quarta-feira, setembro 18, 2019

Profusão

Solidão profunda
me inunda
arregaça o peito
não me aceito
É a minha sorte
de ser forte
Perdedor contudo
pobre e mudo.

Sigo o meu caminho
vou sozinho
E me endureço
Pago o preço
de ser diferente
sigo em frente
Sem chegar porém
Sou ninguém

Olho à minha volta
Medo volta
E engulo em seco
Eu me perco
No vazio triste
que persiste
E que todavia
Me alivia

domingo, setembro 15, 2019

Picadeiro

Apresento-me aqui
Senhor leitor
Neste picadeiro iluminado,
tua cuca tão pós-moderna!
Não reflitas tanto, caro amigo,
pois hás de enlouquecer
e darás uma pirueta
como a que dou agora
em tua desamparada caixola
caio
não caio
me equilibro, por um triz,
na ponta do teu nariz.
Quero risos, gargalhadas
quero caretas.
Nem que sejam
de mais puro desespero
e que a comédia
seja já sem graça
piada de mau gosto
bolo de mel amargo
estragando as expectativas
imitação mórbida
quase idêntica
da nossa vida.

sábado, setembro 14, 2019

Necessidades

Precisa-se de sorrisos
raios de sol esparsos
despertas sonolências
relampejos de felicidade

Precisa-se de lágrimas
decantadas pedras preciosas
diamantes, cristais oblíquos
efêmeros tesouros de nostalgia

Agora, mais que desesperadamente
precisa-se de sangue
gotas e mais gotas, chuvosas
mares eternos em tom escarlate

E suor, por Deus, não se esqueça dele
correndo salgado por um corpo forte, rijo
voluptuosamente ativo, imponente
a preencher despropositadamente o vazio.

sexta-feira, setembro 13, 2019

Pinóquio e a mecânica do vazio

Jimmy Barata é um cara incompreendido. Ele não consegue se adequar ao modelo de trabalhador convencional, com uma rotina de trabalho repetitiva, embrutecedora. É um inseto com aspirações e muitas ideias. Seu sonho é ser escritor. Porém, a vida não correspondeu aos seus ideais. Alcóolatra e com problemas para se ajustar ao ambiente corporativo, de repente ele se vê desempregado e no fim de um relacionamento fracassado. Sua esposa o expulsa de casa justamente depois que ele é demitido.

Tudo parecia perdido quando, porém, Jimmy descobre um espaçoso apartamento todo em aço inox. Ao constatar que o imóvel está vazio e tem uma privilegiada vista para a pia, Jimmy resolve se estabelecer nesse novo imóvel e decide dar início à escrita do seu tão almejado romance.

Assim tem início a magnífica paródia de Pinóquio. Escrito e desenhado por Winshluss, esta graphic novel tem o enredo situado em um universo de conto de fadas decadente. Pinóquio narra o périplo de um menino de metal - não de madeira - indestrutível, movido por uma mente habitada por uma barata. Jiminy Cricket (Grilo Falante) soa como Jimmy Cockroach (Jimmy Barata), numa genial corruptela da famosa consciência do menino de madeira.

A narrativa é construída em um paralelo entre as andanças de Pinóquio, um robô criado pelo inventor Gepeto, e os dramas existenciais de Jimmy, seus problemas com a bebida e sua incapacidade criativa. A linha narrativa de Pinóquio, feita em cores e simulando a estética dos desenhos animados infantis, mostra um mundo perverso, de ladrões, estupradores, traficantes de órgãos, ditadores e fábricas de brinquedos movidas por crianças escravizadas. Já o universo de Jimmy é traçado em preto e branco, sendo mais "civilizado" e monótono, numa sátira clara à sociedade de consumo e ao homem comum pseudointelectual.

Outro ponto a ser destacado é que a narrativa protagonizada pelo robô Pinóquio, livremente inspirada no romance de Carlo Collodi, raramente conta com textos, sendo principalmente visual. Mesmo os diálogos são narrados com gestos e outros símbolos não verbais. Assim, é importante destacar a extrema plasticidade da obra de Winshluss.

Numa genial metáfora do homem-máquina contemporâneo, sem moral ou culpa, o livro nunca realizado de Jimmy Barata leva o título de Mecânica do Vazio, numa clara alusão à falta de sentido e à decadência dos ideais. Em uma iconoclastia icônica, o mundo de Pinóquio é como uma enorme máquina que move suas engrenagens em um perpétuo esgar de tédio e desespero. 

Ficha Técnica:
Pinóquio
Winshluss
Globo Livros

Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/livro/261936ED293518

quinta-feira, setembro 12, 2019

Exilado

Habito em outro mundo
longe de mim
Lá a vida é mais simples
e luminosa também
Uma princesa ali existe
me esperando libertá-la.
Um castelo subsiste
Ainda que de nuvens
com um trono de jasmim
e uma coroa de cristais
Mas não vivo nem lá
nem cá
Pois nos melhores momentos
sou despertado pelos barulhos do trânsito
das notícias econômicas
da filosofia vã
e das batidas do meu próprio coração

quarta-feira, setembro 11, 2019

Semana da Educação - Espaço Contação de Histórias no Parque Municipal

De lobo a bolo: uns heróis bem diferentes

Narração de histórias para crianças de todas as idades. O repertório parte de textos literários consagrados junto ao público infantil, bem como narrativas da tradição oral.

Duração: 30 minutos

Público: infantil

19, 21 e 22 de setembro de 2019, às 13h30
Local: Parque Municipal Américo René Giannetti. Belo Horizonte. MG.



terça-feira, setembro 10, 2019

segunda-feira, setembro 09, 2019

Queria

Queria
passar um dia
sem me sentir
inadequado
Ter potência
irrompendo
ser aríete
Torreão
Arder estrela
Desabrochar
Queria
só por um dia
ser todo um céu
e não um cisco
sob o
mar.

domingo, setembro 08, 2019

Desconínuo

Uma flor manca
sobre um prado cinzento
de solitária fuligem
ardente impressão
do que estava pra vir
que já veio
e já fez o seu estrago
caiu
ou será
que ascendeu?
Acender é que não foi
pois é escuro como
breu
ou será que a luz que eu pedi
era negra?
Só vejo o que quisera sempre ver
teus olhos
tristonhos
trincados
mas teus olhos

sábado, setembro 07, 2019

Hoje eu saio de preto

Hoje eu saio de preto contra o desrespeito à vida, contra a desigualdade, a mentira e a calúnia.
Hoje eu saio de preto contra um presidente que ridiculariza quem é mais fraco.
Hoje eu saio de preto contra o desmonte da educação.
Hoje eu saio de preto contra os vetos à lei de abuso de autoridade.
Hoje eu saio de preto contra a reforma da Previdência.
Hoje eu saio de preto contra a destruição do direito dos trabalhadores.
Hoje eu saio de preto contra o desrespeito à Constituição.
Hoje eu saio de preto contra o nepotismo e a desonestidade.
Hoje eu saio de preto contra a injustiça social que o governo atual promove.
Hoje, sete de Setembro, eu saio de preto.

sexta-feira, setembro 06, 2019

Queixa

Um dia ainda comerei moscas
Para ver se cago moedas
Desculpe minha indiscrição
Mas tô já cansado desse mal de condição

Condição financeira, condição física, condição psicológica
Tanto con que eu já to cheio de anexos
Dá até vontade de mandar todas essas circunstâncias
Lá pro lugar que vossa senhoria bem (des)conhece

Tem tanta gente comendo coisa boa e só faz cagada!
Enquanto os que mais trabalham menos têm pra comer,
Quem sabe eu coma bosta e cague um tesouro!
Porque só bosta esses bundas-moles me dão pra comer!
Mandam em mim e eu que mandei eles pra lá 
(e agora mando lá pra aquele lugar)

Mas deixa estar
E estará
Enquanto isso fico aqui
Cuidando de meus carrapatos

quinta-feira, setembro 05, 2019

Digressão

Quando às vezes não há nada para escrever
Teima-se em pôr no papel palavras
Ainda que sejam tão fracas
Quanto este poema

Vida que se esvai na seca
Da alma seca calma quente
Ar parado do peito que pára
Das escamas que se incandescem

E cobrem a nudez da imagem invertida
Reflexo insano da própria vida
Convulsa
Avulsa
Dentro de sóis e paróis
Caleidoscópio vingativo
Que insana a alma humana
E frecha a frecha acerta a brecha
Onde o olho espia a verdade incerta
Sangra
Sangra
Sangra
e Sangra...

E não pára-
lelepípedo

quarta-feira, setembro 04, 2019

A Lira

A lira alva
como a aurora
treme e chora
em doce canção

seu ser estava
vazio embora
esteja agora
pleno então

A lira asperge
seu doce canto
Atrai no entanto
minha atenção

seu som prossegue
Qual suave manto
imerso em pranto
A sua canção.

Momento Mágico

Momento mágico. Eu atravessava a Praça da Estação e tive o olhar sequestrado por esse ipê em toda a sua majestade.

Minha mente foi invadida por um verso escutado na infância. Nesse verso, a Poeta deseja que um ipê seja seu.

Não cheguei a desejar esse ipê que domina a frente do Museu de Artes e Ofícios. Eu não me senti à altura. Desejei apenas ter comigo esse momento, para sempre, num sonho que se repete. 

Se existir vida após a morte, quero que seja como ver esse ipê rosado em seu ápice de floração.

Belo Horizonte, 4 de agosto de 2019


terça-feira, setembro 03, 2019

Poemicídio

Assassinaram todos os meus poeminhas
Mas não fui eu, juro!
Foi aquele poema de uma perna só
Não podia ter filhos
por isso
tornou-se amargo
e minha vida quis amargar.
Não o culpo de nada,
nem me arrependo.
Haverá outros sóis a pintar
E depois massacrá-los sadicamente.

Vídeo: Livro-minuto - Adeus



Livreto produzido dentro do projeto Livro-minuto.

Este exemplar está disponível.

Quando o vídeo alcançar 10 "joinhas", a primeira pessoa que tiver comentado no canal ganhará pelo correio uma cópia feita à mão desse livro-minuto.

* Válido apenas para residentes no Brasil.

segunda-feira, setembro 02, 2019

Contando Histórias na EMEI Alto Vera Cruz

Não é segredo para ninguém que tenho um carinho especial pela Educação Infantil. O universo de histórias, cantigas e brincadeiras continua a fascinar este adulto de quase quarenta anos.

Ao deixar de trabalhar na Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte, passei a valorizar ainda mais as oportuidades de me apresentar para as crianças pequenas.

E foi por isso que nem pensei duas vezes quando conheci a professora Aline. Ao saber que ela trabalhava em uma EMEI, perguntei sobre a oportunidade de visitar a escola para contar histórias.

Fui muito bem recebido na EMEI Alto Vera Cruz no dia 10 de julho deste ano. As crianças foram reunidas no refeitório, sentadas em tapetes circulares. Eu, diante de tantos rostinhos, dei início com a leitura de Dorme, menino, dorme. Em seguida, narrei algumas histórias, com destaque ao meu principal herói, o bolinho.

Ao fim da apresentação, as crianças voltaram para suas salas e eu fiquei um pouco na biblioteca. Havia uma turminha lá. Aproveitei para contar outra história. 
Fiquei o resto da manhã lá na biblioteca, conhecendo os livros. Tive ótimas surpresas, como o excelente 20 disfarces para um homenzinho narigudo. À tarde, tive a segunda parte, quando contei histórias para outras crianças da EMEI. Aproveitei para apresentar os livros que tinha conhecido lá na Biblioteca. Também brinquei um pouco de adivinhas, antes de começar a narração. 

Foi um dia maravilhoso para mim e que estará sempre gravado em minha memória. Quero aproveitar e mais uma vez agradecer à pedagoga Aline Costa pela oportunidade, confiança e pelo registro fotográfico.








domingo, setembro 01, 2019

Lágrima

Em uma página rasgada
Havia uma lágrima escondida
e, sem saber,
as memórias perdidas
de um jovem poeta.
Suja, amassada, num beco escuro
a lágrima morta permanecia,
suas marcas deixadas
no papel, como um borrão escuro,
parte da sombra
ou a sombra da sombra
daquela vida sombria
daquela noite sem lua
sem estrelas
sem janelas, varandas ou serenatas.
Somente aquele beco escuro e frio
permanecia na solidão
com aquela lágrima já seca
que, em sua morte, apenas deixara um borrão
e no papel, as palavras nem mais se entendiam
pois seu sentido se perdera na noite
junto com a esperança do poeta.

Bolsoriques #2

Bolsonaro é um parvalhão
Acha que pode tudo, mas não!
Estudantes unidos
Jamais serão vencidos
Aliados pela educação!

A ciência virou balbúrdia
Que coisa mais estapafúrdia
Ministro engraçado
Não é educado
Contra ele eu faço balbúrdia!

Um déficit de bolsa, imagina,
o problema é um "Bolso" lá em cima
Que não dá o valor
para o educador
Que o governo de hoje incrimina!

Bolsonaro sem nenhum pudor
Quer seu filho pra embaixador
Mas o tal de Eduardo
E um tirano mimado
Que só quer espalhar o terror!