Nem o futuro nem o presente existem. Nem se pode dizer que os tempos são três: passado, presente e futuro. Talvez fosse melhor dizer que os tempos são: o presente do passado; o presente do presente; o presente do futuro. E estes estão na alma; não os vejo alhures. O presente do passado é a memória, o presente do presente é a percepção, o presente do futuro é a expectativa. Santo Agostinho
Um dia todos nós vamos nos encontrar. E isso se dará em uma dessas esquinas esquecidas e cinzentas, onde funciona um café que parece que parou no tempo há cinqüenta ou sessenta anos atrás. Iremos entrar, alguns juntos, rindo, tirando os casacos por causa do calor aconchegante de dentro em contraste com o frio intenso do inve(te)rno lá fora. Outros chegarão depois, quando já estiver nevando, mas sobretudo antes de escurecer.
Será inevitável, contudo, que falte alguém. Um que nunca irá aparecer, ainda que o aguardemos. E deixaremos seu lugar vago, na vaga esperança de que a porta se abra, trazendo uma lufada de vento frio e a imagem de uma espera enregelada. Estaremos todos a conversar, como que ignorando a falta tão presente desse amigo. Nossos sorrisos escondendo os olhos tristes, consolando-se por ainda termos uns aos outros. Até mesmo o fantasma, o ausente.
E não faltará literatura. E tabaco. Sim, o capuccino correrá solto junto com a cerveja escura e o vinho quente. Logo todos nós estaremos a cantar as proezas dos poetas já mortos; aventureiros sem ter mais o que desbravar. Nossas gargantas ficarão apertadas, a comoção fará com que as lágrimas se misturem ao conhaque. Mas ainda estaremos vivos. E sóbrios. Não essa sobriedade disfarçada, social, moralizada. Olharemos a vida com a verdadeira consciência, ébrios no físico, mas sãos em natureza. Mesmo aqueles que não beberem serão tomados por essa embriaguez, uma embriaguez literária, onde as palavras enlouquecem junto com o fogo e a noite. Muitos de nós, sem nos conhecermos de fato, iremos nos amar como irmãos; ou como amantes; o que pedir a ocasião. Não haverá misérias que não sejam choradas e memórias que não sejam lembradas. Mesmo as inexistentes serão evocadas e criadas por aqueles que nunca as tiveram. Seremos um só, uma só noite, a perpetuar nossas escuridões nas palavras e nos silêncios de nós mesmos...
Texto dedicado a todos os ausentes, num dia que tanto sentido faz para minha própria existência.









