Sinto saudade dos abraços.
Dizer isso é pouco.
Sinto falta do toque
do calor.
Desse pertencimento
que só se transmite assim,
pele na pele.
Ai como sinto
com toda força
o não sentir.
Blog do escritor e contador de histórias Samuel Medina. Aqui você encontrará resenhas de livros, contos, crônicas, relatos de experiência e poemas. Além de informações sobre meus livros.
Dizer isso é pouco.
Sinto falta do toque
do calor.
Desse pertencimento
que só se transmite assim,
pele na pele.
Ai como sinto
com toda força
o não sentir.
No romance, conhecemos Nuno, um rapaz jovem e alegre, amante da vida e muito esperto. Por saber que, sendo mestiço, tem poucas chances de ascensão social, Nuno busca nos negócios uma chance de melhorar sua vida. O problema é que o jovem tem uma dívida com um português, aparentado com o Intendente Geral de Polícia, que responde diretamente a D. João VI.
A situação se complica para Nuno quando o credor da dívida aparece morto e seu corpo, mutilado. Temendo que a culpa caísse sobre ele, o jovem inicia uma investigação por conta própria, enquanto se aproxima do responsável pelo caso, o intendente em pessoa.
Além da voz de Nuno, temos também Muana Lómuè. Ela foi escravizada e trabalhava para a vítima. Moçambicana, Muana tem poderes que os olhares europeus não conseguem explicar. Muana fala de seu povo, macua, e sua Grande Mãe, Nipele. Muana tem capacidade de enxergar os mortos. Há outras duas personagens que trabalhavam para a suposta vítima: Roza e Marianno. Cada um deles tem características marcantes e poderes misteriosos.
Enquanto acompanhamos as vozes de Nuno e Muana, vamos nos questionando qual seria o verdadeiro crime. Não seriam os horrores provocados pelos traficantes das pessoas escravizadas? Cada capítulo se abre com um anúncio de jornal e alguns deles são de pessoas vendidas para o tráfico de escravizados. Os anúncios foram de fato consultados em documentos dos jornais do Brasil colonial. E mostram a vileza dos portugueses em negociar vidas inocentes, inclusive crianças.
Um elemento interessante é que a autora com sua obra homenageia o romance policial, com reviravoltas e mistérios que envolvem cada personagem. O livro, porém, não é um romance policial e sim uma obra de denúncia social e um romance histórico. Uma obra poderosa sobre a resistência de povos que foram retirados à força de sua terra, mas que lutaram para que sua terra não fosse arrancada deles.
Ficha Técnica
O crime do Cais do Valongo
Eliana Alves Cruz
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ISBN-13: 9788592736279
ISBN-10: 8592736277
Ano: 2018
Páginas: 202
Idioma: português
Editora: Malê
Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/o-crime-do-cais-do-valongo-782206ed787048.html
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| Imagem de Frank Winkler por Pixabay |
Uma noite, ele acordou e não conseguiu mais dormir. Foi beber uma água. Enquanto virava o copo na boca, olhava distraidamente pela janela.
Havia uma luz na casa abandonada. Era uma luz fraca, de lamparina, candeeiro. Ele não deu muita importância. Até que a imagem de uma bela moça surgiu na janela. A moça era jovem e tinha uma beleza melancólica.
No dia seguinte, ao ir para o trabalho, passou em frente à casa. Ela tinha a mesma imagem de decrépito abandono. Achou que havia sonhado.
A insônia continuou. Era sempre no mesmo horário que ele despertava e perdia o sono. Da cozinha, via a moça melancólica. Uma noite, ele percebeu que a moça se despia sob luz da lamparina. Excitado, ele não conseguia tirar os olhos dela.
Quando então a moça virou-se para a janela e fitou o rapaz. Ele estremeceu, enquanto ouviu alguém sussurrar em seu ouvido esquerdo:
- Tá olhando o quê?
Nós é uma antologia de contos indígenas. Organizado por Maurício Negro, o livro traz contos que abordam a vida na comunidade, bem como recontos de mitos de origem, sempre primando pelo tratamento literário. Ao final de cada conto, há uma nota sobre o povo representado na narrativa, bem como uma nota da autoria. São 12 pessoas que assinam os contos, que são 10.
As narrativas abordam o amor, a amizade, a morte e a origem Algumas estão situadas em um relativo presente; já outras remontam o tempo mítico, em que humanos, animais e plantas falavam a mesma língua.
Foi bom conhecer tantas diferentes visões de mundo. Até a forma de falar apresenta um tom coloquial que não deixa de ter certa cerimônia, certo tom solene, como se assumisse um ar sagrado para a palavra.
Maurício Negro assina também as ilustrações. Seu traço busca homenagear as feições dos povos originários, sem cair no figurativo, muito menos no caricatural. São desenhos que mostram o propósito do ilustrador de homenagear os povos originários.
Com o texto de quarta capa assinado por Daniel Munduruku, Nós é um mergulho no meio de muitas vozes. E tal mergulho deve ser feito com respeito, com oferta de escuta. Como se na voz de todos estivesse guardado o silêncio de cada um.
Nós: Uma antologia de literatura indígena
Vários autores.
Organização de Maurício Negro
ISBN-13: 9788574068640
ISBN-10: 8574068640
Ano: 2019
Páginas: 128
Idioma: português
Editora: Companhia das Letrinhas
Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/nos-918784ed925269.html
No próximo sábado, terei o privilégio de participar da laive Conta Comigo, do Grupo Afeto. Será um momento maravilhoso de histórias, brincadeiras e muito Afeto. Venha assistir e prestigiar! Conto com a presença de todes!
Sábado 17/07/2021 às 16h, no Instagram do Grupo Afeto!
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| Imagem de Free-Photos por Pixabay |
O amigão chamou o menino para dormir na casa dele. Foi muito legal. Comeram sanduíches, tomaram sorvete, jogaram videogame até tarde. Seria aquilo a felicidade? O menino ficou pensando, antes de dormir.
No dia seguinte, foram tomar café com a família do amigo. O pai do amigo não estava, mas chegou ainda no meio do café da manhã. Ele passou a mão na cabeça do amigo, fazendo um cafuné nos cabelos bagunçados dele. Chamou o amigo de "filhão".
O menino sentiu uma coisa estranha no peito. Um tipo de buraco. Não conseguia se lembrar do seu pai. Nem sabia se tinha pai. Ficou na dúvida, perguntando para si mesmo se ele tinha ou não tinha pai. E se ele não tivesse pai? O que ele teria feito de errado para não merecer um pai?
E foi nessa hora que o menino entendeu. Foi nessa hora que ele descobriu que felicidade era ter um carinho como aquele. Felicidade era ter um pai pra chamar a gente de "filhão".
me disseram
para não andar
olhando
pro chão.
Mas esqueceram
de dizer
quantas pequenas belezas
perto do chão estão!
Trata-se de uma seleção interessante e bem diversificada. São narrativas que falam de sorte, pureza e reviravoltas aventureiras. As abordagens e enredos variam, em algumas, temos a heroína injustiçada que ao final encontra o seu par no príncipe do reino. Outras mostram heróis que partem em busca do destino. Há inclusive aquelas dedicadas aos heróis simples mas bondosos, que acabam sendo agraciados pela sorte.
Atravessar esse panorama tão diverso de narrativas foi uma jornada prazerosa. Senti falta, porém, de "A Madrinha Morte". Reconheci, contudo, diversos contos, que já havia lido. O reconhecimento é sempre bem-vindo, pois nele há um quê de pertencimento. Quando reconhecemos um conto, é como se reencontrássemos uma migo querido.
Sendo assim, a seleção de Os 77 Melhores Contos de Grimm acaba por trazer uma questão fundamental no universo da leitura e da literatura: a subjetividade. A qualidade de "melhor" para cada um desses 77 contos foi concedida por uma pessoa. Sendo assim, cada uma e cada um de nós pode também decidir e criar sua lista das "melhores histórias". Com isso, a pessoa terá consigo seus contos favoritos, aqueles que elegeu, contribuindo também para o legado dos Grimm com um olhar pessoal e muito próprio.
Esta minha reflexão, contudo, não expressa um incômodo, mas um fato. Sempre temos a liberdade de escolhermos as narrativas que mais nos tocam, que mais conversam conosco. Isso sem, contudo, deixar de aproveitar as escolhas de repertório que as outras pessoas tiveram. Conhecer Os 77 Melhores Contos de Grimm foi uma forma de entender essa maravilhosa obra dos irmãos Grimm por uma lente específica, o que me fez perceber narrativas que talvez ficariam perdidas, não fosse o trabalho dessa primorosa edição da Nova Fronteira.
Com histórias maravilhosas, narrativas humorísticas e contos de exemplo, Os 77 Melhores Contos de Grimm é um rasante maravilhoso por através do trabalho magnífico dos Grimm. É antes de tudo uma homenagem aos dois pesquisadores e um presente a nós, leitores.
Ps: um agradecimento eterno à Áurea Lana Leite, que compartilhou comigo este magnífico trabalho.
Ficha Técnica:
Os 77 Melhores Contos de Grimm
Irmãos Grimm
Tradução de Íside M. Bonini
Ilustrações de Ramirez
Introdução e organização de Luciana Sandroni
ISBN-13: 9786556400815
ISBN-10: 6556400815
Ano: 2018
Páginas: 640
Idioma: português
Editora: Nova Fronteira
Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/os-77-melhores-contos-de-grimm-793913ed11682267.html
Sendo assim, ler junto é uma potencialização desse poder socializador da leitura. Os clubes de leitura são interessantes iniciativas para para isso. Com o objetivo de fortalecer vínculos e criar outros, bem como de estimular as potencialidades que eu mencionei acima, a amiga Shirley Rodriguez, do Grupo Afeto, criou o Clube do livro online. Tenho participado há algumas semanas e garanto que a experiência tem sido mais do que enriquecedora. Por isso, convido todas as pessoas que quiserem a participar também. Caso alguém deseje fazer parte, basta acessar nosso grupo no WhatsApp(https://chat.whatsapp.com/Dr3CIEiYciFG1MEZKxWUXB). Na atual edição, que é a primeira, estamos lendo A marca de uma lágrima, do grande Pedro Bandeira.
O Clube do livro online se reúne às terças-feiras, a partir de 18h. Quem quiser colar com a gente será muito bem-vinda e bem-vindo e bem-vinde!
o dia morre
e eu
ainda não acendi
a luz do quarto.
Prefiro a penumbra
O crepúsculo é o momento
em que toda alma morre
Alguns param e notam
outros apenas engolem
mais um rivotril.
A terceira edição da Coluna Literária saiu na última quarta-feira, dia 30 de junho de 2021. Com textos de Érica Lima, Ericka Martin, Lídia Mendes e Samuel Medina, a publicação da Gerência de Bibliotecas e Promoção da Leitura / FMC teve como destaque obras clássicas em domínio público.
Tendo a consciência de que um clássico se mantém justamente por sua atemporalidade, a Coluna levou em consideração também obras cujas abordagens coincidissem com os dias atuais. Foram apresentadas resenhas de Relíquias da Casa Velha, de Machado de Assis, por Érica Lima e A alma encantadora das ruas, de João do Rio. Para fechar a edição, foi apresentado o perfil literário de Maria Firmina dos Reis.
Para conferir a 3a edição da Coluna Literária, basta acessar o Blog do Portal Belo Horizonte.
Penso em Telêmaco
como ele
fui um quase
órfão
Filho de um pai
ausente
como um deus.
E outro
presente
grande
também divino
E que podia
me pendurar pelas orelhas
se contestado.
Não fui como Telêmaco.
Tive dois pais.
E pelos dois
Fui negado
à condição de
Filho.
Nesta narrativa, ele conta de um homem que deseja encontrar uma ilha que ninguém ainda descobriu. Para isso, ele vai ao rei, pedir um barco. Batendo com insistência à porta das petições, ele é atendido por uma mulher, que deve levar sua solicitação, sendo que esta passará por longa cadeia de comando até chegar ao soberano.
Começa assim uma divertida aventura sobre buscas e descobertas. De forma dialógica e perspicaz, a dupla vai se entendendo e também amadurecendo suas ideias sobre tão desafiadora expedição. Nessa narrativa, portanto, tendemos a concluir que a tão desejada ilha desconhecida nada mais é que o próprio coração humano.
Seguido pela mulher que o atendeu à porta, após ter seu pedido garantido pelo rei, o homem parte para o trabalhoso processo de se preparar para tão arriscada empreitada. E vai descobrindo que ir em busca de um sonho não é nada fácil, a ponto de ser um sonho o próprio ato de "buscar o sonho".
Como uma bela e divertida alegoria, cheia de humor e graciosidade, O conto da ilha desconhecida é uma deliciosa narrativa que, ao seu final nos faz de cara sentir saudade da história e pedir por mais.
Ficha Técnica
O conto da ilha desconhecida
José Saramago
ISBN-13: 9789723704242
ISBN-10: 9723704242
Ano: 1997
Páginas: 64
Idioma: português de Portugal
Editora: Companhia das Letras
Página do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/livro/1438ED1943
E desta vez
Nosso senhor não o irá
Ressuscitar.
Pois todas as vezes que o fizer
Lázaro novamente
Morto será.