segunda-feira, março 25, 2013

O Último Capitão – Parte I de III

Ir para O Desespero e a Noite – Parte VI de VI


Balgata praguejou mais uma vez. Não era de seu feitio ou de sua criação dizer palavras chulas, mas achava que, afinal, o ímpeto do sangue estrangeiro de seu pai começava a falar mais alto. Ele também ignorava o que acontecia em outros pontos de Keraz, mas tinha certeza que ali onde estava pouco podia piorar. Aquilo tudo estava uma tremenda desgraça. Cuspindo novamente para afastar a má-sorte, o único capitão ainda de pé segurou com mais força a espada que tinha na mão esquerda. Não era canhoto, mas tinha mais força no braço esquerdo. Na verdade, poderia lutar com qualquer uma das mãos, esse era um de seus talentos. Balgata ainda era jovem, no frescor de seus 22 anos, e mantinha uma aparência impecável. Era o mais novo dos três capitães, o mais inexperiente, e aquela porcaria de missão era a primeira naquele posto.
Balgata, porém, era um ex-soldado de Dhar e tinha uma boa experiência militar. Servira com Murrough e tinha grande admiração por seu antigo superior. Buscava sempre seus conselhos, fossem eles sobre ações militares ou coisas triviais, como mulheres, bebidas e armas. O jovem capitão vinha de uma família de mercadores dos reinos litorâneos a oeste, além de Gaeramont, a cadeia de montanhas que divide o continente. Seu pai era um misterioso pirata que saqueara e queimara sua cidade natal. Desse ato de pirataria nasceram muitos bastardos, dentre eles um forte menino que recebera o nome Balgata, que na língua primitiva significava "golpe mortal". Fora criado por tutores, longe de sua família, por ser considerado uma desonra para sua mãe, que nunca conseguira um casamento.
Sendo um homem de posses, o avô de Balgata o enviou ainda jovem para a grande cidade de Nintra, para que ele aprendesse um ofício de artesão. Filho bastardo e de uma família que, mesmo influente, era plebéia, ele cresceu recebendo doses regulares de desprezo alheio. Principalmente porque puxara os cabelos vermelhos e a compleição robusta dos saqueadores estrangeiros.
Mas por ser um rapaz disciplinado e talentoso, logo Balgata percebeu que teria que fazer seu próprio destino. Fugiu de seu tutor em uma noite de verão, unindo-se a uma caravana de artistas que rumava a leste. Após meses de jornada, fazendo pequenos trabalhos para a trupe, o rapaz chegou ao belo e verdejante reino de Dhar. A primeira visão que Balgata teve foi das torres brancas de Sathal, brilhando ao sol primaveril. Em seguida, os portões da cidade se abriram e de lá um magnífico exército marchou, com toda a sua glória de flâmulas e estandartes. Naquele momento, Balgata decidiu seu destino. Seria soldado até envelhecer ou morrer em batalha.
Meticuloso, dedicado e responsável, o jovem acumulou recomendações e prêmios em sua carreira no exército, até descobrir que não chegaria longe, por não ter uma ascendência privilegiada. O posto máximo para alguém como ele seria o de tenente e isso foi fácil conseguir. Quando Murrough, seu capitão, aposentou-se e chamou-o para buscar fortuna, Balgata não pensou duas vezes. Deu baixa de suas obrigações militares e seguiu seu capitão. "E foi nessa merda que o senhor me meteu, capitão." murmurou Balgata, entredentes. Sempre soube que Murrough não tinha lá uma cabeça muito boa mas, diabos, ele adorava aquele homem. Para o jovem, seu antigo capitão era como o pai que ele nunca teve.
Aquele não era momento para nostalgia, pois seus homens morriam por todos os lados. Havia perdido a conta de quantas daquelas coisas ele havia abatido, mas tinha certeza que haveria bem mais delas. Quando a chuva de dardos pegou-os de surpresa, o jovem capitão havia conseguido dar ordens que mantivessem seus homens agrupados e seguros. Sua bateria de arqueiros havia repelido tanto os monstros cuspidores de dardos quanto os zumbis que marchavam. Começaram a acreditar que aquela divisão levaria a vitória para a Companhia. Mas então o desastre aconteceu. Uma sombra esquisita postou-se sobre a paliçada, mesmo crivada de flechas. Era um ser humanóide, com um peitoral de placas rebitadas e sem elmo. Segurava duas espadas curvas em suas mãos e gritava em ameaça, enquanto seu rosto se contorcia, disforme. Bocas e olhos misturavam-se naquela face escurecida. Aquilo perturbou a todos. Balgata ordenou que os arqueiros arrancassem aquela coisa do alto da paliçada, mas todos hesitavam.
A “coisa” então abriu uma bocarra enorme, repleta de dentes pontiagudos, e soltou um berro lancinante. Todos os homens tamparam os ouvidos e alguns desmaiaram. A criatura explodiu em seguida, fazendo uma brecha considerável na paliçada, de onde entraram gritando outras criaturas como a primeira.


Continua...

2 comentários:

Thalita Oliveira disse...

Adorei Sam! Fiquei curiosa pela continuação :3

Beijão.

Sarah Marques disse...

Oi, tudo bom?
Adorei o texto.. Tem um quÊ de Jon Snow com Brienne, não sei porque.
Adorei a criação desse mundo imaginário, mas fiquei um pouco confura no início...
Parabéns!
Tem post novo lá no blog!
Beijão
endless-poem.blogspot.com.br