segunda-feira, abril 01, 2013

O Último Capitão – Parte II de III

Ir para O Último Capitão – Parte I de III


Seridath ditou ao arauto as últimas ordens. Deveria partir em busca de Balgata e seus homens, para guiá-los ao casarão principal, residência do prefeito, onde iriam oferecer resistência obstinada. Iriam sangrar naquela batalha até a última gota. O garoto apenas assentiu e levou a trompa aos lábios, entoando o toque de agrupamento. Alguns guerreiros olharam para trás, surpresos. Quase não havia mais paliçada para ser protegida, uma vez que as brechas eram numerosas, sendo impossível repará-las ou ter homens para guardá-las.
Guerreiros e arqueiros foram se reunindo a Seridath, embora alguns estivessem tão feridos que eram arrastados ou carregados pelos outros. Um grupo de três ou quatro soldados se atrasou e foi engolido pela turba de zumbis que avançava sem deter-se. Os demais apenas ouviram os gritos desesperados dos homens, clamando pelos deuses, enquanto eram golpeados pelos machados dos inimigos. Sem sentir o menor vestígio de compaixão, Seridath apenas observava os casebres de madeira e cobertura de feno. Lembrou-se das casas queimadas com os infectados dentro. Teve uma ideia. Escolheu seis homens dentre o grupo que havia se ajuntado a ele. Os demais foram despachados com o arauto.
Seridath explicou com rapidez seu plano aos homens. Eles assentiram e espalharam-se, penetrando nas choupanas. Aldreth seguiu o amo. Entraram em um dos casebres. Em algum lugar acessível, deveria haver um pote de barro com brasas para acender o fogão e foi fácil encontrá-lo. Enquanto o arqueiro destampava o pote de barro e espalhava as brasas pelo chão, Seridath arrancava as pernas do único banco que havia na casa, envolvendo-as com palha e os trapos que deveriam ser usados como roupas pelos aldeões. Tinham quatro tochas, duas para cada um. Incendiaram-nas e deixaram o fogo pegar também na cobertura de feno. Logo as brasas espalhadas pelo chão de barro batido também produziam chamas que lambiam as paredes.
Os dois saíram rapidamente do casebre, correndo entre as casas e usando as tochas para incendiá-las. Seridath viu que outras quatro casas também ardiam, mas em poucos segundos o número triplicou, já que os telhados de palha eram quase colados uns nos outros. Junto com Aldreth, o rapaz já conseguira pôr fogo em outras cinco e logo as chamas se alastraram mais ainda. Para júbilo dos guerreiros, as chamas naturalmente repeliram os zumbis. Algumas casas, desabando, espalhavam brasas, bloqueando completamente a passagem.
Com o plano de Seridath, ganhariam tempo. O arauto voltou com mais homens e alguns camponeses que ajudaram a incendiar as casas em outros pontos da aldeia. Os aldeões realizavam o trabalho com lágrimas nos olhos, mas conscientes de que a vida era mais preciosa e casas poderiam ser reconstruídas. O fogo começou a formar um cinturão em volta do centro da aldeia, mas alguns guerreiros, por imprudência, viram-se cercados, entre as chamas e os mortos-vivos. Os que não morreram por golpes de machados e marretas dos mortos, lançaram-se nas chamas. Seus berros de desespero, ao serem engolidos pelas labaredas, foram ouvidos ao longe.
Seridath sequer olhou para trás. Seu trabalho naquele setor estava terminado. Lançou a tocha sobre o telhado do casebre mais próximo e disparou entre os becos estreitos da aldeia, tendo Aldreth logo atrás de si. Outros sete ou oito homens uniram-se à dupla, correndo de forma quase homogênea. Era até irônico, para Seridath, que aqueles homens, que provavelmente o desprezavam, terem acatado justamente suas ordens. "As mariposas voam em círculos, desorientadas, atraídas pelo fogo" pensou o cavaleiro, morbidamente. O fogo alastrava-se com mais rapidez que o esperado, mas um grande número de aldeões trabalhava para derrubar algumas casas mais próximas do centro de Keraz, formando barricadas e impedindo que as chamas se alastrassem demais. A noite fechava e a lúgubre luz do incêndio lançava sombras fantasmagóricas sobre os homens condenados.

Um comentário:

Fernanda Cristina Vinhas Reis disse...

Nossa, se eu não soubesse que você escreveu antes, diria que estou lendo o começo de Valar Dohaeris! Muito bom!

Pergunta: quantas vezes ele soprou a corneta? 3? :)

Beijos!