quarta-feira, agosto 15, 2012

O que as sombras revelam

A primeira sensação que o envolveu foi daquele frio cortante. A escuridão veio logo depois. Aquela era a hora em que todas as coisas pareciam mortas; a hora em que o próprio sono se assemelhava com a morte. 

O menino meio que retornou à vida, vindo de um efêmero país de sonhos. Aos poucos foi tomando ciência de seu próprio corpo. Os sentidos ajudaram-no a mapear seu espaço. Visão e audição faltaram a seu chamado. Afinal, estava imerso em silêncio, como numa escuridão sepulcral.

O frio fazia sua respiração arder. Privado dos aromas familiares, lembrou estar em lugar estranho. Aos poucos a lembrança foi acompanhando sua própria consciência. Não estou em casa; estou na fazenda, muito longe de tudo que conheço. E agora parecia também completamente sozinho. As sombras eram suas únicas e reais companheiras.

A bexiga protestou e o menino percebeu que este era o motivo de seu despertar. Ainda sob as cobertas, tentou mapear mentalmente a casa estranha onde estava hospedado com a família. Abriu e fechou os olhos, percebendo que não fazia diferença. Hesitou ainda por alguns instantes para em seguida jogar as cobertas e saltar da cama.

As tábuas do casarão colonial rangeram sob seus dedos, quebrando o silêncio que parecia uma parede de gelo a impedir que ele se movesse. Pé ante pé, o menino vagou, lentamente, usando as mãos para evitar uma topada violenta em qualquer coisa oculta naquele breu.

Chegando ao que parecia a sala de jantar, uma terrível surpresa. Uma luz vermelha, mortiça, desafiava o menino bem longe, lá onde a escuridão parecia nascer. Era um minúsculo ponto escarlate, como um olho maligno a observá-lo; ou como a brasa do cigarro de um fumante solitário, estranho.

O pavor gelou as entranhas do menino, quase fazendo com que sua bexiga se desprendesse. Encostando a mão esquerda no batente da porta que fazia divisa entre a sala de jantar e a de estar, ele parecia vidrado por aquele olho vermelho. Conforme se lembrava, a porta do banheiro estava à frente, um pouco à esquerda, na metade do caminho até a luz vermelha.

O menino viu-se diante de três escolhas. Poderia virar as costas para a luz e voltar ao conforto da cama, apesar dos protestos da bexiga, ou poderia vagar até o banheiro e ignorar a luz vermelha.

A terceira escolha, a mais difícil, foi a que ele fez. Com passos lentos mas firmes, o menino seguiu até a fonte da luz vermelha. O ponto luminoso foi crescendo até revelar-se apenas a luz que indicava o funcionamento do freezer da cozinha.

Sentindo um misto de alívio e orgulho, o menino deu meia-volta e dirigiu-se ao banheiro. De lá, seguiu para sua cama. As sombras da madrugada ocultam muito mais do que revelam, dão formas de monstros a coisas banais. Mas para o menino, pouco daquilo importava. Na luta com seus medos ele se saíra vencedor. E se tornara o senhor daquela madrugada... e o senhor do seu próprio coração.

terça-feira, agosto 14, 2012

Um ano de Cidade Suspensa



Publicar "A Cidade Suspensa" no blog foi uma experiência incrível. Compartilhamos opiniões, expectativas, impressões, ansiedades... Fiz amizades que perduram até hoje, sólidas. Para não deixar o momento em branco, convido a todos para este evento virtual, também uma oportunidade para os amigos que ainda não conhecem esta narrativa.

Como uma forma de deixar marcado este momento, convido a todos para uma comemoração virtual. Para tanto, basta clicar aqui: http://oguardiao.blogspot.com.br/p/a-cidade-suspensa.html. Deixe seu comentário para marcar sua presença. Pode ser um recado, faça uma brincadeira, mande um abraço para alguém. A premissa é a criatividade!

Abraços a todos!

segunda-feira, agosto 13, 2012

O Viajante Cinzento - Prólogo


 Derek escarrou no mar, esfregando as mãos em seguida para aquecê-las em meio ao frio da madrugada. O velho pescador olhou para a escuridão revolta e deixou seu olhar passear pelas ondas até a costa. Devia faltar pouco mais de meia hora para o nascer do sol e sua rede ainda estava vaiza. O pequeno barco de Derek flutuava a duas ou três mil braçadas da costa sombria. O mar estava mais escuro que o normal e as ondas faziam a embarcação oscilar de forma dramática. O pescador acabou de retirar sua rede da água e constatou que não pescara nada. Soltou um palavrão.
Aquele era um país próspero, diziam. Um reino belo, construído com sólidas estradas e cidades comerciais repletas de finas mercadorias. Derek lançou a rede e resmungou mais uma vez:
"Que Nibala me devore se essa porcaria de país for mesmo uma beleza como dizem."
O pescador nada sabia sobre tanta riqueza e conforto. Não naqueles tempos de crise. Houve época em que o peixe era abundante, cardumes enormes davam à costa e enchiam a mesa dos camponeses, deixando também cheios os bolsos do pescador. Agora, tudo era miséria. O norte parecia definhar lentamente. 
Do sul vinham histórias de campos verdes com plantações que pareciam brilhar como ouro. Aliás, estavam no fim da colheita e mesmo assim o trigo continuava caro como se fosse a própria merda da Nibala, a mulher-demônio. Não somente o trigo; tudo era caro no tímido mercado de Leidir, a aldeia onde Derek vendia seu pescado e comprava toda a mercadoria essencial para que ele e sua esposa Jeena sobrevivessem. E apenas sobreviviam.
Tudo ainda era bom demais no sul, com seus campos verdes e cidades tranquilas. Tudo era excelente naquele reino que diziam ter o melhor e mais bem equipado exército de todo o continente. As estradas seguras permitiam o intenso comércio. As leis fortes e justas protegiam até mesmo os pequenos mercadores. As estradas eram limpas e bem focadas. A riqueza, porém, estava ao sul e ao leste. Para o norte, nada havia a não ser o mar escuro e revolto.
Apesar do verão, tudo parecia piorar a cada dia. As tempestades deixavam o mar agitado como um corcel jovem e por duas vezes Derek deixara o vento carregar suas velas, para não perder o mastro e o barco de uma vez. Aquele era seu único sustento, se não quisesse migrar para o sul com a esposa e viver sua velhice como mendigo na populosa aldeia de Keraz ou até mesmo numa das grandes cidades do sul. Isso se ele sobrevivesse à viagem, é claro.
Diziam que o mundo acabava bem depois da costa e Derek nunca sentiu vontade de conferir. Alguns falavam de uma outra terra, onde demônios habitavam ruínas de antigos templos de luz. Isso, contudo, não fazia diferença para o pescador. Precisava de peixe, mas há meses eles praticamente desapareceram. Até mesmo gaivotas e albratozes haviam partido, em busca de águas que fornecessem mais alimento.
Derek suspirou, começando a recolher a rede, quando sentiu um forte puxão. Seu coração deu um salto. A força com que a rede fora puxada indicava que ele havia pescado algo grande, talvez um badejo, ou até mesmo um mero. Bufou com o peso, enquanto seus músculos se retesavam, lutando contra a rede. Depois de alguns minutos, finalmente o pescado pareceu cooperar e lentamente Derek puxou o conteúdo da rede para dentro do seu barco.
O pescador soltou um grunhido de surpresa quando viu a massa disforme que preenchia sua rede. Uma coisa escura se misturava entre as algas; não havia sinal de peixe.
– Mas que porcaria... – resmungou.
Ao que parecia, havia um braço humano enredado entre toda aquela massa disforme. O pescador friamente removeu o corpo da rede, retirando quase toda a lama e algas que o cobriam. Era um homem de idade indeterminada, com o rosto meio desfigurado, vestido do que restava de um gibão de couro e calças de linho. 
Derek já havia encontrado infelizes assim. Imaginou que talvez seria mais uma alma atormentada, cansada da crescente miséria, que buscara seu próprio fim lançando-se de um dos penhascos que havia a leste da costa. A corrente marítima bem poderia ter arrastado o corpo até ali. Interessado em vasculhar o morto em busca de algum objeto de valor, talvez um medalhão ou uma corrente de prata, Derek estendeu sua mão para o pescoço do afogado.
Com um bote súbido, o cadáver mexeu-se, agarrando com rapidez o pulso do pescador. Derek soltou um grunhido desesperado quando viu os olhos vazios do cadáver crisparem de fúria, enquanto a boca podre se fechava sobre sua mão numa mordida dolorosa.
Desesperado, o pobre homem lutou. Aquela coisa, aquela abominação, era mais forte do que se podia imaginar de um cadáver. A luta foi curta e atribulada. Os dois se embolaram no chão do barco, lançados contra cada lado da amurada pelo balançar intermitente das ondas. Num último e angustiado esforço, Derek conseguiu jogar seu atacante de volta ao mar. O morto atingiu a água num baque quase silencioso e rapidamente afundou nas águas escuras, arrastando consigo a rede.
Ofegante, Derek xingou outra vez, enquanto tentava conter o sangue que esvaía de onde antes havia os dedos anular e mínimo de sua mão direita. Seu coração parecia um tambor e ele tinha os tímpanos tampados pela pressão. O velho pescador tomou fôlego, olhou ao redor e, ainda em pânico, agarrou seus remos. Precisava voltar logo para casa. Se havia uma coisa como aquela na água, ele precisava garantir que Jeena estava bem.
Tentando de todas as formas ignorar a dor, Derek remou de volta à costa. Rezou a todos os deuses que podia se lembrar. A proa mutilava as cristas das ondas e o único som além do chapinhar das águas provinha dos grunhidos de esforço que o pescador fazia para vencer a distância que o separava da praia.
Derek não imaginava que no dia seguinte estaria morto.

Ir para A Espada - Parte I de II

sexta-feira, agosto 10, 2012

A Tormenta de Espadas: fogo, sangue e magia

Fonte: divulgação.
Um jovem obrigado por juramento a romper com outro, ainda que só por fingimento; uma jovem diante do desafio de atravessar o mundo, arregimentar um exército e ainda vencer os medos que a assolam; um homem assombrado por seu passado, buscando entender suas escolhas e sua própria índole; um garoto com o corpo quebrado e a alma sólida; um homem aleijado e mutilado, numa batalha eterna pela aprovação do próprio pai. Estes são apenas alguns dos elementos marcantes que sedimentam o romance 
Tormenta de Espadas, o terceiro volume da saga Crônicas de Gelo e Fogo.

A situação da guerra se torna cada vez mais séria, com a aproximação do inverno. Como não era para ser diferente, quem mais sofre o povo, enquanto os poderosos jogam seu jogo dos tronos. As fidelidades são testadas, as tradições rompidas e o sangue corre junto com o renascer da magia.

Como no volume anterior, Fúria dos Reis, outros personagens surgem para protagonizar grandes desafios. Brienne de Tarth e Jaime Lannister têm sua jornada própria e a relação atribulada dos dois adiciona uma carga fortemente dramática e ajuda o leitor a ver o Regicida de uma forma mais humanizada.

Enquanto isso, além da Muralha, a Patrulha da Noite terá o primeiro real confronto com os inimigos mais terríveis que já surgiram até agora: os Outros. A sequência desesperadora que se segue ao ataque é de tirar o fôlego. 

Não podemos deixar de falar da herdeira dos Targaryen. De longe a odisseia de Daenirys é mais fascinante que todas as demais narrativas. Quanto maiores seus dragões ficam, mais poderosa parece a personalidade de Danny. Ressalto, porém, que essa força está em suas decisões e força de caráter. Os dragões, embora importantes para afirmar o poderio e prestígio da jovem, são meros coadjuvantes diante dessa menina que já nasceu Dragão. E com o surgimento dos dragões, a magia começa a brotar por toda Westeros, como havia sido falado no livro anterior. Já neste volume, as maravilhas se tornam ainda maiores, embora completamente factíveis, uma vez que a saga de George R.R. Martin tem um compromisso quase radical com o realismo.

Com sequências de incrível carga dramática, batalhas épicas e desafios notáveis, Tormenta de Espadas certamente será um livro difícil de largar.


Ficha Técnica
Título: A Tormenta de Espadas
Autor: George R.R. Martin
Edição: 1
Editora: LeYa Brasil
ISBN: 9788580442625
Ano: 2011
Páginas: 884
Tradutor: Jorge Candeias

Página do livro no Skoob: http://www.skoob.com.br/livro/150936

quarta-feira, agosto 08, 2012

Um Mundo em meus braços

Algazarra. Vozes infantis se alternam, enchem o ambiente. É como uma melodia improvisada para me recepcionar. Os sorrisos brilham através dos olhos infantis. Sorrisos que esbanjam venturosa inocência.

Sou visita, mas é como se fosse de casa. Ali, o que dita a regra é o pertencimento, o afeto. Meus braços são levados ao limite; as três crianças querem colo, embalo, atenção. Meu nome é gritado e repetido por vozes que não cessam enquanto não forem atendidas. Minha alegria é temperada pelo desafio que beira o desespero. Se pudesse, embarcaria o mundo todo com estes braços. Três mundos inteiros, particulares, que passeiam entre a agitação vulcânica e a paz idílica.

As brincadeiras são interrompidas quando o dono da casa chega, trazendo o lanche. Momentos de oração, de compartilhamento. O alimento passa de mão em mão, como naquela antiga Ceia. Uns cuidam dos outros, servindo o pão, o café quente e forte, o achocolatado.

Barrigas cheias fornecem a energia para uma segunda rodada de algazarra. Pezinhos tão pequenos dançam, sapateiam, enquanto as mãos se erguem, criando coreografias repletas da graça infantil.

Subitamente, o dono da casa decreta: hora de dormir. Ordem dada não é necessariamente ordem cumprida. Até dormir se torna brincadeira para os três pequenos, que deitados resistem ao sono com risos e cochichos. Não param um momento sequer. A cama é pequena para os três e eles usam o espaço limitado para continuar a bagunça.

Tomo nos braços a menor deles, um toquinho que ainda não fez dois anos. Ela como que imediatamente se aquieta, enquanto conversamos de um jeito só nosso.Ela mostra para mim toda a sua curiosidade, repetindo com diligência os nomes dos objetos à nossa frente à medida que eu os pronuncio. Sinto meu peito tremer de ternura e gratidão por participar dessa singela exploração, nós dois tateando o espaço através das palavras. Vasculhamos o céu, conhecendo as estrelas. Ela diz de repente que a lua não veio, ninguém "a trouxe".

Começo a cantar para ela. Embalada pelo som de minha voz, ela adormece. E meus olhos se umedecem ao vislumbrar aquele pedacinho de gente, um mundo inteiro traduzido num nome. Naquele instante, um mundo adormece em meus braços.

segunda-feira, agosto 06, 2012

Frutos da estação - III

Moulin de la Galette (1886), Vincent Van Gogh





Esquinas do tempo
estabelecem austeros
moinhos de vento









Haikai produzido durante a atividade Estação da Poesia, realizada por Simone Teodoro.


Aproveito para compartilhar com vocês outros frutos: Há quase 1 ano comecei a publicar aqui a novela A Cidade Suspensa. Não imaginava, mas essa aventura rendeu novos leitores e muitos momentos de conversa calorosa. Pude firmar incríveis amizades e aumentar a confiança no que escrevo. Tudo isso graças aos leitores.

Assim, tive coragem e ousadia para enviar meu texto para a Editora Andross e vi acontecer: um livro onde meu texto estava escrito.

Agora, vejo outra realização. O resultado do Concurso Nacional de Mini Contos da Sul Info Publicações, onde tive outro texto selecionado. Como prêmio, receberei cinco exemplares e um certificado. 

Compartilho com todos aqueles que acompanham minhas peripécias de escritor aprendiz esses momentos de alegria. E quero convidá-los a celebrar comigo no dia 14 de agosto, aqui mesmo. Basta entrar no link para A Cidade Suspensa e deixar lá seu comentário. A intenção é fazer uma grande festa virtual. 

Tinha pensado em fazer também outro tipo de comemoração, mas temia ser injusto com meus amigos de outros estados, que não pudessem estar aqui comigo. A vontade mesmo era de abrir algumas garrafas de vinho com todos vocês!

Deixo então registrado aqui todo o meu carinho, em retorno a tantos comentários positivos, a tanto incentivo. Vocês são demais!

sexta-feira, agosto 03, 2012

Do amor e outros demônios

Ao terminar a leitura de Do amor e outros demônios, de Gabriel Garcia Márquez, fui assaltado por uma mistura de sentimentos que dançavam entre a ternura e a melancolia. Percebi que a genialidade de Garcia Márquez já se mostrava na intensa sinergia entre o título do livro e a forma como a história é narrada. Digo isso porque toda a ternura que perpassa o texto é contraposta à crueza maligna perpetrada por personagens compromissados em fazer funcionar um sistema cruel e alienador.

A narrativa ocorre ainda no período colonial e conta a história do amor entre Sierva María de Todos los Angeles, uma menina de 12 anos, filha de um marquês decadente, e Cayetano Delaura, padre esclarecido e ligado à Inquisição. 

Sierva María, vítima da mordida de um cachorro contaminado pela raiva, fora criada em meio aos escravos de sua casa, sendo versada em 3 idiomas africanos, além de conhecer suas divindades e rituais.

Seus pais, destroçados pelo tempo e pela fatalidade, são incompetentes em fazê-la feliz. Essa missão cabe aos escravos com quem Sierva María convive, e que a adotam com muito prazer. A menina cresce em meio a tradições que supostamente não lhe pertencem e dessas tradições constrói sua identidade.

Quando o perigo da raiva se transforma em suspeita de possessão demoníaca, Sierva María é enviada para o Convento de Santa Clara, para a ala das "enterradas vivas". Seu pai, o marquês de nome Ygnácio, ainda tentara em vão resgatar a alma de sua filha e talvez também sua própria. Com o fracasso de seus esforços, ele é obrigado a abandoná-la por ordem do bispo da colônia.

Cayetano então é destacado pelo bispo, como seu homem de confiança, para exorcizar a menina. O padre calado e estudioso não imaginava que ele mesmo seria vítima dos mesmos demônios que atormentam Sierva María. E o maior desses demônios é o amor.

Deixo aqui um trecho do livro, para que todos possam perceber a beleza presente nas palavras de Garcia Márquez:

Mais uma vez insistiu que o prognóstico não era alarmante. A ferida estava longe da área de maior risco, e ninguém lembrava que tivesse sangrado. O mais provável era que Sierva María não contraísse raiva.

- E enquanto isso? - perguntou o Marquês.
- Enquanto isso - disse Abrenuncio -, toquem música, encham a casa de flores, façam cantar os passarinhos, levem-na para ver o pôr-do-sol no mar, dêem-lhe tudo o que possa fazê-la feliz. - Despediu-se rodando o chapéu no ar e com a frase latina de rigor. Mas dessa vez traduziu-a em homenagem ao Marquês: - "Não há remédio que cure o que a felicidade não cura."

Escrito com um um ritmo cadenciado e repleto de imagens poéticas, Do amor e outros demônios é uma leitura forte, pungente e, sobretudo, sublime.

Ficha Técnica
Título: Do amor e outros demônios
Autor: Gabriel Garcia Márquez
Editora: Record
ISBN: 8501042285
Ano: 1995
Páginas: 224
Tradutor: Moacyr Werneck de Castro

Página do livro no Skoob: http://www.skoob.com.br/livro/474

quarta-feira, agosto 01, 2012

Mario Cau na Gibiteca

Já contei aqui que trabalho em uma biblioteca, sempre cercado por livros, buscando a aproximação de textos e leitores. 
Não havia contado, creio, que dentro da biblioteca há uma gibiteca.
Sim, temos um acervo enorme de quadrinhos, que variam de gibis a graphic novels, álbuns e mangás. Os temas são tão variados quanto as publicações.
No espaço da gibiteca acontecem atividades periódicas, como o Leituras em Quadrinhos e o Conversa em Quadrinhos. O primeiro é um clube de leitura bem informal e o segundo é um momento especial para conhecermos os quadrinistas que estão fazendo a diferença no cenário nacional (e internacional) das histórias em quadrinhos.
Neste sábado, tivemos mais uma edição do Conversa em Quadrinhos e recebemos o Mario Cau, que mostrou muito de si mesmo através de suas palavras, como já faz com seus desenhos. Ele falou de sonhos, expectativas e experiência profissional. Arrancou gargalhadas de todo mundo e do seu jeito bem simples tornou a conversa ainda mais descontraída. Foi um sábado memorável, não duvido disso.
Para quem ainda não conhece o trabalho do Mario, basta acessar o site Petisco, pelo link http://petisco.org/terapia/, webcomic vencedora do HQMIX 2012.

segunda-feira, julho 30, 2012

Frutos da Estação - II




Vista da praia de Scheveningen (Scheveningen 1882), Vincent Van Gogh




O vento imita as ondas
Negras nuvens anunciam
De um tempo além








Haikai produzido durante a atividade Estação da Poesia, realizada por Simone Teodoro.

sexta-feira, julho 27, 2012

Luka e o Fogo da Vida - Mundos de Pura Magia

O menino Luka passa por uma prova de fogo. Literalmente. 

Seu pai, o contador de histórias Rashid Khalifa, também conhecido como o Xá do blá-blá-blá, encontra-se vítima de um terrível feitiço, que o fez cair em profundo sono. Em seu lugar, surge então uma estranha e dúbia entidade, chamada Ninguémpai, que tem a mesma aparência do pai do menino. Enquanto Rashid Khalifa enfraquece, Ninguémpai fica dada vez mais forte.

Luka precisa salvar o Xá do blá-blá-blá antes que seja tarde demais. Auxiliado por dois companheiros inseparáveis, Cão, o urso e Urso, o cão, o menino conta também com a suspeita orientação de Ninguémpai. O menino deverá roubar o Fogo da Vida, que está muito bem guardado no coração do Mundo da Magia. Assim, Luka empreende uma perigosa jornada, impossível não fossem as vidas que recolhe pelo caminho. Sempre que morre, Luka retorna, mas somente enquanto tiver vidas extras. Contadores digitais permitem a Luka verificar o seu progresso, assim como as vidas que tem de reserva. 


Em seu caminho, ele encontra um casal de Aves Elefantes, que aceitam auxiliá-lo. O aliado mais importante, porém, será a Insultana de Ontt, uma jovem e bela rainha, conhecedora de muitos segredos sobre o Mundo da Magia e das melhores formas de vencer quase todos os obstáculos, bem como encontrar seres mágicos que poderão ajudar Luka em sua empreitada.

Sequência de Haroun e o Mar de HistóriasLuka e o Fogo da Vida é uma cálida homenagem de Salman Rushdie ao universo das narrativas, das histórias, sem discriminar o suporte. Fazendo referência não somente às culturas antigas e suas tradições, Rushdie se enraiza também nos demais universos narrativos, na cultura escrita e também (por que não?) na cibercultura. Em vários momentos são feitas referências a personagens lendários do mundo dos games.

Deixo aqui um dos mais belos trechos do livro:

"Nós sabemos que quando nos apaixonamos o Tempo deixa de existir, e sabemos também que o Tempo se repete, de modo que você pode ficar num mesmo dia pela vida inteira." Salman Rushdie, Luka e o Fogo da Vida.

Repleto de humor inocente, de referências bem amarradas e de personagens carismáticos, Luka e o Fogo da Vida é uma viagem pelo que há de melhor na alma humana: a capacidade de criar mundos infinitos moldados em pura magia.


Ficha Técnica:
Título: Luka e o Fogo da Vida
Autor: Salman Rushdie
Editora: Companhia das Letras
ISBN: 9788535917161
Ano: 2010
Páginas: 208

Página do livro no Skoob: htt://www.skoob.com.br/livro/114593-luka-e-o-fogo-da-vida/

quarta-feira, julho 25, 2012

A outra ponta do Sonho...



A ponta de grafite desliza livre sobre o papel encardido, grampeado em bloco. O lápis é grande demais para aquelas mãos pequenas, imaturas. Tão imaturas quanto seu sonho oco. O menino não sabe ainda o quão é perigoso sonhar.


Por isso ele deixa que sua mente vague livre por caminhos já conhecidos, caminhos queridos, cheios de magia. Com suas mãos pequenas de artesão iniciante, ele costura narrativas, une mundos antes contrários. Reinventa histórias como se fossem suas. E seu peito se enche de felicidade.


O menino não quer nada além de viver um pouco mais a fantasia. Não há jeito, tão novo e já bovarista. Não se importa com os comentários alheios. Que cada um encontre seu caminho particular. Ele o encontrou nas historias que lhe foram apresentadas pelas mãos grandes e morenas. Mãos femininas.

O lápis passeia sobre o papel dias a fio. Já são tantas páginas que o menino se assusta. Quase não acredita que tenham sido fruto de horas de brincadeiras negligenciadas. Antes das férias, ainda no início de sua empresa, os colegas o inquiriam com olhares e palavras. A princípio duvidavam de sua tenacidade, mas ao verem tantos recreios passados em sala, sobre o bloco de papel, trocaram a dúvida por palavras de incentivo. Agora, longe das aulas, o tempo é quase integralmente passado em uma sala antes por ninguém usada. Com os escritos sobre uma mesa baixa e escura, o menino segue pelas sendas dos dizeres.

A jornada que ele traça é curta, porém, perigosa. Monstros se levantam ante seus heróis. O mundo costurado pelo menino sofre perigo mortal. E corajosamente seus personagens emprestados enfrentam seu destino bélico.

Está concluída a aventura. O bem triunfa. O menino suspira ao ver sua obra pronta. O trabalho é entregue às mãos morenas, agora mãos de árbitro. Os papéis são levados para longe, para além das montanhas verdes. O tempo passa enganoso, ora ligeiro, ora arrastado. O menino escuta palavras aladas de que suas folhas agora estão em um forno, cozinhando, para em breve virarem livro.

Quando chega o dia, o menino mal acredita. Em suas mãos são depositadas as mesmas páginas, agora marcadas com a letra escura e formal da imprensa. Não consegue perceber a força dessa transformação. Ainda não é tempo.

Noites claras, repletas de luzes, envolvem o menino. Noites em que ele deverá deixar seu nome em muitas cópias daquele livro.  Noites em que cada pessoa levará consigo um pedaço do menino. Ele não acredita no que está diante dele. Talvez tenha sido outro a escrever aquela história. Talvez tenha sido outro a deixar seu nome na capa daqueles livros. Talvez tenha sido dessa forma que o menino percebera que seu sonho também podia amargar. 

segunda-feira, julho 23, 2012

Frutos da Estação - I





Vista da praia de Scheveningen (Scheveningen 1882), Vincent Van Gogh




Ondulam pelo vento
Nelas, nuvens em tom cinza
Enchem o mar








Haikai produzido durante a atividade Estação da Poesia, realizada por Simone Teodoro.

sexta-feira, julho 20, 2012

A Batalha do Apocalipse


Ninguém pode negar que A Batalha do Apocalipse seja um sucesso editorial. Com mais de 300 mil exemplares vendidos, este romance de Eduardo Spohr tem feito cada vez mais leitores. Gostaria, porém, de compartilhar alguns desconfortos que surgiram com minha leitura.

A trama gira em torno do anjo renegado Ablon, um querubim (anjo guerreiro), que teria sido expulso do céu ao desafiar o Arcanjo Miguel, junto com outros 17 anjos. Ablon e seus companheiros haviam formado uma irmandade que pretendia se insurgir contra o líder dos anjos, uma vez que Miguel planejava destruir a humanidade. Descoberta a conspiração, Ablon e seus companheiros são expulsos do céu, encerrados em corpos físicos e obrigados a vagar por toda a história da humanidade, sempre caçados por seus antigos companheiros. Em suas peregrinações, assumindo uma atitude de respeito à vida humana, Ablon conhece Shamira, uma habilidosa feiticeira, que seria sua mais poderosa aliada durante sua passagem pela terra.

Não posso negar que a ideia central da trama é muito boa. Afinal, quem não se sente atraído por uma guerra cósmica entre os próprios anjos? Contudo, acredito que Eduardo Spohr poderia ter sido um pouco mais cuidadoso com seu texto. A narrativa se arrasta desnecessariamente por longos trechos. Em momentos cruciais, contudo, a escrita fica corrida, como se tivesse sido feita com pressa. Outro problema é a linguagem grandiloquente, que considerei desnecessária e quase caricatural.

Os problemas, porém, não param por aí. O texto ora é narrado por um narrador onisciente neutro, ora por Ablon. Essas mudanças de narrador soam um pouco forçadas. Spohr também acaba sendo descuidado no enredo, pois permite erros de sequência e lógica (como no momento em que Ablon, desmaiado, consegue narrar o que dois demônios falam sobre ele). Esses erros poderiam ser evitados mediante uma leitura mais cuidadosa por parte do autor. 

Em todo o caso, existem pontos fortes no livro, que são as sequências de ação, criadas de uma forma meticulosa. Dessa forma, quem procura uma boa dose de aventura, pode encontrá-la em A Batalha do Apocalipse. O desfecho que Spohr criou para a guerra entre os anjos também soa coerente, embora não o pareça para os leitores mais desavisados.

Dessa forma, considero A Batalha do Apocalipse uma obra irregular e incompleta. Não pretendo aqui julgar o mérito ou relevância do trabalho de Spohr. Além do mais, acredito que toda a obra é de certa forma incompleta, algumas mais e outras menos.

Ficha Técnica
Título: A Batalha do Apocalipse
Autor: Eduardo Spohr
Editora: Verus
ISBN: 9788576860761
Ano: 2010
Páginas: 586

Link para a página no Skoob: http://www.skoob.com.br/livro/1322

quarta-feira, julho 18, 2012

Centésima postagem!

É isso, chegamos à nossa postagem número 100. Esta foi uma longa estrada e, confesso, não imaginei que me levaria tão longe.

O blog mudou muito ao londo dos anos. Apesar do histórico recente (2011), a tentativa de me expressar por este espaço remonta os idos 2005. Apenas uma pessoa lembra de que, naquele tempo, este era um espaço totalmente voltado à ficção de fantasia, como deixei registrado em As muitas razões de ser. Falo de minha amiga Tyr Quentalë que, como deixo claro no texto anterior, teve um papel muito importante para a sobrevivência do blog.

O tempo, porém, fez o seu papel, conservando algumas coisas e deixando que outras fossem lançadas no esquecimento. Como é propósito de minha escrita atual, busco resgatar um pouco dessa história que o tempo alterou; procuro reconstruir mediante a ficção aquilo que achamos que falta em nós: a fantasia, o sonho, o devir.

Creio que pouca coisa em minha vida encarei com tanta seriedade. Esse compromisso de manter três postagens semanais, com abordagens específicas, foi uma forma encontrada para me forçar a produzir com mais frequência, de maneira que eu pudesse estar sempre em desenvolvimento. Confesso que não tenho a disciplina que gostaria. Os textos que publico aqui não são totalmente novos. Alguns o são, como a postagem de segunda-feira. Outros, nem tanto.

Apesar disso, acredito que o crescimento veio. E os momentos de longo silêncio também fizeram parte do processo. Mas o maior ganho de todo esse tempo foram os amigos que conquistei (ou reencontrei) ao longo desse tempo. Amigos que me conquistaram também. Dessa forma, aí vai meu especial agradecimento a Simone Teodoro, Rodrigo Teixeira, Cíntia Almeida, Dora Delano, Fefa Rodrigues, Rosa Croft, Ericka Martin, Luiz Henrique, Sérgio Fantini, Fernanda Cristina, Fernanda Teles, Vanessa Borges e novamente Tyr Quentalë. Os comentários de vocês (e de outros que não mencionei mas aos quais sou igualmente grato, além de todos os seguidores do blog) tornaram-se a força que me permitiu enviar o texto Ocaso para a seleção da Editora Andross. 

Não posso deixar de registrar aqui o incentivo de uma pessoa muito importante para mim: Ana Luiza que nunca tem cessado de me estimular e encorajar. A todo tempo dizendo para que eu não deixasse de enviar o texto, que não deixasse de escrever.

Assim, com essa coragem reunida, tive o prazer de ver o texto publicado na antologia Entrelinhas II. Viajei a São Paulo para o lançamento e mais uma vez a presença e incentivo radiante da Ana Luiza foi fundamental. 

Como todos puderam ver, o percurso foi longo e ainda está longe do fim. Ainda estou às voltas de um livro novo e luto para concluí-lo. Conto com a força de vocês novamente.

segunda-feira, julho 16, 2012

A Aranha

Quando criança, ouvia de minha mãe a história de um homem mau que, por ter salvo uma aranha, pode pela teia da mesma buscar uma saída do inferno.

Essa fábula ficou gravada em minha mente, sobreviveu através dos anos. Talvez porque minha relação com os aracnídeos não seja das melhores. As teias de aranha em muitos casos são ligadas à ruína, ao abandono, e mais diretamente à ideia de uma armadilha fatal. Nesse sentido, também não seria gratuita a relação estreita entre mulheres e aranhas.

Talvez seja por isso que nunca me dei bem com elas (as aranhas), pois elas sempre me fizeram sentir acuado, cercado, caçado. A meticulosa habilidade da aranha em tecer uma casa mortal sobre sua presa me lembra de quantas vezes fui imobilizado, ludibriado e manipulado por uma paixão.

Assim, essa dificuldade em relação às aranhas fez com que eu sempre perseguisse as pobres. Não podia me tranquilizar por saber que havia uma aranha no mesmo cômodo que eu. As criaturas sofriam com as investidas de minha vassoura, na frequente ocasião de uma faxina.

Meu comportamento então agressivo começou a mudar depois que li O Castelo Animado, por causa do zelo do Mago Howl em relação às aranhas. Sophie era proibida de matá-las, deveria espantá-las apenas, caso precisasse remover suas teias durante a limpeza periódica do Castelo. Passei a repetir em meu apartamento o procedimento adotado por Sophie, acreditando que, se o Mago Howl respeitava tanto as aranhas, elas devem de fato ter algum valor.

Com a mudança de meu comportamento, as aranhas começaram a prosperar lá no apartamento. Andavam gordas e vistosas. Em especial uma rechonchuda, enorme de gorda, tantas moscas comera! Para minha sorte, todas elas eram aranhas de pernas bem finas; por isso meu choque não era lá tão profundo quando as via circularem em bando pelos cantos de minha sala.

Por meses convivi com essa grande colônia. A enorme aranha, como uma rainha, comandava sua prole do banheiro. Toda noite, enquanto escovava os dentes, eu observava com cautela a essa inconveniente rainha empoleirada no alto.

Uma noite fui surpreendido ao ver uma mancha escura, repleta de pernas, na metade da parede, a dez centímetros do meu rosto. Levei um enorme susto! Afastei-me por alguns segundos, até perceber que era minha costumeira inquilina, que tentava retornar a seu ninho. Seus esforços eram grandes, mas ela subia errática, trôpega. Não foi difícil concluir que a velhice já pesava suas finas pernas, enquanto ela escalava heroicamente o azulejo claro e liso. Imaginei que ela não passaria daquela noite, nem alcançaria seu tão almejado destino.

Na noite seguinte, qual não foi minha surpresa! A pequena guerreira lá estava em seu trono diáfano de teias, como se nenhum incidente tivesse sequer abalado as forças de suas pernas. E naquele momento pude entender o zelo do Mago Howl.

Cheio de admiração, saudei-a silenciosamente. A aranha morreria, disso eu tinha certeza. Naquela noite, porém, ela mostrava que a morte seria obrigada a esperar.