Bem, pessoal. Antes de começar com o registro seguinte da Oficina de Prosa Poética, tenho que contar uma coisa que achei bem legal. O meu amigo Liel (https://diverile.substack.com) me mandou uma mensagem por zap me contando sobre o BEDA (Blog Every Day in August) e compartilhou comigo um link do Entre Blogs (https://entreblogs.com.br/beda/2026/recrutamento). Fiquei super animado ao ver que a iniciativa usa a gamificação estilo RPG de fantasia medieval para engajar os participantes. Cheguei atrasado, eu sei. Por isso, escolhi a trilha de patrulheiro, no lugar de Herói. Quem tiver dúvidas quanto ao que eu estou querendo dizer, pode clicar no link acima e conferir.
A verdade é que, apesar de ter escolhido uma trilha de postagem semanal, vou tentar cumprir o desafio de escrever e postar todos os dias. Bem, nem sempre vou postar o que escrevi. Por exemplo, vou tentar manter uma distância um pouco maior entre as postagens do resultado da Prosa Poética.
Meu nome de aventureiro é “Nerito”.
Elaborei a seguinte descrição:
Nerito é o protagonista de uma história de amor e fantasia. É também o antigo apelido de um escritor, nos seus tempos de aprendiz, quando a blogosfera ainda era a principal forma online de compartilhamento de textos. Depois que o Nerito (personagem) nasceu, o Nerito (apelido) deixou de existir. Porém, a chamada à aventura despertou no escritor e blogueiro veterano o retorno a seus tempos de aprendiz. Assim, ele veste a velha capa de patrulha, as botas já surradas e segue seu percurso.
Um último detalhe: Estou escrevendo este relato ao som de LEveL, de SawanoHiroyuki (https://open.spotify.com/track/0Zp9WOkXX8xZS8QOhtdQ5k?si=GYbJWC6tRTeOraJL31Qvng&utm_source=copy-link&sci=spotify%3Acard-config%3A2T7QBMrePssaaa9OIbNfr3)
Prosa Poética
Objeto Provocador: Dado de cor de gema de ovo. Os números são bolinhas brancas.
Frutos do Acaso
Se eu disser: “A sorte está lançada”, isso não vai significar coisa alguma. No fim, sabemos quais forças regem o acaso, ignoramos o nível de complexidade da confluência de fatores ditando os resultados de cada instante.
Por isso, pensamos na sorte. Será, porém, que nos falta informação? Talvez não seja essa a palavra. Bem, nos falta mesmo informação. Imagine que cada coisa tem uma linha invisível conduzindo sua existência. Uma rocha, por exemplo. Descendo uma montanha. Ignoramos os acontecimentos que provocaram seu movimento. Em termos absolutos, podemos pensar em massa, gravidade, inércia, ação e reação. Podemos, então, especular que o acaso nada tem a ver com isso. Se essa rocha termina seu trajeto montanha abaixo esmagando uma casa lotada de criancinhas, será que nossa afirmação de que isso se trata de uma fatalidade está correta? Fatalidade ou ignorância?
Talvez seja impossível, em termos humanos, prever fatalidades. Somos fascinados com a aleatoriedade e talvez ela realmente exista no mundo. Só que podemos nos perguntar se a maioria dos fenômenos que atribuímos ao acaso podem realmente ser colocados na conta do mesmo. Talvez, esse equívoco seja apenas fruto de insuportável limitação humana.
Enquanto isso, deixemos os deuses se divertirem, jogando dados para os mortais dançarem.
Agravo
deus meu deus meu
por que me abandonastes?
Sabias que era só birra
Sabias que eu só queria
uma prova do vosso amor.
Quando vos virei as costas
foi como quem faz manha
charminho de pecador.
Esperei que vos voltareis
que me buscásseis
com braços cálidos
e gesto acolhedor.
Não esperei o silêncio
o muro e o vazio
repito: sou pecador
Mas queria um mero afago
deus meu, só um agrado
Nem que fosse um desagravo
Cheguei a desejar chicote
a palmada da mão divina
do cajado o firme toque
em minha testa, minha sina.
Porém, nada recebi
nem quando retornei.
deus meu, o que encontrei
quero esquecer que vi.
Trono vazio
altar profanado.
Além da tempestade
do olho do furacão
pensei que vos acharia
Mas nem feitiçaria
ou oração surtiram
qualquer efeito
deus meu, não tem mais jeito
Pois além do véu
nada havia
Só o vazio e
melancolia.
Prosa Poética da Tarde
Trava
Tem dia que a gente trava. Tenta e tenta, mas a caixola continua vazia. Um muro de esquecimento. Palavra alguma vem à mente. A gente se sente meio incompetente, meio estúpido, um total fracasso.
Isso é o acaso jogando dados com a nossa vida. Rindo de nossa dificuldade. Eta muro brabo de pular! Ainda assim, a gente tenta. Junta uma palavra com outra. Pensa em associações. Cata um dicionário e pesca palavras aleatórias. Quem sabe assim o texto engrena?
É um sufoco. A sensação de impotência deixa a coisa ainda mais difícil. Aridez. E a gente querendo algo novo pra publicar. Uma história curiosa. Uma crônica espirituosa. Um poema sensível. E nada.
No fim, o resultado é uma série de frases meio picaretas. A gente rabiscou cinco páginas no caderninho com frases que nos custaram papel, tinta e tempo.
E, agora, só o fogo.
Dado
Um deus de muitas faces
Seis, para ser exato.
Ou seis milhões,
impossível mensurar.
Escondido dele,
eu espero
qual das faces
irá me lograr.
Ele escarnece
de meu medo.
A face mais benevolente
é aquela
que ele nunca
revelou.
Está guardada
aos eleitos.
Para aqueles
como eu
Apenas olhos
ávidos
urgentes
infinitamente
distantes.
O deus de muitas faces
aguarda.
Já definiu o meu
Destino.
Agora
está
Sedento
para que ele se
cumpra.
Fogo
Sangue
Agonia sobre agonia.
Não se pode esperar
Amor
de qualquer divindade.
Principalmente
daquelas
que
mostrando suas
Faces
revelam
Apenas
Nú
meros.
A boca da fome
No umbigo
do Universo
o abismo aguarda.
Silencioso
e voraz
deseja as almas
de todos os seres.
Vai demorar muito
até que consiga
consumir a
última
existência
Sua boca
faminta
se projeta
e toca
uma a uma.
O abismo agora
faz parte
de mim
e de
Você.
Por isso tanta
Fome.
Enquanto o Universo
caminha rumo ao
Zero
Absoluto
o abismo
come
e quer mais.
Cada vez mais
Voraz.
Quando por fim
a Terceira Lei
se cumprir
a Boca do Abismo
será do tamanho
exato
de Tudo.
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