segunda-feira, março 18, 2013

O Desespero e a Noite – Parte VI de VI

Ir para O Desespero e a Noite – Parte V de VI


Seridath teve espírito o suficiente para erguer com rapidez seu braço esquerdo, protegendo-se com o largo escudo, enquanto via o andarilho desabar como um boneco desajeitado. O guerreiro lançou-se sobre seu líder, para também mantê-lo sob o escudo. Com a mão direita, tateou cuidadosamente o local do pescoço perfurado pelo dardo. Era um projétil negro e pegajoso; parecia ser feito de madeira enegrecida pelo fogo e besuntada de piche. Tinha talvez quatro palmos de comprimento e era fino nas duas pontas. No centro, chegava à espessura de uns dois ou três centímetros. O ancião arfava com dificuldade, parecia querer dizer algo, mas o dardo frustrava suas tentativas. A ferida era de fato mortal e aquele corpo velho foi aos poucos amolecendo, desistindo da vida.
O início de noite pareceu mais escuro, pois a chuva de dardos negros ficou mais forte, adensando a escuridão. Seridath captou o último lampejo de vida nos olhos do andarilho Urso Pardo, que morria em seus braços. Naquele momento ele sentiu a dor de ter perdido um pai. As palavras do velho haviam causado uma profunda impressão no jovem, de modo que ele sentia-se confuso e aturdido por aquele tremendo golpe do destino. "O velho está morto", pensou ele, ao ver que de fato Urso Pardo parara de respirar e seu corpo estremeceu pela última vez. O guerreiro olhou ao redor, enquanto via homens desesperados que corriam para todos os lados serem também atingidos pelos projéteis. O chão, as toras da paliçada, os casebres ao longe, tudo estava coberto de setas negras, tantas como os espinhos de um ouriço. Parecia que uma espécie de relva escura e maldita nascera do chão em poucos segundos.
Seridath tornou a olhar em volta, procurando seu jovem pajem, Aldreth. Ele estava agachado, de costas para a paliçada, com as mãos na cabeça. Estava intacto, pois a proximidade com a defesa de madeira o havia protegido dos dardos. Seridath com esforço arrastou o corpo do andarilho, ainda tentando proteger-se dos dardos. Deixou Urso Pardo sentado, com as costas apoiadas na paliçada. Não queria que mais dardos machucassem o corpo do velho. Correu então até Aldreth e tocou os ombros do rapaz. O arqueiro ergueu seu rosto e fitou Seridath com uma expressão de puro terror. O que o rapaz vira que o deixara tão aterrado? Outros arqueiros estavam posicionados em plataformas improvisadas atrás da paliçada, de forma que pudessem vigiar e atirar por sobre as estacas afiadas, mas quase todos pareciam aturdidos demais para isso.
O guerreiro tomou lugar entre eles, para ver o que se passava fora da aldeia. Ainda não escurecera completamente e ele pôde ver uma grande massa que se movia, aproximando-se com vagar, mas em velocidade regular. Sentiu um nó gelado atravessar sua garganta. Um batalhão de vultos marchava contra eles com disciplina militar. Eram corpos de homens que se moviam, com a pele necrosada e já mostrando sinais de decomposição. Estavam vestidos com uniformes de uma cor cinzenta, com uma caveira negra desenhada no peito. Arrastavam pesados machados de guerra, clavas ou lanças.
Mas a imagem mais horrorosa era de criaturas que se moviam em uma extensa fileira naquele exército. Suas peles eram necrosadas como as dos zumbis uniformizados, mas esses seres não carregavam armas. Não tinham pernas, mas seus braços eram no mínimo quatro vezes maiores que os de uma pessoa normal, de forma que eles se erguiam bizarramente acima das cabeças dos mortos que marchavam. Usavam uma espécie de túnica curta e moviam os braços com grande agilidade. Era difícil crer que aquelas coisas, que se moviam de forma tão estranha, já haviam sido seres humanos.
Eram os artilheiros daquele maldito exército. Tinham diversos dardos costurados em suas bocas. Cuspiam esses projéteis, lançando-os contra os alvos inimigos. Não tinham cabelos e no topo da cabeça uma fileira de espinhos estavam dispostos no estilo moicano. Ao contrário da silenciosa infantaria, esses espinhentos estavam constantemente soltando gemidos agudos por suas bocas obstruídas, sons que pareciam risadas irônicas, como se achassem graça de algo que só eles sabiam.
Olhando em volta, Seridath apenas percebeu o pavor. Os jovens perto da paliçada observavam anestesiados os corpos das vítimas que se espalhavam pela relva. Alguns deles viram Urso Pardo ser atingido e sua morte já era gritada entre os homens do exército, enquanto os camponeses corriam sem rumo. Ainda que a aproximação dos inimigos fosse inevitável, nenhum dos jovens se movia. "Ordens," pensou Seridath, "precisamos de ordens, com urgência." Mas todos pareciam imersos em letargia. O guerreiro não tinha tempo a perder. Viu um rapazinho magro e de estatura mediana passar correndo. Reconheceu-o de imediato.
Arauto! – gritou.
O rapazinho não respondeu. Seridath afastou-se da paliçada, correndo até o garoto, que não havia sido alvejado por milagre. Ele pareceu não ter notado o guerreiro, pois afastava-se com rapidez rumo ao centro da aldeia. Já não caíam tantas setas quanto outrora. Seridath manteve seu escudo erguido, enquanto ouvia os estalos das pontas dos dardos baterem em seu largo bojo.
Arauto!!! – gritou novamente.
O jovem franzino parou e voltou-se. Correu na direção do guerreiro. Era um palmo e meio mais baixo que Seridath e tinha os cabelos castanhos, bem revoltos. Estava vestido com cota de malha e túnica, como qualquer soldado, mas tinha na cintura um sabre no lugar de espada. Não portava escudo e segurava uma pequena trombeta de prata em sua mão esquerda. Na direita estava seu elmo, que havia sido retirado para que o jovem pudesse ajeitar o cabelo castanho que lhe caía sobre os olhos. O rapazinho sorriu ao aproximar-se, indo abrigar-se sob o escudo. Ao contrário do que o cavaleiro julgara, seus olhos não demonstravam medo e carregavam um curioso brilho.
Onde estão Murrough e os outros capitães? – perguntou Seridath, de chofre.
Murrough está morto – respondeu o garoto. – Levou uma seta bem no olho. Aleigh está ferido de morte e não consegui localizar Balgata. Talvez esteja na ala oeste da paliçada.
Aleigh e Balgata eram os outros dois capitães. Seridath não ponderou na morte de Murrough, seu capitão, com qualquer sentimento. "Isso, sim, é guerra," pensou. Mas os deuses não pareciam favoráveis, ao permitirem que dois capitães e o comandante do destacamento fossem abatidos com tamanha rapidez. Não poderia vacilar agora. O guerreiro deu uma ordem direta:
Soe o toque de cerco e, em seguida, o toque para convocar toda a tropa. Quem puder ouvir e obedecer, virá lutar. Vamos perfilar os arqueiros sobre a paliçada. Quero todos eles atirando contra aquelas coisas que cospem setas!
O arauto não contestou as ordens do guerreiro. Levou a trombeta aos lábios e tocou uma série combinada de notas. Logo foram surgindo homens que haviam se abrigado nos casebres. Para a surpresa de Seridath, havia um número considerável de arqueiros. Pelo menos uns dez aproximaram-se correndo, carregando sacolas de flechas, para ajudarem aqueles que já mantinham suas posições sobre as plataformas de madeira. A ordem de Seridath foi bem acertada. Os arqueiros dispuseram-se em grupos de quatro ao longo da paliçada e capricharam na precisão contra as estranhas criaturas. Antes que os zumbis armados chegassem à aldeia, não havia mais nenhum lançador de dardos entre os inimigos. Mas ainda havia aquela terrível massa de mortos que marchava e já estava bem próxima da paliçada. Aqueles machados com certeza reduziriam as defesas a simples destroços.
Em instantes, os primeiros daquela horda compacta já cruzavam o fosso. Seus machados começaram a golpear com força a madeira. Quatro arqueiros logo acima desses zumbis freneticamente disparavam contra os agressores. Os zumbis caíam, cobertos de flechas, para em seguida serem pisoteados pelos que vinham atrás. Não havia apenas aqueles zumbis, mas também os tais homens-macaco, os argros, que poderiam usar de sua natural agilidade para subir a pilha de corpos que se acumulava ao pé da paliçada. Seridath previu que logo aquelas criaturas alcançariam o topo da defesa, usando os corpos dos mortos como apoio. Voltou-se para o arauto, que ainda permanecia ao seu lado.
Mande aqueles idiotas saírem logo de lá – rosnou, nervoso, para o arauto. – Leve-os com você. Vamos tentar assegurar o centro da aldeia livre de inimigos. Arrume mais uns quatro ou cinco homens, guerreiros. Concentre todos os moradores sobreviventes na casa do prefeito; faça barricadas ao redor. Se algum homem oferecer resistência, ou atrapalhar qualquer trabalho seu, não hesite em matá-lo.
O arauto saiu para cumprir as ordens, levando os quatro arqueiros. Alguns homens, dentre soldados e arqueiros, aproximaram-se de Seridath quando ele se lembrava dos anões, perguntando-se onde estariam.
A resposta foi um estrondo à direita. Os anões, violentos e muitas vezes inconsequentes, não estavam sob ordem alguma. Assim como Seridath, eles viram aqueles mesmos argros que tentavam escalar a defesa. Movidos por um ódio ancestral a essas criaturas, os anões atacaram sem prudência. Uma porção daquelas esferas pequenas e escuras foi lançada por cima da paliçada. As bombas explodiram em conjunto, destruindo parte da defesa de madeira. Os argros sobreviventes surgiram da brecha na paliçada, empunhando grosseiros machetes, enquanto o grupo de anões, bravo e valoroso, postou-se em prontidão para aguentar o choque. As bombas não deram cabo nem de metade daqueles homens-macaco. A carnificina começou. Mesmo prontos para o combate mortal, portando seus martelos e machados de guerra, aquele punhado de anões não daria conta de quase o dobro de inimigos. Atrás dos argros que invadiam a paliçada, os sombrios zumbis golpeavam a brecha para torná-la mais larga. Seritah gritou aos homens que o acompanhavam:
Pelos deuses! Matem logo aquelas coisas!
As flechas foram disparadas contra os inimigos, mesmo com o perigo de que aliados fossem alvejados, enquanto os guerreiros procuravam cercar os anões que lutavam. Seridath lamentou a perda de seis valiosos anões. Os nove restantes, ofegantes e feridos, se juntaram ao grupo de guerreiros encabeçado por Seridath, que avançava rumo à brecha com uma carroça, para bloquear a passagem aberta pela explosão.
Aldreth não saía do lado do amo, estava colado a ele como uma sombra, embora de tempos em tempos fizesse um patético disparo, tentando atingir algum zumbi que tivesse alcançado o topo da paliçada. Mas alguns deles já estavam prestes a fazer outras brechas na muralha de madeira. Seridath dispusera todos os guerreiros que encontrara para abaterem os inimigos nas brechas que iam surgindo, mas logo haveria mais aberturas do que homens para evitarem que os mortos nelas penetrassem. O próprio rapaz ainda não havia entrado na peleja.
Desde o início da luta, Seridath havia lançado longe a espada que recebera de Murrough. Estava decidido a fazer Lorguth funcionar a qualquer custo. Como o próprio Urso Pardo havia dito, ele iria impor sua vontade sobre a lâmina negra. O arauto retornou, correndo com animação, embora estivesse sozinho. Parecia realmente divertir-se com tudo aquilo.
Estão todos no casarão principal, senhor – informou, sorridente. – Aleigh e os outros feridos estão sendo tratados pelo sacerdote. Encontrei o capitão Balgata. Ele está ao norte da aldeia, com um outro grupo. O senhor não vai acreditar no que está acontecendo lá.
Sua fala foi seguida pelo som de madeira rachando. Em vários pontos, já podiam ser vistas as lâminas dos machados destruindo as toras de madeira, que soltavam grandes lascas. Em outros pontos, guerreiros se aglomeravam nas brechas recém-abertas, tentando empurrar com seus escudos os zumbis de volta. Estavam condenados. 


Continua...

2 comentários:

Sarah Marques disse...

Oi Nerito
Achei seu blog maravilhoso, o título, a descrição... Esses textos são seus né?
Ainda não consegui ler tudo, mas amanha eu volto...
Prefiro mil vezes um blog com textos próprios ( o meu por enquanto só tem um) porque a gente acaba conhecendo um pouco do blogueiro também né?
Só achei um pouco confuso esse pop up que abre na hora de comentar, e o captcha também é chatinho..
No mais, está de parabéns!
Tem post novo lá no blog!
Beijão
endless-poem.blogspot.com.br

Ana Luíza disse...

Adorei! Muito interessante a forma que você levou a história misturando culturas e épocas diferentes com seres surreais. E esse final ficou com um gostinho de quero mais.