segunda-feira, dezembro 13, 2021

O Imundo - Parte I de IV

Ir para O Embate - Parte V de V

Os cinco desceram com rapidez a encosta da colina, rumo ao campo aberto. Seridath dispunha de uma velocidade incrível, e já ganhava distância dos outros, correndo com rapidez mesmo com o pesado escudo pendendo em seu braço esquerdo e com a longa cota de malha cobrindo seu corpo.  O escudo era largo e comprido, de bordas na parte de cima anguloso em baixo. A cota de malha, formada por vários anéis de ferro sobrepostos, não era das melhores mas estava bem conservada. O rapaz parou de chofre de costas para Arnoll e diante do exército de mortos, que havia voltado a se mover rumo à cidadela. Num movimento brusco, Seridath desembainhou Lorguth e fincou a lâmina maligna no chão da campina. Emitiu sua vontade, enquanto sentia a espada vibrar. Estava para começar a batalha de sombras dentro de sua alma.
"Lorguth, quero que preste atenção. Hoje satisfarei sua vontade e enfrentar esse exército diante de nós. Caçarei a alma que você quer provar. Mas é a última vez que sua vontade se sobrepõe à minha."
A espada emitiu uma vibração tão forte que um som agudo e irregular tocou os tímpanos do rapaz, como se Lorguth imitasse uma forte gargalhada, zombando da ingenuidade do guerreiro, embora fosse impossível dizer se aquele som havia soado realmente ou se a lâmina amaldiçoada estava pregando mais uma peça na mente do jovem.
"Você pode rir. Mas se está sintonizada à minha alma, sabe que minha vontade é forte. Você irá se arrepender caso me contrarie novamente."
Lorguth parou de vibrar. Seridath acreditou que ela havia levado aquelas palavras a sério, embora fosse impossível saber. Tinha a consciência de que havia um longo caminho até dominar a espada, mas agora não dispunha do tempo necessário. Ordenou que a espada entrasse em ação. A lâmina vibrou novamente, excitada, fazendo Seridath sentir a palma da mão direita, que segurava a espada, formigar. O Viajante Cinzento viu um círculo se expandir a partir da escura lâmina e tomar todas as direções. Onde as bordas desse círculo tocavam, a paisagem mudava. O chão ficou negro, o céu vermelho qual sangue. Penetrando no plano espectral da espada, o rapaz passou a ver com outros olhos, com grande intensidade e nitidez.
Olhou para a esquerda, para o pequeno exército de Serpente Flamejante, que estava mais próximo a ele. Os corpos estavam transparentes, ele podia ver ossos, veias, corações com suas batidas regulares. E foi com grande surpresa que descobriu também a alma, um corpo dourado e brilhante, que permeava os limites de cada corpo físico. Assim também estavam seus quatro homens às suas costas e o exército do Senhor de Dhar.
Olhou para si mesmo e, para sua surpresa, sua alma não estava à mostra. Curiosamente, o rapaz permanecia coberto por uma armadura negra, sólida, com placas, manoplas e peitoral. Não era a velha cota de malha, mas uma armadura luxuosa pesada, destinada aos grandes senhores e cavaleiros de alto nascimento. Aquela armadura ilusória, visível apenas para ele, era a forma espiritual que o poder de Lorguth conferia ao seu portador. E ao ver-se vestido assim, Seridath sentiu-se um verdadeiro senhor.
Voltou sua atenção para o exército inimigo, cujo flanco direito já se envolvia em encarniçada luta contra os homens de Dhar, enquanto o flanco esquerdo era alvejado por flechas da Companhia. Os corpos reanimados dos mortos-vivos não tinham uma entidade corpórea e brilhante permeando-os, mas uma espécie de massa luminosa de cor azulada ou arroxeada, sem forma definida. Em alguns lugares, espalhados ou agrupados, havia pontos brilhantes, indicando almas vivas, como argros, os gigantes tominaros, kowas ou qualquer outra criatura viva que fosse integrante daquele exército.
Mas havia um outro ponto brilhante. Um corpo completo, luminoso, mas incrivelmente maior que qualquer outro em toda aquela horda. Sua cor era carmesim, forte, de forma que Seridath percebeu-a de bem longe. Estava situada no pavilhão central do exército inimigo e não dava indicações de mover-se. Sua aura expandia-se em ondas, indicando que o poderoso ser deveria estar, naquele momento, emitindo poderosos encantamentos. Seridath riu. "Então é essa a alma que você tanto anseia, Lorguth?" A espada vibrou de satisfação, confirmando as suspeitas do jovem. "Então vamos começar. Chame-os."

Continua...

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