sexta-feira, agosto 23, 2019

Uma Chapeuzinho Vermelho - As pequenas forças contra os grandes monstros

Uma menina sozinha em seu caminho. Dante dela, surge um lobo. Ele é enorme e está faminto. Essa menina, que veste um chapeuzinho vermelho, tem diante de si um perigo terrível.

Assim começa uma das histórias mais antigas do universo infantil. Readaptado e recontado diversas vezes, o conto Chapeuzinho Vermelho aparece em inúmeros formatos e releituras. Por causa de tantas versões, há que se pensar que o tema já esteja alcançando um certo esgotamento. 

Até sermos apresentados ao livro Uma Chapeuzinho Vermelho, de Marjolaine Leray. Trata-se de uma obra completa, com um texto que ganha em simplicidade e humor. Os traços são expressivos e dialogam abertamente com o universo infantil, uma vez que simulam os rabiscos que as crianças fazem com giz de cera.

O equilíbrio entre texto e imagem concedem à narrativa um caráter fortemente cênico. Enquanto lemos, estamos vendo uma tela em ação. Há muitos silêncios que são completados pela expressividade dos desenhos de Marjolaine Leray. 

As principais referências ao conto original estão lá, mas transformados em ganchos de humor e ironia. O lobo se torna totalmente caricato. Com seus dentões, seus olhos enormes e ferocidade, ele vai sendo desconstruído, diante de uma menina que não tem medo. Ou melhor, uma menina que sabe vencer o medo através da curiosidade e da malícia propriamente infantil.

Uma Chapeuzinho Vermelho também dialoga com o universo dos cartoons, ao apresentar uma heroína pequena e forte, diante de um vilão virtualmente superior. Ela não teme sujar as mãos e não se importa em usar da violência sutil diante de seu inimigo. E de mau, o lobo se torna bobo, ou melhor, bobinho. 

Em um tempo em que a força é alardeada e que as minorias são ridicularizadas por homens brancos e preconceituosos, Uma Chapeuzinho Vermelho é uma alegre lembrança de que ainda podemos rir dos monstros, estejam eles em florestas, palanques ou tribunas.

Ficha Técnica
Uma Chapeuzinho Vermelho
Marjolaine Leray
Ano: 2012
Páginas: 44
Idioma: português
Editora: Companhia das Letrinhas

segunda-feira, agosto 19, 2019

Conte Outra Vez: coletânea de contos inspirados em canções de Raul Seixas


Em livro digital gratuito, escritores prestam tributo ao cantor 30 anos após sua morte.



Este ano se completam 30 anos da morte de Raul Seixas. Para celebrar o legado musical do Maluco Beleza, o escritor T. K. Pereira organizou a coletânea Conte Outra Vez.



Inicialmente, o livro teria apenas 30 contos, mas recebeu 6 faixas-bônus. “Percebi que as canções escolhidas permeavam quase todos os álbuns 17 álbuns de estúdio, deixando de fora o primeiro e os últimos. Então convidei mais autores e pedi que eles escolhessem uma canção de cada álbum faltante. Para tornar o tributo ainda mais completo, o escritor Bráulio Tavares liberou a publicação de uma canção de sua autoria, uma apropriada elegia ao rei do rock brasileiro.”, diz T. K. Pereira.



O livro traz autores de estilos e trajetórias próprias, mas que compartilham o fascínio pela figura e pelas obras do Raul. Algumas inspirações são mais sutis, outras mais diretas, com o próprio cantor surgindo em várias narrativas. Houve a preocupação de dar diversidade à coletânea, reunindo escritores de Minas Gerais, Paraíba, Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Sul, São Paulo e outras partes do país.



 “Os anos criaram misticismos e lendas ao redor do Raul, mas o que ficou dele para mim foi o artista que nunca deixou de acreditar em si mesmo, em sua obra e no que tinha a dizer, por mais obstáculos que surgissem em seu caminho”.



Gratuito e exclusivamente digital, o livro estará disponível a partir do dia 21 na Amazon, Apple Books e outras plataformas digitais, incluindo o site oficial do organizador (www.tkpereira.com.br).

Lista de Autores e Canções Escolhidas

 Adriane Garcia - MG - Se o rádio não toca
 Alessandra Barcelar - SP - Para Nóia
 Alessandro Garcia - RS - Meu Amigo Pedro
 Ana Elisa Ribeiro - MG - Metamorfose Ambulante
 Ana Luiza Rizzo - RS - O Trem das 7
 Betzaida Mata - MG - Ave Maria da Rua
 Bráulio Tavares - PB - Chegada de Raul Seixas ao Castelo de Avalon
 Bruna Brönstrup - RS - Check-up
 Bruno Ribeiro - MG/PB - Maluco Beleza
 Cinthia Kriemler - RJ - Ouro de Tolo
 Cris Vazquez - RS - Al Capone
 Cristiano Rato - MG - Na rodoviária
 Eduardo Sabino - MG - Canto pra minha morte
 Elizabeth Gouvea - MG - Você roubou meu videocassete
 Gisela Rodriguez - RS - O Dia em que a Terra parou
 Irka Barrios - RS - Gita
 Ivandro Menezes - PB - Mosca na Sopa
 João Matias - PB - A Maçã
 Joedson - PB - Sociedade Alternativa
 Julia Dantas - RS - Meu Amigo Pedro
 Katia Gerlach - RJ - Gospel
 Matheus Borges - RS - Paranóia II
 Maurem Kayna - RS - Medo da Chuva
 Nathalie Lourenço - SP - Aluga-se
 Renata Wolff - RS - Segredo da Luz
 Roberto Menezes - PB - Caminhos
 Samuel Medina - MG - Trem 103
 Sérgio Tavares - RJ - Metrô Linha 743
 Simone Teodoro - MG - S.O.S
 T. K. Pereira - BA/MG - Tente Outra Vez
 T. S. Marcon - SC - Mamãe eu não queria
 Tadeu Sarmento - PE/MG - Dr. Paxeco
 Taiane MariaBonita - RS - Judas
 Tiago Germano - PB - Sessão das 10
 Tiago Motta - MG - Como Vovó já Dizia
 Wander Shirukaya - PE/SP - Rock das Aranha

T.K. Pereira

A Palavra do deus

É forte como a dor
É dura como o horror
e fura como uma
presa bestial
Distorce o real
Infame, espalha o mal
A palavra sangrenta
do senhor

sexta-feira, agosto 16, 2019

Flicts - Uma ode à empatia

Era o ano de 1986. Um garotinho introspectivo e desajustado encontra um livro que é quase de seu tamanho. Em suas páginas, cores fortes saltam em sequências oníricas. Admirado, o garotinho descobre uma história sobre preconceito e autodescoberta. Ele se descobre.

Esse é o início de minha história com Flicts, clássico do escritor e ilustrador Ziraldo. A saga de uma cor incompreendida buscando o seu lugar me cativou, como tem feito com tantas crianças - e adultos - há 50 anos.

Pioneiro em tantos aspectos, o primoroso livro de Ziraldo aborda um tema que não perde sua atualidade. Afinal, a humanidade, desde os primórdios tropeça em conviver com suas diferenças.

Flicts é um livro que suporta múltiplas narrativas. As formas e cores, seguindo um desenho básico, dialogam com todas as faixas etárias. A sequência de imagens apresentam uma narrativa que pode ser facilmente acompanhada por quem ainda  ao passou pela alfabetização. Ainda assim, essa simplicidade é de um refinamento que dialoga com a poesia concreta.

Seu texto, porém, não perde em riqueza poética. O ritmo, a escolha nas palavras e sentidos constrói um conflito que cresce rumo a um clímax. Por ser uma obra-prima, texto e imagem se completam nessa tensão. 

E nesse clímax, nós leitores temos então uma grande reviravolta. Nela, somos compactados com a verdade que todas as pessoas são feitas da mesma matéria, não importando as aparências. 

Entendemos que, assim como a lua, nossa alma é Flicts.

Ficha Técnica 
Flicts
Ziraldo
Ano: 1969 
Páginas: 82
Idioma: português 
Editora: Expressão e Cultura

terça-feira, agosto 13, 2019

O Saci no CCLAO


Oficina Literária "O Saci, de Monteiro Lobato"


Leitura de trechos do livro "O Saci", de autoria de Monteiro Lobato, seguida de atividade criativa sobre as origens e peripécias do personagem, com Samuel Medina.


Dia 14, quarta, às 14h30

Centro Cultural Liberalino Alves de Oliveira
Avenida Antônio Carlos, 821 - Mercado da Lagoinha
Contato: (31) 3277-6091 ou 3277-6077


Vídeo: Uma Chapeuzinho Vermelho - Marjolaine Leray


Que criança não vive a sensação de medo através da figura do famoso Lobo Mau? Ele é grande, forte, feroz e ruim até o último pelo. Aqui neste livro, ele continua sendo tudo isso, com a diferença de que a Chapeuzinho, além de muito esperta, não tem nenhuma compaixão pela fera. Uma coisa é certa, o final é surpreendente!

Ficha Técnica

Título original: UN PETIT CHAPERON ROUGE
Tradução: Júlia Moritz Schwarcz
Páginas: 48
Formato: 20.30 X 13.60 cm
Peso: 0.184 kg
Acabamento: Capa dura
Lançamento: 20/04/2012
ISBN: 9788574065281
Selo: Companhia das Letrinhas

https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=40672

segunda-feira, agosto 12, 2019

Primavera Literária 2019

A CONSTRUÇÃO DE UM CAMINHO COMUM PARA BIBLIOTECAS E O MERCADO EDITORIAL - A relação entre o mercado editorial brasileiro e as políticas de aquisição de livros para bibliotecas públicas e escolares.

Mesa de discussão com:
. Volnêi Canônica
. Samuel Medina
. Guilherme Relvas
. Viviane Maia
. Mediação: Rosana Mont'Alverne


"O mercado editorial brasileiro, especialmente sua produção infantil e juvenil, funciona, não exclusivamente, mas em grande medida, em torno de políticas de aquisição de livros para bibliotecas públicas e escolares. Em nosso atual contexto, como pensar essa relação, considerando aspectos como liberdade de expressão, financiamento e compromisso com um projeto amplo e longevo de formação de leitores e fortalecimento das bibliotecas?"

Dia 15/08/2019
11h30
Sala 206 (não será na sala multiuso)



terça-feira, agosto 06, 2019

Vídeo: 20 disfarces para um homenzinho narigudo - Marcelo Martinez



A ideia de 20 disfarces para um homenzinho narigudo é proporcionar à criança uma brincadeira com o significado das linhas e das formas. A partir de uma base fixa – o homenzinho narigudo –, de muita imaginação e poucos traços, o pequeno leitor poderá “ver” figuras diferentes: "um carinha la da França", "um pintinho de mudança", "uma cobra equilibrista", "um elefante na piscina", e por aí vai. Ao fim do livro, uma nova aventura é proposta: quais figuras os pequeno leitor será capaz de imaginar sobre a imagem do homenzinho narigudo?

Ficha Técnica
Título: 20 Disfarces Para Um Homenzinho Narigudo
Autor: Marcelo Martinez
ISBN: 9788520932056
Idioma: Português
Encadernação: Brochura
Formato: 20 x 20
Páginas: 48
Ano de edição: 2013

segunda-feira, agosto 05, 2019

Mesmo depois

Prometo ser fiel
Em ações e palavras
Que minha poesia
jamais verá
outra musa.
Prometo ouvir
Atentamente
Todo que você
tiver a dizer.
Observar seus silêncios
com respeito e cuidado.
Prometo não te sufocar
com meus ciúmes
E te cobrir de beijos
Todos os meus dias
E...
Quem sabe?
Mesmo depois.

sexta-feira, agosto 02, 2019

Contos de Amor e Morte - Com Pâmela Bastos e Samuel Medina


Princípios e Fins. Presume-se que a vida começa no Amor, mas certamente em seu fim,  a morte, há que se encontrar Amor. Contos  de Amor e Morte celebra a vida em sua plenitude.

Dia 9/08/2019
No Espaço Suricato
Rua Souza Bastos, 175, Floresta. Belo Horizonte - MG.
Couvert artístico de R$ 12,00.


Contamos com as presenças de vocês!

Atualização: estaremos com uma barraquinha, vendendo o livro Patos Selvagens a quem estiver interessado. E o preço será promocional!


quarta-feira, julho 31, 2019

Primeiras impressões da OcupaSacy

No dia 30 de junho, um domingo, eu e Pâmela fizemos uma expedição a um lugar mágico. Fomos ver a #OcupaSacy que está acontecendo aqui em BH, no Sesc Palladium. 

Ao chegarmos, ficamos impressionados com a beleza da exposição. Como um admirador da cultura sacisística, eu estava deslumbrado. 

A Sacyoteca foi logicamente um lugar mais que especial. Destaco que as garrafas que antes contiveram os mais variados tipos de sacis estavam agora abertas. Esse é o espírito da exposição e dos próprios sacis: a liberdade. Dominando a Sacyoteca estava o "Fabuloso Inventário dos 77 Sacys". Dessa forma, alguém iniciante nessa vasta cultura saberá que o Pererê é um entre vários outros sacis, cada um com características peculiares.

Havia também um laboratório com vestígios e artefatos de sacis. Inclusive, alguns pedaços de bambu ainda exibiam os sacis em gestação, olhando timidamente para nós, espectadores. Claro que eram representações. Afinal, sacis ainda filhotes devem crescer tranquilamente em bambuzais, com todo o sossego que merecem.

Muito mais havia para descobrir. Porém, a galeria estava para fechar. Saímos de lá com a promessa de que voltaríamos. Essa promessa foi cumprida, mas é tema para outra hora.






terça-feira, julho 30, 2019

Vídeo: A RAIVA - Blandina Franco e José Carlos Lollo

Hoje eu trouxe para vocês uma leitura que fiz enquanto visitava a biblioteca da EMEI Alto Vera Cruz. 


Sinopse: No começo era só uma raivinha à toa. Uma coisa boba, que nem tinha razão de ser, mas que, mesmo assim, era.' Assim como a vontade de tirar um cochilo, de tomar um sorvete ou de ler este livro. Só que essa raivinha que era à toa começou a crescer, crescer, crescer... Será que ela vai tomar conta da história toda?

Ficha Técnica:
Ano: 2014
Páginas: 36
Editora: Pequena Zahar

segunda-feira, julho 29, 2019

Dócil

Aquela palavra
Que é espada
Fincada
Em meu
lóbulo frontal

Pela palavra
Dei milhares de passos
Marchei soldado
De cristo

Quantos cativos
fiz por uma
loucura?

Quantos brados
dei para
ruir muralhas e
promover mortes?

Quantos aprisionei
e com a mesma palavra
cortei seu desejo?
Quantos lobotomizei?

Hoje eu me decido
arranco de mim
essa palavra e ponho
minha coroa em leilão

sexta-feira, julho 26, 2019

Uma vez - Experiência, esperança e o poder da palavra

Por vezes, achamos que um determinado tema se esgotou, de tanto que foi explorado, gerando livros, filmes, documentários, séries e outras obras artísticas. Em outros casos, porém, um tema parece inesgotável. 

Um grande exemplo disso é o chamado Holocausto. Existem inúmeros trabalhos abordando esse terrível acontecimento, de monumentos a obras cinematográficas. E ainda assim, sempre parece haver um novo prisma a ser lançado sobre o tema.

Talvez a profundidade do impacto desse acontecimento acabe por gerar em nós o sentimento de urgência em lembrar dele, para que o mesmo não se repita, embora isso pareça quase inevitável.

O romance juvenil Uma Vez 
P pode ser um bom exemplo de tal afirmação. Inspirado em cartas de crianças judias que passaram pelo Holocausto, o livro de Morris Gleitzman é narrado por Félix, um garoto judeu que foi deixado pelos pais em um orfanato na Polônia ocupada pela Alemanha nazista, com a esperança de que ao menos ele sobrevivesse. 

Filho de livreiros judeus, Félix vive a relativamente tranquila rotina no orfanato, tendo como válvula de escape as histórias que inventa para si mesmo e registra em seu caderno. Suas narrativas, sempre inventivas e ingênuas, contam com seus pais como protagonistas em aventuras mirabolantes. O menino espera que logo quando possível seus pais irão buscá-lo e interpreta qualquer coincidência como um sinal secreto de que eles estão para chegar.

Tudo muda quando Félix presencia um grupo de militares nazistas queimarem livros. Acreditando que os nazistas são bibliotecários inimigos de livreiros judeus, o garoto decide que precisa salvar seus pais a qualquer custo.

Tem início então uma penosa jornada de um menino em uma terra hostil e violenta. O enredo não poupa o protagonista e o texto mostra o amadurecimento forçado de uma criança que vê suas fantasias serem destruídas com a mesma violência que os nazistas praticavam contra os judeus, com a anuência da população em geral.

Félix, porém, é um contador de histórias. As palavras são fundamentais para dar sentido a seu mundo. Ele precisa delas para viver. Em certos momentos, é delas que ele se vale, mesmo contra a sua vontade. 

Apesar da crueza dos acontecimentos, há um toque de esperança através da fabulação de Félix. Algo que funciona para literalmente afastar a dor. A sua capacidade de contar histórias e criar aventuras provê seu sustento e de outras crianças.

Mesmo ao chegar ao momento mais sombrio de seu percurso, o menino ainda consegue, através do sonho, acreditar no futuro. Ele entende que somente assim conseguirá vencer o medo. Com o poder das palavras, Félix nos mostra que  a experiência, sem esperança, de nada vale.

Ficha Técnica
Uma Vez
Morris Gleitzman
Ano: 2017
Páginas: 160
Idioma: português
Editora: Paz & Terra
Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/uma-vez-676858ed679011.html

quarta-feira, julho 24, 2019

Entre dois amores


De repente, tenho que administrar atenção entre dois amores. Enquanto Aurélio ganha carinho, Haku come pelas beiradas, chama a atenção lambendo as costas da minha mão. 

Sei que Haku é a mais independente. Esse carinho que ela me faz é totalmente gratuito. Ela não é de ficar no colo, nem de se enroscar na gente. Normalmente, ela só se aproxima quando outro gato está comigo. Arisca, vive de sobressaltos e escapulidas.

Já Aurélio se coloca como senhor, ocupa todo o espaço, reina em minha barriga e com as patas vai afofando essa almofada humana que sou. O único que se permite tanta proximidade e tão íntima troca de carinhos. 

Com o cuidado de quem cuida do que é seu, ele lambe meu rosto. Sua língua áspera vai me deixando sua marca. 


terça-feira, julho 23, 2019

Video: Patos Selvagens

Há muito tempo eu precisava compartilhar aqui no blog o vídeo em que eu falo do meu livro Patos Selvagens. Portanto, aproveito este post para isso. Assistam abaixo:


Sinopse:

Há muitos mistérios sobre um lago assombrado pela imagem de uma bela jovem. Quando Nerito, um corajoso aventureiro, passa a se envolver com este enigma, decide lançar-se em busca de respostas. Qual será o seu destino? Acompanhe Nerito nesta emocionante jornada.

Perfil do livro no Skoob; http://www.skoob.com.br/patos-selvagens-396681ed449123

Quem tiver interesse em comprar o livro, pode clicar aqui: http://rhjlivros.com.br/

segunda-feira, julho 22, 2019

Vestígio (Para Pam)

Hoje me dei conta
de como o seu cheiro
É digital
a marcar os meus espaços
Seu cheiro dá contorno
Aos meus instantes.
E faz a sua ausência
mais pungente.
Como mancha de sangue
o seu cheiro não sai fácil.
E nessa mancha
Eu me deito.
Em silêncio aguardo
Que você volte
Para renovar a dor
da sua ausência.

sábado, julho 20, 2019

Oração a Nossa Senhora das Travestis

Em apoio a todas as pessoas que participam da Academia Transliterária, compartilho com vocês a Oração a Nossa Senhora das Travestis, que foi censurada na Virada Cultural de Belo Horizonte.


sexta-feira, julho 19, 2019

Deslocamento - Memória, afeto e descoberta

O tempo e a memória muitas vezes aparecem em nossa cultura como antagônicos. Afinal, podem ser considerados inversamente proporcionais, em seu aspecto subjetivo.

Esse fato fica ainda mais evidente quando envelhecemos. Assim, como garantir que seja recuperado algo que o tempo degrada tão vorazmente?

Deslocamento, de Lucy Knisley, é uma graphic novel autobiográfica que levanta essa questão. Como o próprio subtítulo anuncia, é um diário de viagem. Contudo, nesse diário a autora costura com sua subjetividade duas narrativas distintas. 

Uma jovem em um momento de solidão faz duas jornadas simultâneas, sendo uma por um cruzeiro marítimo em companhia dos avós e a outra um mergulho nas memórias do avô durante a segunda guerra mundial. 

É interessante o grau de intimidade a que Knisley se expõe para quem lê sua obra. Seus medos, inseguranças e lamentos são apresentados de forma muito honesta e singela. O tom de confidência dá ao seu trabalho um ar de tocante sinceridade.

A autora relata o assombro e o medo diante da velhice e sua busca sensata por paciência e empatia. Lucy não é apenas neta. Ela se descobre cuidadora de um casal que para ela já foi exemplo de autonomia. 

Momentos que seriam constrangedores vão se tornando naturais, como devem ser. Como a vida é. Assim, Knisley amadurece como protagonista. Para auxiliá-la nesse processo, ela conta com as memórias de guerra de seu avô. E a alegoria funciona muito bem. 

Assim como ele fez uma jornada transformadora e cheia de perigos, ela também se lança em sua própria travessia. E alcança o outro lado mais forte.

Com sua narrativa intimista e um tanto inocetente, Lucy Knisley faz de Deslocamento uma experiência afetiva, um exercício de empatia e um relato de amor.

Ficha Técnica
Deslocamento: um diário de viagem
Lucy Knisley
Ano: 2017
Páginas: 144
Editora: Nemo
Página do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/livro/641460ED643224

quarta-feira, julho 17, 2019

Uma noite de afetos, amizade e Pedro Nava

Na noite de 26 de junho, uma quarta-feira, fui visitar o Centro Cultural Padre Eustáquio. Pâmela foi comigo. O evento é mensal e se chama "Feira de Poesia". O tema do evento era a obra de Pedro Nava.

Chegamos atrasados. Como era a nossa primeira vez no evento, ficamos um pouco perdidos. Tanto que erramos a porta e ficamos circundando a entrada da feira coberta do Padre Eustáquio, onde está localizado o Centro Cultural.

Entramos em uma biblioteca em penumbra. Um projetor mostrava imagens da vida do escritor. Ao redor de uma mesa, nós víamos rolinhos com textos de Nava. Apresentando as imagens do autor, estava seu sobrinho-neto, Matheus Nava.

Mergulhamos em um passado repleto de sentimento e perda. Conhecemos um pouco mais das histórias de família, principalmente o pesar da família, e do próprio Pedro Nava, com a morte prematura do sobrinho, José Hyppólito, por quem a família nutria grande admiração.

Ao final da apresentação, fomos convidados a um saboroso café. E pude conversar um pouco com os presentes.

Conheci uma pessoa muito bacana, o Paulo Siuves. Ele esbanjava simpatia e amizade. No bate-papo entrou também o casal de poetas Cirlene Lopes e Geraldo França.

Aproveitei para conhecer o livro de poemas da Márcia Araújo, uma das organizadoras da Feira de Poesia. Não hesitei em garantir o meu exemplar.

Foi uma noite de encontros, novos e antigos. Revi os colegas Hélio e Ângelo. Trocamos algumas palavras, menos do que gostaria. Ficou a promessa de uma outra vez.

Tenho certeza que saí de lá com um tesouro. A vivência do evento e os afetos com as novas amizades enriqueceram minha caminhada.



segunda-feira, julho 15, 2019

Posição

Minha crença é quântica
Desconfio de promessas
principalmente aquelas
por escrito.
Em religião,
sou um zero.
Mas que fique claro:
à Esquerda.

sexta-feira, julho 12, 2019

O peso do pássaro morto - O peso de uma vida

Quanto pesa um pássaro em pleno voo? Qual a diferença desse mesmo pássaro, depois de morto? Quanto pesa uma vida? Como medir a memória que se tem, mesmo aquela que se tem, a despeito de não desejá-la?

Assim como essas perguntas podem gerar inúmeras outras, há livros que nos lançam em torvelinos de questionamento. Da mesma forma que revisitamos nossas lembranças com a fórmula "e se?", muitas narrativas nos tocam a ponto de tomá-las como nossas. Assim, começamos a usar essa mesma fórmula no enredo. "E se ela não tivesse feito aquela viagem? E se ele tivesse agido diferente?"

O peso do pássaro morto foi um livro que me arrebatou de tal maneira que ao seu término eu me senti em suspenso. Era como se minha memória não existisse mais, como se minhas palavras estivessem fadadas ao silêncio, tal era a força das palavras desse livro.

Romance de estreia de Aline Bei, este é um livro pungente. O enredo segue um trecho da vida de uma mulher, sendo ela a narradora. Esse é o primeiro grande impacto do livro. Narrado em tom intimista, o texto faz do leitor um voyeur, alguém que inadvertidamente penetra na mente de outra pessoa e a observa em silêncio. 

Ao mesmo tempo, o tom da narrativa soa confessional. Assim, somos também cúmplices da narradora, ao darmos escuta a essa menina-mulher em sua jornada de amadurecimento e descoberta. 

Esse, também a meu ver, é o segundo grande impacto que o livro tem. Nesse pêndulo, o leitor é intruso e convidado. A narradora é perspicaz, espirituosa e cativante. Creio ser impossível não se apaixonar por ela. E não se comover com os impasses que ela sofre em sua trajetória.

Por fim, esse é o terceiro impacto que o livro causou sobre mim. Já nas palavras da menina que era levada pela mãe para ser benzida por um curandeiro, podemos ver a sensibilidade poética da narradora. E a poesia é evidente também no ritmo do texto, construído em verso livre. 

Este não é um livro fácil. Ou feliz. É um texto forte e poderoso. Uma narrativa profunda e visceral. De um impacto semelhante a uma pedra que derruba um pássaro em pleno voo.

Ficha Técnica 
O peso do pássaro morto 
Aline Bei 
Editora NOS
Ano: 2017
Páginas: 167

quarta-feira, julho 10, 2019

Histórias, memórias e sorrisos - Visita ao Lar de Idosos Benedito Venâncio

Tudo começou ao ver a foto de minha amiga Norma de Souza Lopes contando histórias para um grupo de velhinhos. Fiquei encantado e com muita vontade de participar. Entrei em contato com ela, que me apresentou a Higínia, uma professora da EJA extremamente dedicada.

Fizemos o primeiro contato e combinamos uma visita ao Lar de Idosos Benedito Venâncio no dia 12 de junho. 
Estava ansioso e muito nervoso. Para mim, os idosos devem ser ouvidos, eles são os contadores de histórias por excelência. A responsabilidade que eu sentia era enorme e isso aumentava minha insegurança. Contudo, a vontade de visitá-los, interagir com todos e conhecê-los era maior que qualquer insegurança.

Lá chegamos. Fomos conhecendo cada idosa e idoso. Todos foram muito receptivos e carinhosos. Um lanche foi distribuído e participamos dessa refeição em conjunto. 
Terminado o lanche, Higínia nos apresentou. Norma então passou a palavra pra mim. Contei "O caso do bolinho", uma de minhas histórias favoritas.

Em seguida, Norma narrou "O homem sem sorte". Foi uma delícia ouvir essa narrativa tão preciosa partindo de uma pessoa também preciosa. 
Foi então a minha vez de contar a história do rei descrente. 
Uma das presentes, a senhora Maria do Carmo, decidiu compartilhar também uma história. Ela narrou a fábula de dois amigos que encontram uma fera na floresta. 
Outra pessoa que desejou falar foi o senhor João, que narrou de sua infância difícil em Nanuque.

Um senhor chamado Sebastião contou alguns causos da roça. Contou sobre a caça ao tatu, a casa mal-assombrada e o rabo da onça.

Norma reassumiu para contar a história de Chico Bravo e João Jiló. Todos riram das trapalhadas do herói. Eu então recitei "Tombo", poema de autoria da Norma, e narrei sobre Nasrudin e o caixote.

Encerramos agradecendo as escutas e também as vivências compartilhadas. Sinto que foi um momento especial de aproximação e conhecimento. O afeto foi a palavra fundamental daquele encontro.

Mais uma vez agradeço à Higínia pela oportunidade, bem como à minha amiga Norma e também a toda a equipe do Lar de Idosos Benedito Venâncio. 



terça-feira, julho 09, 2019

Projeto Livro-minuto: Vídeo e Primeira Campanha

Boa noite! Compartilho com vocês mais um livro-minuto. Desta vez não se trata de um exemplar único. Até o momento, foram feitos 4 exemplares. O livreto no vídeo é o quarto produzido e ele está disponível para aquisição.


Proponho então uma brincadeira:

Quando o vídeo alcançar 10 "joinhas", a primeira pessoa que tiver comentado lá no post do canal ganhará pelo correio uma cópia feita à mão desse livro-minuto.

Portanto, logo que o vídeo alcançar 10 "joinhas", entrarei em contato para pedir o endereço de envio.

segunda-feira, julho 08, 2019

Um réquiem para Afrânio


Este era o Afrânio. Como todo roedor, ele era ativo, desconfiado e frágil. Mesmo assim, ele sabia se defender. Aprendi isso da pior maneira, ao pegá-lo de forma desajeitada. Com seus afiados dentinhos, ele me mandou um recado em um de meus dedos. E dele eu me lembrei com frequência nos dias seguintes.

A história de Afrânio é dramática. Ele era cobaia de um laboratório acadêmico e seria sacrificado ao final do semestre. E de repente alguém oferece um lugar para o Afrânio. Mas o que ele recebeu foi muito mais que uma chance de sobrevivência. 
Afrânio era amado. A ponto de sua tutora dar comida em sua boca. Ela falava sempre dele. Não era um refugiado. Para a pessoa que o recebeu, Afrânio era alguém.

Infelizmente, nem todo mundo pensa assim. Contra a vontade de sua tutora, Afrânio foi colocado ao relento. E como eu disse  o início, seu corpinho era frágil. 
Para deixá-lo de fora, os donos da casa tinham como desculpa o argumento de que ele fedia muito. Bem, meu olfato não é dos melhores, mas eu nunca senti qualquer fedor vindo do ratinho.

Sabemos como BH está fria nestes dias. Na semana passada, Afrânio amanheceu fraco e desanimado. A sua cuidadora tentou de tudo para que ele melhorasse, mas a fragilidade foi mais forte. Afrânio partiu.

Foi triste saber da notícia. E foi mais triste ainda saber que a intransigência pode ter matado o Afrânio. Para aqueles que o exilaram, ele não era alguém, era uma coisa. 
Do alto de nossa arrogância, sempre achamos que o diferente é inferior. Fazemos isso contra outros seres humanos, por que não aconteceria com uma coisinha tão pequena e frágil como o Afrânio?

Penso em todas as vidas que são destruídas pelo descaso e falta de empatia. Belo Horizonte está muito fria, mas vejo que gelado mesmo está o coração de muitos de nós.

Re-legião

Há muitas vozes em mim

Brigam por escuta
Bradam sua angústia

Séculos de silenciamento
Barragem
Prestes a romper

Vozes de sangue
E outras líquidas
Existências

A pele flagelada
Urra em meu peito
Junto aos olhares
de revoltosa fúria

Somos muitos
e nossos gritos
por justiça
hão de cobrir
toda a terra.

sexta-feira, julho 05, 2019

A extraordinária jornada de Edward Tulane - Uma odisseia de amor

O que é o amor? E o que significa a ação de amar? Como saber que amamos de fato e somos correspondidos? Além disso, como saber se merecemos ser amados? Afinal, existe merecimento para o amor?

Perguntas como estas nunca haviam passado pela cabeça de Edward Tulane. Ele era um coelho de porcelana, então muitos podem achar que ele não pensava, o que não é verdade. Edward tinha opiniões muito sólidas, principalmente sobre si mesmo.

Dono de uma vaidade tão extensa quanto o próprio guarda-roupa, Edward foi feito sob medida para a garotinha Abilene. E seus dias se resumiam a uma maravilhosa convivência com uma menina que simplesmente o adorava. Contudo, Edward não se importava muito com isso, tão ocupado estava pensando em si mesmo e em como ele era especial. Até que um fortuito incidente o lança contra a vontade em uma longa jornada de sacrifício e descoberta.

Assim tem início A Extraordinária Jornada de Edward Tulane, romance de Kate DiCamillo. A narrativa é mantida o tempo todo a partir de um objeto inanimado - o coelho de porcelana Edward. Uma premissa como esta poderia resultar em um romance tedioso.

Não é o caso do texto de Kate DiCamillo. Trata-se de uma narrativa equilibrada e cativante. O talento da escritora é incrível, pois sustenta seu enredo com os pensamentos e sentimentos do protagonista. Ele é um ser senciente, mas não pode se mexer, estando totalmente à mercê de todos à sua volta.

Desta maneira, DiCamillo elabora uma delicada alegoria sobre nós mesmos diante do mundo e como em diversos momentos estamos totalmente fora do controle de nossas vidas, precisando depender totalmente de outras pessoas - até mesmo estranhas.

Outro ponto fundamental na narrativa está na propensão inata de algumas pessoas para o amor, e como essa propensão se revela no cuidado despretensioso. 

É muito importante destacar que este é um livro dramático. A jornada de Edward é extraordinária tanto pelo que tem de bom quanto de mal. E quanto mais estamos envolvidos na leitura, mais vulneráveis estaremos para sofrer junto com o herói.

Com um texto inventivo e envolvente, este romance é um convite a refletir sobre o Amor e sobre como cada pessoa que encontramos em nossas vidas nos muda de maneira irreversível. 

Ficha Técnica 
A Extraordinária Jornada de Edward Tulane 
Kate DiCamillo 
Ano: 2007
Páginas: 216
Idioma: português
Editora: WMF Martins Fontes
Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/livro/132650ED147142

quinta-feira, julho 04, 2019

Vídeo: sobre o canal

Prezadas e prezados, percebi que o vídeo que explica meu canal não está aqui no blog. Para corrigir este lapso, ele segue abaixo. Talvez a proposta e o conceito tenham mudado um pouco, mas quem sabe, né? Rsrsrs...


quarta-feira, julho 03, 2019

Caldos, Causos e Violas - A força e o sabor da Palavra


Ninguém que me conhece duvida que eu valorize a Palavra. Dela eu tiro meu pão. Dela eu me acerco quando preciso de sentido para minha vida. Ela me alimenta em todos os aspectos. E não apenas a palavra escrita, mas também aquela que vive solta, nos ouvidos e bocas de pessoas que muitas vezes são ignoradas em suas escutas. Ainda assim, elas resistem e continuam a inventar sentidos e temperos para nossa fala e, muitas vezes, também para nossa escrita.

Nos dias 14 e 15 de junho Belo Horizonte foi o centro de uma roda de palavras e sabores. Idealizado pelo Instituto Abrapalavra, foi um evento intimista e singelo. Ocorrido em uma biblioteca e em um espaço cultural, tinha o aconchego e a acolhida como principais ingredientes.

Na manhã da sexta-feira, dia 14, a Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de BH recebeu o grande Sebastião Farinhada. Com sua viola, ele cantou melodias de congado e compartilhou um pouco de sua vivência. Também falou sobre a importância da memória popular, da cultura do campo. Relatou os desafios na luta pela agroecologia. A roda de conversa aconteceu em conjunto do Encontro Semanal de Contadoras de Histórias.

Nós ouvimos, conversamos e comemos broa de fubá com café. Havia também água aromatizada com alecrim. Cada pessoa foi convidada a compartilhar uma memória afetiva de sabores de sua infância. Falamos de canjica, tropeiro, cuscuz, pé-de-moleque, doce de leite, fubá suado, canjiquinha e muitas outras delícias. Eu aproveitei para fazer menção a uma gostosura que conheci na época que morava em Teófilo Otoni.
As pessoas não costumam conhecer o chá de amendoim. Apesar do nome, ele não é feito com água, mas com amendoim cozido no leite. Ouvimos sobre gratidão, reverência à terra e à natureza. Cantamos e fizemos roda. Foi delicioso.

No sábado, à noite, a festa continuou no Espaço Suricato. Uma roda de causos aquecia nossos ouvidos e corações. Os caldos aqueciam o paladar da gente. Com o sal dos caldos, o adocicado das narrativas bem-humoradas contrabalançava esse momento tão saboroso. O mestre de cerimônias era ninguém mais que o próprio Sebastião Farinhada, que encerrou a festa com sua viola e a melodia Calix Bento. Caí na dança.

Mais uma vez saúdo a equipe do Instituto Abrapalavra, nas pessoas de Aline Cântia, Chicó do Céu, Fernando Chagas, Paula Libéria e Sheila Oliva. E também a interpretação em LIBRAS de Dinalva Andrade.

As palavras, canções e causos ainda embalam minha mente e meus ouvidos. Esses dias de junho estarão gravados em minha memória com esse espetáculo de cores, sabores e vozes. Que essas vozes continuem ecoando e nós sejamos sempre atentos a elas. Que as palavras continuem a alimentar nossas almas nesses tempos em que a fome parece querer tragar até mesmo a esperança.

terça-feira, julho 02, 2019

Vídeo: Linda - Samuel Medina

Olá, pessoal! Compartilho um novo vídeo. É a música que ofereço para minha esposa, Pâmela Bastos Machado. Com vocês, Linda.


segunda-feira, julho 01, 2019

Choque de realidade

Um racista nem
sempre assume
que é racista.

Pra ser presidente,
ele nunca ia assumir
que é racista.

Ele fala como racista,
age como racista,
mas diz:
isso não é racismo.

Negro, sem camisa, 16 anos.
Ele diz: Bandido.
Branco, fardado, 18 anos.
Ele diz: É um garoto.

Quando
defender crime
se torna certo?

Ele ri enquanto
faz gesto de atirar.

Ele não hesitaria
em matar você,
caso você fosse condenado
à pena de morte.
Não haveria
chance de dúvidas.
Ou misericórdia.

Ele aceitaria que
exterminassem você
sem processo penal.

Ele disse que isso é bem-vindo!

Enquanto isso,
meus olhos dão
boas-vindas
a lágrimas
eternas.

BH, 26/06/2019.

sexta-feira, junho 28, 2019

Heranças e memórias - O melhor que podíamos fazer

O que é herança, para além de seu sentido literal e óbvio? O que herdamos de nossos antepassados em termos de memória e identidade? É possível - ou mesmo necessário - traçar nossa personalidade a partir das vivências daqueles que vieram antes de nós e são diretamente responsáveis por nossa existência no mundo?

Essas foram algumas das questões que me fiz ao final da leitura de O Melhor Que Podíamos Fazer: memórias gráficas, de Thi Bui. Esta é uma aclamada Graphic Novell que alia o apuro artístico, o rigor quase acadêmico e a sinceridade testemunhal.

Thi Bui traça uma jornada de três vias. Uma é pelo espaço, saindo do Vietnam recém-unificado, passando por um campo de refugiados e seguindo para um país completamente estranho que no fim tornou-se o seu lar: EUA. Construído de forma não-linear, como o pensamento e a memória funciona, o livro conta a história da família Bui desde suas origens, com as infâncias e juventudes dos pais de Thi. Ambos são muito inteligentes e esse talento os aproxima. Porém, as origens são totalmente diferentes. 

A narrativa visual é leve e dinâmica. O texto procura acompanhar essa leveza, escrito em tom de confidência. Contudo, os fatos vividos pela autora e sua família são dramáticos e muitas vezes violentos. Há muito ressentimento, medo e angústia perpassando as memórias da família Bui.

Assim, Thi produz um relato poderoso e ao mesmo tempo acolhedor. Foi impossível para mim não me comover com as dores de cada familiar. Ao ver as fotos das crianças e seus pais em 3x4 para emissão dos passaportes, foi possível perceber a dor, a incerteza, a resignação de quem é obrigado a largar tudo pela simples sobrevivência.

É importante destacar que Thi não procura demonizar o regime que se instalou no Vietnã ao fim da guerra. Porém, os horrores e injustiças estão lá e deixaram suas marcas. A voz de Thi é sóbria e equilibrada, de alguém que sabe que o Vietnã não é seu lar, mas os EUA, mesmo sendo agora o seu país, jamais foi uma terra de sonhos. E que palavras como lar, família e herança são construídas com sensibilidade e afeto, representando algo que levamos conosco, não importa aonde formos.


Ficha Técnica
O Melhor Que Podíamos Fazer
Thi Bui
Ano: 2017
Páginas: 336
Idioma: português
Editora: Nemo
Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/livro/694846ED698058

quarta-feira, junho 26, 2019

Poesia em Turbilhão: Segundo ConVerso de LiteraRua


A Poesia é algo livre. Por vezes, tentamos encerrá-la em formas, mas ela acaba escapando. E o maravilhoso disso é que ela nos puxa para fora de nossa própria gaiola. Nos desconstrói e transforma, fazendo de nós parte dela, num turbilhão de sentidos.

Podemos ver esse fenômeno acontecer quando a Poesia deixa o papel e a tela para habitar as vozes e espaços. Eventos como o Segundo ConVerso de LiteraRua, que procurou celebrar a Poesia, especialmente Marginal.

O ConVerso de LiteraRua foi organizado e produzido pelo Circuito Metropolitano de Saraus.

Compareci ao Usina da Cultura no sábado, dia 15 de junho, às 9h. No centro do salão, cadeiras em roda em frente ao palco, onde algumas pessoas terminavam de fazer os últimos ajustes de som. Cumprimentei o bibliotecário, Diego Dávila, além de outras pessoas da equipe. Andei um pouco pelo espaço, timidamente observando o movimento que crescia.

A primeira roda de conversa, com o tema "Experiência do fazer em espaço público, direito à cidade e ocupação política" contou com a presença de Renato Negrão e Thais Kas. O mediador foi Rogério Coelho, que deu início com uma reflexão ao falar de LiteraTerra.

Negrão e Kas apresentaram suas vivências no fazer cultural e na difusão da poesia marginal. Foi muito interessante ver duas pessoas de perfis tão diferentes, uma da velha guarda e outra da geração mais recente de agitadores poéticos. Em dado momento, Renato passou um livro objeto de sua autoria e assinalou a importância de termos memória, de buscarmos os arquivos ainda vivos da poesia marginal da década de 1990.

Enquanto isso, Thais Kas falou sobre suas referências e os desafios atuais de sua poesia. Além disso, falou de seu amor pela produção, em especial nas ações da Coletiva Manas, da qual faz parte.

Ao final da mesa, o Coletivo Terra Firme se apresentou. Em seguida, fiz um passeio pela feira e já adquiri alguns materiais independentes, zines e marcadores de escritoras que estavam expondo.

Houve então a pausa para o almoço. Aproveitei para escapulir e almoçar em casa. Não participei das atividades da tarde, embora desejasse muito, mas precisava de um descanso. Enquanto eu estava fora, ocorreram as oficinas "Criação de performance poética" pelo Nosso Sarau, de Sarzedo, e "Escrita Criativa-poética" do Sarau Biqueira Cultural, de Ribeirão das Neves.

Cheguei a tempo de pegar o início da segunda roda: "Formação de leitores e público por meio da LiteraRua marginal de Saraus & Slams em diálogo em escolas & Bibliotecas públicas", com Oliver Lucas, Norma De Souza Lopes, Rodrigo Teixeira e Marta Passos. Mediando essa galera estavam Joi Gonçalves e Bim Oyoko.

A fala foi rica e profunda, a partir de diversas visões. A abordagem acadêmica e conceitual de Marta Passos dialogou com a vivência de Norma de Souza Lopes, Oliver Lucas e Rodrigo Teixeira. Este último apresentou uma fala descontraída e repleta de humor, quase como um comediante de stand up. Norma enriqueceu a conversa ao apresentar seu extenso e exaustivo trabalho de mediação de leitura, assim como Oliver também o fez.

Ficou presente com força em minha mente a fala de Marta Passos sobre a política como a contestação da ordem estabelecida. Segundo ela, é o que a poesia marginal faz, sendo ela um dinâmico e transformador fazer político.

Infelizmente, perdi o show da banda Mascucetas, pois precisava ir ao evento "Caldos, Causos e Violas", no Espaço Suricato. Uma festa com sua própria história e que também fala de Arte e Resistência.

No domingo, cheguei cedo para a oficina "Confecção de Zines & Livros" pelo Coletivo Lanternas, de Venda Nova. O mediador, Digô, foi extremamente atencioso e paciente. Fiquei encantado ao ter em mãos dois novos cadernos para serem transformados em histórias e relatos.

No andar de cima da Usina, acontecia a oficina "Edição de vídeo-foto-poesia", pelo Coletivo Avoante, daqui mesmo de BH.

Saímos para o almoço e retornamos para a terceira roda: "Mercado Literário das editoras & feiras independentes, políticas de incentivo à cultura e a profissionalização da literarua marginal". Para discutir a questão, ouvimos Nívea Sabino, Flávia Denise, Jomaka e Walisson Gontijo. Foi uma conversa de desafios e identidades. 

Nívea contestou muito a lógica de uma profissionalização do artista marginal. Inclusive ela defendeu seu profissionalismo, e com muita propriedade. Flávia falou de sua pesquisa e do conceito incerto de "escritor independente". Sua fala me fez refletir, principalmente depois de ter escrito um texto abordando esse assunto. 

Jomaka então fez um poderoso relato de experiência como escritor trans e ativista na luta antimanicomial. Sua experiência é sofrida e angustiante, mas também encorajadora e potente.

A experiência de Walisson Gontijo, na criação da editora Impressões de Minas junto com Elza, foi muito rica e ajudou a vislumbrar um pouco esse cenário de feiras de editoras independentes a partir do olhar de um editor.

Ao final do dia, pudemos assistir a intervenção da Coletiva Manas, com performances de Lelê Cirino, Jéssica Rodrigues, Débora Rosa e Bruxa. Outras poetas se apresentaram quando o microfone foi aberto.

Aconteceram então plenárias para discutir as ações do Circuito. Não fiquei, pois estava exausto. Porém, deixei claro meu interesse em acompanhar os desdobramentos, como amante da poesia falada e dos saraus da Grande BH.

O evento foi potente, para mim. Reencontrei pessoas, conheci novas faces e fiquei encantado com os trabalhos e livros de muita gente que lá estava. Se pudesse, compraria tudo. E também fui impactado com as falas profundas e responsáveis de todas as pessoas envolvidas. Gostaria de saudar o envolvimento de toda a galera do Circuito Metropolitano de Saraus, em espacial de Camila Félix, DuduLuiz Souza e Vito Julião. E para todas as pessoas envolvidas. Foi maravilhoso estar nesse turbilhão poético!








segunda-feira, junho 24, 2019

Escarnecedores em roda



Um homem fazendo o sinal de armas com a mão usa uma camisa escrito "marcha para jesus". Enquanto isso, outros ao redor sorriem e aplaudem. 

Penso se não deveriam ter expressões de descontentamento ou vergonha. Jesus não era o tal príncipe da paz? 

Bolsonaro é um turbilhão de ódio e preconceito. Fico imaginando os fariseus e sacerdotes da época de Jesus com a mesma cara do Bolsonaro, as mesmas posturas e palavras. E o mesmo ódio.

Certa vez, assisti um vídeo em que Bolsonaro afirmava que seria voluntário em execuções de condenados, caso o Brasil tivesse pena de morte. Bolsonaro, se vivesse no tempo de Jesus, seria voluntário para bater os cravos. 

Que defesa os cristãos têm? Quem quiser procurar a foto verá os "servos de deus" rindo e aplaudindo, como se o presidente fosse um performer, um artista, um bobo da corte. É assustador.  Marcha para Jesus é marcha pelo direito de estar armado? E ainda assim, arma não é motivo para piada e festa. Arma serve apenas para ser usada para ferir.

Mesmo que uma pessoa seja a favor do porte de arma, acho que ela deveria pensar nisso como um mal necessário, e não como um item para ostentação. E para deixar claro: Eu sou contra!

sexta-feira, junho 21, 2019

Borda - sobre uma melancolia de luz

Por vezes, a Poesia nos pega pela mão e nos leva até a beira do precipício. Ela então nos convida a debruçar e olhar o vazio que existe lá embaixo. E se nos negamos a isso, ela nos pega pelas bochechas e nos faz olhar em seus olhos - onde veremos o mesmo vazio. Podemos até fechar os olhos, mas nós já entramos em sua dança, e ela nos conhece muito bem. É impossível sairmos imunes.

Foi assim que me senti ao terminar Borda, de Norma de Souza Lopes. A voz da poeta belo-horizontina me levou ao silêncio e ao vazio. Mas esse mesmo vazio escondia uma semente de múltiplas possibilidades.

Não há como ler a poesia de Norma e não se sentir um pouco ela. Afinal, ela vai deixando marcas de sua alma nos versos, como "metassinaturas". Sua história marca a palavra de seus Poemas como as cavernas com pinturas rupestres.

Há uma tristeza resignada em seus poemas. Não devemos confundir, porém, com conformismo. Sua resignação está mais para uma voz que admite seus silêncios, seus tropeços, sua condição. Mas nessa mesma resignação é firmada a trincheira da resistência e da luta.

Ainda que haja essa tristeza na maior parte dos poemas, algo como a certeza de que o Amor é miragem, há como que traços de luminosidade, apontando para uma esperança despretensiosa. A voz poética não quer ter razão. Apenas se permite sonhar, a despeito da dor, da angústia, do sofrimento e da rejeição.

Uma tristeza luminosa que nos aponta para o vazio e o escuro que em nós existe, enquanto nos convida a abraçar esse breu, fazer dele um ponto de calor e aconchego, onde possamos fazer brilhar nossa própria luz.

Ficha Técnica 
Borda
Norma de Souza Lopes 
Número de Páginas: 100
Formato: 14x21 
Editora Patuá

Aproveito para compartilhar aqui o vídeo em que eu declamo o poema "Tombo", que faz parte do livro:


quarta-feira, junho 19, 2019

Bolsoriques

Vive dizendo "tá okey!"
Ele não me engana, eu sei
Não tem argumento
É só um jumento
Capacho "made USA"!

Bolsonaro é muito lambão
É um político porcalhão
Acha que é polícia
É ligado à milícia
O pior para esta nação!

Tá chamando a gente de imbecil
Não tá se lixando pro Brasil
Bolsonaro é indecente
É um mal presidente
Que ele vá pra ponte que partiu!

Bolsonaro é bem persistente
Até mesmo pra um presidente
Tanto que viajou
Doze milhões gastou
É um turista muito exigente!

terça-feira, junho 18, 2019

Vídeo: A princesinha medrosa

Olás! Compartilho com vocês o vídeo mais recente do canal: A princesinha medrosa, de Odilon Moraes. 


E aí, o que acharam? Não deixem de comentar, com críticas e sugestões, ok?

segunda-feira, junho 17, 2019

Outra poética

Na falta de palavras novas,
reinvento as antigas.
Nada mudou, sequer uma vírgula.
Apenas meu olhar quer ser outro.
O tempo é minha única moeda
e nem assim posso usá-lo.
Cunhado estou por ele
como um ser de barro,
caviloso
imperfeito.
E ainda assim
tento completar os sentidos
que sequer compreendo muito bem.
Quem sabe, um dia,
alguém descubra algo que eu disse
e não sabia.

sexta-feira, junho 14, 2019

Heróis - Sobre as grandes batalhas da vida

Mia, Felix e Corinna são especiais. Não é pelo fato de terem saído no jornal como heróis locais, nem por terem fundado o Clube dos Detetives Mestres para combaterem o Bizarro. Ainda assim, esses dois motivos já seriam suficientes. Para entender o porquê dessas três crianças de 10 e 11 anos serem de fato especiais, é necessário ler Heróis, de Jutta Richter. 

Narrado na pessoa de Mia Besler, o livro se passa em um longo e quase interminável verão. Seu início ocorre durante um incidente perigoso: um incêndio. A partir desse acontecimento, o leitor acompanhá as aventuras e desventuras de três crianças, em especial a narradora.

Mia é uma menina que tem em si a esperteza precoce, embora preserve ainda a inocência infantil. Sua inteligência é afiada, de forma que seus questionamentos são compartilhados com o leitor a cada momento. A inocência da menina garante um tom de sinceridade comovente, principalmente por conta da ausência de malícia.

Não significa que Mia não se envolva em encrencas. Na verdade, o livro tem início com uma enorme enrascada  a qual a menina e seus dois amigos se metem. Porém, à medida que a narrativa é desenvolvida, vamos percebendo que os problemas que Mia observa são bem maiores que as possíveis consequências de uma travessura.

Escrito com um tom comovente e leve, repleto da pureza infantil, Heróis é um mergulho no universo infantil, com toda sua ingenuidade, companheirismo e solidão.

* Dica de leitura da Bibliotecária da minha vida, Pâmela Bastos Machado. 

Ficha Técnica 
Heróis
Jutta Richter 
Tradução de José Feres Sabino
Editora Iluminuras