segunda-feira, março 11, 2013

O Desespero e a Noite - Parte V de VI

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Seridath se manteve na mesma posição, como se a chegada do líder do exército não fosse tão importante. Mas a troca de olhares que ambos tiveram naquele momento denunciava outra coisa. O rapaz temia a represália do andarilho, da reação que o velho teria para com ele. O cavaleiro olhou em volta. Não havia ninguém para testemunhar aquela conversa, pois os demais homens do destacamento estavam mais distantes, raspando suas tijelas de sopa, e o casebre mais próximo devia estar a uns cinqüenta passos. O crepúsculo findava, anunciando uma noite escura que se aproximava com rapidez. Seridath soltou um suspiro, enquanto descruzava os braços. Encarou então o andarilho, que parou diante do guerreiro com uma expressão enigmática. O rapaz estava atento, as próximas palavras seriam decisivas.
Esta noite prenuncia horrores, bravo guerreiro – a voz de Urso Pardo soou serena aos ouvidos do jovem.
Parece ser noite de maldições, velho. - respondeu o rapaz, suspirando - E uma maldição antiga, talvez milenar.
Como a que tu carregas contigo...
Seridath pareceu surpreso. Instintivamente, tocou a ponta do cabo de Lorguth, que ainda permanecia presa às suas costas, inútil. Urso Pardo estendeu as mãos, como se exigisse, silenciosamente, que Seridath entregasse a espada. O rapaz ficou na defensiva, mas viu que nos olhos do velho não havia hostilidade, mas apenas uma curiosidade quase infantil, como uma criança que deseja examinar um brinquedo exótico. Murmurou, como que esperando confirmar as intenções do andarilho:
Bem vi que você... er... o senhor notou a espada, por fim.
Eu notei desde o início. – respondeu Urso Pardo, com um sorriso. – Deixa que a examine, meu jovem.
Seridath desatou a espada e depositou-a, ainda embainhada, nas palmas das mãos do andarilho, que aproximou o punho da mesma e passou a examiná-la com minúcia. Usou o manto para proteger a pele da mão ao segurar o punho e puxar, com cuidado, a espada para fora da bainha. Ao ver a lâmina, o velho soltou um murmúrio de aprovação, como se confirmasse suas suspeitas.
Trata-se de um artefato mágico e muito antigo – disse com firmeza. – Se não me engano, esta espada é Lorguth, forjada no fim da Era dos Errantes.
Como sabe disso, velho? – perguntou Seridath surpreso. Ele próprio sabia apenas o nome da espada.
Nós não somos andarilhos à toa, como alguns pensam, rapaz. Também peregrinamos pelo mundo em busca de conhecimento. E essa espada é de fato algo notável. Dizem que um ser denominado "O Sombrio" a forjou.
Seridath lançou um olhar profundo ao ancião. Seu coração, pela primeira vez, gelou. Estava lidando com algo mais terrível do que podia imaginar. Urso Pardo notou a reação infantil do jovem e sorriu, embainhando Lorguth e devolvendo-a ao dono. O andarilho acenou para Seridath, para que caminhassem lado a lado, afastando-se alguns passos da paliçada.
Eu queria que tivesses a experiência de enfrentar malignas criaturas com essa espada. Creio que agora possuis pelo menos uma melhor noção do artefato em teu poder. Mas acalma-te. É uma espada poderosa, e ainda não sabes usá-la. Por tal motivo ela não te obedece.
O que devo fazer? – perguntou Seridath, sem conseguir esconder a aflição.
Tua vontade, meu jovem – respondeu o andarilho, enigmaticamente –, somente tua vontade é a chave para conseguires usar a espada. Se fores bem-sucedido em impor tua vontade sobre a lâmina negra, ela te obedecerá, e será eficaz com os inimigos mortos. Mas saibas que essa espada é perigosa, ela drena vida e deve se alimentar com sangue, para evoluir. Mortos não a alimentam, e por isso ela pode ser perigosa contra teus aliados, se ficar muito tempo sem matar.
Seridath assentiu. Já conhecera a voracidade assassina daquela lâmina negra.
Controla também a sede da espada, senão ela te consumirá, tomará teu ser e serás somente mais uma habitação para "O Sombrio". Se caíres, o mal que acometerá esta terra será infinitamente pior do que o que enfrentamos agora. Lembra disso.
Mas por que, velho, você me dá essa opção? – Seridath estava perplexo. – Por que não tomar a espada, por que não me expulsar da Companhia, me matar, por quê? Crê que eu sou tão forte que possa dominar essa espada tão antiga?
Não, rapaz, certamente não creio – a resposta de Urso Pardo deixou-o atordoado. – Mas somente os deuses podem determinar isso. Não és mau, somente confuso, e eu não posso trair as Leis e matar-te sem sofrer a ira divina. Serpente Flamejante, o Grande Andarilho, diz que "o peso de uma vida dá para esmagar o mundo." Muitos em nossa terra começaram bons, mas por não entenderem o valor de uma vida, terminaram tornando-se os mais terríveis entes que já existiram. Quem sabe um homem obscuro, portador de uma espada amaldiçoada, possa fazer o caminho inverso e tornar-se um guerreiro justo? A escolha em ter e usar a espada é tua, não minha. O caminho que trilhares será também o caminho que os deuses permitirão. Lembra-te dis...
Mas o discurso de Urso Pardo foi interrompido por um som seco de algo pontiagudo penetrando em carne. Um dardo acabava de atravessar a garganta do ancião.

Continua...

2 comentários:

Dora Delano disse...

Cada vez melhor, Nerito!

Tamires Mirele disse...

Olá, meu querido! Tem uma meme para você lá no meu blog http://tamiresmirele.blogspot.com.br/2013/03/em-rosa-um-coloca-cor-que-achar-melhor.html
Beijo!