segunda-feira, agosto 27, 2012

A Espada - Parte II de II

Ir para A Espada - Parte I de II


O viajante ergueu furtivamente a cabeça. A chuva havia amainado até tornar-se um fino chuvisco, mas o vento frio persistia. Cinco homens, montados a cavalo, aproximavam-se com um trotar quase desleixado. Dois deles carregavam lanças rústicas, com cabos feitos de faia, bem afiados. Todos, exceto um rapazinho louro e muito magro, tinham espadas embainhadas à cintura. Vestiam-se ordinariamente, com gibões de couro gasto e calças de algodão grosso. Apenas um deles vestia-se com mais esmero, pois suas roupas eram pretas, tinham belos bordados e pareciam novas. Uma bela capa preta amarrada sobre os ombros e um pingente de prata pendurado ao pescoço completavam sua figura. Parecia ser o que se pode chamar de líder do grupo e se mantinha à frente. O rapazinho louro era o mais escorraçado, por vestir-se apenas com uma túnica surrada e uma calça que parecia ser feita de pano de saco. Também estava descalço. Até seu cavalo aparentava ser o mais velho e maltratado. O viajante não imaginou que poderia despertar o interesse daqueles cavaleiros, mas eles o notaram ao longe, virando os cavalos em sua direção.
Encontraram-se ao pé da encosta. O viajante parou, enquanto os cavaleiros puxavam as rédeas de suas montarias, mantendo-se à distância de uns dez ou doze pés. O líder do bando olhava com um meio sorriso. Para bandidos inexperientes, aquele homem coberto de andrajos passaria por um mendigo. Mas o líder do bando sabia que mendigos só viajam em grandes grupos e sempre costumam ficar às voltas de cidades ricas. Já vira mais de uma vez cambistas avarentos disfarçarem-se de miseráveis quando desejavam viajar por aquelas regiões. E o homem permanecia silencioso, talvez estivesse suplicando a misericórdia dos deuses. Mesmo com a cabeça levemente erguida, era impossível ver seu rosto.
Enquanto era examinado, o viajante também estudou atentamente seus assaltantes. O líder do bando parecia ser mais velho, talvez trinta e cinco ou quarenta anos. Tinha olhos estreitos e cabelos grisalhos, com uma barba rala e nariz fino, quebrado. Seus companheiros não eram tão dignos de atenção. Pareciam-se com esses miseráveis comuns que infestam reinos decadentes e roubam aqueles que forem menos miseráveis que eles. Apenas o rapazinho atraiu o exame do viajante, pois não tinha armas, exceto um longo arco, já com uma flecha pronta para o disparo. Mas o olhar do garoto denunciava outra coisa. Estava amedrontado, provavelmente era a sua primeira incursão com o bando. Ótimo, um inimigo a menos.
O líder quebrou o silêncio:
O que faz sozinho nestas terras malditas, companheiro? – perguntou, de forma desinteressada.
O viajante ofereceu o silêncio como resposta.
Por acaso você é mudo, estranho? – vociferou o líder do bando – Estas terras são perigosas. Não há rei pra guardar esse buraco de merda. Nós somos a segurança. E você paga a gente se quiser passar.
Sombriamente, o estranho exibiu com certa sutileza a lâmina da espada, que a capa ocultava, como que alegando não precisar de proteção. Diante do ultraje, o líder do bando ficou furioso. Não lhe importava mais e aquele homem tinha ou não dinheiro. Iria arrastá-lo pela lama.
Então não precisa de proteção! – Bradou o bandido, sacando a espada.
O companheiro ao seu lado o imitou, enquanto os outros dois, que carregavam lanças, abaixaram-nas rumo ao estranho. Todos, exceto o tímido rapaz louro, soltaram gritos de fúria. Estava para começar o caminho real daquele misterioso viajante. Um caminho que, de cinzento, seria tingido de vermelho. 

Continua...

2 comentários:

Lourdinha disse...

Oi, Samuel, gostei da roupa com bordados, do piungente e da capa.Eu gosto de textos com esses detalhes. A história do viajante continua né?Abraço. Lourdinha Viana

Bruno Eleres disse...

Gostei do final "Que de cinzento, seria tingido de vermelho" >.<

Cê tem uma formações com as palavras bem interessantes, que nem aquela do conto do Névoa.