segunda-feira, fevereiro 04, 2013

Aqueles que não morrem - Parte IV de IV

Ir para Aqueles que não morrem - Parte III de IV


O primeiro sinal de disparo soou na trompa do arauto. Os arqueiros rapidamente entesaram seus arcos e permitiram que as flechas tomassem o céu. Segundos depois, uma chuva mortal caía sobre o campo à frente do exército. Aldreth observou espantado a figura de um camponês que corria na sua direção. Uma flecha havia se enterrado fundo no seu pescoço, o que garantiria uma morte rápida ao sujeito. Mas o homem continuava correndo, rosto contorcido e braços abertos, mãos como garras na direção dos homens.
As cabeças! – gritava o andarilho Urso Pardo – Acertem na cabeças!
Mas a violenta turba já estava perto demais para que os arqueiros pudessem fazer um novo disparo. Instantaneamente, os guerreiros entraram em ação, unindo as bordas dos seus escudos, formando uma parede onde os camponeses quebraram-se como uma onda contra uma sólida represa. Com os escudos, os guerreiros empurravam os cadáveres vivos, enquanto as lâminas desciam, para darem àquelas almas atormentadas um fim mais digno.
A linha de frente era formada por um dos três blocos de soldados, enquanto os demais blocos davam cobertura, empurrando seus companheiros para frente e procurando estocar por sobre seus ombros. Seridath não estava na linha de frente, mas aguardava ansioso o momento de entrar em ação. Logo que o primeiro bando chocou-se com a fileira de homens, um segundo agrupamento de mortos surgiu de um pequeno bosque próximo, atravessando a campina em uma corrida desenfreada, para flanquear a infantaria pela esquerda. Outro bloco de guerreiros ofereceu resistência, fazendo frente aos mortos-vivos. Então um terceiro bando, três vezes maior que o segundo, surgiu de alguns casebres que não haviam sido tocados pelo fogo. Iriam atacar o flanco da direita, mas Urso Pardo, antecipando esse movimento, ordenou aos anões que fizessem seu trabalho.
Uma dúzia de pequenas esferas foram arremessadas contra aquele novo bando. Eram esferas do tamanho de um punho fechado, de um cinza escuro. Logo que a primeira espatifou-se no chão, explodiu violentamente, assim como as demais. Os camponeses foram despedaçados e o bando reduzido à metade. Os remanescentes logo tornaram-se alvo dos disparos dos arqueiros. Os poucos que restaram foram eliminados ao se aproximarem da infantaria.
A princípio, os camponeses pareciam ter seguido um plano, mas aquele ataque fora uma mera coincidência. Não havia inteligência entre aquelas pessoas, vítimas da maldição que as levara à morte e agora as reanimara. Mais mortos surgiam da fumaça ou da campina, amontoando-se sobre os escudos dos guerreiros e pressionando-os para trás. Urso Pardo procurava cobrir o flanco direito com a artilharia, enquanto a linha de frente havia se dobrado, assumindo definitivamente a forma de uma esquina. Onde homens e zumbis se encontravam não havia espaço para movimentos com a espada e mais camponeses se aproximavam com rapidez.
Com brados de ordem pausados e coordenados, os três capitães comandaram uma investida para empurrar os mortos-vivos e permitir que o espaço entre eles fosse alargado, para que os guerreiros pudessem manejar suas armas. Os que estivessem atrás fariam uma força adicional, empurrando os companheiros à frente para que eles tivessem um maior impulso contra os inimigos.
No terceiro brado, houve um estrondo forte das bordas dos escudos estalando umas contra as outras. Os zumbis foram empurrados para trás e os guerreiros puderam golpeá-los com facilidade. Mantendo-se bem próximos e com os escudos erguidos, os homens da Companhia avançaram. Mesmo sendo dizimado, o inimigo não aliviou o ataque. Os camponeses pulavam sobre as espadas como alucinados e só paravam se um ferimento fatal fosse feito no topo de suas cabeças. Mas a força coordenada da Companhia abriu espaço para que os homens das fileiras de trás pudessem também tomar a frente e fazer parte da carnificina.
Seridath estava pronto para isso. "É agora!" pensou. Quando o espaço se abriu, ele foi um dos primeiros a ganhar a frente, enquanto atacava com Lorguth em riste. Deparou-se com um zumbi alto, com ombros avantajados e braços bem robustos. Devia ter sido um bom lenhador quando vivo. O cavaleiro deu um golpe certeiro, fazendo a espada descer contra a testa do morto. A lâmina bateu na pele esbranquiçada e não causou nada mais que um leve arranhão. O morto, em contrapartida, revidou com violência, lançando o guerreiro contra o chão. Os demais homens haviam conseguido golpear seus oponentes, procurando exterminar o máximo de zumbis restantes, sem qualquer empecilho. Seridath ergueu-se, olhando perplexo para seu agressor. Aquele golpe deveria ter destroçado a cabeça da criatura.
Confuso, o jovem observou os outros guerreiros fazendo seu trabalho, os demais zumbis de forma eficaz. Com um grito de fúria, Seridath lançou-se novamente contra o zumbi adversário, que permanecia de pé. A ponta da espada penetrou na garganta do monstro e lá ficou agarrada. O rapaz tentou puxá-la, sem sucesso. Sentindo uma onda crescente de frustração e desespero, Seridath largou o escudo e, segurando o cabo da espada com ambas as mãos, pôs o pé esquerdo na barriga do inimigo e puxou com toda sua força. A espada foi liberada, junto com um jorro de plasma apodrecido que sujou todo o rosto do jovem.
Esforçando-se para segurar o vômito, enquanto recuava por instinto, escapou por um triz dos braços que tentaram agarrá-lo. Uma mordida poderia selar seu destino. Cansado, arfando, Seridath golpeou com um giro horizontal. A lâmina de Lorguth atingiu a têmpora do zumbi, sem causar dano. O morto-vivo segurou com força o pulso do rapaz, tentando mordê-lo, até que uma espada alheia decepou o braço do monstro na altura do cotovelo. Seridath virou o rosto para a direita e viu um jovem guerreiro que agarrou-o pelo ombro, puxando-o para longe do perigo. Esse rapaz terminou o que Seridath tentara começar, dando um fim ao morto-vivo. E esse era o último. 
O jovem cavaleiro sentou-se desfalecido na relva suja de cinzas e sangue negro. Alcançaram a vitória, sem nenhuma baixa. E ele não havia derrubado um único inimigo.

2 comentários:

Dora Delano disse...

"deu ruim" na espada do guerreiro.

Qto as mandingas de ano novo, a própria festa foi um fracasso, então tenho medo de 2013! [13!!!]

Pam disse...

Samuca, essa história precisa ser publicada como livro. E seria um filme muito bom, o único filme de zumbis que eu iria gostar. 😊