segunda-feira, setembro 24, 2012

O Andarilho - Parte I de II

Ir para Seridath - Parte II de II

A taverna fervilhava de gente naquela noite. O ir e vir dos fregueses, toda aquela movimentação, deixava Aldreth atordoado. O olhar do rapazinho passeava, num misto de curiosidade e temor, dos barbudos e ruivos bárbaros do oeste além-mar aos inquietos e explosivos anões. Havia na taverna pelo menos uns três daqueles pequenos seres, habitantes de Nyrbern, terra árida situada bem a sudeste. Seridath mantinha-se calmamente sentado na mesa que escolhera, no fundo do salão, tendo o capuz a envolver seu rosto em sombras. Observava silenciosamente o entra e sai de pessoas da taverna. Estava limpo e barbeado, seus cabelos aparados de forma mais regular, embora ainda estivessem um pouco compridos, atados em um rabo de cavalo.
Apesar de estar mais apresentável, o cavaleiro mantinha aquele seu habitual ar de ameaça. Sempre que voltava seus olhos ao amo, Aldreth sentia um calafrio, pensando se talvez não seria melhor fugir logo que uma oportunidade surgisse. Seridath, por sua vez, fixava os olhos frios e brilhantes no o garoto, como que afirmando saber o que Aldreth pensava. E a alma do rapaz gelava com esse olhar.
Fazia três dias que os dois estavam em Sathal, capital do reino de Dhar. Era início do mês de Auluman, e o outono ia pela metade. Conforme Seridath ficou sabendo pelo dono da taverna, aquele era o ano 823 da Era dos Reinos, no nono século após o fim da Era da Rainha.
Seridath e seu pajem se conheceram em Khir, o decadente reino que fazia fronteira com a cordilheira de Gaeramont. O cavaleiro queria empregar sua espada, alistar-se em um exército mercenário. Aldreth contou-lhe que o rei de Khir, embora em constante guerra com Nébria, ao sul, não tinha condições de pagar soldo a seu exército. Seridath então decidira partir rumo a um país mais rico.
Em uma viagem tranquila, haviam deixado Khir, atravessando Helgara e Belgamon, até alcançarem as campinas férteis de Dhar e a sua capital de torres brancas, Sathal. O cavaleiro acreditava que os deuses lhe sorriam já que, ainda antes de atravessar os portões, soubera que havia emprego para homens hábeis com arco ou espada.
Seridath se hospedara naquela mesma taverna, onde recolhera informações. Soubera de um grupo de excêntricos velhos que estavam organizando uma força militar. Aldreth, que ficara dormindo no estábulo com os cavalos, foi enviado pelo amo para encontrar um desses velhos.
Agora, Seridath aguardava regando sua impaciência com algumas canecas de cerveja escura. Após alguns minutos de espera, um velho de longos cabelos grisalhos e pele bem enrugada entrou pela porta da taverna. Alguns homens cessaram suas conversas e puseram-se de pé, com a mão direita sobre o peito. O velho não lhes deu atenção, aproximou-se da mesa de Seridath e sentou-se de frente ao jovem. Vestia uma manta de pele de algum animal selvagem e tinha uma espécie de touca repleta de contas de várias cores. Carregava um rústico bordão, cujo cabo utilizava como apoio. Parecia um curandeiro.
O homem cuspiu um bolo de ervas mastigadas no assoalho de madeira, fazendo Aldreth virar o rosto de nojo. Apesar da reação do garoto, o velho fitou-o com um sorriso franco. Encabulado, Aldreth baixou o rosto, encostando o queixo no peito. O velho apenas balançou a cabeça, abrindo mais o sorriso. Era um estranho homem, cujo nome era tão estranho quanto sua fisionomia. Chamava-se Urso Pardo de Orgulho Severo. Seridath despachou Aldreth, ordenando que trouxesse duas canecas de cerveja. O rapazinho pareceu aliviado ao deixar a mesa.
Tu marcaste este encontro, jovem – começou a dizer o velho, ainda sustentando o sorriso. – O que posso fazer por ti?
Sou novo na região e ando à procura de trabalho. – respondeu Seridath, calmamente – Soube que o senhor está recrutando homens para um exército. Marquei esta entrevista para averiguar as condições e decidir se a oportunidade é boa.
A surpresa de Urso Pardo foi visível diante da impertinência do jovem.
Ha, ha, ha! – riu o velho. – Onde vives, rapaz? O que sabes acerca desse suposto exército?
Sei pouco, é verdade. Apenas que um grupo de velhos, por algum motivo conhecidos como andarilhos, estão organizando uma força, dizem que para combater sombras e rumores.
De fato, esta é parte da verdade. Estamos reunindo forças, pois rumores assombram o norte destas terras.
E que rumores seriam esses, velho?
Rumores sobre uma praga que dizima aldeias ao norte. Uma praga fatal, que leva à loucura e faz o corpo da vítima andar após a morte. Até o presente momento, não houve clérigo, sacerdote ou mago que tenha alcançado êxito em reverter os efeitos dessa praga. Para lidar com tal crise, a Companhia dos Andarilhos decidiu agir.
E por que logo vocês, velhos, estão organizando esse exército? – retrucou Seridath. – E as forças do rei? Dhar, pelo que sei, é um reino forte. É certo que o rei não se agradará de um exército particular em seu território.
Não concerne a ti, rapaz, o que pensa ou não nosso rei – respondeu Urso Pardo, incapaz de esconder a crescente irritação. – A Companhia existe há séculos e seu poder visa somente a segurança do povo. Foi a mais importante força militar a auxiliar a Imperatriz Helena na destruição do exército das Trevas, marcando o fim de uma era de escuridão.
Não é o que os bardos cantam por aí – retrucou Seridath, com um sorriso torto.
Qual o sentido desta conversa, rapaz? Caso estejas interessado em participar de nossas fileiras, deves passar em um de nossos postos de alistamento. Não tenho tempo para suas leviandades. Passar bem.
Urso Pardo levantou-se de chofre. Seridath percebeu que havia exagerado em seus blefes. O rapaz adiantou-se, cortando o caminho do ancião, quase esbarrando em Aldreth, que retornava com as duas canecas de cerveja.
Sinto ter dito coisas desnecessárias, velho – disse Seridath, em tom grave. – Peço desculpas. Acredito contudo que o senhor se interessou por nós e insisto que fique mais um pouco. Que nossa despedida seja ao menos cordial.
Após alguns segundos de ponderação, o andarilho achou por bem voltar a seu lugar.
Tudo bem, rapaz – suspirou o ancião, ignorando sua caneca de cerveja –, o que mais quer saber?
Você ainda não nos disse o real objetivo dessa "força militar". Vão criar um exército da salvação para cuidar desses doentes do norte?
Eles não têm mais salvação – suspirou com tristeza o andarilho. – Iremos investigar as causas da praga e proteger aqueles que não foram tocados pela maldição.
E qual o pagamento? As vantagens?
Tais informações seriam conseguidas facilmente no posto de alistamento, mas satisfarei tua curiosidade. O pagamento é pequeno e a vantagem estará na experiência em batalha e na certeza de estar praticando o bem. Oferecemos cento e setenta moedas de cobre, da coroa de Dhar, por trinta dias, ou duas moedas de prata por um ano de serviço.
Se não tivesse dado mostras de seu caráter, eu acreditaria que o senhor zomba de mim – murmurou Seridath, fingindo indignação. – E os custos? Quem compensará?
Vestimentas e alimentação serão pagos pela Companhia. E barganhas estão fora de cogitação. O pagamento estipulado é fixo. Não haverá pilhagens.
O jovem remexeu-se na cadeira, inquieto. Agora tinha certeza que seus blefes não estavam surtindo o efeito desejado. Na verdade, ele não se preocupava muito com dinheiro. Queria a fama que somente uma espada poderia conseguir.
Muito bem, estamos interessados. Sou um cavalei...
Não queremos cavaleiros – atalhou Urso Pardo. – Só recrutamos infantaria e arqueiros.

3 comentários:

Dora Delano disse...

A história tá ficando ótima! =]

Nerito disse...

Valeu, Dora! Esta série se estende por vários capítulos (previsão minha). Espero que todo mundo acompanhe as peripécias desse Viajante Cinzento...

Pam disse...

Tô adorando...