segunda-feira, abril 30, 2012

Reencontro


Foi um momento inusitado, aquele encontro. Os dois se viram no mesmo lugar, aquele mesmo lugar, que um dia tanto significou para ambos. A galeria de arte era a mesma. O quadro observado, já era outro. No frio daquele corredor de mármore, tão diferente após anos de distância, dois corpos que já se pertenceram agora se encontravam, casualmente. Os olhos eram outros; os dela, tristonhos; os dele, austeros. Mas seria inverdade afirmar que os corações também não eram mais os mesmos. Reações? Nenhum as externou. Foram mantidas por trás da máscara da maturidade. Eram somente dois estranhos que admiravam a mesma obra de arte. A galeria que há muitos anos atrás já lhes havia sido tão familiar, pretexto para encontros tão agradáveis, parecia-lhes agora um mundo totalmente estranho. Estavam sós, ninguém os observava a não ser um busto de pedra, testemunha daqueles dois oceanos que se encontravam num silencioso estardalhaço.
Ele subitamente virou-se e a encarou. Ela permanecia imóvel, estranha e titânica, porém sublime imagem. Ele tentou falar, abriu lentamente a boca, mas faltou-lhe força e fôlego para tanto. Ela, embora sem demonstrar, era toda conflito. Com leve timidez, ela gentilmente tocou aquela vincada e bruta mão masculina. Surpreso, ele estremeceu, açoitado por uma energia nova. Retribuiu o gesto, envolvendo aquela graciosa e delicada mão dela. Eram outros, cada outro em si mesmo, projetando-se em seu parceiro. Eram um, eram vários, infinitos. Eram a galeria, o quadro sem cor ou graça, o busto de pedra. Eram ninguém. Naquele momento, nenhum dos dois perguntou-se o que viria depois.

2 comentários:

Rosa Maria disse...

Interessante...

Tyr Quentalë disse...

Tais reencontros às vezes parecem tão estranhos e familiares em suas emoções que me lembra que alguns reencontros que já tive em minha vida; dignos de histórias como contos de fadas irlandeses ;)