segunda-feira, outubro 08, 2012

Aqueles que não morrem - Parte I de IV

Ir para O Andarilho - Parte II de II


No dia 20 de Auluman, no ano 823 da Era dos Reinos, de acordo com os registros da Companhia, um destacamento de 284 almas partiu da cidade real de Sathal. Seridath e seu servo, Aldreth, estavam entre esses homens. O Senhor de Dhar deu o salvo-conduto para que uma força militar de natureza particular pudesse cruzar seu território. Desse destacamento, contavam-se cento e cinqüenta guerreiros, setenta e cinco arqueiros, trinta artilheiros, todos anões, um andarilho, três capitães e um arauto. Os restantes eram cozinheiros e guiadores dos dez carros de bois, que levavam mantimentos e flechas sobressalentes, além de lonas de barracas e outros equipamentos necessários.
Seguiam pela estrada real rumo ao norte. Os anões compunham a artilharia pesada. Conhecedores antigos de feitiços próprios do seu povo, eram peritos em explosivos. Sempre andavam com parafernálias que usavam para fabricação de esferas que explodiam ao serem lançadas. Para manterem o segredo, somente anões usavam esses aparatos. Carregavam jarros escuros, cheios de um líquido por eles criado que, ao ser misturado a outros ingredientes, produziam esse poderoso explosivo. Naquelas terras, era senso comum que procurar briga com um anão seria uma coisa pouco sensata de se fazer.
A infantaria marchava em blocos de vinte e cinco homens, perfilados e bem organizados, flanqueando os carros com os suprimentos. Seridath marchava entre eles, um simples soldado, coberto por uma cota de malha rude e uma túnica branca feita de lã de péssima qualidade e infestada de pulgas. A espada negra, Lorguth, pendia ao seu lado, embainhada, coberta pelo largo escudo onde a insígnia da Companhia, uma torre cinza encimada por uma chama de azul intenso, estava estampada. O elmo de ferro era simples, aberto, tendo uma fina placa de metal como proteção nasal. As espadas dos outros soldados não eram mais compridas que a de Seridath, embora nenhuma delas tivesse a aparência amaçadora de Lorguth.
Havia três capitães encabeçando a infantaria, embora Seridath não se lembrasse sequer dos nomes deles. Como os escudos tivessem retoques em cores vermelhas nas bordas, isso bastava para identificá-los. Nenhum daqueles homens, nem mesmo o velho Urso Pardo, tinha montaria. Os quatro cavalos que Seridath havia conseguido na luta contra os bandidos foram todos vendidos em Sathal, na véspera da partida.
Os arqueiros ladeavam o exército, vinte e cinco em cada flanco, estando divididos em grupos de cinco. Aldreth, apesar de seu temperamento tímido, deu-se muito bem com os outros arqueiros. Seridath, por sua vez, permanecia em seu isolamento arrogante. Evitou conversas triviais entre os seus companheiros de armas e negou-se participar de seus jogos de dados ou cartas. A marcha foi forçada, estavam no meio do outono e chovia com certa freqüência, o que dificultava o avanço do destacamento. Apesar das condições adversas, seria errado afirmar que não foi uma viagem agradável.
Dhar era um reino belo, com vilarejos pitorescos. Era uma região de planícies cercadas por montanhas aprazíveis e repleta de bosques tranqüilos ladeando a estrada real. Tanto ao norte quanto oeste, o terreno se tornava mais acidentado, com as colinas tornando-se montanhas de vales profundos, porém largos e apinhados de ricos vilarejos. A oeste, o terreno ficava cada vez mais montanhoso até formar uma cordilheira que demarcava a fronteira entre Dhar e Belgamon. No inverno, as montanhas agora cinzentas ficavam brancas. A leste, a planície estendia-se, repleta de fazendas, até uma extensa depressão pantanosa, onde começava o reino alagado de Marzan. A região limítrofe ao pântano delimitava os dois reinos.
Passavam por aldeias que recebiam alegres os homens da Companhia. Os meninos eram sempre os primeiros a encontrar o exército e voltavam correndo com a notícia. As moças bonitas largavam seus afazeres à beira dos rios ou fogões e corriam, juntando-se em bandos risonhos, gracejando com os soldados. Se a noite já estava próxima, Urso Pardo ordenava que as tendas fossem estendidas em alguma campina adjacente às casas dos camponeses. Uma trupe de artistas e um bando de mercadores haviam aproveitado a viagem do exército, ganhando proteção de graça. Montavam então uma pequena feira no centro da aldeia e à noite era certo que haveria alegres apresentações e danças animadas. Os soldados enchiam a única taverna do lugar, alguns já gastando em bebida o soldo que não haviam sequer recebido.
O exército seguiu assim durante seis dias. Almejavam chegar a Arnoll, a última grande cidade do norte, ainda no décimo dia. Mas, tendo vencido mais da metade do caminho, foram penetrando em um território que parecia pertencer a outro mundo.

Continua...

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