quarta-feira, março 25, 2020

Picardias evangélicas

Sou de família evangélica. Por isso, passei boa parte de minha juventude em eventos e atividades da igreja, como acampamentos, gincanas e excursões. Quem imagina que esses encontros eram o exemplo da espiritualidade muito se engana. 

Em uma igreja que frequentei em minha adolescência, Batista, havia o costume de alguns jovens fazerem um mural de fotos com os flagras inusitados. Lembro que tiraram uma fotografia em que eu estava agachado, enquanto batia a mão na parte de trás da bermuda. Na legenda, havia algo assim: "Acho que aquela plantinha que usei pra me limpar era urtiga".

Os chamados acampamentos eram sítios alugados durante os feriados prolongados onde nós, adolescentes e jovens, nos divertíamos. Sim, havia culto, oração e estudo bíblico, mas também muita piscina, futebol, peteca e brincadeiras. Algumas eram mais inocentes, como as brincadeiras de roda. Outras, de iniciativa dos mais debochados do grupo, poderiam ser até um pouco nojentas.

Tenho a lembrança, por exemplo, de um colega de igreja, um dos mais populares entre as meninas, que à noite ficava enrolado em um cobertor, andando de um lado para o outro. Quem não o conhecia ignorava que ele estava soltando puns. Ele então se aproximava se alguém mais distraído e abria o cobertor, liberando a fedentina. 

Havia também aqueles que estavam determinados a não deixar as outras pessoas dormirem. Eram piadas, sons estranhos, gargalhadas e deboches. E de repente a conselheira dos jovens, filha do pastor, aparecia, chamava à atenção, brigava. Ficavam todos em silêncio, como se nada tivesse acontecido. Bastava ela dar as costas para tudo recomeçar.

As noites podiam ser também perigosas para quem não estivesse preparado. Dormir a sono solto podia significar acordar no dia seguinte com o rosto todo rabiscado ou coberto de pasta de dente.

Os congressos imauguravam os relacionamentos. Realizado pelas igrejas batistas de Venda Nova, reunia um número enorme de jovens em alguma escola da região. Acontecia no Carnaval e era o evento mais badalado do ano. 

Uma brincadeira chamada "Viuvinha" muitas vezes estabelecia as dinâmicas das paqueras. E ai de quem não fosse popular e se arriscasse a participar da brincadeira. Tomava chá de cadeira. 

O acontecimento mais curiosamente engraçado de que tenho lembrança, porém, ocorreu em minha infância, em um evento em que eu não participei, mas testemunhei de camarote. Eu morava em Teófilo Otoni e frequentava a Primeira Igreja Presbiteriana naquela cidade. 

Havia um grupo de adolescentes que, se não me falha a memória, gostavam de se chamar "os ratões", ou algo parecido. Eram grandes e fortes. Sua brincadeira predileta era dar cintadas nos colegas, principalmente os mais fracos. Também gostavam de mudar as letras das músicas da igreja para versos de deboche. A música com o verso: "Solta o cabo da nau" virava: "Solta o arroto, animal".

Enfim, houve um final de semana em que os adolescentes dormiram na igreja, numa noite do pijama, de sábado para domingo. Eu, que ainda era da UCP - União de Crianças Presbiterianas - fiquei de fora. Meu irmão mais velho, porém, estava nesse retiro.

Era manhã de domingo. Em frente ao imponente templo, irmãs e irmãos da igreja, com roupas distintas e olhar sisudo, cumprimentavam-se e trocavam impressões sobre semana. Eram quase nove horas da manhã, quando teria início a Escola Dominical.

De repente, algumas pessoas começam a olhar para cima, sendo seguidas por outras. Mecanicamente, imito o gesto. Alguma coisa flutua no ar, descendo lentamente. Uma coisa leve, diáfana, ondeante, que só podia ter sido lançada da torre da igreja.

Era uma cueca. As pessoas seguiram com o olhar, em silêncio, aquela peça de roupa íntima, provavelmente usada, que algum adolescente havia lançado de uma das janelas da torre da igreja. 

As pessoas se aglomeravam ao redor do objeto. Ninguém se atreveu a pegá-lo. Nimguém se aproximou demais. Ninguém disse coisa alguma. As feições estavam mais fechadas, sérias. Eu, de tão surpreso, nem conseguia rir. Enquanto isso, todos permaneciam em roda, como que observando uma pessoa acidentada.

Uma melodia solene tocou, dando início ao culto. Todos nós entramos. Ninguém disse coisa alguma naquele momento. E nas semanas seguintes, o comportamento reprovável dos adolescentes foi repetido como exemplo a não ser seguido. A boca pequena, falavam que fora um dos ratões, um dos mais ousados, que tinha feito a façanha, mas sua identidade nunca foi revelada. E assim a vida voltou à sua normalidade.

O acontecimento mais marcante de minha infância na igreja evangélica foi uma cueca descendo do céu.

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