cada pessoa foi convidada a compartilhar uma memória afetiva de sabores de sua infância. Falamos de canjica, tropeiro, cuscuz, pé-de-moleque, doce de leite, fubá suado, canjiquinha e muitas outras delícias. Eu aproveitei para fazer menção a uma gostosura que conheci na época que morava em Teófilo Otoni.
As pessoas não costumam conhecer o chá de amendoim. Apesar do nome, ele não é feito com água, mas com amendoim cozido no leite. Ouvimos sobre gratidão, reverência à terra e à natureza. Cantamos e fizemos roda. Foi delicioso.

No sábado, à noite, a festa continuou no Espaço Suricato. Uma roda de causos aquecia nossos ouvidos e corações. Os caldos aqueciam o paladar da gente. Com o sal dos caldos, o adocicado das narrativas bem-humoradas contrabalançava esse momento tão saboroso. O mestre de cerimônias era ninguém mais que o próprio Sebastião Farinhada, que encerrou a festa com sua viola e a melodia Calix Bento. Caí na dança.

Mais uma vez saúdo a equipe do Instituto Abrapalavra, nas pessoas de Aline Cântia, Chicó do Céu, Fernando Chagas, Paula Libéria e Sheila Oliva. E também a interpretação em LIBRAS de Dinalva Andrade.

As palavras, canções e causos ainda embalam minha mente e meus ouvidos. Esses dias de junho estarão gravados em minha memória com esse espetáculo de cores, sabores e vozes. Que essas vozes continuem ecoando e nós sejamos sempre atentos a elas. Que as palavras continuem a alimentar nossas almas nesses tempos em que a fome parece querer tragar até mesmo a esperança.