segunda-feira, setembro 17, 2012

Seridath - Parte II de II

Ir para Seridath - Parte I de II


Assustado com a aproximação do outro, o rapazinho ergueu o trêmulo arco, sem força para ao menos retesá-lo. Koen achou aquilo muito engraçado. O garoto estava com medo, sabia que iria morrer, mas mesmo assim decidira não fugir como fizera seu último companheiro.
– Não temas. – disse, Koen, quase amigável – Se não me atacar, não irei matá-lo. Talvez.
O garoto engoliu em seco, enquanto Koen ria, sombriamente deliciado com seu próprio gracejo.
– Vo-você matou Rerfard! – Observou o rapaz, admirado.
– E isso é importante? – desdenhou o outro.
– Si-sim. Ele é o mais forte, quem... quem manda... mandava por aqui.
– Bem, creio que não mais o seja. Você não parece ter experiência nesse ramo. O que fazia com aqueles bandidos?
– E-eles obrigam seus escravos a lutarem, senhor. Eu fui levado há três meses de uma aldeia bem ao sul daqui... Mataram todos... Só me deixaram viver porque eu sou bom com o arco.
– Mas mesmo assim você não impediu que eu matasse seu senhor. – observou Koen, com severidade, mas também com uma gota de gracejo em sua voz – Matei seu senhor, agora sua vida me pertence. Quer viver?
O jovem balançou afirmativamente a cabeça. Koen ficou por um bom tempo calado, absorto. Havia feito uma descoberta. Todo o cansaço que o perturbara durante a viagem havia desaparecido. Estava descansado e bem disposto, como se tivesse dormido por uma noite inteira.
– Se-senhor? – inquiriu o rapazinho, timidamente. Sua voz revelava o temor de que o outro tivesse mudado de idéia, ou estivesse apenas brincando com sua vida.
– Pois bem. – retrucou Koen, despertando – Será meu pajem, meu escudeiro. Qual o seu nome?
– Aldreth.
– Parece ser um bom nome. Certo, Aldreth. Como meu servo, quero você desça desse cavalo e ajoelhe-se aqui.
O rapaz aproximou-se e ficou de joelhos aos pés da montaria de Koen, que permaneceu em sua pose altiva.
– Jure. – ordenou.
– Ju-jurar? – garoto olhava temeroso o chão, sem ter coragem de erguer a cabeça.
– Jure que irá me servir.
– Mas... mas escravos não juram.
– Não importa. Se quer viver, faça um juramento.
– Eu juro.
– Jura o quê?
– Eu juro... juro servir ao senhor e... ser o vosso servo.
– Muito bem. – aprovou Koen – Quero que retire o dinheiro e as armas dos mortos. Pode levar o que quiser, mas eu quero as roupas negras daquele ali. – apontou para o líder – E quero que estejam limpas.
Aldreth ergueu-se para seguir as ordenanças do seu novo amo. Mas antes deu meia-volta, aproximou-se novamente de Koen e ajoelhou-se mais do que a primeira vez, até tocar a testa ao chão:
– Senhor, peço misericórdia pelos companheiros mortos. Peço que me deixe enterrá-los.
– Eles o raptaram, o escravizaram e ainda quer enterrá-los!? – perguntou Koen, maravilhado.
– Por Rheena e sua misericórdia, peço para enterrá-los, senhor! – repetiu o rapaz, com obstinação.
– Está bem. – respondeu, irritado – Vá logo! E não fale mais em deuses na minha presença.
O resto da tarde Aldreth passou usando uma das espadas dos mortos para chafurdar na lama e fazer covas para seus três antigos companheiros. Mas para a surpresa de Koen, ele fez o serviço com rapidez. Findava a tarde quando o garoto trouxe as vestes de Rerfard, o líder do bando, para que Koen pudesse usá-las. Pela compleição forte e robusta, as roupas couberam muito bem no jovem. Aldreth, porém, não pegou nada para si, além de uma das espadas. Nas garupas dos cavalos encontraram mantimentos e duas cotas de malha. Também havia dois escudos amarrados no cavalo de Refard e outros dois no de Driscol, o segundo no comando. Ele fora o último a ser morto por Koen.
Os dois reuniram os objetos e os cavalos e partiram quando já escurecia. Segundo Aldreth, havia mais a leste uma caverna onde o bando mantinha seu esconderijo. Poderiam abrigar-se naquele lugar. Enquanto voltavam suas montarias na direção indicada por Aldreth, ele timidamente olhou para seu amo e perguntou:
– E tu, senhor, como chamarei?
Koen recebeu aquela pergunta como um soco. Fazia tanto tempo que não pronunciava seu nome, que não se sentia mais Koen. Aquela luta havia selado o nascimento de um guerreiro. Deveria ser outro, ter outro nome. Depois de alguns segundos pensativo, voltou a cabeça para Aldreth e respondeu:
– Sou Seridath, o Cavaleiro Negro.

2 comentários:

Fernanda Cristina Vinhas Reis disse...

Oi Nerito!

Aldreth é parente do Thomas de Hookton? ;D

Brincadeiras à parte, tá ficando muito bom!

Beijos!

Nerito disse...

Bem, Fê, o parentesco é beeem distante... rsrsrs, mas lógico que a saga de Thomas é uma inspiração para minha escrita. Na verdade, outros livros do Cornwell também!

bjo