segunda-feira, abril 22, 2013

Lorguth - Parte II de IV

Ir para Lorguth - Parte I

Seridath ouviu o estardalhaço e percebeu, com o rabo do olho, que Balgata lançava seu oponente a uma boa distância, fazendo-o bater contra a parede de madeira de outro casebre semidestruído. O adversário de Seridath aproveitou a distração para lançar um último ataque. Contudo, era uma distração aparente. O cavaleiro bloqueou a lâmina da esquerda e fintou, desviando-se do corte que vinha pela direita, embora o fio da cimitarra tivesse chegado a fazer um talho em sua orelha. O cavaleiro aproveitou para fazer descer Lorguth contra o braço estendido do oponente, decepando-o. A criatura urrou, enquanto seu sangue negro derramava-se pelo chão. Da ferida feita à altura do cotovelo quatro antebraços começaram a nascer simultaneamente, em espasmos descontrolados. Seridath não esperou a recuperação do inimigo. A criatura tentava bloquear com a cimitarra que restara, mas o guerreiro foi mais rápido em escorar a defesa do outro. Jogando o corpo para frente, ele estocou, perfurando o tronco da criatura.
Aquele foi o primeiro momento que Seridath matava após ter devidamente despertado os poderes de Lorguth. Foi uma experiência ímpar. Era como estar mergulhado em uma profunda escuridão e perceber a chama de uma tocha à sua frente, sentindo o calor dessa chama tornar-se seu próprio calor, enquanto a tocha era apagada num instante. Seridath não fechou os olhos por nenhum momento, mas foi assim que ele percebeu tudo. E adorou cada milésimo de segundo. O cavaleiro também recebeu, por um instante, os sentimentos e intenções de seu inimigo. Sentiu todo o ódio, o rancor e a surpresa da derrota. E essas sensações não foram menos deliciosas.
A criatura morta parecia agora um esboço de boneco, sem rosto ou contornos definidos.
Ei! Ei!!! – gritou Balgata ao lado de Seridath.
O quê? – perguntou ele, saindo de seu êxtase.
Quer morrer, idiota!? O fogo já está quase chegando aqui!
Balgata virou-se e retornou ao lugar que havia arremessado seu oponente. O capitão recuperou sua espada, que mantinha o cadáver do inimigo preso aos escombros do casebre. Seridath voltou-se para Aldreth e observou o arqueiro tremer, encolhido contra a parede de madeira. O cavaleiro levantou seu pajem com um puxão violento pelo pulso. O garoto nem parecia assustado, mas catatônico. Voltaram a correr pelo labirinto dos casebres, derrubando qualquer zumbi que surgisse em seu caminho. Seridath foi o primeiro a alcançar o centro da aldeia, sendo seguido por Aldreth, Balgata e os demais.
Pararam todos em frente à casa do prefeito, que estava lotada de refugiados. Na varanda e nas janelas, arqueiros e anões estavam postados em ângulos estratégicos. Parte do telhado havia sido removido e alguns dos aldeões também estavam lá, junto com os homens do Juiz Anfard e do Senhor Denor. Carregavam arcos e bestas de caça. Dava para ouvir o pranto e as lamúrias de dentro do casarão, sons que se misturavam com os gritos de pavor das vítimas e gemidos incompreensíveis dos mortos-vivos. Aquele tal de Culliach, o sacerdote, devia estar bem ocupado. Seridath não deixou de achar graça naquilo tudo. Pelo menos, havia conseguido o que queria. Lorguth estava sendo útil em suas mãos.
O incêndio alcançava o centro da aldeia, tornando a fumaça ainda mais densa. Pelo menos, o fogo parecia funcionar mesmo contra os zumbis, pois até aquele momento, nenhum havia se aproximado. Os homens permaneceram alertas, esperando os inimigos surgirem do meio da escuridão e da fumaça. Estranhos grunhidos e som de correria foram gradativamente tomando forma além do campo de visão dos guerreiros sobreviventes. Parecia improvável, mas os sons de uma misteriosa batalha ecoavam no meio da escuridão. Seridath, com os olhos ávidos, perscrutava o que ocorria por detrás do manto enfumaçado. Seus olhos captavam algumas cenas de luta corporal entre seres que ele não conseguia distinguir.
Subitamente, irrompeu dos escombros e da fumaça a figura de um dos mortos-vivos carregado seu machado. Tinha perdido o braço esquerdo e uma das pernas parecia torcida. Ele mancou feroz rumo ao grupo de guerreiros que estava em frente à casa. Mas dois outros seres vieram em seu encalço. Pareciam vagamente humanos, mas não mais que o zumbi que perseguiam. Vestidas de farrapos, essas criaturas tinham pústulas e erupções por todo o corpo avermelhado e, de alguma forma, pareciam familiares a Seridath. O rapaz sentiu a mão trêmula de Aldreth tocando seu braço.
Re-Rerfard! Dri-Driscol ta-ta-também! – gaguejou ele para Seridath. – Os bandidos... os bandidos que você matou!
Seridath olhou atordoado para arqueiro. As criaturas acabavam de despedaçar o inimigo com as unhas e os dentes. Uma delas voltou os olhos vermelhos e injetados para o cavaleiro e depois sumiu na escuridão, sendo seguida pela outra. Engolindo em seco, Seridath olhou para sua espada Lorguth. Agora tudo parecia fazer sentido. Aquela arma concedia uma morte amaldiçoada para quem caía pelo seu fio. Depois de morto, o inimigo era obrigado a lutar pelo portador da espada. Era esse o poder tão maligno do "Sombrio"?

Um comentário:

Anônimo disse...

Em construção, da uma lida e opinião... já esta metade escrito, mas as postagens serão semanais...
http://www.cesarnafloresta.blogspot.com.br/