quinta-feira, março 14, 2013

Sombras de dores e a poética do dia

Hoje é dia da poesia nacional. Sei, poesia está entranhada em nossa cultura, fazemos poema até com piada. Mesmo assim, acho bacana lembrar disso com uma data comemorativa. Acho que de vez em quando ajuda a gente a parar e olhar pro lado.

Compartilho então dois poemas nascidos ontem, fruto do cansaço, da pressão interna e da angústia nossa de cada dia.


Asceta

A tristeza faz sua volta
coça meu nariz mais uma vez
é o espírito
o sopro tênue
a chama
que logo cessará
centelha exangue
lânguida
esmaecida
carente de qualquer sentido
conto os instantes
de minha própria morte
exilado de qualquer anseio
estilhaço-me
e depois
esqueço.


Insônia

A pele alva
exala um cheiro de
nostalgia encapsulada
animal,
minto para o tempo
nego o desejo
Tendo meu eu como único inimigo,
mordo minha própria bochecha
e sorvo meu sangue
embriagado pelo nada

quarta-feira, março 13, 2013

Lançamento do "Névoa" em Belo Horizonte

Olá, amigos!

Quero abrir este post eventual para convidar a todos os leitores de Belo Horizonte/MG e região para o lançamento do livro Névoa: contos sobrenaturais, de suspense e de terror, que acontecerá na Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte, às 10h30 do dia 16 de março de 2013.

O lançamento contará com a presença dos autores Daniel Rocha Silveira, Gabriella Lara Silva, G. Lamounier e Mateus Mourão. Não percam!

Endereço: Rua Carangola, 288 - Santo Antônio.

Conto com a presença de todos!

segunda-feira, março 11, 2013

O Desespero e a Noite - Parte V de VI

Ir para O Desespero e a Noite - Parte IV de VI

Seridath se manteve na mesma posição, como se a chegada do líder do exército não fosse tão importante. Mas a troca de olhares que ambos tiveram naquele momento denunciava outra coisa. O rapaz temia a represália do andarilho, da reação que o velho teria para com ele. O cavaleiro olhou em volta. Não havia ninguém para testemunhar aquela conversa, pois os demais homens do destacamento estavam mais distantes, raspando suas tijelas de sopa, e o casebre mais próximo devia estar a uns cinqüenta passos. O crepúsculo findava, anunciando uma noite escura que se aproximava com rapidez. Seridath soltou um suspiro, enquanto descruzava os braços. Encarou então o andarilho, que parou diante do guerreiro com uma expressão enigmática. O rapaz estava atento, as próximas palavras seriam decisivas.
– Esta noite prenuncia horrores, bravo guerreiro – a voz de Urso Pardo soou serena aos ouvidos do jovem.
– Parece ser noite de maldições, velho. - respondeu o rapaz, suspirando - E uma maldição antiga, talvez milenar.
– Como a que tu carregas contigo...
Seridath pareceu surpreso. Instintivamente, tocou a ponta do cabo de Lorguth, que ainda permanecia presa às suas costas, inútil. Urso Pardo estendeu as mãos, como se exigisse, silenciosamente, que Seridath entregasse a espada. O rapaz ficou na defensiva, mas viu que nos olhos do velho não havia hostilidade, mas apenas uma curiosidade quase infantil, como uma criança que deseja examinar um brinquedo exótico. Murmurou, como que esperando confirmar as intenções do andarilho:
– Bem vi que você... er... o senhor notou a espada, por fim.
– Eu notei desde o início. – respondeu Urso Pardo, com um sorriso. – Deixa que a examine, meu jovem.
Seridath desatou a espada e depositou-a, ainda embainhada, nas palmas das mãos do andarilho, que aproximou o punho da mesma e passou a examiná-la com minúcia. Usou o manto para proteger a pele da mão ao segurar o punho e puxar, com cuidado, a espada para fora da bainha. Ao ver a lâmina, o velho soltou um murmúrio de aprovação, como se confirmasse suas suspeitas.
– Trata-se de um artefato mágico e muito antigo – disse com firmeza. – Se não me engano, esta espada é Lorguth, forjada no fim da Era dos Errantes.
– Como sabe disso, velho? – perguntou Seridath surpreso. Ele próprio sabia apenas o nome da espada.
– Nós não somos andarilhos à toa, como alguns pensam, rapaz. Também peregrinamos pelo mundo em busca de conhecimento. E essa espada é de fato algo notável. Dizem que um ser denominado "O Sombrio" a forjou.
Seridath lançou um olhar profundo ao ancião. Seu coração, pela primeira vez, gelou. Estava lidando com algo mais terrível do que podia imaginar. Urso Pardo notou a reação infantil do jovem e sorriu, embainhando Lorguth e devolvendo-a ao dono. O andarilho acenou para Seridath, para que caminhassem lado a lado, afastando-se alguns passos da paliçada.
– Eu queria que tivesses a experiência de enfrentar malignas criaturas com essa espada. Creio que agora possuis pelo menos uma melhor noção do artefato em teu poder. Mas acalma-te. É uma espada poderosa, e ainda não sabes usá-la. Por tal motivo ela não te obedece.
– O que devo fazer? – perguntou Seridath, sem conseguir esconder a aflição.
– Tua vontade, meu jovem – respondeu o andarilho, enigmaticamente –, somente tua vontade é a chave para conseguires usar a espada. Se fores bem-sucedido em impor tua vontade sobre a lâmina negra, ela te obedecerá, e será eficaz com os inimigos mortos. Mas saibas que essa espada é perigosa, ela drena vida e deve se alimentar com sangue, para evoluir. Mortos não a alimentam, e por isso ela pode ser perigosa contra teus aliados, se ficar muito tempo sem matar.
Seridath assentiu. Já conhecera a voracidade assassina daquela lâmina negra.
– Controla também a sede da espada, senão ela te consumirá, tomará teu ser e serás somente mais uma habitação para "O Sombrio". Se caíres, o mal que acometerá esta terra será infinitamente pior do que o que enfrentamos agora. Lembra disso.
– Mas por que, velho, você me dá essa opção? – Seridath estava perplexo. – Por que não tomar a espada, por que não me expulsar da Companhia, me matar, por quê? Crê que eu sou tão forte que possa dominar essa espada tão antiga?
– Não, rapaz, certamente não creio – a resposta de Urso Pardo deixou-o atordoado. – Mas somente os deuses podem determinar isso. Não és mau, somente confuso, e eu não posso trair as Leis e matar-te sem sofrer a ira divina. Serpente Flamejante, o Grande Andarilho, diz que "o peso de uma vida dá para esmagar o mundo." Muitos em nossa terra começaram bons, mas por não entenderem o valor de uma vida, terminaram tornando-se os mais terríveis entes que já existiram. Quem sabe um homem obscuro, portador de uma espada amaldiçoada, possa fazer o caminho inverso e tornar-se um guerreiro justo? A escolha em ter e usar a espada é tua, não minha. O caminho que trilhares será também o caminho que os deuses permitirão. Lembra-te dis...
Mas o discurso de Urso Pardo foi interrompido por um som seco de algo pontiagudo penetrando em carne. Um dardo acabava de atravessar a garganta do ancião.

Continua...

sexta-feira, março 08, 2013

Uma Ideia Toda Azul - Magia e sensibilidade



Quando menino, já apaixonado pelas histórias escritas, costumava explorar os livros didáticos de língua portuguesa que eu e meus irmãos recebíamos na escola, em busca de contos e crônicas interessantes. Havia em alguns livros a "seção suplementar", que geralmente nunca seria abordada pelos professores. Ainda assim,.quantos textos deliciosos conheci nesse exercício de "caçador de histórias"! 

Foi numa dessas solitárias incursões que encontrei o conto "Uma Ideia Toda Azul", que falava sobre a cruel passagem do tempo e seu poder de nos separar de nossos sonhos. Lembro-me que meu coração menino ficou angustiado com o destino do rei, protagonista do conto. Sentia em mim sua melancolia, sua falta de talento para a felicidade. Ao mesmo tempo sonhei como ele, brincando também com a ideia azul pelos jardins do palácio real.

Outro conto que naquela mesma época havia me comovido foi "Por trás do bastidor", onde uma menina bordadeira dava forma e substância a seus sonhos através da linha do bordado.

E muitos anos depois descobri que ambos os contos não apenas são da mesma autora, como também fazem parte do mesmo livro, cujo título é, justamente, Uma Ideia Toda Azul. Essa descoberta permitiu um recorrente mergulho no mundo onírico e belo de Marina Colasanti.

Escritos e publicados em uma época de transição, em que os efeitos da revolução feminina ainda eram tênues e pontuais aqui no Brasil, a voz forte e segura dessa grande mulher assumia um tom de denúncia sobre a condição feminina, mas também sobre as infinitas possibilidades que estão diante de toda a humanidade, nas potencialidades de cada pessoa, especialmente da mulher, única e exclusiva senhora de seu destino.

Assim, neste dia tão importante, quando celebramos a luta pelo fim da violência contra a mulher e pela igualdade de direitos entre homens e mulheres, considero de grande importância lembrar dessa obra de Marina Colasanti, exemplo que a boa literatura pode muito bem ir além da beleza estética, assumindo uma voz de consciência, sem comprometer sua qualidade.

Ficha Técnica
I.S.B.N.: 852601109X
Editora: Global
Acabamento : Brochura
Edição : 23
Número de Paginas : 61
Prêmios:

     • APCA - Grande Prêmio da Crítica 1979
     • FNLIJ - O Melhor para o Jovem 1979


Perfil do livro no Skoob: http://www.skoob.com.br/livro/13707

terça-feira, março 05, 2013

Selos e blogs amigos

Para minha felicidade, fui agraciado nas indicações de alguns colegas de blogs. E isso não só me deixa feliz como também me estimula a continuar este trabalho. Sim, pessoal, é um trabalho. Afinal, invisto horas e horas pesquisando livros, lendo, anotando e escrevendo. Ainda mais trabalhoso é produzir os textos autorais, pois faço várias releituras buscando melhorar o escrito. Assim, quando algum outro blog faz menção a este, tenho uma forte sensação de dever cumprido e ao mesmo tempo que sou imbuído pelo desafio de melhorar. 

A primeira notificação sobre os selos foi da Fernanda Cristina Vilas Reis, autora do blog Na Trilha dos Livros. Curiosamente, hoje acessei o blog da Fefa (Apaixonada por Papel) e descobri que ela também tinha postado o mesmo selo. Em seguida, fiquei sabendo também que havia sido indicado pelo Vitor Vieira, autor do blog O Guardião da Muralha. Agradeço aos três pela confiança! 

Bem, sem mais delongas, vamos aos selos.

O primeiro é o Prêmio Dardos, iniciativa criada pelo espanhol Alberto Zambade, que concedeu em 2008 o primeiro "El Pequeño Dardo", em seu blog Leyendas, mencionando quinze outros blogs selecionados por ele. Ao divulgar o prêmio, Zambade solicitou aos blogs premiados que também indicassem outros blogs ou sites considerados merecedores do prêmio. Assim a iniciativa se espalhou pela Internet. Nas palavras de Alberto Zambade, o Prêmio Dardos destina-se a "reconhecer os valores demonstrados por cada blogueiro diariamente durante seu empenho na transmissão de valores culturais, éticos, literários, pessoais etc., demonstrando, em suma, a criatividade por meio do seu pensamento vivo que permanece inato entre as suas palavras". 


Regras:

Exibir a imagem do selo no seu blog; 
Linkar o blog que te indicou; 
Escolher outros 10 blogs para receber o Selo Dardos; 
Deixar um comentário nos blogs escolhidos:


O selo seguinte é este:





Regras:

1. Citar o nome de quem te indicou: Citados acima;

2. Indicar 2 livros (no mínimo) que leu e gostou em 2012 (não há limite máximo);

Do amor e outros demônios, de Gabriel Garcia Márquez;
Dança com Dragões, de George R.R. Martin;
Retalhos, de Craig Thompson;
Carta aos Dinossauros, de José Wilson Barbosa Sales;
Sabor de Sangue e Chocolate, de Helena Gomes;
A Tormenta de Espadas, de George R.R. Martin;
Haroun e o Mar de Histórias, de Salman Rushdie;
O contador de histórias, de Saki;
Lugar Nenhum, de Neil Gaiman;
Diálogos impossíveis, de Luis Fernando Veríssimo;
Clube da Luta, de Chuck Palahniuk;
A Caixa Preta, de Amós Oz.

3. Listar 3 livros (no mínimo) que deseja ler em 2013:
Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa;
Dragões de Éter (a série inteira) de Raphael Draccon;
Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago;
Histórias da Eternidade, de Jorge Luis Borges;

4. Oferecer a mais dez pessoas ou blogs e avisá-los: os mesmos acima.


Por último, mas não menos importante:



Regras:

Responder as sete perguntas: OK, abaixo;

Nomear sete blogs: resolvi manter os dez acima, neste mesmo post;

Avisar sobre o selo aos blogs premiados;

Fazer sete perguntas diferentes para os blogs que você indicar;

Minhas respostas:


1. Quais suas maiores paixões?
Em primeiro lugar, minha maior paixão é minha namorada, Ana Luiza. Agora, quanto a coisas que gosto de fazer, amo ler, assistir seriados e desenhos animados, amo contar histórias para crianças e amo trabalhar na Biblioteca.

2. Se você pudesse nascer em outra época, qual seria?
Gostaria de nascer no século XIX, por conta das roupas, das carruagens, do estilo vitoriano, da literatura romântica.

3. Se pudesse ser um personagem de um livro, qual seria?
Se pudesse, seria o Mago Howl, da trilogia O Castelo Animado, O Castelo no Ar e A Casa de Muitos Caminhos, da escritora Diana Wynne Jones.

4. O que te levou a criar o blog?
O desejo de escrever e de ser lido me levou a criar este blog. Inicialmente, era um blog de textos literários, sem resenhas. Posteriormente, vi que havia não só uma necessidade pessoal de qualificar minhas leituras, como também uma demanda na internet por blogs literários. Acabou que gostei muito de fazer resenhas e até hoje estamos aí!

5. Qual seu gênero preferido se leitura? Por que?
Gosto muito de fantasia. Sou fissurado por cenários mirabolantes, poderes fantásticos e grandes jornadas épicas.

6. Como nasceu sua paixão por leitura?
Nasceu quando eu tinha 9 anos. Tive em minhas mãos um exemplar do livro O Caso da Borboleta Atíria, de Lúcia Machado de Almeida. Fiquei tão apaixonado que continuei buscando nos outros livros a mesma empolgação que havia sentido nessa leitura. Não parei mais desde então.

7. Cite uma passagem de algum livro que você nunca esquece.
A cena em que Shasta está perdido em Arquelândia e no meio do nevoeiro tem uma conversa reveladora com o grande Aslan.

Agora, vamos às perguntas novas, que eu tenho que bolar:

1. O que você procura quando abre um livro que nunca viu?

2. Você consegue ir direto para o final de um livro?

3. Quantas vezes você costuma ler um livro que tenha adorado?

4. O que você acha necessário para estimular uma criança a ler?

5. Se você fosse imaginar duas personagens de livros diferentes se encontrando, que personagens seriam e como se daria esse encontro?

6. Cite quem você acredita ser um dos grandes nomes da literatura do Brasil.

7. Você costuma frequentar alguma biblioteca? Caso afirmativo, conte um pouco sobre ela!


É isso aí, pessoal! Foi um exercício interessante e mais uma vez agradeço àqueles que me indicaram. Grande abraço!

segunda-feira, março 04, 2013

O Desespero e a Noite - Parte IV de VI

Ir para O Desespero e a Noite - Parte III de VI

Ao ouvir que Urso Pardo não seria hóspede em sua casa, Denor pareceu querer retrucar, mas apenas abriu a boca e, em seguida, fechou-a, enquanto baixava os olhos. Como Urso Pardo havia dito, aquele não era tempo para confortos ou formalidades. O andarilho queria estar próximo ao exército para organizar o alojamento e alimentação da tropa. Haviam trazido seus próprios suprimentos nos carros de boi, mas os militares careciam de legumes frescos, como batatas, nabos e cenouras.
Com muita presteza, os camponeses se ofereceram para ajudar nessa carência alimentar. Muitos deles haviam sofrido por causa da praga que se espalhara com rapidez. Não havia família que não houvesse perdido algum ente querido. Seu ressentimento se materializava na vontade de ver a Companhia prevalecer sobre os zumbis.
O destacamento olhava curioso ao que restara da aldeia, entre as cinzas das cabanas purgadas. Seridath, por seu lado, não pousara seu olhar para os aldeões uma vez sequer. O rapaz observava de longe Urso Pardo sempre atarefado, vagando de um lado para o outro, despachando ordens e recomendações. Via com interesse como o andarilho parecia estar desconcertado. O guerreiro adivinhava, e muito bem, que a tarefa estava mais difícil para o velho depois que o Conde de Arnoll negara seu apoio, impedindo que a Companhia estabelecesse sua base na forte cidadela. Essa verdade deixava o rapaz com uma sensação que beirava a satisfação. Afinal, não seria ele o único a fracassar. Não conseguia esquecer sua humilhação. A falha da espada doía-lhe como uma ofensa imperdoável. Distraído e sentindo um gosto ruim na boca, descobriu Aldreth, que parecia completamente perdido. O jovem permanecia sentado na beira de uma carroça e voltava-se para todos os lados com um olhar apático.
Aldreth não conseguia disfarçar sua comoção, ao ver as expressões vazias de tantas crianças. Sentia seu peito apertado ao ver aqueles pequeninos com ares de quem já cedo sabe não ter futuro. Além disso, o arqueiro era atormentado pelas mesmas visões que o perseguiram nos últimos dias, imagens dos extermínios anteriores.
Seridath se aproximou do garoto e despertou-o de suas lembranças com uma forte batida no ombro. Fitava o arqueiro com os mesmos olhos penetrantes e malignos. O garoto se lembrou de que fora o próprio “cavaleiro negro” que o metera naquele inferno, e seria mais que justo odiá-lo. Mas Aldreth simplesmente não conseguia. Quase sentia pena, pois como todos os outros, vira o fracasso quase ridículo de Seridath em usar aquela espada, inútil contra os mortos-vivos.
– No que está pensando, rapaz? – perguntou o guerreiro. – Se tem alimentado lembranças desta guerra maldita, esquece! Isso só te levará à loucura.
– E por acaso, haverá paz para homens como nós? – perguntou o garoto, com amargura. – Depois dos atos que cometemos, ainda que por honra, creio que seremos atormentados para o resto de nossas vidas.
– Calma, jovem! – Seridath lançou um sorriso frio para o arqueiro. – Fale com Urso Pardo. Esse sim dará bons conselhos sobre como lidar com essa guerra. O homem é bom para curar corpos e almas.
– Você... quer dizer, o senhor considera isso uma guerra?! – Aldreth demonstrava visível transtorno.
– E o que mais poderia ser? Por acaso se você ficar parado diante daquelas coisas, elas irão poupá-lo?
– Aquelas coisas foram gente! – gritou Aldreth. – Gente como eu e você!
Seridath manteve silêncio por alguns segundos, enquanto o pajem caía em si e seu temor retornava. O cavaleiro se aproximou do garoto de forma a intimidá-lo. Aldreth encolheu-se diante do ar ameaçador do amo.
– Quer que eu lembre a quem você deve a vida, moleque? – murmurou Seridath, entredentes. – Sua insolência é um insulto ao meu orgulho, verme. Acho melhor lembrá-lo que você me pertence!
Aldreth, acuado, baixou a cabeça e suspirou:
– Sim, Mestre, peço perdão.
O arqueiro fez menção de inclinar-se, mas Seridath o deteve, irritado:
– Não se incline, imbecil, nem use a palavra “mestre” por aqui, pelo menos por enquanto. Você tem um juramento para comigo, mas o mesmo não nos exime do juramento que temos para com este lixo de Companhia. Você curvar-se aqui só me trará mais problemas.
– Verdade... – Aldreth pareceu confuso e frustrado. Erguendo os olhos, perguntou, em desafio: – E a espada, tem funcionado melhor agora?
Seridath fitou o arqueiro, consternado, quase enfurecido. O garoto bem sabia a resposta. Aldreth afastou-se sem olhar para trás, buscando os demais arqueiros.
Seridath permaneceu sozinho, remoendo seu despeito. Aquele garoto iria pagar por sua impertinência. A verdade é que havia uma certa preocupação incomodando o guerreiro. Ele estava satisfeito com as dificuldades de Urso Pardo mas dedicava-se a esse sentimento para encobrir o pesar que invadia seu interior. Lorguth, ao não funcionar contra os amaldiçoados, revelara seu poder maligno. E era certo que Urso Pardo percebera esse detalhe. Intimamente, Seridath aguardava uma repreensão por parte do andarilho, talvez até um ultimato para que ele deixasse a Companhia. Mas o ancião não lhe dirigira a palavra durante toda a viagem e parecia até mesmo desconhecer sua existência. O jovem guerreiro somente sabia que Urso Pardo mandara dois mensageiros rumo ao sul, com cavalos emprestados por Denor. Aqueles mensageiros certamente trariam o famoso Serpente Flamejante, juntamente com toda a Companhia, para Keraz. O exército que viria, segundo Seridath ouvira falar, alcançava o número de três mil homens.
Ao fim da tarde, os guerreiros da Companhia receberam cobertores e pequenas tigelas com sopa com raros fiapos de carne e complementada pelos legumes que os aldeões haviam fornecido. Não tinha um gosto definido, mas estava quente e foi acompanhada por um pedaço de pão sem fermento. Após o jantar frugal, os três capitães distribuíram as sentinelas, montando em comum acordo a escala de vigia. Seridath fora um dos escalados para o primeiro turno. O jovem cruzou os braços e escorou suas costas na paliçada, soltando um suspiro profundo. Estava cansado e abatido, seu desânimo era profundo. Todos os seus planos agora pareciam-lhe totalmente ingênuos. Afinal, o que ele queria provar? E para quem? O que queria de fato conseguir em manter consigo aquela espada ao invés de livrar-se dela? E finalmente, por que fora enviado para encontrá-la? Quem o enviara?
Seus pensamentos foram interrompidos pelos os calmos passos do andarilho Urso Pardo, que se aproximava. Os olhos do velho estavam apreensivos e fitavam Seridath com firmeza. Pelo visto, a inevitável conversa estava para acontecer.

Continua...

sexta-feira, março 01, 2013

Ubirajara, o Senhor da Lança


Jaguarê é um jovem índio da tribo araguaia, filho de Camacã, líder supremo. Apesar de sua fama como exímio caçador, o rapaz deseja realizar uma façanha de guerra e assim receber um nome de guerreiro e galgar melhores posições junto ao seu povo.


Mas o que antes era uma busca por realização pessoal torna-se uma épica jornada de amor e superação, quando Jaguarê se encontra por acaso com Araci, bela filha do chefe dos tocantins. Apesar do interesse mútuo, os jovens são de tribos rivais e Jaguarê sequer tem a posição social necessária para disputar o amor de Araci.


A oportunidade surge então para o rapaz quando, pouco depois de se despedir de Araci, Jaguarê encontra Pojucã, campeão dos tocantins. Numa luta equilibrada, Jaguarê acaba perdendo sua lança para o adversário, que não imaginava que a arma obedecia apenas a seu mestre. A lança se volta contra Pojucã, que acaba derrotado. Assim Jaguarê, por ter vencido o mais forte guerreiro dos tocantins, assume o nome de Ubirajara, o senhor da lança.

Escrito por José de Alencar e publicado em 1874, esse romance indianista apresenta um  texto composto de frases e parágrafos curtos, com verbos em geral no tempo presente, o que garante ao texto certo dinamismo. Alencar procura valorizar um vocabulário indígena, o que pode muitas vezes soar estranho e artificial.


Ao contrário de muitos romances de Alencar, "Ubirajara" procura explorar as cenas de ação sem deixar de fora o sangue e a violência. Um dos combates em especial nos faz lembrar das lutas de imobilização nos hoje famosos torneios de MMA.


Os dois campeões recuaram passo a passo até que se acharam a um tiro de arco.
Então soltaram o grito de guerra e se arremessaram um contra o outro brandindo o tacape.
Os tacapes toparam no ar e os dois guerreiros rodaram como as torrentes impetuosas no remoinho da Itaoca.
Dez vezes as clavas bateram, e dez vezes volveram para bater de novo. 
Os animais que passavam na floresta fugiram espavoridos, como se a borrasca ribombasse no céu.
Ainda uma vez encontraram-se os dois tacapes e voaram em lascas pelos ares.
— O ubiratã é forte; mas há outro ubiratã que lhe resiste. Como o braço de Pojucã é que não há outro braço. Já viste, jovem caçador, o veado nas garras da jibóia? Assim vais morrer.
— Se tu fosses a cascavel que somente sabe morder, Jaguarê te esmagaria a cabeça com o pé e seguiria seu caminho. Mas tu s a jibóia feroz; e Jaguarê gosta de estrangular a jibóia. Não morrerás pelo pé, mas pela mão do caçador. Lança teu bote, guerreiro tocantim.
Pojucã estendeu os braços e estreitou os rins de Jaguarê, que por sua vez cingiu os lombos do guerreiro.
Cada um dos campeões pôs na luta todas as suas forças, bastantes para arrancar o tronco mais robusto da mata.
Ambos, porém, ficaram imóveis. Eram dois jatobás que nasceram juntos e entrelaçaram os galhos ligando-se no mesmo tronco.

O trecho acima ilustra um dos muitos momentos em que a ação recebe grande destaque no enredo.


É importante observar que Alencar, normalmente tão descritivo, acaba sendo sucinto demais em suas descrições. Acredito que isso rouba um pouco a força do romance.



Outro aspecto que deve ser destacado é o uso dos nomes próprios pelos personagens e como o próprio herói muda de nome ao longo da aventura. Jaguarê, após se tornar Ubirajara, dias depois adota o nome de Jurandir, que usará enquanto disputar o amor de Araci.


A despeito dos preconceitos presentes na obra, vale lembrar que existia sim um projeto indianista de valorização nacional. Não cabe aqui a discussão ou defesa desse projeto. Aponto somente que a literatura também cria os seus mitos e tradições, que vão além das lendas orais. Vale destacar assim textos como O Hobbit e O Senhor dos Anéis, tão em voga ultimamente.

Em que Ubirajara se aproxima dessas narrativas épicas? Primeiramente, na posição do herói. Guardadas as devidas proporções, o protagonista do romance de Alencar, assim como os personagens dos livros de J.R.R. Tolkien, enfrenta uma série de desafios, todos ligados a jornadas. O herói está em trânsito constante, símbolo das mudanças a que todo protagonista está submetido. Essas mudanças marcarão o crescimento desse herói. No caso do protagonista do romance indianista, essa mudança também está marcada nos diferentes nomes que o herói assume ao longo de sua jornada.

Da mesma forma que no livro O Hobbit, há em Ubirajara um desafio a ser alcançado. No romance britânico, o desafio é encontrar o tesouro e enfrentar o maligno dragão Smaug. E a busca desse objetivo acaba por desencadear uma terrível guerra. Em Ubirajara, o tesouro é o amor da jovem Araci, filha do chefe supremo dos tocantins. Os acontecimentos que envolvem a disputa pela jovem lançam também Ubirajara em um aguerra que irá selar o destino das tribos.

Por esses e outros motivos, Ubirajara pode apresentar-se ao leitor como uma agradável surpresa. No que se espera uma leitura enfadonha, arcaica, a grande surpresa poderá se apresentar na descoberta de um texto dinâmico e ágil, repleto de romance e aventuras.

Ficha Técnica:
Autor: José de Alencar
Edição: 18
Editora: Ática
ISBN: 8508052499_
Ano: 2000
Páginas: 120

Página do livro no Skoob: http://www.skoob.com.br/livro/4803-ubirajara

Link para download do livro no Domínio Público: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ua00144a.pdf


segunda-feira, fevereiro 25, 2013

O Desespero e a Noite - Parte III de VI

Ir para O Desespero e a Noite - Parte II de VI


Denor, prefeito de Keraz, embora estivesse contrariado, pareceu sentir verdadeiro alívio quando ouviu que a Companhia auxiliaria prontamente nas defesas da aldeia. Assim, enquanto o mordomo se aproximava com taças de cobre cheias de água, o prefeito limpou a garganta e começou seu testemunho:
– Muito nos satisfaz saber da disposição dos seus nobres guerreiros para auxiliar nossas famílias. Iniciarei, então, meu relato. Meus companheiros serão meu auxílio caso eu omita algo fundamental.
“Há meses ouvimos depoimentos de homens-macaco que têm vagado por nossas terras, roubando gado e invadindo propriedades. Até algumas crianças desapareceram. Além desses incidentes, pescadores da região contavam que haviam visto luzes fortes ao norte, além do mar, na direção das ruínas de Quirite-Mon.
“Até que então, há três semanas, recebemos pessoas que chegavam desesperadas, trazendo parentes seus, imersos em terrível febre, para serem tratados por Culliach, nosso sacerdote. Eram quinze doentes. Todos os encantamentos e preces foram em vão, de modo que os doentes pereceram. Mas logo após serem sepultados, voltaram à vida, com uma ferocidade cega e um irracional desejo de sangue. Perdemos bons moradores nesse surto de loucura e violência.”
– Foram necessários nossos melhores homens para pará-los – o juiz Anfard, um homem ainda jovem e de sagazes olhos negros, interrompeu o relato do prefeito. – Não sabíamos que a doença era transmitida caso o infectado mordesse alguém saudável. Também tivemos que descobrir, por um preço muito alto, que o infectado reanimado só morre se for decapitado ou tiver sua cabeça destroçada. Perdi metade dos meus homens de confiança, guerreiros valorosos que compunham minha guarda. O senhor Denor perdeu pouco mais que eu. Os habitantes também ajudaram na luta, mas muitos foram feridos. Dos sessenta homens que guardavam nosso vilarejo, vinte e cinco estavam mortos ou infectados, além de quase o dobro de aldeões. Os doentes foram encerrados em algumas casas, enquanto víamos mais camponeses chegando de outros vilarejos, alguns fugindo como loucos, tendo os mortos em seu encalço.
O jovem Anfard olhou para Denor, como que esperando que o prefeito continuasse o relato.
– Pois bem – o prefeito retomou a palavra –, esses últimos dias foram os mais difíceis para nós. Tínhamos que tratar e vigiar os doentes, cuidar daqueles que chegavam e estabelecer alguma defesa que impedisse que mais dessas coisas invadissem Keraz. Escolhemos nossos mais exímios carpinteiros e o mais fortes lenhadores para ajudá-los, e o juiz Anfard liderava os demais homens para resgatarem pessoas saudáveis e vigiarem os arredores.
“Todos ajudavam, inclusive mulheres e crianças. Construímos a paliçada e cavamos o fosso em poucos dias. Enquanto isso, os doentes entre nós pioravam, alguns já haviam perecido e retornado à vida imersos em loucura. Por recomendação de nosso sacerdote, encerramos todos os infectados em suas casas e, que os deuses nos perdoem, as incendiamos. Os mortos se mostraram sensíveis à força do fogo e, por tal fato, nós os destruímos.”
O nobre baixou os olhos, entristecido, enquanto seus dois companheiros imitavam seu ato. Eram conhecidos seus que morreram de forma tão cruel. De fato, o preço pago por Keraz fora alto demais. Cuilliach, o sacerdote, talvez fosse do povo, mas era certo que Anfard deveria ser de origem nobre, como Denor. Apesar do bom nascimento de ambos, eram homens simples, que expressavam amor por aquelas terras e agora viam seu mundo ruir sob a degradante escuridão que se abatia sobre eles. Urso Pardo suspirou, decidindo que não era mais necessário a eles continuar seu relato.
– Suplico a vós que perdoai nossa frieza, caros senhores – disse o andarilho, respeitoso –, pois sabemos que se trata de um assunto deveras penoso para todos. Mas vossas experiências foram de grande valia para nós. Os homens-macaco de que falais são criaturas que há muito não andam em grandes bandos e se exilaram justamente nas ruínas de Quiriath-Mon. Não são homens, nem macacos, mas seres peludos de dentes fortes e sede de sangue. São chamados argros pelos homens e gasnarzni pelos anões. Seus líderes tribais são fracos e facilmente manipuláveis pelas Trevas. São inimigos naturais dos anões, por motivos que desconhecemos. Se estão por estas bandas e agrupados, trata-se de algo que não devemos ignorar. Não será mais apenas uma ação sanitária, mas talvez presenciemos batalhas reais. O exército precisa estar pronto para essa nova circunstância. Voltaremos agora para junto de nossos homens.

sexta-feira, fevereiro 22, 2013

Quimera: contos fantásticos



Fonte: Divulgação.
Há duas semanas atrás, postei aqui uma resenha sobre um livro de contos. Para ser mais preciso, uma antologia, com a qual contribuíram vários autores. Não quero ser repetitivo, apresentando minhas dificuldades em resenhar obras assim organizadas, da mesma maneira que não quero que esta resenha se pareça com a anterior. 
Por isso, resolvi passar logo para os contos que tenham se destacado em minhas leituras. Ressalto que mencionar e comentar os contos em questão não os torna melhores que os demais. Apenas significa que precisei fazer uma seleção para que esta resenha não ficasse extensa.
Começo pelo conto "Fim do Mundo", de Melissa Barbosa. Um texto que eu considero uma das melhores expressões do gênero fantástico, na acepção kafkiana do mesmo. O conto nos mostra uma situação cotidiana desconstruída pelo absurdo. Assim, o texto de Melissa Barbosa joga com a metaficção e dialoga com grandes autores da literatura, como Kafka e Borges.
Em seguida, temos o conto "Quando as almas foram trancafiadas", de Lara Luft, que usa da ironia e do humor para flertar com a metafísica, como também o faz o conto "O Cargo", de Tauan G. Gomes, mas de forma bem diferente.
Ainda na vertente do humor irônico, mas puxando para o grotesco e homenageando o gênero zumbi, encontramos o conto "Pensão", de Danilo Souza Pelloso, que utiliza uma linguagem claudicante, fazendo o leitor cambalear como o protagonista.
Na vertente da fantasia, fazendo uma interessante referência ao folclore brasileiro, está o conto "O menino negro", de Raony, que aborda o racismo de uma forma inusitada.
Já "Humano de estimação", de Thais Pampado, homenageia uma das criaturas mais fantásticas da história humana: o dragão. Este conto dialoga com outro: "A caçada", de Davi Paiva, que dá um tratamento praticamente contrário ao mesmo tema.
Por último, mas não menos importante, gostaria de falar dos contos que se definem através do terror. Num tom levemente jocoso, encontramos o "Polícia kármica", de Alex Mir, que também é o organizador da antologia. Temos ainda os inesquecíveis e claustrofóbicos "Fobias" da Melissa Barbosa, e "Fera", do Zórdic.
Todos esses contos comprovam a força de uma nova geração de escritores, que mostram personalidade, talento e, sobretudo, que eles têm muito a dizer.

Ficha Técnica
Autor: Alex Mir (organizador)
Edição: 1
Editora: Andross
ISBN: 9788599267684
Ano: 2013
Páginas: 238

Página do livro no Skoob: http://www.skoob.com.br/livro/296617-quimera

Da mesma forma que no outro post, peço aos autores que mencionei aqui e que não foram linkados, se quiserem compartilhar seus blogs, páginas pessoais, perfis de twitter etc., basta comentarem no fim desta postagem que logo que puder atualizarei!

segunda-feira, fevereiro 18, 2013

O Desespero e a Noite - Parte II de VI

Ir para O Desespero e a Noite - Parte I de VI


Chegaram a Keraz no quinto dia após o primeiro confronto. Era pelo meio da tarde, embora a neblina tornasse a atmosfera mais sombria. Os homens estavam extenuados pelos intensos combates e pelas precárias condições de repouso. Keraz era um aglomerado de casas estabelecido no alto de uma colina, onde os pescadores e fazendeiros das redondezas costumavam fazer seus negócios. A aldeia era, portanto, mais próspera e populosa que as demais. Todos temiam ver outra uma cena brutal, e ficaram surpresos ao descobrirem que Keraz resistia. Os próprios moradores cortaram grossos troncos de árvores e os dispuseram, enfileirados, ao redor da aldeia. O resultado foi uma sólida paliçada de uns quatro metros de altura. As toras de madeira tinham pontas bem afiadas e ao redor da paliçada um fosso razoável havia sido cavado, para completar as defesas.
Logo que a Companhia aproximou-se, o portão da paliçada foi aberto e alguns homens armados de espadas, foices e forcados surgiram. Não eram guerreiros, apenas simples camponeses, mas via-se, pelos seus rostos, mais alívio do que desafio. De forma gradativa, mais gente foi surgindo do portão. Todos tinham uma expressão de um desgaste que beirava o desespero. Um exército desconhecido, justamente naquele momento de crise, tornava ainda mais crítica a situação daqueles camponeses. Mas ter um exército à sua porta, com homens armados e bem equipados, soava-lhes mais como uma ajuda de Rheena do que uma ameaça.
O prefeito da cidade pôs-se à frente. Se aquele exército viera tomar Keraz, que o fizesse, pois era melhor estarem nas mãos de inimigos de que permanecerem à mercê dos mortos. Urso Pardo pareceu entender a atitude do prefeito e, por isso, ordenou que o destacamento parasse. Sozinho, o andarilho partiu ao encontro do líder de Keraz, que aparentava ter por volta de cinqüenta, talvez quase sessenta anos. Era alto, tinha uma avantajada barriga e a barba bem aparada, que descia por seu queixo com uma ponta curiosa. Após as devidas apresentações, Urso Pardo soube que o prefeito se chamava Denor de Keraz e também era um nobre, senhor de algumas terras naquela região e parente afastado do Conde de Arnoll. À distância, Seridath olhava com cobiça para as boas botas de couro que o homem calçava.
Ao saberem o motivo que trouxera a Companhia para o norte de Dhar, os moradores da aldeia acolheram os guerreiros com verdadeiro júbilo. Keraz não era um povoado pobre, mas não tinha construções de pedra. Embora algumas das residências fossem espaçosas e construídas com madeira de boa qualidade, a grande maioria constituía-se em um conjunto de casebres ordinários e com teto de palha. As construções mais ricas eram, evidentemente, dos homens importantes da aldeia, como o sacerdote, o juiz e o prefeito. A moradia do último era um casarão esplêndido, construído sobre um sólido fundamento rochoso, quase no centro da aldeia.
Foi para o casarão que Urso Pardo e os três capitães da Companhia se dirigiram, para uma conversa reservada com o prefeito, que estava acompanhado do juiz e do sacerdote da aldeia. Os demais ficaram sabendo da conversa quando Murrough e os os outros capitães retornaram.
O prefeito, muito solícito, os convidara a descansar nos aposentos de hóspedes.
– Não há tempo para confortos ou formalidades, bondoso senhor – replicou Urso Pardo, com polidez –, pois o tempo urge. Temos enfrentado mortos durante os últimos cinco dias e precisamos saber qual a situação real desta região.
– Si... Sim, concordo - replicou, surpreso, o senhor Denor –, embora eu insista que os senhores devessem refazer-se da viagem primeiro.
– Estamos bem, caro senhor, novamente o digo. Meus homens são os mais duros e lutam pelo bem. Não se importarão de ouvir as cruciais informações que vós tendes para fornecer-nos. Em breve, retornarão às fileiras para reforçarem as defesas.
Ouvir que a Companhia estava pronta para auxiliar nas defesas da cidade deixou o prefeito mais tranquilo. Denor fez o convite para que Urso Pardo e seus auxiliares se assentassem, para que ele pudesse relatar como nos últimos dias Keraz havia mergulhado no mais profundo desespero.

quinta-feira, fevereiro 14, 2013

Uma Voz Que Se Cala



Quarta-feira de cinzas. Na estrada, eu estava ansioso pelo retorno a Belo Horizonte. Não sabia que me aguardava uma terrível notícia: Maria Lúcia dos Santos Miranda, incomparável colaboradora da Biblioteca onde trabalho, havia morrido naquela madrugada, vitimada por um crime hediondo.

Acredito que nunca uma quarta-feira havia sido tão cinzenta. O fim do carnaval prenunciava também o fim de uma voz que por tanto tempo encheu de vida e alegria as histórias de tanta gente.

Maria Lúcia nem aparentava a idade que tinha. Era enérgica, combativa e extremamente independente. Sem mencionar seu talento para a culinária. Tanta energia nunca foi desperdiçada. Advogada, cantora seresteira, atriz, contadora de histórias. Tinha inúmeras formas de ser atuante, voluntariando-se em diversas causas e participando não apenas da história de seu bairro, o Carlos Prates, mas também ajudando a construir a história da Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte, onde fazia parte do Grupo de Contadores de Histórias.

Demonstrava seu cuidado com grupo até mesmo no lanche, pelo qual sempre zelou, contribuindo diversas vezes com seus famosos quitutes. Além disso, Maria Lúcia continuamente prestigiava seus colegas contadores, comparecendo em suas apresentações no evento semanal da Biblioteca Infantil e Juvenil, chamado "Era Uma Vez...", além de estar presente nas diversas atividades da Biblioteca.

Queria ter estado mais tempo com a Maria Lúcia. Ainda tinha muito a aprender com ela. Sua partida foi prematura, traumática. Ela deixou um vazio e um profundo silêncio.

Cabe a nós clamar por justiça. Cabe a nós não deixar que a voz de Maria Lúcia seja silenciada.

E que nossas vozes perpetuem seu legado.

segunda-feira, fevereiro 11, 2013

O Desespero e a Noite - Parte I de VI

Ir para Aqueles que não morrem - Parte IV de IV


Na primeira noite após o confronto, Seridath decidira isolar-se ainda mais dos demais guerreiros da Companhia. Estava sentado nos limites do acampamento e observava a escuridão entre as árvores. Seu capitão, chamado Murrough, aproximou-se em silêncio, postando-se à frente do rapaz. Num misto de vergonha e indignação, o jovem não quis fitá-lo. Sem dizer palavra, Murrough lançou uma espada aos pés de Seridath, afastando-se em seguida. Era uma lâmina velha e quase cega, que talvez se quebraria se fosse afiada novamente. Não era um presente de primeira, mas com certeza seria suficiente para lidar com aqueles camponeses mortos.
Ofendido, o primeiro ímpeto de Seridath foi lançar longe aquela espada. Mas afinal ponderou em seguida que talvez fosse melhor mantê-la consigo. Não iria substituir a sua preciosa Lorguth, mas talvez fosse útil em uma emergência.
E aquele presente precisou ser utilizado logo no dia seguinte, no segundo confronto. Com Lorguth amarrada às costas, Seridath usou a velha espada muito bem, enfrentando e matando, como os demais, os inimigos que encontrava. Mas a cada oponente que abatia, o rapaz sentia-se mais angustiado por não poder empunhar a jóia preciosa de sua alma, Lorguth.
Depois daquela manhã sangrenta, em que a Companhia teve seu primeiro confronto com os mortos-vivos, muitas outras lutas ocorreram. Havia fazendas e inúmeros vilarejos espalhados por toda aquela região, próximos a Arnoll, mas o exército ora encontrava esses povoados desertos, ora repletos de mortos para recepcioná-los. Com isso, o destacamento envolvia-se em conflitos esparsos, embora sempre mais camponeses contaminados surgissem para atacar os homens. Dentre a infantaria, trinta feridos teriam se tornado zumbis, não fosse pelos conhecimentos antigos de Urso Pardo e seus poderes de cura. Com poções feitas de raízes de diversas plantas medicinais, o andarilho conseguia recuperar os ferimentos, mesmo aqueles infeccionados com a maldição. Se a vítima ainda estivesse viva, era possível impedir que a doença continuasse sua degradação. Ainda assim, os soldados estavam cada vez mais desmotivados e o próprio andarilho enfrentava dificuldades, pois o trabalho se mostrava excessivo para aquele velho corpo. Não conseguiam vislumbrar um resultado real, pois sempre havia mais bandos de seres sedentos de sangue para lançar-se contra as lâminas da Companhia.
A cada zumbi destruído, dois surgiam. Urso Pardo começava a temer que o norte de Dhar já estivesse totalmente comprometido. Para piorar, como o Conde e Senhor de Arnoll havia negado apoio à Companhia, o velho andarilho não pôde seguir seus planos e teve que deslocar suas forças com cautela redobrada, principalmente ao montar acampamento no território amaldiçoado e infestado de mortos.
Em Aldreth, as lutas estavam causando uma profunda comoção. O rapaz sentia-se transtornado, abalado com o que testemunhava. Aquelas pessoas, que eles agora rechaçavam como se fossem monstros, tiveram uma vida, sorriram, choraram, casaram-se e morreram. Mas agiam como criaturas malignas, sanguinárias, e era preciso que fossem eliminadas para não causarem o mesmo mal a outros. O jovem arqueiro ouvia esse discurso continuamente, mas ainda era impossível aceitar. Não conseguia tirar da cabeça a imagem de crianças zumbis, correndo ensanguentadas na direção deles, sua flecha penetrando entre os olhos de uma delas, o pequeno corpo inerte estendido na campina. Essas visões o sobressaltavam, pois vinham à sua mente com uma nitidez surpreendente, como se ele tivesse acabado de vê-las.
Enquanto Aldreth sofria por sua consciência, Seridath parecia mergulhar em frustração. Era desprezado pelos companheiros e sua altivez habitual havia sido substituída por um rosto cada vez mais sombrio e taciturno. Se não estivessem envolvidos em constantes escaramuças, o desprezo dos homens seria mais forte e talvez insuportável. Mas o medo pelo dia seguinte e a ameaça que pairava sobre eles tornava-os mais preocupados em manterem suas espadas erguidas e as bordas dos escudos acima das orelhas.

sexta-feira, fevereiro 08, 2013

Névoa: Contos sobrenaturais de suspense e de terror

Fonte: divulgação
Considero particularmente difícil resenhar livros de contos, mais ainda quando se trata de uma antologia composta por vários autores. Um dos principais motivos é que sinto que deveria resenhar conto a conto, como unidades narrativas únicas que eles são. Assim, o livro de contos pode apresentar uma diversidade de textos que, ainda sob organização, preservam sua individualidade textual de tal forma que tornam o livro uma experiência de múltiplas leituras. E essa experiência é ainda mais forte em uma obra que se constitui num conjunto de muitas outras. 
Sendo assim, a resenha, que normalmente já se apresenta desafiadora, assume dimensões ainda maiores quando me proponho a escrever sobre livros como o Névoa. Esta é uma antologia que reúne contos de autores muito diferentes, de vários lugares do Brasil, versando sobre o mesmo tema: o terror. Devo assumir logo de início que as diferentes visões desses autores revelavam-se não apenas no campo da linguagem, mas também na escolha da abordagem feita por cada um. Os contos vão do terror macabro ao psicológico, em alguns casos mesclando o maravilhoso ao banal. E nessa inusitada fusão, quem ganha é o leitor, que tem contato com diferentes tipos de narrativas, subtemas, vozes e pontos de vista. 
Vale ressaltar que a organização de Cristiana Gimenes foi interessante, pois demonstrou o cuidado de manter um balanceamento nos textos, tanto nos temas quanto na linguagem. Com tantos textos e autores diferentes, não seria de se estranhar que alguns acabassem chamando minha atenção.  São eles: 
O beijo da noite, de G. Lamounier, com suas virtuoses linguísticas, descrevendo uma inusitada relação amorosa; 
Uma noite no sanatório de Waverly Hills, de Mandy Porto, que constrói de forma muito competente uma narrativa no gênero "casa assombrada"; 
Devoradores: tributo aos grandes antigos, de Felipe T.S, delineado com bases no fantástico lovecraftiano; 
A garota que tinha medo da luz, de Thais Pampado, um texto que mais uma vez realça a genialidade dessa moça tão jovem e tão talentosa; 
A Invasora, de Lily Silva, que mantém um clima sóbrio, de puro realismo, criando assim um conto de terror excelente com fortes doses de ironia; 
Marcha Fúnebre, de Mateus Mourão, que explora os recursos da linguagem de forma genial; 
A seita macabra, de Gabriella Lara Silva, com imagens vívidas e palavras fortes, utilizando-se de um tema precioso aos filmes clássicos de terror; 
Fogo, de Victor Lopes, que mostra que a ficção científica e o terror podem formar um excelente casamento; 
O último apóstolo, de Gabriel Réquiem, com uma narrativa primorosa e uma excepcional homenagem a H.P.Lovecraft. 
Ressalto que há ainda outros contos excelentes. Esta é a minha seleção, um pequeno recorte, mas a sua pode ser diferente e essa é a potencialidade das antologias. Por isso, não hesito em convidar você para embarcar nessa misteriosa viagem rumo à Névoa.

Ficha Técnica:

Edição: 1
Autora: Cristiana Gimenes (organizadora)
Editora: Andross
ISBN: 9788599267660
Ano: 2013
Páginas: 224

Página do livro no Skoob: http://www.skoob.com.br/livro/292213/


Atenção, peço aos autores que mencionei aqui e que não foram linkados, se quiserem compartilhar seus blogs, páginas pessoais, perfis de twitter etc., basta comentarem no fim desta postagem que logo que puder atualizarei!

segunda-feira, fevereiro 04, 2013

Aqueles que não morrem - Parte IV de IV

Ir para Aqueles que não morrem - Parte III de IV


O primeiro sinal de disparo soou na trompa do arauto. Os arqueiros rapidamente entesaram seus arcos e permitiram que as flechas tomassem o céu. Segundos depois, uma chuva mortal caía sobre o campo à frente do exército. Aldreth observou espantado a figura de um camponês que corria na sua direção. Uma flecha havia se enterrado fundo no seu pescoço, o que garantiria uma morte rápida ao sujeito. Mas o homem continuava correndo, rosto contorcido e braços abertos, mãos como garras na direção dos homens.
– As cabeças! – gritava o andarilho Urso Pardo – Acertem na cabeças!
Mas a violenta turba já estava perto demais para que os arqueiros pudessem fazer um novo disparo. Instantaneamente, os guerreiros entraram em ação, unindo as bordas dos seus escudos, formando uma parede onde os camponeses quebraram-se como uma onda contra uma sólida represa. Com os escudos, os guerreiros empurravam os cadáveres vivos, enquanto as lâminas desciam, para darem àquelas almas atormentadas um fim mais digno.
A linha de frente era formada por um dos três blocos de soldados, enquanto os demais blocos davam cobertura, empurrando seus companheiros para frente e procurando estocar por sobre seus ombros. Seridath não estava na linha de frente, mas aguardava ansioso o momento de entrar em ação. Logo que o primeiro bando chocou-se com a fileira de homens, um segundo agrupamento de mortos surgiu de um pequeno bosque próximo, atravessando a campina em uma corrida desenfreada, para flanquear a infantaria pela esquerda. Outro bloco de guerreiros ofereceu resistência, fazendo frente aos mortos-vivos. Então um terceiro bando, três vezes maior que o segundo, surgiu de alguns casebres que não haviam sido tocados pelo fogo. Iriam atacar o flanco da direita, mas Urso Pardo, antecipando esse movimento, ordenou aos anões que fizessem seu trabalho.
Uma dúzia de pequenas esferas foram arremessadas contra aquele novo bando. Eram esferas do tamanho de um punho fechado, de um cinza escuro. Logo que a primeira espatifou-se no chão, explodiu violentamente, assim como as demais. Os camponeses foram despedaçados e o bando reduzido à metade. Os remanescentes logo tornaram-se alvo dos disparos dos arqueiros. Os poucos que restaram foram eliminados ao se aproximarem da infantaria.
A princípio, os camponeses pareciam ter seguido um plano, mas aquele ataque fora uma mera coincidência. Não havia inteligência entre aquelas pessoas, vítimas da maldição que as levara à morte e agora as reanimara. Mais mortos surgiam da fumaça ou da campina, amontoando-se sobre os escudos dos guerreiros e pressionando-os para trás. Urso Pardo procurava cobrir o flanco direito com a artilharia, enquanto a linha de frente havia se dobrado, assumindo definitivamente a forma de uma esquina. Onde homens e zumbis se encontravam não havia espaço para movimentos com a espada e mais camponeses se aproximavam com rapidez.
Com brados de ordem pausados e coordenados, os três capitães comandaram uma investida para empurrar os mortos-vivos e permitir que o espaço entre eles fosse alargado, para que os guerreiros pudessem manejar suas armas. Os que estivessem atrás fariam uma força adicional, empurrando os companheiros à frente para que eles tivessem um maior impulso contra os inimigos.
No terceiro brado, houve um estrondo forte das bordas dos escudos estalando umas contra as outras. Os zumbis foram empurrados para trás e os guerreiros puderam golpeá-los com facilidade. Mantendo-se bem próximos e com os escudos erguidos, os homens da Companhia avançaram. Mesmo sendo dizimado, o inimigo não aliviou o ataque. Os camponeses pulavam sobre as espadas como alucinados e só paravam se um ferimento fatal fosse feito no topo de suas cabeças. Mas a força coordenada da Companhia abriu espaço para que os homens das fileiras de trás pudessem também tomar a frente e fazer parte da carnificina.
Seridath estava pronto para isso. "É agora!" pensou. Quando o espaço se abriu, ele foi um dos primeiros a ganhar a frente, enquanto atacava com Lorguth em riste. Deparou-se com um zumbi alto, com ombros avantajados e braços bem robustos. Devia ter sido um bom lenhador quando vivo. O cavaleiro deu um golpe certeiro, fazendo a espada descer contra a testa do morto. A lâmina bateu na pele esbranquiçada e não causou nada mais que um leve arranhão. O morto, em contrapartida, revidou com violência, lançando o guerreiro contra o chão. Os demais homens haviam conseguido golpear seus oponentes, procurando exterminar o máximo de zumbis restantes, sem qualquer empecilho. Seridath ergueu-se, olhando perplexo para seu agressor. Aquele golpe deveria ter destroçado a cabeça da criatura.
Confuso, o jovem observou os outros guerreiros fazendo seu trabalho, os demais zumbis de forma eficaz. Com um grito de fúria, Seridath lançou-se novamente contra o zumbi adversário, que permanecia de pé. A ponta da espada penetrou na garganta do monstro e lá ficou agarrada. O rapaz tentou puxá-la, sem sucesso. Sentindo uma onda crescente de frustração e desespero, Seridath largou o escudo e, segurando o cabo da espada com ambas as mãos, pôs o pé esquerdo na barriga do inimigo e puxou com toda sua força. A espada foi liberada, junto com um jorro de plasma apodrecido que sujou todo o rosto do jovem.
Esforçando-se para segurar o vômito, enquanto recuava por instinto, escapou por um triz dos braços que tentaram agarrá-lo. Uma mordida poderia selar seu destino. Cansado, arfando, Seridath golpeou com um giro horizontal. A lâmina de Lorguth atingiu a têmpora do zumbi, sem causar dano. O morto-vivo segurou com força o pulso do rapaz, tentando mordê-lo, até que uma espada alheia decepou o braço do monstro na altura do cotovelo. Seridath virou o rosto para a direita e viu um jovem guerreiro que agarrou-o pelo ombro, puxando-o para longe do perigo. Esse rapaz terminou o que Seridath tentara começar, dando um fim ao morto-vivo. E esse era o último. 
O jovem cavaleiro sentou-se desfalecido na relva suja de cinzas e sangue negro. Alcançaram a vitória, sem nenhuma baixa. E ele não havia derrubado um único inimigo.

sexta-feira, fevereiro 01, 2013

Codinome: Duda


Duda é um menino como qualquer outro, adora futebol, tem uma preguiça saudável em relação aos estudos e acha todas as meninas incompreensíveis, opinião esta que se torna mais forte depois que ele conheceu Cláudia, sua nova vizinha. Além disso tudo, como qualquer garoto, é extremamente curioso, a ponto de desejar se tornar detetive particular. Assim, quando seu vizinho, Seu Antônio, após receber com freqüência um estranho visitante, é espancado por supostos assaltantes, Duda resolve dar início a seu desejo de ser detetive. Para ajudá-lo nessa empreitada, ele conta com a ajuda da impossível Cláudia, ainda que no fundo ele tente de todas as formas afastá-la.
O livro, de autoria de Marcelo Carneiro da Cunha, dispõe de uma narrativa leve, descontraída, com boa dose de humor. Além de protagonista, Duda é também o narrador, mantendo sempre um tom irreverente, repleto de maneirismos. Ao invés de tramas mirabolantes, a força do enredo está justamente nas situações reais que pertencem ao dia-a-dia de cada adolescente, como a descoberta do eu e o entendimento do outro. Isso tudo de uma forma bastante jovial, o que torna o texto delicioso.
Altamente indicado para o público juvenil, "Codinome: Duda" é diversão garantida para todas as idades.

Ficha Técnica
Autor: Marcelo Carneiro da Cunha

Edição: 4
Editora: Projeto
ISBN: 8585500026
Ano: 1007
Páginas: 97

Página do livro no Skoob: http://www.skoob.com.br/livro/5146