sexta-feira, abril 26, 2013

O Espadachim de Carvão - Quando ser Deus não é o bastante

Fonte: divulgação
A passagem da adolescência para a vida adulta é um grande desafio, um verdadeiro problema, principalmente em nossa sociedade, que demanda cada vez mais de nossas crianças uma postura diferenciada, individual, assertiva, enquanto busca proteger nossos "jovens" da responsabilidade que desaba sobre eles quando da chamada "maioridade". Assim, a criança hedonista e ultrapoderosa subitamente se vê novamente indefesa, quando percebe que precisa desbravar o mundo por conta própria, que seus pais não são deuses de fato, que ele na verdade está sozinho e, para viver, deverá ultrapassar os limiares de seu mundo particular - sua casa - e enfrentar o mundo real, com todos os seus absurdos.

Pois é assim mesmo que Adapak, protagonista de O espadachim de carvão, romance de estreia de Affonso Solano, sente-se o tempo todo. Filho de Enki'När, um dos Quatro Que São Um, deuses de Kurgala, o jovem de pele negra como carvão é presa de uma implacável caçada, sendo perseguido por todo o continente, sem ao menos saber o porquê. Adapak foi criado na Casa de Enki'Nar, tendo recebido toda a instrução necessária, inclusive no manejo de armas, embora sua perícia não seja suficiente para que ele não se sinta o tempo todo acossado, perdido, vagando no escuro. 

Numa terra repleta das mais bizarras criaturas, com diversas espécies inteligentes, Adapak terá em seu caminho os mais diferentes personagens, sejam eles honrados ou trapaceiros, sensatos ou loucos. Tendo seu conhecimento e principalmente sua inocência como guias, o jovem guiará o leitor pelo tortuoso caminho do mundo de Kurgala, um caminho sangrento, enigmático e sobretudo revelador.

É importante destacar que a narrativa de Solano tem um ótimo ritmo e adquire um equilíbrio excelente nas cenas de ação. O universo de Kurgala, com suas espécies e sua cultura, é enorme e rico. O autor expande ainda mais esse universo quando, ao início de cada capítulo, insere como epígrafe um trecho retirado de algum dos inúmeros livros que Adapak leu, ou então uma citação das tábuas Dingirï, as escrituras sagradas daquele universo.

É interessante como Solano busca dar um aspecto realístico à sua narrativa, tentando afastar-se do tom fantasioso e do lugar-comum dos elfos e dragões, para desenhar toda uma mitologia própria, que mostra referências claras com as obras de H.P.Lovecraft e outros textos, como a Cabala.

A narrativa é fragmentada. O leitor começa conhecendo Adapak já em sua situação de presa, perseguido por guerreiros implacáveis de diversas espécies. De forma intercalada, os capítulos então recuam para o passado, reconstruindo a vida do jovem, de forma que o leitor lentamente possa descobrir como essa perseguição começou, enquanto o próprio Adapak, confuso e amedrontado, lentamente caminha rumo a uma terrível revelação.

E como afirmei no início deste texto, a jornada de Adapak serve também de alegoria para o amadurecimento do jovem, sempre traumático, pois amadurecer é também perder um pouco da inocência. O status de filho de um deus não lhe confere garantias de que será bem-sucedido em sua empreitada. Sua divindade é posta em prova a todo o momento, não apenas no campo físico, mas também  no emocional. E talvez seja justamente sua parte menos divina seja aquilo que garantirá alguma possibilidade de sucesso.

Repleto de personagens dinâmicos, com cenas ricas em detalhes, O espadachim de carvão mostra-se o trabalho árduo de Solano na busca de configurar um universo amplo, capaz de vários atravessamentos. Assim, arrisco dizer que o romance de estreia de Affonso Solano é de longe uma das melhores produções de fantasia e ficção científica que tenham surgido nos últimos anos.

Ficha técnica

Edição: 1
Editora: Fantasy - Casa da Palavra
ISBN: 9788577343348
Ano: 2013
Páginas: 256


Página do livro no Skoob: http://www.skoob.com.br/livro/307603/

2 comentários:

Isabelle Brum disse...

Olá, bom dia ^-^
Interessante a história desse livro. Já tinha visto uma sinopse dele antes, mas não sabia do que se tratava exatamente a história. Obrigada por compartilhas conosco :)
Parabéns pela resenha.
Beijinhos e boas leituras.
Isabelle - http://attraverso-le-pagine.blogspot.com.br

Jéssica Soares disse...

Adorei a premissa desse livro desde quando ele foi lançado e só venho lendo elogios em resenhas dele. Acho que já está na hora de comprar o meu exemplar! Ótima resenha!
Jéssica - http://lereincrivel.blogspot.com.br/