segunda-feira, janeiro 28, 2013

Aqueles que não morrem - Parte III de IV

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Acamparam quando já começava a escurecer. A neblina tornou-se mais densa e Urso Pardo decidiu reforçar a vigilância do acampamento. Naquela noite, os homens não se entregaram aos seus jogos de dados, como de costume, mas recolheram-se cedo às suas tendas. Seridath continuava taciturno, sentindo uma crescente excitação. Aqueles rumores pareciam ser reais, tornando tudo mais interessante. Logo poderia pôr sua lâmina novamente à prova.
No dia seguinte, levantaram acampamento e puseram-se em marcha antes do raiar do sol. O frio apertava os rostos aborrecidos dos homens. O pequeno exército marchava por um vale estreito e seco, vincado entre as colinas. A vegetação rasteira estava coberta de uma camada fina de gelo. Aldreth olhou para trás, tentando avistar Seridath. Era impossível distinguir o cavaleiro entre a massa de homens vestidos com as mesmas túnicas e com as cabeças cobertas pelos elmos de ferro. Mas Seridath estava atento. Com seus olhos perspicazes, o jovem guerreiro observava a silhueta de seu servo Aldreth, vestido com o típico gibão de couro usado pelos arqueiros. O garoto lhe seria útil quando fosse necessário. E era de sua intenção usá-lo, mesmo que fosse necessário contrariar o juramento feito a Urso Pardo.
Sua atenção voltou-se para uma crescente comoção que acometia os homens do exército. Olhando à frente, pôde notar que a neblina havia se dissipado, exibindo um céu de azul pálido, quase cinzento. Uma coluna de fumo negro erguia-se atrás de uma colina. O andarilho ordenou que o arauto da tropa soasse o toque de alerta. Os homens desembainharam as espadas, arqueiros puseram flechas nas cordas de seus arcos. Os anões simplesmente resmungaram algo como "é, acho que tá na hora de morrer".
Chefiados pelo andarilho, os guerreiros marcharam colina acima. O coração apertava no peito de cada homem, que olhava para seu companheiro com um certo ar de cumplicidade e temor. Apenas Seridath permanecia sereno, olhando sempre à frente, rumo ao topo da elevação. Ao vencerem a colina, uma cena brutal desvelou-se diante dos seus olhos. Lá havia as ruínas de uma vila recém-incendiada. O fogo acabava de devorar a madeira dos casebres, corpos destroçados espalhavam-se pelo chão. O andarilho, enojado, ajoelhou-se, suplicando aos deuses que tivessem piedade do povo. Mas sua prece foi interrompida pelo grito do arauto que o seguia. Algo se movia com rapidez além da fumaça negra. Os arqueiros, cansados, acabavam de atingir o topo da colina, enquanto sinalizavam aos anões para que se apressassem na subida. Mas o toque de alerta soou novamente. Vultos rápidos já revelavam-se, correndo na direção do exército. O toque de disparo foi dado aos arqueiros. Eles rapidamente ergueram os arcos e fizeram uma nuvem de flechas ganhar o ar e depois abater-se sobre o terreno à frente do exército. Nem sabiam no que dispararam. Aldreth voltou seus olhos para o vilarejo e distinguiu aldeões ensangüentados correndo na direção deles, de braços abertos. Uma flecha acabava de enterrar-se profundamente no pescoço de um dos aldeões. Essa flecha deveria tê-lo matado, mas o homem continuava a correr na direção deles, o rosto contorcido por um sofrimento medonho. Então Aldreth entendeu. Aqueles homens não estavam mais vivos.

Continua...

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