segunda-feira, março 04, 2013

O Desespero e a Noite - Parte IV de VI

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Ao ouvir que Urso Pardo não seria hóspede em sua casa, Denor pareceu querer retrucar, mas apenas abriu a boca e, em seguida, fechou-a, enquanto baixava os olhos. Como Urso Pardo havia dito, aquele não era tempo para confortos ou formalidades. O andarilho queria estar próximo ao exército para organizar o alojamento e alimentação da tropa. Haviam trazido seus próprios suprimentos nos carros de boi, mas os militares careciam de legumes frescos, como batatas, nabos e cenouras.
Com muita presteza, os camponeses se ofereceram para ajudar nessa carência alimentar. Muitos deles haviam sofrido por causa da praga que se espalhara com rapidez. Não havia família que não houvesse perdido algum ente querido. Seu ressentimento se materializava na vontade de ver a Companhia prevalecer sobre os zumbis.
O destacamento olhava curioso ao que restara da aldeia, entre as cinzas das cabanas purgadas. Seridath, por seu lado, não pousara seu olhar para os aldeões uma vez sequer. O rapaz observava de longe Urso Pardo sempre atarefado, vagando de um lado para o outro, despachando ordens e recomendações. Via com interesse como o andarilho parecia estar desconcertado. O guerreiro adivinhava, e muito bem, que a tarefa estava mais difícil para o velho depois que o Conde de Arnoll negara seu apoio, impedindo que a Companhia estabelecesse sua base na forte cidadela. Essa verdade deixava o rapaz com uma sensação que beirava a satisfação. Afinal, não seria ele o único a fracassar. Não conseguia esquecer sua humilhação. A falha da espada doía-lhe como uma ofensa imperdoável. Distraído e sentindo um gosto ruim na boca, descobriu Aldreth, que parecia completamente perdido. O jovem permanecia sentado na beira de uma carroça e voltava-se para todos os lados com um olhar apático.
Aldreth não conseguia disfarçar sua comoção, ao ver as expressões vazias de tantas crianças. Sentia seu peito apertado ao ver aqueles pequeninos com ares de quem já cedo sabe não ter futuro. Além disso, o arqueiro era atormentado pelas mesmas visões que o perseguiram nos últimos dias, imagens dos extermínios anteriores.
Seridath se aproximou do garoto e despertou-o de suas lembranças com uma forte batida no ombro. Fitava o arqueiro com os mesmos olhos penetrantes e malignos. O garoto se lembrou de que fora o próprio “cavaleiro negro” que o metera naquele inferno, e seria mais que justo odiá-lo. Mas Aldreth simplesmente não conseguia. Quase sentia pena, pois como todos os outros, vira o fracasso quase ridículo de Seridath em usar aquela espada, inútil contra os mortos-vivos.
No que está pensando, rapaz? – perguntou o guerreiro. – Se tem alimentado lembranças desta guerra maldita, esquece! Isso só te levará à loucura.
E por acaso, haverá paz para homens como nós? – perguntou o garoto, com amargura. – Depois dos atos que cometemos, ainda que por honra, creio que seremos atormentados para o resto de nossas vidas.
Calma, jovem! – Seridath lançou um sorriso frio para o arqueiro. – Fale com Urso Pardo. Esse sim dará bons conselhos sobre como lidar com essa guerra. O homem é bom para curar corpos e almas.
Você... quer dizer, o senhor considera isso uma guerra?! – Aldreth demonstrava visível transtorno.
E o que mais poderia ser? Por acaso se você ficar parado diante daquelas coisas, elas irão poupá-lo?
Aquelas coisas foram gente! – gritou Aldreth. – Gente como eu e você!
Seridath manteve silêncio por alguns segundos, enquanto o pajem caía em si e seu temor retornava. O cavaleiro se aproximou do garoto de forma a intimidá-lo. Aldreth encolheu-se diante do ar ameaçador do amo.
Quer que eu lembre a quem você deve a vida, moleque? – murmurou Seridath, entredentes. – Sua insolência é um insulto ao meu orgulho, verme. Acho melhor lembrá-lo que você me pertence!
Aldreth, acuado, baixou a cabeça e suspirou:
Sim, Mestre, peço perdão.
O arqueiro fez menção de inclinar-se, mas Seridath o deteve, irritado:
Não se incline, imbecil, nem use a palavra “mestre” por aqui, pelo menos por enquanto. Você tem um juramento para comigo, mas o mesmo não nos exime do juramento que temos para com este lixo de Companhia. Você curvar-se aqui só me trará mais problemas.
Verdade... – Aldreth pareceu confuso e frustrado. Erguendo os olhos, perguntou, em desafio: – E a espada, tem funcionado melhor agora?
Seridath fitou o arqueiro, consternado, quase enfurecido. O garoto bem sabia a resposta. Aldreth afastou-se sem olhar para trás, buscando os demais arqueiros.
Seridath permaneceu sozinho, remoendo seu despeito. Aquele garoto iria pagar por sua impertinência. A verdade é que havia uma certa preocupação incomodando o guerreiro. Ele estava satisfeito com as dificuldades de Urso Pardo mas dedicava-se a esse sentimento para encobrir o pesar que invadia seu interior. Lorguth, ao não funcionar contra os amaldiçoados, revelara seu poder maligno. E era certo que Urso Pardo percebera esse detalhe. Intimamente, Seridath aguardava uma repreensão por parte do andarilho, talvez até um ultimato para que ele deixasse a Companhia. Mas o ancião não lhe dirigira a palavra durante toda a viagem e parecia até mesmo desconhecer sua existência. O jovem guerreiro somente sabia que Urso Pardo mandara dois mensageiros rumo ao sul, com cavalos emprestados por Denor. Aqueles mensageiros certamente trariam o famoso Serpente Flamejante, juntamente com toda a Companhia, para Keraz. O exército que viria, segundo Seridath ouvira falar, alcançava o número de três mil homens.
Ao fim da tarde, os guerreiros da Companhia receberam cobertores e pequenas tigelas com sopa com raros fiapos de carne e complementada pelos legumes que os aldeões haviam fornecido. Não tinha um gosto definido, mas estava quente e foi acompanhada por um pedaço de pão sem fermento. Após o jantar frugal, os três capitães distribuíram as sentinelas, montando em comum acordo a escala de vigia. Seridath fora um dos escalados para o primeiro turno. O jovem cruzou os braços e escorou suas costas na paliçada, soltando um suspiro profundo. Estava cansado e abatido, seu desânimo era profundo. Todos os seus planos agora pareciam-lhe totalmente ingênuos. Afinal, o que ele queria provar? E para quem? O que queria de fato conseguir em manter consigo aquela espada ao invés de livrar-se dela? E finalmente, por que fora enviado para encontrá-la? Quem o enviara?
Seus pensamentos foram interrompidos pelos os calmos passos do andarilho Urso Pardo, que se aproximava. Os olhos do velho estavam apreensivos e fitavam Seridath com firmeza. Pelo visto, a inevitável conversa estava para acontecer.

Continua...

3 comentários:

Fernanda Cristina Vinhas Reis disse...

Parece com o episódio de The walking dead que eu vi ontem! <3 Viciei nessa gora...

Beijos!

Vitor disse...

Tem selinhos lá no blog guardiaodamuralha.blogspot.com

Pam disse...

Ainda bem que já tem a continuação... 😊