sexta-feira, abril 09, 2021

A Tartaruga e o Coelho: uma outra história - Quando as diferenças aproximam


Nossa tradição oral é recheada de narrativas de exemplo. Bem no estilo das fábulas, temos histórias que exaltam valores como a paciência, a persistência e a astúcia, em contraponto à força, ao tamanho e à agilidade. Nessas narrativas, o macaco vence a onça, o rato supera o leão, a tartaruga ultrapassa o coelho. É possível perceber nessas histórias sempre uma constante: a concorrência. Os animais sempre aparecem como adversários, concorrentes, inimigos. 

Como uma forma de homenagear o conto popular e ao mesmo convidar leitoras e leitores para a reflexão, a escritora, contadora de histórias e musicista Beatriz Myrrha nos brinda com uma obra de rara beleza, sem abrir mão do humor.

A Tartaruga e o Coelho: uma outra história apresenta uma versão bem diferente daquela tradicionalmente contada. Beatriz Myrrha se vale de toda a criatividade e talento que possui para tecer uma narrativa de solidariedade, empatia e afeto. Ambientada no período em que o Criador fez o mundo, a história fala sobre a busca por identidade e aceitação, de solidariedade e amor. 

Com o objetivo de entender melhor sua função no mundo, o Coelho decide partir em busca da moradia do Criador, de forma a pedir seu manual de instrução e seu certificado. No caminho, encontrará a Tartaruga e com ela empreenderá uma penosa jornada de autoconhecimento.

A história que Beatriz Myrrha conta é profunda, bem-humorada e cheia de leveza. Seu texto, enriquecido pelos anos de experiência como contadora de histórias e musicista, é aconchegante, atrativo e belo. Tem o estilo certo de alguém que trata a Palavra com muita seriedade. 

Destaco também o traço belo e marcante de Suryara Bernardi, que torna o livro uma obra visual de profunda beleza. É possível observar o estilo de um desenho que cativa, com o mesmo aconchego que perpassa o texto. As imagens também contam a história e apresentam uma evolução em cada um dos dois viajantes.

Este é mais um dos maravilhosos trabalhos de Beatriz Myrrha, uma artista múltipla, que mostra no seu texto o cuidado e a generosidade de alguém que trata a Arte da Palavra com todo o cuidado que esta merece.



Ficha Técnica

A Tartaruga e o Coelho: uma outra história

Beatriz Myrrha

Ilustrações de Suryara 

ISBN-13: 9788562805615

ISBN-10: 8562805610

Ano: 2016 

Páginas: 40

Idioma: português

Editora: Rona


Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/a-tartaruga-e-o-coelho-uma-outra-historia-11870677ed11868277.html

Ela e os acidentes de leitura


Para Norma de Souza Lopes

Eu aprendi poesia na Bíblia

disse ela sobre seu percurso

com as letras da música pop

foi formando seu repertório.

Leu muita Sabrina, muita Bianca

E se não tivesse lido, ela pergunta,

será que seria outra?

E declara: esses acidentes literários

me constituíram.

Assim, eu bebo com sofreguidão

todas as suas palavras

e com elas tento aprender

quarta-feira, abril 07, 2021

Vídeo: A Cidade Suspensa - Capítulo V

 


Estamos aí com mais um capítulo do meu livro A Cidade Suspensa. Para conferir, é só clicar no vídeo acima.

Distopia sanitária II


Jair Carluxo estava exausto. Ao começar aquela semana, o inspetor de polícia nunca imaginaria que teria um caso daqueles em suas mãos. Talvez ninguém imaginaria. Afinal, vinte anos depois do Grande Expurgo dos Assintomáticos, era a primeira vez que um homicídio culposo por covid acontecia.

O inspetor Jair Carluxo Bolsominion Rodrigues foi chamado à sala do Superintendente no início da semana. Com tantos anos de trabalho, imaginou que não deveria ser algo importante. Talvez mais um convite para se filiar ao Partido da Fé em Cristo, ou para a Associação de Bolsonaristas Históricos. Foi com grande surpresa quando descobriu que tinha em seu colo um Inquérito de Óbito Sanitário. E pior ainda foi saber que a causa da morte era Covid-23.

Agora a semana ia pelo meio e o policial estava exasperado por se ver em um beco sem saída. E não era para menos. Ninguém falava de assintomáticos desde o Grande Expurgo. E com a tecnologia de rastreamento genético, qualquer óbito causado por agente aéreo transmissível poderia identificar o transmissor. 

O grande problema, porém, era que o DNA coletado não estava presente no banco de registro de assintomáticos. Com tantos postos de controle, era impossível que alguém com sintomas andasse livremente pela cidade. Ou então o assintomático teve seu registro apagado deliberadamente. 

Jair Carluxo suspirou. Precisava de respostas e com urgência. Dois ou três influencers já pressionavam a Secretaria de Segurança Semipública para noticiar aquela morte. E o superintendente continuava a insistir que precisava tuitar o nome do suspeito até sexta-feira, mesmo que tivesse que apagar depois.

O inspetor de polícia ignorava, mas já havia cruzado com o assintomático no meio daquela mesma semana. E assim como a vítima daquele caso, Jair Carluxo logo estaria morto.

sexta-feira, abril 02, 2021

A Rainha da Neve - Histórias grandes e pequenas sobre amor e ternura


Uma menina que vai até o ponto mais gelado do mundo para salvar seu amigo de infância. Um casal apaixonado cuja história é recontada e revivida a partir de um sabugueiro. Uma gola que passa a se achar muito importante, só porque foi aparada por uma tesoura. Estes são alguns dos contos que fazem parte da coletânea A Rainha da Neve, o segundo volume de uma coleção da Livraria do Globo (que um dia iria se tornar Editora Globo).

A Rainha da Neve pega emprestado o título do primeiro conto deste volume. Dá para perceber o caráter fantástico dos contos, embora haja narrativas carregadas de um caráter de crítica social. Em A Rainha da Neve nós podemos perceber um tom esperançoso, luminoso nos contos que compõem este volume. Há também um tom de humor prosaico, ingênuo, em muitas das narrativas.

Neste volume, há alguns dos mais famosos contos de Andersen. Entre eles, "Os cisnes selvagens", que inspirou meu livro Patos Selvagens, "A pequena vendedora de fósforos", que nele recebe o título "A menina dos fósforos", "O soldadinho de chumbo" e finalmente "O rouxinol". É importante destacar também a primorosa ilustração desta obra. Os desenhos, lindamente feitos por Roswitha Wingen-Bitterlich acabam por conferir o tom mágico e maravilhoso ao conjunto da obra.
 

Ninguém pode negar a importância de Hans Christian Andersen para a literatura infantil mundial. Tanto que seu aniversário, dia 2 de abril, marca justamente a celebração internacional do livro infantil. Andersen, em seus contos, mostra profunda sensibilidade e imaginação. Outro ponto a se observar em muitas das obras de Andersen é o protagonismo feminino. Porém, muitas vezes estas protagonistas acabam por ser obrigadas a grandes sacrifícios e provações. Muitas delas fatais.

Aproveito para destacar que o motivo que me levou a escolher o segundo volume para começar a ler esta coleção foi puramente afetivo. Tenho uma memória antiga de um conto de minha tia Evelyn Medina, inspirado justamente no conto "A Rainha da Neve". Fui descobrir essa relação muitos anos depois. Porém, a imagem do espelho se estilhaçando e um pequeno fragmento entrando no coração de um menino foi forte o suficiente habitar minha imaginação por longos anos. Como muitas de minhas leituras, devo à Tia Beve a busca incessante de uma imagem descoberta em minha infância, finalmente encontrada por entre as páginas amarelecidas do livro A Rainha da Neve.

Feliz Dia Internacional do Livro Infantil.


Ficha Técnica

A Rainha da Neve

Hans Christian Andersen

Ilustrações de Roswitha Wingen-Bitterlich

Tradução de Pepita de Leão

Ano: 1959 

Páginas: 319

Idioma: português

Editora: Editora Globo


Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/a-rainha-da-neve-75132ed437388.html

quarta-feira, março 31, 2021

Vídeo: A Cidade Suspensa - Capítulo IV


 

Saudações, leitoras e leitores! Hoje eu venho com o quarto capítulo do meu livro A Cidade Suspensa. Agradeço a audiência e os comentários!

Amadurecido


Via um novo começo de era

de gente fina, elegante e sincera,

mas percebeu que a humanidade

anda a passos de formiga e sem vontade.


sexta-feira, março 26, 2021

Sob o caminho uma rajada de ventos - Um olhar da quebrada para o mundo


A quebrada é um lugar muito em voga hoje em dia. Afinal, várias pessoas estão surgindo da periferia com suas vozes, suas identidades, suas percepções do mundo e, principalmente, suas histórias. Da quebrada surgem discursos da chamada "literatura marginal", contrapondo-se contra discursos dominantes, conservadores e homogeneizantes.

Karine Bassi é uma dessas vozes que emergem da quebrada. Uma autora jovem que assume em si a realidade do termo "escrevivência", onde uma voz encarna não uma idinvidualidade, mas uma identidade coletiva, muitas vezes silenciada. Como escritora, editora e agitadora cultural, Karine Bassi tem um percurso já longo. Agora, ela se lança com muita propriedade na publicação de seu primeiro romance, Sob o caminho uma rajada de ventos.

A narrativa fala de Sofia, uma jovem universitária que mora sozinha em uma periferia de Belo Horizonte. Escrito em primeira pessoa, o texto apresenta os receios, as esperanças e principalmente as estratégias de sobrevivência da jovem, enquanto ela discorre de suas esperanças, seus receios e amores. Há um tom de denúncia no texto, embora o mesmo não seja carregado ou revoltoso. Sofia tem um discurso equilibrado, calmo, apesar de toda a luta e sufoco que ela passa.

Poético, consciente e fluido na leitura, o romance de Karine Bassi nos envolve até o final. Um livro que se propõe aberto, apresentando um percurso difícil, mas não trágico. A história de uma mulher negra que luta, se revolta, mas não desiste e encontra beleza na sua quebrada. Ela não se conforma, continua lutando, mas não assume o discurso de superação que a sociedade branca e conservadora adora utilizar.


Ficha Técnica:

Sob o caminho uma rajada de ventos

Karine Bassi

ISBN-13: 9786586656077

ISBN-10: 6586656079

Ano: 2020 

Páginas: 160

Idioma: português

Editora: Venas Abiertas


Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/sob-o-caminho-uma-rajada-de-ventos-11855495ed11854221.html

quarta-feira, março 24, 2021

Vídeo: A Cidade Suspensa - Capítulo III



Olá a todas as pessoas que estão acompanhando os vídeos do meu livro A Cidade Suspensa. Compartilho nesta quarta o vídeo da leitura do terceiro capítulo.


Até a semana que vem!

O precioso tesouro do príncipe encantado

Imagem de Andreas Fiedler por Pixabay

Como todo dia, o jovem e belo Príncipe acordou cedo. Vestiu sua armadura, colocou a capa e cingiu a espada. Montou em seu cavalo branco e cavalgou através do portão do castelo.

Atravessou campos verdejantes.

Subiu e desceu escarpas assustadoras.

Singrou desertos escaldantes.

Refrescou-se em oásis deslumbrantes.

Matou três dragões medonhos.

Salvou uma ou duas princesas lindíssimas. A primeira, adormecida. A segunda, presa em uma torre que ele escalou. Deixou cada uma delas em seus reinos de origem. Elas se despediram com suspiros e promessas de beijos.

Retornou pelos desertos, escarpas e campos.

Chegou, coberto de poeira e fuligem do fogo dos dragões, ao seu castelo. Adentrou os portões. Subiu as escadas da torre mais alta de seu castelo. 

O dia findava. O príncipe sentia um profundo alívio. A melhor parte do dia estava para chegar.

Entrou no único cômodo da torre mais alta do seu castelo. Trancou a porta. Retirou a capa, pendurou a espada e deixou a armadura num canto. Foi até a o parapeito da única janela. Pousou o cotovelo no parapeito e descansou o queixo, enquanto contemplava o belíssimo pôr-do-sol.

Para enfim, tranquilamente, tirar ouro do nariz.

terça-feira, março 23, 2021

Suka - Para Suzanna Medina Dias


Desde bem pequenina

Ela já era uma fortaleza

Com sua voz de menina

Esbanjava plena certeza.


Senhora, soberana rainha

Seu nome já proclamava

Quem diria, minha maninha

Um grande futuro aguardava


E fui testemunhando

A força dela crescer

Suzanna, desabrochando,

Mostrou que nasceu pra vencer!


Feliz aniversário, minha maninha. Amo você!


segunda-feira, março 22, 2021

Um sábado de poesia, memórias e saudades


No último sábado, dia 20 de março, estive em uma laive no perfil do Instagram do Sesc Palladium. Foi um momento muito agradável e descontraído. Dividi o espaço com pessoas especiais, como a Mariana (https://instagram.com/perolasdenana), uma artista-mirim cativante. Também conheci o Jorge (https://instagram.com/oprogramadojorge), um fantoche super engraçado e a palhaça (https://instagram.com/jacubira).

O tema do encontro foi o dia da poesia, comemorado em 21 de março. Já o dia do contador de histórias era naquele mesmo sábado, 20 de março. Recitei o poema "Tombo", da amiga e mestra Norma de Souza Lopes


Depois desse encontro virtual tão bacana, segui para o outro encontro. Esse era mais sério, embora igualmente proveitoso. Foi nossa laive de homenagem ao companheiro de histórias, Márcio Rodrigues, recentemente falecido. Fizemos uma transmissão ao vivo, onde trocamos histórias e lembranças de nosso amigo. Como ele era um grande contador de causos e piadas, as lembranças trouxeram saudosos sorrisos aos nossos lábios.

Deixo aqui registrado meu agradecimento à equipe do Sesc Palladium, em especial à Vivi e à Gizele. E agradeço também ao grupo de Contadoras de Histórias da Biblioteca Infantil e Juvenil de Belo Horizonte, à Beatriz Myrrha e ao Rodrigo Teixeira.

Quem quiser conferir minha conversa no programa #Tem Todo Sábado, pode acessar o link aqui (https://www.instagram.com/tv/CMprGyNFHew/?igshid=cmuvq6gfdj22

O encontro em homenagem ao Márcio pode ser conferido abaixo:




sexta-feira, março 19, 2021

As lendas de Dandara - Uma heroína nas bordas da História



Dandara é uma figura misteriosa. Descrita como a companheira de Zumbi dos Palmares, pouco se sabe dela. A partir dessa escassez de informações, a escritora e cordelista Jarid Arraes resolveu cercar a heroína de magia e dar-lhe o caráter épico que ela merece. Assim, nascem As lendas de Dandara.

Com um ar mítico, a narrativa nos leva pela vida de Dandara, desde seu nascimento até sua "morte", ou melhor, seu retorno à essência divina. A protagonista desse romance juvenil é uma mulher determinada, destemida e cercada de um poder transcendente. Dandara é uma figura de muita força e com um talento nato para a guerra.

Ao ler a obra de Jarid Arraes, encontrei elementos muito interessantes. O primeiro é a origem de Dandara. Filha de Iansã, Dandara foi concebida pela iabá* como enviada para a libertação do povo negro, que se encontrava escravizado. Assim, a personalidade de Dandara foi sempre a de guerreira, de mulher questionadora e inventiva. A ausência da figura masculina na concepção de Dandara é emblemática, pois assim ela se coloca como uma figura divina, da encarnação da vontade de Iansã, da personalidade guerreira da poderosa iabá.

É importante destacar que a narrativa não assume uma perspectiva histórica. Apesar de haver um elemento biográfico, marcado por fatos históricos (afinal, é a vida de uma pessoa histórica), a autora e narradora faz questão de construir uma trama épica, com heroísmo e fantasia. Um dos pontos de destaque nessa construção está na própria personalidade de Dandara, como uma enviada divina, com a missão de liderar o povo negro na luta contra os escravocratas e na proteção do poderoso quilombo de Palmares.

Outro elemento que me chamou atenção foi como Dandara foge aos padrões físicos que cercam o imaginário contemporâneo. No lugar de uma figura esguia e esbelta, temos uma mulher de quadris largos e membros grossos. Uma mulher que no seu corpo também desconstrói os padrões dominantes.

Não posso deixar de comentar também que há uma pitada de romantismo no livro. Apesar de coadjuvante, Zumbi dos Palmares recebe algum destaque, principalmente em suas conversas com Dandara, nos encontros amorosos dos dois e na exigência da guerreira pelo merecido reconhecimento de suas capacidades como líder do exército de Palmares.

Com muita ação e heroísmo, apresentando uma Dandara que, embora divina, também não deixa de ser humana, As lendas de Dandara aparece como uma obra seminal, importante para a construção de um outro imaginário, com a importante mensagem de que um outro mundo é possível. E que uma outra História também precisa ser contada.

* Feminino de orixá.


Ficha Técnica:

As lendas de Dandara

Jarid Arraes

ISBN-13: 9788529301945

ISBN-10: 8529301943

Ano: 2016 

Páginas: 128

Idioma: português

Editora: Editora de Cultura


Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/as-lendas-de-dandara-517636ed639273.html

quinta-feira, março 18, 2021

Live ao vivo no Instagram do Sesc Palladium

Neste próximo sábado, dia 20 de março, estarei no perfil do Instagram do Sesc Palladium para falar de Literatura. Vem comigo?



Dia Mundial da Poesia, com Samuel Medina

📍Data: 20 de março

📍Horário: 15h

📍Transmissão ao vivo aqui pelo Instagram: @sesc.palladium


quarta-feira, março 17, 2021

Vídeo: A Cidade Suspensa - Capítulo II

 


Olá a todas as pessoas que visitam este humilde espaço literário. Compartilho nesta quarta o vídeo da leitura do segundo capítulo do meu livro A Cidade Suspensa.

Até a semana que vem!

Um encontro com o Capeta do Vilarinho


Era um rapaz muito bonito. Seu cabelo crespo era bem curtinho, cortado à máquina. Sua pele negra tinha uma textura fascinante. Ele tinha uma voz ainda em transição, que variava do barítono ao tenor. Tinha um porte físico já proeminente. Um pouco baixo para a idade, reconheço. Mesmo com 15 anos, tinha a minha altura, embora eu fosse 3 anos mais novo.

Naquela noite, ele tinha uma confissão a fazer. Estava no baile em que o Capeta do Vilarinho apareceu. 

Contou que todo mundo parou de dançar quando ele chegou. Ninguém desconfiava que era um ser sobrenatural, é claro, mas atraiu os olhares com sua presença marcante. Até a música parecia ter parado. Ele foi para o centro da pista e começou a dançar.

Ninguém dançou o break como ele. Alguns, mais ousados, arriscaram acompanhar, mas logo desistiram, diante das manobras que ele fazia. O povo tinha voltado a dançar, tentando se distrair, mas logo tiveram que parar, fascinados com o movimento.

Em instantes, a roda estava formada. Todo mundo batia palmas. Era uma festa maior que a festa. Parecia que agora o baile tinha realmente começado. Ele dançou de tudo o que tocava. Mulheres e homens o desejavam. Queriam ser como ele, ser dele.

Nisso, a música parou por uns segundos. Era meia-noite. O dançarino sem querer deixou o boné cair. Ele se abaixou para pegá-lo. Foi quando todo mundo, até quem estava bem longe, viu o par de chifres despontando na cabeça dele. Ergueu-se com um sorriso zombeteiro, dentes pontudos e olhos vermelhos.

Um estouro de fumaça e um fedor de enxofre. Correria, gritos, gente se empurrando. Ninguém queria ficar na quadra coberta, nem mesmo o DJ.

Meu amigo encerrou o relato dizendo que, na noite em que encontrou o Capeta do Vilarinho, decidiu virar evangélico. 

Vinte e cinco anos depois de ouvir essa história, eu me pergunto por onde andará aquele rapaz bonito e reservado que, em um culto em minha casa, revelou ter sido testemunha ocular de uma das maiores lendas urbanas de Belo Horizonte. 


sexta-feira, março 12, 2021

Comida de fada: A infância roubada a pequenas mordidas


Uma menina esperta e imaginativa recebe o convite para se divertir entre as fadas. Parece o início de uma aventura mágica e maravilhosa. Ninguém desconfiaria que, na verdade, essa é a abertura de um conto macabro. 

Comida de fada, obra de Val Armanelli, faz justamente esse movimento. Apresentando uma protagonista que tem tudo da criança precoce na imaginação, mas ainda cheia da fantasia da infância, trata-se de uma história em quadrinhos que vai mostrar como o mundo das fadas pode ser frio e assustador.

A leitura de Comida de fada foi extremamente perturbadora. Talvez fossem as cores alegres e fortes, ou a profusão de guloseimas, ou a insidiosa referência ao filme O labirinto do fauno. Talvez o conjunto de todas essas coisas e outras mais fossem sussurrando para mim que algo extremamente distorcido e errado acontecia, enquanto a heroína era constantemente aliciada pelas pequeninas fadas a comer os doces de uma mesa farta, ainda que a menina estivesse sem fome.

Outro ponto que achei marcante na obra de Val Armanelli é o silêncio ensurdecedor. Ainda que as fadas falem o tempo todo, ainda que a menina responda, há uma total impossibilidade de comunicação. Talvez uma referência à terrível solidão infantil. Afinal, uma criança vive em um mundo de gigantes, sempre mais fortes, sempre impondo suas vontades. Torna-se então uma fina ironia que sejam as fadas, quase invisíveis de tão pequenas, a constantemente impor suas vontades durante a narrativa.

Com cores de contrastes marcantes e um ar enganosamente encantado, Comida de fada é uma viagem estética que mostra como sonhar pode ser perigoso e assustador.



Para quem deseja conferir o trabalho de Val Armanelli, Comida de fada está na reta final de sua campanha de financiamento. Para conhecer um pouco mais - e contribuir - basta acessar a página da HQ no Catarse.


Ficha Técnica:

Comida de fada

Val Armanelli

Edição Independente

quarta-feira, março 10, 2021

Vídeo: A Cidade Suspensa - Capítulo I

Compartilho aqui com vocês a leitura do meu livro A Cidade Suspensa - Capítulo I. 



Para ler online ou baixar o livro em pdf, basta acessar aqui: http://www.oguardiaodehistorias.com.br/p/a-cidade-suspensa.html.


Até a próxima semana!


Distopia sanitária


10 de março de 2041

São seis da manhã. Hoje acordei passando mal. Fui ao banheiro e peguei um teste rápido de Covid. Deu positivo. Felizmente, estou com sintomas fortes o bastante para não me considerarem uma pessoa assintomática. Depois que fizer a consulta online, terei um diagnóstico oficial. Será a vigésima terceira vez que pego covid.

Ontem, quando voltava do trabalho, prenderam uma assintomática no vagão em que eu estava. Não sei como descobriram, todo mundo estava de máscara.

Pra onde levam todos os assintomáticos? Li na Deep Web que eles vão parar em campos de testes para novas vacinas. Não sei se acredito nisso. Tem gente que diz que eles são extraditados. 

Tinha um rapaz assintomático no final da minha rua. Eu me lembro da noite que levaram ele. Foi horrível. Ele nunca mais voltou.

Estou com meu cartão covid em dia. Com sorte, vou ter vaga na UTI se piorar. Com sorte.

sexta-feira, março 05, 2021

O Aquário - O cárcere da loucura


 
Como o confinamento forçado pode afetar nossa mente? Esse impacto pode variar, de acordo com o nosso grau de conformidade? Diante de uma situação em que a nossa liberdade é suprimida, devemos nos conformar ou buscar uma saída? 

O Aquário, de Cornélia de Preux, conta a insólita experiência de uma família que acaba confinada em seu porão durante as férias. Constantin, o pai, havia declarado aos vizinhos que levaria a família para uma viagem às Ilhas Fiji. Sem dinheiro para manter a palavra, porém, ele acaba se trancando com a esposa e os três filhos no porão durante o período programado para a viagem.

Tem início então uma trama repleta de tensão. Tatiana, a mulher de Constantin, era a única que sabia do plano doentio do marido. Sem forças para enfrentá-lo, porém, ela acaba deixando que ele concretize o projeto. Os filhos, pegos de surpresa, haviam sonhado por meses com a paradisíaca viagem. Traídos, eles são transportados ao porão enquanto dormiam e acabam tendo que se resignar a uma prisão rígida, com uma programação inflexível, vítimas dos caprichos loucos de um pai que, da noite para o dia, torna-se seu carcereiro.

Não bastasse a decepção da viagem frustrada, as três crianças, Kevin, Violet e Vladmir, precisam participar de módulos em que terão que fingir estarem em Fiji, pois deverão manter a mentira após as férias. Pelo menos é isso que Constantin quer.

É interessante observar que a trama de Cornélia de Preux busca explorar o labirinto psíquico de Constantin e Tatiana, em especial desta. Durante a leitura, somos mergulhados no emaranhado de questionamentos e temores da mulher. De Constantin, experimentamos a insanidade e os sentimentos tenebrosos que cultiva contra Kevin, o filho mais velho, maior opositor ao projeto do pai.

O Aquário é uma obra-prima que acaba vindo de encontro ao tempo em que estamos. Forçados a um confinamento, vítimas de uma ameaça invisível, somos obrigados a criar estratégias de sobrevivência, buscando válvulas de escape para manter a nossa saúde emocional. Felizmente, contamos com momentos de fugidia liberdade, ao contrário das infelizes vítimas do romance de Cornélia de Preux. 


Deixo aqui meus agradecimentos ao José Vicente, coordenador do grupo de leitura coletiva Amigos Pra Valer, bem como para Maria Isabel Brant e Maurício Moura.

*Errata em 11/03/2021: Não havia agradecido à minha grande amiga, Kátia Mourão. Foi através dela que conheci esse grupo que tem me levado a outras sendas da leitura literária.


Ficha Técnica:


O Aquário

edição bilíngue

Tradução de Reto Melchior e Maurício Moura

Cornélia de Preux

ISBN-13: 9788569789062

ISBN-10: 8569789068

Ano: 2019 / Páginas: 248

Idioma: português

Editora: LF Publicações 


Perfil do Livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/o-aquario-11819567ed11819932.html

quarta-feira, março 03, 2021

Vídeo: O sumiço das leituras

Olás! Hoje eu compartilho um vídeo diferente. Nele, eu explico o sumiço da maioria das leituras que gravei para o canal.


Abraços e até semana que vem!

sexta-feira, fevereiro 26, 2021

Os possuídos e o amuleto sagrado - A Jornada do Herói no coração de Minas Gerais


Nós que somos amantes da literatura de fantasia estamos muito acostumados a narrativas épicas ambientadas em mundos distantes ou, pelo menos, em um cenário estrangeiro. Até mesmo escritores brasileiros se aventuram a criar narrativas fantásticas em solo norteamericano ou europeu, com nomes em estrangeiros e tudo o mais. Sendo assim, sempre é uma grata surpresa quando nos deparamos com uma narrativa que acontece aqui, em nossas terras. No meu caso, morador de Belo Horizonte, Minas Gerais, fiquei ainda mais feliz ao ter em mãos uma narrativa de fantasia bem escrita com um enredo que se desenrola principalmente em BH.

Romance de estreia de Armando Alves Neto, Os possuídos e o amuleto sagrado conta do jovem Pedro, um rapaz que se considera completamente normal. Dono de uma história incomum, porém, o rapaz acha que ter sido adotado por um velho caminhoneiro não seja nada demais. O que ele ignora são as circunstâncias da adoção. Na véspera de sua ida ao exército, para cumprir o alistamento militar obrigatório, o rapaz encontra uma estranha e bela mulher. A partir desse encontro, Pedro fica conhecendo um pouco mais sobre seu passado e descobre que precisa fugir de Brasília, onde mora.

Assim dá-se início a uma jornada que leva o jovem a Belo Horizonte e, posteriormente, a Lagoa Santa e à Serra do Cipó. Outra jornada, porém, acontece no interior do rapaz, ao descobrir o segredo sobre os possuídos e sua luta contra uma organização sinistra. Seu conhecimento vai se aprofundando, enquanto a trama ao seu redor vai se tornando complexa e ameaçadora. Ele não sabe em quem confiar, pois a única pessoa que realmente conhece havia ficado para trás, em Brasília.

Um ponto a se destacar em Os possuídos e o amuleto sagrado é seu texto, maduro e muito bem escrito. A leitura flui muito bem, com um estilo agradável de se ler, o que é fundamental em uma narrativa com doses de suspense e mistério. Destaco também que as cenas de ação são muito bem escritas, com uma qualidade visual impressionante. Assim, os trechos movimentados passam de forma ligeira, sem contudo o leitor se perder ao imaginar o que acontece. 

Outro elemento interessante na obra é a concepção das personagens. São muito bem descritas e construídas. Armando Alves Neto, porém, não carrega demais nessa construção, de forma que não há descrições excessivas e cansativas. As características e personalidades de cada pessoa vão se destacando ao longo da leitura, de forma bastante natural.

O enredo é também muito bem definido e desenvolvido. É possível perceber que a narrativa se baseou na Jornada do Herói, modelo que orienta a maioria das histórias heroicas, desde a saga de Harry Potter à trilogia O Senhor dos Anéis. Portanto, as revelações e desafios que Pedro terá à sua frente são escalares em um crescendo até um desfecho, que promete a continuação de desafios maiores ainda em volumes seguintes.

Decidi falar pouco sobre os possuídos do título. Essa decisão se dá porque acredito que seja algo muito agradável para cada leitora e leitor descobrir o significado dessa palavra através da leitura. Como moramos em um país cristão (infelizmente, estado laico é só para éticos), a palavra "possessão" é vista sempre com grande carga pejorativa. Desconstruir essa ideia é um exercício muito válido, tanto como experiência estética quanto como possibilidade de expansão de nossa visão de mundo.

Com um texto envolvente, um enredo instigante e ótimas personagens, Os possuídos e  o amuleto sagrado é uma fantástica jornada. Uma história digna de ser lida, compartilhada e sonhada. E que seja a primeira de muitas sobre as descobertas e dilemas de Pedro sobre Os possuídos e o amuleto sagrado.


Ficha Técnica

Os Possuídos e o Amuleto Sagrado 

A Saga dos Possuídos - Livro 1

Armando Alves Neto

ISBN-13: 9788581084671

ISBN-10: 8581084672

Ano: 2016 

Páginas: 422

Idioma: português

Editora: Giostri Editora


Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/os-possuidos-e-o-amuleto-sagrado-342272ed383971.html

sexta-feira, fevereiro 19, 2021

As Mil e Uma Noites - Uma jornada de escuta e afeto



O afeto é algo poderoso. Desde o início desse distanciamento forçado, em que não nos foi possível realizar atividades presenciais, estivemos cultivando nossas relações através das conexões eletrônicas. Encerrados em nossas residências, por dias a fio sem colocar o pé fora de casa, passamos a usar as mídias sociais como forma de manter muitas de nossas relações interpessoais. 

Uma dessas iniciativas foi o grupo da Roda de Leitura da Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de BH. Iniciativa do amigo Wander Ferreira, bibliotecário na BPIJ, os encontros virtuais começaram a acontecer semanalmente. Foi em um desses encontros que soube de uma preciosidade. Em um gesto de grande carinho e compromisso, minha amiga Áurea Lana Leite começou a ler As Mil e Uma Noites, na versão de Antoine Galland, para algumas pessoas, entre elas o próprio Wander e outra amiga, a Kátia Mourão. Ao ficar sabendo dessa notícia, pedi para participar.

Foi assim que teve início minha jornada por essa visão ocidentalizada de uma saga oriental. Digo isso porque Galland, renomado orientalista, fez uma tradução adaptada da obra islâmica, fazendo várias interferências no texto, que considerou violento e de moralidade questionável. Contudo, muito da beleza presente na obra original permaneceu na versão de Galland e foi por esses textos que eu viajei, através da voz da amiga Áurea.

Antes de tudo, preciso comentar da qualidade da voz da leitora. A cadência, o tom, o ar tranquilo, esses elementos auxiliaram na imersão da narrativa. Áurea foi uma narradora ímpar, como excelente contadora de histórias que é. Foi fundamental que a serenidade de sua voz fosse transmitida a nós, ouvintes. Senti-me acolhido por essa leitura. E não apenas isso. A cada novo dia, recebendo um novo áudio, percebia nesse gesto um enorme cuidado. 

E pela voz da Áurea pude literalmente viajar para longe do meu apartamento. Estive em vários pontos do oriente, desde a Bagdá de Haroun Al-Rachid, até os confins do mundo, em lugares mágicos e oníricos. Nessas histórias, pessoas comuns se misturavam a princesas e príncipes. A partir da narrativa de traição da antiga esposa de Shariar, Sherazade foi tecendo relatos de injustiças, jornadas de redenção, buscas pela riqueza e revezes do destino. 

Em um curso que fiz com a mestra Gislayne Matos, aprendi que Sherazade atua como uma grande mentora de Shariar, usando os contos como alegorias para que ele perceba a própria impiedade. E com esses olhos fui observando que de fato muitas mulheres são injustiçadas ao longo de tantas narrativas. E muitas delas reagem a essa injustiça com inteligência e habilidade. Assim, vamos aprendendo com as inúmeras personagens, com seus erros e acertos, sua humanidade.

Foram mais de 300 noites ouvindo com Áurea sobre tantas vidas e mortes. Alguém pode perguntar por que não foram 1001, como o título da obra anuncia. Em determinado momento, as noites pararam de ser contadas no texto. Assim, Áurea continuou a ler, contando as noites da leitura, desvinculadas das noites da narrativa. 

Algo que me incomodou bastante foi a visão pejorativa que o texto carrega contra África e o povo negro. São comentários que sempre colocam as pessoas negras em lugar de vilãs ou escravizadas. Ainda que seja reflexo de uma época e cultura, é importante problematizarmos essa faceta grave de um texto tão seminal.

Com diversas e maravilhosas histórias, As Mil e Uma Noites foi uma narrativa que me fez muito bem em um momento em que eu me sentia assustado e temeroso. A incerteza do mundo, as perversidades do presidente, as mortes sem sentido, tudo isso foi mitigado. Através da voz da Áurea, sentia-me acolhido e fui capaz de sonhar.


Ficha Técnica

As Mil e Uma Noites

Antoine Galland

ISBN-13: 9788520936870

ISBN-10: 8520936873

Ano: 2015 

Páginas: 1120

Idioma: português

Editora: Nova Fronteira


Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/as-mil-e-uma-noites-445456ed504724.html

quarta-feira, fevereiro 17, 2021

Vídeo: A Cidade Suspensa - Samuel Medina

Hoje trago um vídeo que eu deveria ter feito há muitos anos. Faço a apresentação do livro A Cidade Suspensa em uma edição pelo Senhor da Lenda. 


Assista também aqui: https://youtu.be/31Dc3OBkapU


Para fazer o download gratuito do livro: http://www.oguardiaodehistorias.com.br/p/a-cidade-suspensa.html

sexta-feira, fevereiro 12, 2021

Histórias com Café - Aroma e sabor ao pé do ouvido


Quem é mineiro não dispensa um bom café. Aqui, nas terras de Minas, uma visita é sempre recebida com um cafezinho e, de preferência, acompanhado de um pão de queijo ou uma broa de fubá. Evidentemente, a combinação é mais que propícia para estimular uma boa prosa.

Foi nesse espírito que as contadoras de histórias Aline Cântia e Bárbara Amaral criaram o podcast "Histórias com Café". Surgido em 2020, no contexto adverso de distanciamentos forçados, isolamentos físicos e muito medo, veio como um respiro em meio a tanta angústia. As duas amigas se uniram para cultivar a Arte da Palavra com o que ela pode trazer de melhor: fazer sonhar e, ao mesmo tempo, refletir. A concepção contou também com a contribuição de Isabel Miranda. A produção é por conta do Chicó do Céu. 

Confesso que fui cativado por esse projeto mesmo antes de sua estreia. Em conversas com Aline e Bárbara, ao ser informado da iniciativa, fiquei logo ansioso para escutar. Afinal, há anos acompanho o trabalho delas. Tenho, inclusive, o privilégio de participar, com elas, do Coletivo Narradores. 

Muito se engana quem imaginar que apenas pela via do afeto e da familiaridade me tornei ouvinte desse podcast. Realmente, sou fã incondicional tanto da Aline quanto da Bárbara. Porém, ao acompanhar cada episódio que ia ao ar às terças-feiras, fiz um percurso pessoal de aprendizado e reflexão. Temas como o tempo, a solidão, o sagrado, o sonho, entre outros igualmente relevantes, são desfiados e analisados com muita sensibilidade. Cada episódio traz uma história que se liga ao tema de forma íntima, profunda e saborosa. O repertório atravessa diversas tradições e culturas, tendo como fonte figuras ilustres como Clarissa Pinkola Estés e Malba Tahan.

É importante ressaltar que em diversos episódios foram convidadas pessoas que enriqueceram ainda mais cada episódio, compartilhando histórias envolventes e refletindo sobre as mesmas. Também ressalto que a equipe de apoio desse projeto realiza um trabalho primoroso no aspecto técnico, com trilha sonora, identidade visual e divulgação nas mídias sociais.

Em 2020 foram 17 episódios. Se contarmos uma transmissão ao vivo pelo Instagram, chegaremos a 18 episódios repletos de sabedoria, afetos e muito, muito café. Nesta semana, dia 9 de fevereiro, tivemos o primeiro episódio de 2021, com o título Sobre Receber. A equipe cresceu, agora contando com as presenças de Ana Fonseca e Paula Libéria. E ao abordar esse tema tão importante, nossas amigas fazem questão de que as ouvintes a receber o que há de melhor em matéria de sensibilidade, cuidado e escuta.

Para escutar no Spotify:

https://open.spotify.com/show/3XyW13FNgxv5k8XEPxz0R7

Acompanhe os perfis nas mídias sociais:

https://instagram.com/historiascomcafe

https://facebook.com/podcasthistoriascomcafe

quarta-feira, fevereiro 10, 2021

Vídeo: O Jogo - Samuel Medina

 


Olás! Hoje eu trago uma música de minha autoria. É uma composição que fiz há mais de dez anos, mas somente hoje tomei coragem para compartilhar.


O Jogo

Vem contar todas aquelas histórias de luar
Vem falar sobre a magia revelada em cada olhar

Que rescende amor
Que afasta a dor
Leva o calor
Esta linda flor

De fogo...

Você pode confiar neste lindo jogo

O Amor.


Até semana que vem, com mais um vídeo!

sexta-feira, fevereiro 05, 2021

O guia do mochileiro das galáxias - humor e criatividade na dose de uma dinamite pangalática


NÃO ENTRE EM PÂNICO. Acredito que essa frase é muito útil em inúmeras situações. Seja em momentos em que a gente descobre que perdeu as chaves de casa em uma sexta-feira depois daquela saideira do bar. Ou então ao descobrir que não viu aquele e-mail do chefe, enviado uma semana antes, mandando fazer aquela tarefa "pra ontem". Ou até mesmo em casos de inevitável demolição de um planeta para a construção de uma via expressa hiperespacial.

Essa é a frase de ordem estampada na capa do mais famoso e prestigiado guia de viagens do universo, O guia do mochileiro das galáxias. Não é por nada que ele também empresta o nome a um dos livros mais inventivos de nossos tempos. Escrito por Douglas Adams, o livro dá início a uma saga de cinco volumes narrando as desventurosas aventuras do inglês Arthur Dent, seu "parça" Ford Prefect, o mais humano dos alienígenas, dentre outras excêntricas personagens. Uma delas é Marvin, o robô maníaco-depressivo. Outra é Tricia Mcmillan, ou Trillian, a ousada astrofísica e companheira Zaphod Beeblebrox, um bon vivant totalmente caótico que, após alcançar o cargo de presidente da galáxia, orquestra um dos maiores roubos da história do universo.

Com tudo o que já foi dito, é possível ter uma leve ideia do que encontrar em O guia do mochileiro das galáxias. Antes de tudo, trata-se de uma narrativa repleta daquele humor crítico em que o mundo da ficção científica funciona como uma alegoria da contemporaneidade. Douglas Adams utiliza-se de conceitos complexos da astrofísica, da filosofia e até mesmo da literatura para tecer suas refinadas e deliciosas críticas.

Outro ponto interessante na narrativa é que Arthur Dent, improvável protagonista, surge para negar a jornada do herói. Como uma espécie de "Ulisses de araque", ele passa a maior parte do tempo sem fazer a mínima ideia do que está acontecendo. Claro, sua reação poderia ser proveniente do choque de ter o seu planeta natal transformado em vapor. Porém, muitos anos-luz serão percorridos até que o impossível herói dessa saga espacial terá o mínimo de noção do que está acontecendo e qual o seu papel no universo.

Não é preciso falar muito para atestar a maestria de Douglas Adams ao conceber sua "Odisseia Galáctica". O trabalho magnífico desse grande escritor é mundialmente conhecido. Porém, é sempre bom reafirmar a importância de um clássico como esse. Afinal, nele está contido um dos maiores mandamentos do Universo: NÃO ENTRE EM PÂNICO.


Ficha Técnica

O guia do mochileiro das galáxias

Douglas Adams

ISBN: 9788599296943

Editora: Sextante

Ano: 2010

Páginas: 156


Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/o-guia-do-mochileiro-das-galaxias-225ed344547.html

quarta-feira, fevereiro 03, 2021

Vídeo: O Sabichão - Ricardo Tokumoto



Olás! Hoje tem vídeo novo! Vamos assistir? Desta vez, trago a leitura de O Sabichão, um interessante trabalho do quadrinista Ricardo Tokumoto.

Até a próxima semana!


sexta-feira, janeiro 29, 2021

Ualalapi - O estertor de um império


Por vezes, esquecemos que  não somos os únicos que falam uma língua imposta por um invasor europeu. A nossa língua materna, aquela que nós brasileiros usamos com orgulho e muito ciúme, veio do outro lado do Atlântico, junto com espada, chumbo, pólvora, chicote e muito sangue.

Como já disse, não somos os únicos detentores dessa ambígua "herança". No percurso de invasão ao que futuramente se chamaria "Américas" e "Brasil", os emissários do reino de Portugal traçaram uma rota de muita violência. E deixaram feridas que supuram até nossos dias.

Ualalapi, do moçambicano Ungulani Ba Ka Khosa, é um romance nada convencional. Desprovido de um protagonista, o enredo parte da perspectiva do guerreiro que empresta o nome ao livro. Ele recebe a ordem de Ngungunhane, último imperador de Gaza, para matar o príncipe Mafemane. 

A partir desse relato, uma sequência de fragmentos contam uma história impossível de ser narrada, justamente por seu caráter frágil, múltiplo e irregular. Essa história conta sobre o Império de Gaza, que ocupava a região que hoje conhecemos como Moçambique. E da ruína desse império surge uma colônia que até 1975 estava sob o domínio de Portugal. 

Ualalapi é um livro difícil, principalmente pelas sombras e abismos que revela. No livro, um mundo de espíritos ancestrais sofre uma inevitável dissolução. Seja por conflitos internos ou externos, é possível observar que o tom é de constante perda. Não apenas pelo enredo irregular, mas principalmente pelas violências perpetradas.

A oralidade é outro elemento marcante do texto de Ungulani. Os frequentes discursos, bem como os diálogos, carregam constantes marcações coloquiais. Em dado momento, é levantada a questão do uso do Português, língua imposta a uma população falante de diversas outras línguas. Em um tom de amargura, o texto questiona os valores ocidentais.

Com sua narrativa múltipla, seu tom de amargurado testemunho e sua composição fragmentária, Ualalapi é um verdadeiro épico, uma epopeia daqueles que, embora derrotados e mortos, continuam até nossos dias a bradar seus protestos por alguma justiça. 


Ficha Técnica 

Ualalapi

Ungulani Ba Ka Khosa

ISBN-13: 9788561191924

ISBN-10: 8561191929

Ano: 2013 

Páginas: 125

Idioma: português

Editora: Nandyala


Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/ualalapi-59182ed65221.html

quarta-feira, janeiro 27, 2021

Vídeo: Mandala - Leila Míccolis

Olá a todas, todes e todos! Compartilho hoje um poema de Leila Míccolis, chamado "Mandala". Agradeço ao amigo Sérgio Fantini, que me emprestou o livro no qual encontrei este poema.




Até o próximo vídeo, semana que vem!

sexta-feira, janeiro 22, 2021

A espiral de Netuno - A vida em vórtice


Uma espiral é um fenômeno curioso. Algo que ocorre na natureza em diversas circunstâncias. Em umas, é inofensivo, como uma concha de um marisco ou de um caracol. Em outras, é algo avassalador, como um tornado, um furacão ou um sorvedouro.

E ao pensar na imagem do sorvedouro, somos remetidos diretamente ao título do livro A Espiral de Netuno. Escrito por Mishal Katz, este livro de poesia está dividido em 3 partes: O Adulto, A Criança e O Futuro.

Na primeira parte, temos poemas questionadores, repletos de amargura, solitude e desencanto com a vida.

Já a segunda carrega um forte maneirismo e um senso de experimentação e curiosidade. Como que simulando o que há de melhor no comportamento infantil, o eu lírico testa, experimenta, transgride. Os poemas zombam da noção de sentido e forma.

A terceira parte, por fim, assume um tom admoestatório. Os poemas surgem carregados de conselhos, assumindo também um tom esperançoso, em contraponto à amargura do Adulto.

Mergulhar na leitura de A Espiral de Netuno foi uma experiência interessante, uma possibilidade para refletir, discordar e também questionar. Era como se os poemas me convidassem a girar sobre meu próprio eixo. Como se o centro do sorvedouro, o fundo da espiral, fosse aquilo que nós, seres humanos, temos em comum: o próprio vazio da existência. 


Ficha Técnica 

A Espiral de Netuno

Mishal Katz

ISBN-13: 9786590195715

ISBN-10: 6590195714

Ano: 2019  

Páginas: 156

Idioma: português

Editora: Katz


Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/a-espiral-de-netuno-984508ed1107904.html



quarta-feira, janeiro 20, 2021

Vídeo: Ai! Sou apenas um livrinho - Soraia Magalhães e Bernardo Bulcão


Olá a todas as pessoas que acompanham este blog. Hoje trago mais uma leitura em vídeo. Trata-se do mais recente lançamento de  Soraia Magalhães, com os desenhos de Bernardo Bulcão.

Ai! Sou apenas um livrinho lança a Coleção Timtim, publicada pela Editora Tuya.




sexta-feira, janeiro 15, 2021

Sem gentileza - Dor e perda rumo à esperança


O que fazer quando o seu destino parece traçado? Como reagir quando esse destino não oferece alternativa e tudo parece conspirar contra todas as suas tentativas de uma vida um pouco menos cruel? Quando homens que deveriam proteger só trazem desgraça e tristeza?

Talvez essas sejam algumas das questões que atravessam a mente e o coração da jovem Mvelo. Com apenas 15 anos, a garota precisa cuidar da mãe aidética, enquanto se vê vítima de uma violência brutal. Essas não são as únicas aflições da jovem. Moradora de uma favela na África do Sul, Mvelo se vê cercada das piores condições de vida, com ninguém a quem recorrer a não ser ela mesma.

Assim tem início o romance Sem gentileza, de Futhi Nshingila. Ambientado em uma África do Sul após o apartheid, a narrativa mostra como a segregação racial ainda se faz presente na sociedade sul-africana, principalmente através da pobreza, do descaso do governo, da ausência de moradia digna e de acesso à saúde. Outras tantas mazelas cercam Mvelo e sua mãe. Por exemplo, a exploração religiosa e o machismo predatório que vitimam muitas jovens negras.

Nem tudo é desgraça e tristeza, porém. Mvelo encontra em Nonceba, uma jovem advogada, uma figura de referência, alguém que é capaz de se impor, que não se submete a homem algum. Além disso, Nonceba parece protegida pelos espíritos ancestrais. As pessoas que a temem pensam que Nonceba é feiticeira. O poder dessa mulher, de fato, por vezes parece sobrenatural. Contudo, o que mais é perceptível na personalidade de Nonceba é seu pulso firme, além de sua competência e da total confiança em si mesma.

Através de uma escrita direta e concisa, Nshingila guia o leitor, convidando-o a testemunhar diversas vidas e histórias, com momentos cruciais de morte e vida, ressaltando a força da ancestralidade que vai de encontro com os valores ocidentais e brancos. Assim, com um romance repleto de dor e perda, a autora vai traçando um texto de denúncia, expondo as mazelas a que estão submetidas tantas mulheres africanas.

Durante a leitura de Sem gentileza, talvez o leitor irá se perguntar: "Será que existe alguma esperança?" Contudo, mais do que procurar um alívio para as personagens do romance, certamente é fundamental a cada um de nós refletir nosso papel nessa teia, nesse emaranhado de vidas que continuam sofrendo os efeitos de séculos de violência, preconceito e segregação.


Sem gentileza

Futhi Ntshingila

Tradução de Hilton Lima

 R$ 26,91 até R$ 44,90

ISBN-13: 9788583180791

ISBN-10: 8583180792

Ano: 2016 

Páginas: 160

Idioma: português

Editora: Dublinense


Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/sem-gentileza-593558ed594744.html

quarta-feira, janeiro 13, 2021

Vídeo: O mal do Lobo Mau - Cláudio Fragata e Luiz Maia



Um lobo doente e uma ovelha enfermeira. Isso só pode dar confusão. Acompanhe as peripécias do lobo adoentado. Será que ele sara ou não? E o que será da ovelha se ele resolver fazer uma refeição?


Ficha Técnica:


"O mal do Lobo Mau"

Claudio Fragata

Luiz Maia

ISBN-13: 9788538520269

ISBN-10: 8538520261

Ano: 2009 

Páginas: 24

Idioma: português

Editora: Positivo




Mais histórias e poesias em: http://www.oguardiaodehistorias.com.br/

sexta-feira, janeiro 08, 2021

Canção sem palavras - Sobre tudo que é impossível dizer


Há livros que prometem reverberar para sempre em nós. Por vezes nos arrebatando apenas uma vez, por outras nos atraindo para mais uma leitura. Foi o que aconteceu comigo quando terminei de ler Canção sem palavras, de Laura Cohen Rabelo.

Romance de viagem, esse livro conta o périplo de Maria Teresa, Matê, por fronteiras e continentes. A maior parte da narrativa, porém, acontece em Israel. Matê é judia e por isso tem o direito a uma viagem por esse país, financiada pelo programa birthright

A oportunidade dessa viagem torna-se também uma possibilidade de mudança e transformação. Antes de viajar, Matê estava em crise. Violonista de sucesso, ela faz um duo com o namorado, Arie. Tudo parecia estar dando certo para eles até que o rapaz decide romper o relacionamento e desaparecer. Matê se sente traída e abandonada. Para quem tinha tantas certezas, agora tudo parece incerto.

Assim, a moça empreende uma viagem que também representará um mergulho em seu interior, na história de seu povo e de sua própria família. Como todo rito de passagem, essa jornada muda profundamente a jovem, assim como o deserto, que parece sempre o mesmo, está em constante mudança. 

Ainda que escrevesse milhares de palavras, talvez não conseguiria expressar tudo o que esse romance significou para mim. As referências musicais, os elementos geográficos e históricos, a escrita lírica e ao mesmo tempo contida de Laura Cohen Rabelo, esses e outros elementos elevam esse livro à condição de obra-prima. 

A narrativa fala de muito do que não pode ser dito, por mais que as pessoas tentem verbalizar. A relação entre Matê e as pessoas que ela ama, por exemplo, ou mesmo o que o violão significa para ela, ou como toda a jornada que faz vai movendo o seu interior, na certeza de que nada é permanente.

Por fim, ao terminar a leitura, também me senti contaminado por esse sentido que não conseguia definir. Algo que parecia saudade, nostalgia, uma pequena e doce tristeza. No deserto do meu interior, nesse deserto marcado no tempo em que estamos, o deserto chamado pandemia, pude ser impactado pela certeza de que tudo muda, de que tudo vai mudar.


Ficha Técnica

Canção sem palavras

Laura Cohen Rabelo

ISBN-13: 9788594940148

ISBN-10: 8594940149

Ano: 2017 

Páginas: 280

Idioma: português

Editora: Scriptum


Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/cancao-sem-palavras-745393ed748336.html

quarta-feira, janeiro 06, 2021

Convite - Contar Histórias - Universidade da Cidade - UFMG


Quero fazer um convite. Estaremos hoje dando início a encontros literários no canal do Espaço do Conhecimento da UFMG (youtube.com/espacoufmg).

Confira a Programação:

06/01 - A poesia na boca (leituras de Cora Coralina) – Equipe da Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte

13/01 - Do terror ao riso na literatura brasileira – Equipe da  Biblioteca do Centro Cultural Liberalino Alves de Oliveira

20/01 - Leituras de Conceição Evaristo – Equipe da  Biblioteca do Centro Cultural Vila Santa Rita

27/01 - Do chapéu à fita - os muitos modos de contar uma história (leitura do conto "Fita verde no cabelo", de Guimarães Rosa) – Equipe da  Biblioteca Centro Cultural Salgado Filho

Vamos lá?


 



segunda-feira, janeiro 04, 2021

Pesadelos de Pandemia

Fonte: https://pixabay.com/pt/photos/lugares-perdidos-keller-elevador-1928727/

Ele tinha pressa, pois a reunião estava para começar. Não precisava correr, era só ligar o computador, mas a pressa o fazia pensar em sair correndo para não chegar atrasado. Como a maioria das coisas que acontecem em sonho, isso não fazia sentido.

Conseguiu então fazer o notebook funcionar. Entrou em reunião através do link, mas foi como se adentrasse pesados portões. Apesar disso, estava com o microfone e câmera desligados. Até aí, tudo bem.

Foi subitamente chamado para fazer uma apresentação. Porém, ele não tinha preparado nada; havia se esquecido da tarefa. Mesmo assim, tinha que apresentar alguma coisa. Resolveu improvisar.

Abriu o microfone e começou a falar. Foi aí que percebeu: estava pelado. Conferiu a câmera e sentiu alívio ao constatar que ela estava fechada. Então por que todos estavam rindo como se vissem algo ridículo? O alívio deu lugar à desconfiança e esta, ao medo. Passou a achar que todos conseguiam ver que estava pelado, mesmo com a câmera desligada. Também não conseguia entender como sabia que todos riam dele, se a tela do notebook também estava desligada. 

Seu maior pesadelo acontecia: acessar uma reunião de teletrabalho com a sensação de ter esquecido de ligar o computador.