segunda-feira, agosto 20, 2012

A Espada - Parte I de II

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Fonte: AutoRealm


Era uma tarde chuvosa e cinzenta, aquela. Nada se ouvia, além do som das fortes gotas de chuva, que caíam como se todo o céu fosse desabar. Ao longe, agudas montanhas circundavam aqueles caminhos solitários. A chuva era como um véu translúcido que embaçava a visão de montes escuros se estendendo até uma vasta campina que continuava, sinuosa, rumo ao sul.
Apenas um viajante andava por ali, uma figura cinzenta em meio à paisagem da mesma cor. Sua velha e arruinada capa o cobria, embora estivesse fechada à frente do corpo somente por uma faixa puída. Um capuz ligado à capa cobria seu rosto.
Volta e meia a capa abria-se pela força do vento, exibindo um físico bem talhado e seminu, com uma espada pendendo ao lado, junto à coxa esquerda. A arma não tinha bainha e estava presa por uma tira de pano que dava uma volta no ombro direito, por baixo da capa. O viajante inclinava a cabeça levemente para baixo, dando a ligeira impressão de que buscava ocultar o rosto de observadores indesejáveis. Seus pés descalços afundavam no solo lamacento, enquanto a capa cinza arrastava-se, impregnada pela lama avermelhada.
O viajante cinzento quase cambaleava, tamanho seu cansaço. Seu corpo alquebrado parecia não querer mais obedecer, e a chuva pesada empurrava seus ombros para baixo, como se buscasse lançá-lo ao chão. O frio penetrava em seus ossos pela capa encharcada, embora nem o incomodasse mais. Tudo o que ele queria agora era repousar, encontrar um lugar seco e quente. Comida e banho eram luxos com o quais se preocuparia depois. Mas sabia que sua longa jornada apenas começara. Simplesmente sabia. Pensamentos aumentavam seu cansaço e ele buscava evitá-los. Limitava-se a prosseguir em seu caminho, como um autômato.
A espada que pendia ao seu lado era feita de um metal negro e desconhecido. Era uma pequena espada bastarda, a lâmina serrilhada deveria ter cerca de meio metro. O cabo era feito de madeira enegrecida, da mesma cor do resto da espada. A guarda tinha forma de cruzeta, simples e grosseira, dois pequenos pedaços de metal afilados no meio e um pouco mais abaulados nas pontas. Havia duas discretas esporas brotando dos dois gumes, próximos à guarda. Logo depois dessas esporas, ambos os gumes eram serrilhados até quase o meio da lâmina.
Não havia nenhum enfeite, nenhuma pedra preciosa engastada, nada que pudesse tornar aquela arma uma peça valiosa. Era uma ferramenta apenas, feita para causar uma morte dolorosa. Uma arma para combates sujos. Mas para o viajante, aquela espada era mais preciosa que sua vida. Ele sabia, ou imaginava, o que renunciara para possuir tal arma. Sentia seu peito apertado por uma estranha excitação. Era o início, sua grande largada. Logo, teria o mundo.
Seu passado parecia obscuro em sua mente. Era verdade que ele realmente não se importava, não tentava lembrar nem como conquistara a espada. Mas se fizesse um esforço, se consultasse sua memória, apenas escuridão teria como resposta. A sombra em torno de um único nome: Koen.
Em sua insólita viagem, não havia encontrado nenhum ser humano pelas redondezas. Eram terras desoladas, aquelas, sem vilas ou plantações. Ao norte, além de montanhas brancas, havia o litoral inóspito. Ao sul, na direção em que o viajante seguia, estava a fronteira de um reino pobre e decadente.
Mas o viajante a tudo aquilo ignorava. Seus últimos cinco anos foram passados na escuridão, imersos nas sombras das montanhas que ele agora deixava para trás. Era uma cordilheira que se estendia por todo o litoral norte, para em seguida descer ao sul, formando um cinturão de montanhas que separavam o continente em duas partes. Sua jornada o havia impelido para o leste desse cinturão. Ele seguiria ao sul, sempre em linha reta, até que o destino mudasse sua rota.

2 comentários:

Dora Delano disse...

mais um viajante solitário...

Pam disse...

Samuca, você descreve perfeitamente as cenas, os objetos e as personagens. Estou curtindo muito...