quarta-feira, fevereiro 28, 2018

LIMERIQUES A CONTRA-GOLPE #10



UM REPÓRTER JÁ EXPERIENTE

DEU VACILO, CAUSOU ACIDENTE
QUANDO O ÁUDIO VAZOU
ELE SE EMBOLOU
E FALOU TEMER EX-PRESIDENTE!

segunda-feira, fevereiro 26, 2018

Reminiscências - Parte IV de IV

Ir para Reminiscências - Parte III de IV

 – Si-sim.
O jovem arqueiro desceu habilmente pelos galhos. Um vulto cruzou com ele numa velocidade surpreendente. Assustado, olhou para cima a tempo de ver Thin dar saltos enquanto subia pelos galhos, como se fosse um esquilo. Aldreth alcançou o chão e desceu a encosta aos tropeções. Correu rumo à pequena caverna. Enquanto aproximava-se, notas claras de uma suave canção alcançaram seus ouvidos.
Chegando à fenda, deparou-se com Uri sentado em frente a Lucan que, já desperto, tocava uma flauta de madeira. Ou melhor, quase fazia o pequeno instrumento chorar. A melodia era tão bela e aconchegante, que Aldreth entrou e sentou-se. Sentia-se confortável, uma felicidade crescente tomando conta do seu peito. Não sabia quanto tempo ficara a ouvir Lucan tocar seu instrumento, embora nem se importasse com isso. A flauta o fazia lembrar de ribeiros cristalinos, o sol incidindo em verdes folhas, o cheiro do pão fresco da sua mãe...
– Mas o que é isso!? – bradou alguém atrás de Aldreth, na entrada da fenda.
O rapaz deu um sobressalto, enquanto sentia com tristeza a música desaparecer. Lucan tinha um olhar assustado. Seridath estava parado na entrada da caverna, com seu olhar implacável. Thin estava um pouco atrás, meio que se divertindo ao prever o que iria acontecer.
– Mandei que os chamasse, garoto! – vociferou o guerreiro. – Não foi para ficar escutando música! E você, arauto, se pode tocar uma flauta, também poderá empunhar uma espada! De pé!
– A culpa foi minha, senhor Seridath – replicou Lucan. – Uri comentou que estava com fome e, como essa música faz esquecer muitos males, pensei que o agradaria se escutasse um pouco.
– Música não enche barriga, seu pedaço de bosta! – replicou Seridath, ainda furioso. – Essa tolice no mínimo irá denunciar nosso esconderijo aos inimigos. Quero todos fora!
Os três levantaram-se. Aldreth ainda estava atordoado pelas palavras duras. Aqueles olhos azuis, de gélida impiedade, sempre o perturbavam, mas ele não estava conformado com a injustiça sofrida pelo arauto. Aldreth queria que o bravo Uri falasse algo, já que o anão parecera tão satisfeito enquanto ouvia a música. Lucan mostrava dificuldades para se pôr de pé. Uri bateu levemente nas costas do arauto, enquanto o ajudava a se levantar.
– Foi uma bela música, meu rapaz – resmungou o anão. – Até esqueci a fome.
Seridath ouviu o comentário, mas manteve silêncio. Ele também ficara um tempo ouvindo a melodia da flauta de Lucan antes de interrompê-lo. E a música despertou nele imagens e sentimentos há muito adormecidos. Olhos verdes, bondosos, o fitavam, adornados por um rosto queimado de sol e cabelos castanhos, mas claros como o mel. Uma mão quente o afagando. Sorrisos, verdadeiros diamantes de alegria. Poesia de algum tempo perdido. E aquele caldo grosso que matava sua fome, perto da lareira, enquanto a neve batia de leve na janela.

O jovem balançou forte a cabeça, afastando aquelas lembranças, enquanto subia a colina com os outros. Detestara aquela música.

Continua...

sexta-feira, fevereiro 23, 2018

Se vivêssemos num lugar normal: quando as palavras não bastam

O que fazer quando as palavras são a sua única arma, mas esta se mostra totalmente inócua em um mundo em que a miséria e a loucura dominam? De que adianta o conhecimento, a retórica, a argumentação, se a força bruta, sempre surda, ignora todas as razões a ela apresentadas? Estas perguntas e muitas outras assombram o leitor de Se vivêssemos num lugar normal, segundo livro da trilogia sobre o México, escrita por Juan Pablo Villalobos.
Este é um livro totalmente irônico. O narrador é Orestes, apelidado Oreo, um rapaz no fim da infância e início da adolescência. Filho de um professor helenista, ele e os irmãos compartilham os insólitos nomes de figuras gregas. Aristóteles é o mais velho. O segundo, o narrador. Logo abaixo estão Arquíloco, Calímaco, Electra e, por último, Castor e Pólux, os chamados "gêmeos de mentira". 
A narrativa é repleta de um humor corrosivo. Logo de início Orestes vai desfiando os absurdos e as incoerências de uma família com um certo grau cultura, mas dominada pela pobreza.
Villalobos cria um narrador que passeia entre a inocência pueril e a maligna ironia adulta. Orestes, a todo o momento, trata de ideal e realidade, sendo esta última de uma crueldade óbvia. Um exemplo é quando o garoto fala de sua relação com o irmão mais velho e as disputas entre ambos. Oreo revela que é um excelente orador, usando de suas palavras para tentar vencer o outro, maior e mais forte. Aristóteles, por sua vez, pouca importância dá para os rebuscados argumentos do irmão mais novo. Resolve tudo na porrada mesmo.
O universo concebido por Villalobos é surreal. Mundo de fome, injustiça, corrupção e loucura. Um dos episódios mais insólitos acontece com o desaparecimento das duas crianças mais jovens, Castor e Pólux, ocorrido logo no início do livro. Tanto a polícia quanto a mídia tratam a situação de uma maneira que beira o ridículo, através da exploração do sofrimento da família. O policial responsável pelo caso se cerca de palavras de complacência, enquanto um canal de televisão procura explorar o caso através de sua espetacularização. E posso afirmar que qualquer semelhança com um certo país não pode ser mera coincidência.
Ainda assim, Se vivêssemos num lugar normal é um romance sobre o México, suas mazelas e desgraças. Uma obra contundente, mas que sustenta um bom humor, o que permite que o leitor siga pelo enredo sem que o gosto amargo na boca seja forte demais.

Ficha técnica:

Título: Se vivêssemos num lugar normal
Autor: Juan Pablo Villalobos
Tradução: Andreia Moroni
Editora: Cia das Letras

quarta-feira, fevereiro 21, 2018

LIMERIQUES A CONTRA-GOLPE #9


ACORDA JÁ, POVO BRASILEIRO,
SE NÃO ROUBAM TODO SEU DINHEIRO.
SE A CRISE ESMAGA
É O POBRE QUEM PAGA
COM SEU SANGUE, SUOR E DIREITO!

segunda-feira, fevereiro 19, 2018

Reminiscências - Parte III de IV

Ir para Reminiscências - Parte II de IV

 Então ambos viram o povo de Arnoll nas ameias dos muros, balançando os braços. O barulho da algazarra era tão grande que alcançava os ouvidos dos dois rapazes. Ao sudeste de Arnoll, despontava uma massa compacta e organizada de homens, soldados fortemente armados e equipados, sendo guiados pelo estandarte dourado de uma torre encimada por uma coroa e com cavalos de ambos os lados. Nenhum dos dois rapazes disse palavra, mas o pouco tempo passado na capital fora o suficiente para poderem reconhecer o estandarte e seu dono, um velho senhor de armadura dourada. Era o Senhor do Reino de Dhar, chegando para defender seus súditos. O exército do rei deveria contar com cinco mil lanceiros, além dos homens que formavam cavalaria, arqueiros, um esquadrão de magos, outro de clérigos. Os poderosos senhores dos feudos de Dhar marchavam ao lado de seu soberano. O exército chegava a dez mil homens. Seridath imaginou se os traidores Denor e Anfard teriam sobrevivido para encontrar o exército do rei. Mas para ele os fatos começavam a encaixar-se. Aquele campo de batalha havia sido planejado há muito tempo. Urso Pardo e seu destacamento deveriam ser somente uma distração, homens enviados para morrerem sob as lâminas dos inimigos, para atrasá-los, enquanto as forças oficiais faziam seus últimos preparativos. Mas onde estaria Serpente Flamejante com seu destacamento de apenas três mil? O cavaleiro sentiu vontade de rir ao pensar na enorme diferença entre a Companhia e o imponente exército de Dhar.
Antes que Seridath erguesse a voz e fizesse um gracejo contra seus antigos senhores, ele viu uma massa de homens proporcionalmente menor surgindo de um vale a oeste. Não era noite ainda, mas os homens da Companhia já carregavam tochas, que acentuavam a pobreza desse exército, frente aos estandartes de Dhar, iluminados por magia, quase fazendo aquele final de tarde tornar-se manhã. Do exército sombrio de mortos, notava-se apenas o som dos horríveis tambores.
Seridath por um tempo manteve sua atenção na Companhia em marcha. Três mil teria sido um número considerável na batalha em Keraz, mas diante daquele novo exército de mortos era inexpressivo. Examinando com mais cuidado, o guerreiro pôde perceber a formação da Companhia, com seus blocos e divisões, bem organizados. A infantaria estava dividida em blocos simétricos, guiados por seus respectivos capitães, com arqueiros a flanqueá-los. Guiando blocos maiores e auxiliados pelos arautos, homens vestidos de forma extravagante, com roupas de pele e chapéus de pluma, caminhavam apoiados em seus bordões. Seridath inquiria a si mesmo qual deles seria o ilustre Serpente Flamejante. Talvez fosse um dos velhos recurvados que se agrupavam, ocupando o centro do exército. "Aquele deve ser o conselho tão comentado pelo velho Urso" ponderou Seridath.
Aldreth olhava deslumbrado toda aquela movimentação. Nunca tinha visto exércitos tão grandiosos quanto aqueles. Os mortos tomando um horizonte e o exército de Dhar tomando outro. Seridath tocou-o no ombro.

– Os outros – disse o rapaz –, vá chamá-los.

Continua...

sexta-feira, fevereiro 16, 2018

Altered Carbon: o ser para além do humano

Quais são os limites para o que se pode considerar humano? Quando uma consciência tem a capacidade de mudar de corpos, ultrapassando limites de idade, gênero, etnia, a partir de quais critérios tal consciência poderá construir sua identidade e se considerar humana? 
Essas e outras questões são lançadas ao aturdido espectador enquanto este assiste a mais recente série da Netflix, Altered Carbon.
Baseada no livro homônimo de Richard Morgan, a série já de início apresenta o conceito de "capa": a partir de um chip  ou cartucho implantado na base da nuca, a consciência pode ser capturada e transferida para outro corpo. Dessa maneira, o corpo passa a ser nada mais que uma capa, ou roupagem, da qual a consciência pode se servir da maneira que quiser, desde que tenha dinheiro para tanto. Além disso, a morte foi superada. Afinal, se o chip ou cartucho não for destruído, a consciência pode ser implantada em outro corpo e seguir sua vida normalmente.
Porém, como assinalado acima, apenas aqueles que dispõem de dinheiro podem fazer uso de corpos conforme seus gostos e caprichos. Apenas aqueles com grande riqueza podem usufruir da imortalidade.
Em um mundo assim o espectador conhece Takeshi Kovacs. Ele é o último emissário, um antigo rebelde com treinamento de combate altamente qualificado. Acordado de uma prisão criogênica de 250 anos, ele é contratado por um magnata para resolver um assassinato. E a vítima é o próprio magnata. Todas as pistas indicam o suicídio, mas ele é um matusa, um dos mais antigos, e sua honra não admite algo como o suicídio.
Kovacs recebe a oferta de uma fortuna, além do perdão de seus crimes, para aceitar o caso. Assim, tem início uma intrincada trama envolvendo sexo, intrigas, política e uma boa dose de ação.
Minha impressão da série como um todo foi muito boa. Senti que mergulhava em um rico universo em que o espírito se torna a matéria. Afinal, a consciência, nessa ficção, consiste em um cartucho eletrônico. Assim, é interessante observar como valores morais e questões filosóficas vão se desenvolvendo em torno do enredo, enquanto Takeshi Kovacs, assombrado por seu passado, faz o melhor estilo anti-herói, e mergulha em um ambiente noir, com direito a referências diretas ao pai do romance policial, o próprio Edgar Allan Poe.
As personagens são interessantes e carismáticas. Elas vão ganhando profundidade ao longo dos episódios. Com exceção de Kovacs, que faz um percurso moral de redenção, alcançando o patamar de herói e encontrando o seu nêmesis. Esse percurso empalidece a carga dramática em redor do protagonista.
Das personagens que crescem ao longo da série, merece destaque a policial Kristen Ortega. Incorruptível e durona, Ortega segue os passos de Kovacs por seus próprios interesses e não tem medo de enfrentar quem quer que seja. Seus rompantes de fúria se fazem no melhor espanhol chulo.
Existem outros pontos interessantes a se observar. Por exemplo, a sociedade que se descortina na série. Ainda que séculos tenham se passado desde a "descoberta" da imortalidade, com a raça humana tendo colonizado inúmeros planetas e se expandido para muito além dos seus limites, pareceu-me que eu estava diante da mesma sociedade do século XXI. Outras distopias, como Admirável mundo novo e 1984, apresentam uma "evolução" na sociedade de forma mais marcante que Altered Carbon.
Com isso, arrisco dizer que esta série não deixa de ser uma aguda crítica de nosso tempo, onde imagens superficiais e repletas de artificialidade, como perfis de mídias sociais, constroem relações muitas vezes perversas e predatórias, aumentando ainda mais as desigualdades em nossa sociedade, cada vez mais desigual.

Ficha técnica
Altered Carbon
Criação de Laeta Kalogridi
Produção: Netflix
Baseado no romance de Richard K. Morgan.
Site oficial.

quarta-feira, fevereiro 14, 2018

Caminhando e contando

Já me perguntaram várias vezes por que conto histórias. Nessas ocasiões, fico meio sem saber o que responder. Afinal, é fácil dar uma resposta de amor? Creio que conto por vários motivos e talvez o principal deles seja o desejo de ser outro através das histórias. E sendo outro, posso assim me encontrar. Conto para me ligar ao outro, para sentir suas dores, alegrias, para ouvir suas vozes, para sonhar seus sonhos. As histórias são maneiras incríveis de sonhar acordado e, principalmente, sonhar junto.
Assim, vou caminhando. E a cada passo, busco rechear os dias com palavras de encantamento. Algumas, um pouco soltas, ao passo que outras se mesclam em frases que se lançam a inaugurar outros sentidos. Nesse caminho, sigo contando. Conto meus passos; conto meus tropeços, também.
Quero contar histórias sempre, todo dia. Quero viver cada história. Quero amá-las. Quero amar as pessoas através dessas narrativas. E quero sonhá-las. Como disse a mãe do Miguilim, ser um fiozinho caído do cabelo de Deus.

segunda-feira, fevereiro 12, 2018

Reminiscências - Parte II de IV

Ir para Reminiscências - Parte I de IV

 Enquanto o sol gradativamente declinava, um pequeno grupo aguardava em uma estreita fenda formada pelo encontro de duas rochas. O esconderijo estava estabelecido em um vale oculto pelas árvores do bosque, situado a pouco mais de meio quilômetro a leste de Arnoll. Eram cinco pessoas e todas estavam deitadas, em silêncio. Aguardavam a chegada do exército que em breve condenaria a cidadela à condição de total obliteração. Seridath levantou-se. Aldreth e Uri cochilavam. Apenas o ladrãozinho Thin estivera acordado todo o tempo, velando ao lado de Lucan, que dormia um sono leve e febril.
Seridath aproximou-se de Aldreth e o sacudiu levemente. O rapaz despertou assustado, com a mão na espada. Seridath, com um olhar, sossegou-o.
– Vamos sair – sussurrou ele ao jovem.
Ambos deixaram a caverna para avaliar a situação que em breve iria tragá-los. Seridath esperava observar melhor o exército inimigo. Subiram a encosta do vale, escalando o aclive da colina maior, passando por grama alta, arbustos e algumas árvores esparsas. As colinas da região tinham sua crista coberta por um conjunto cerrado de uma variação de pinheiros de grande porte e fortes galhos. Escolheram com cuidado o pinheiro que parecia mais alto. Aldreth era bom em escalar árvores, mas Seridath, o misterioso Viajante Cinzento, sempre o surpreendia. Em questão de minutos ambos estavam no topo da árvore escolhida. De onde estavam, poderiam ver a sombria massa que chegava pelo norte na campina de Arnoll.
Vem de muito longe o mal... – sussurrou Aldreth, mais para si mesmo do que para o amo, lembrando-se de um texto antigo.
– Cale-se. – falou Seridath, com rudeza – Não devemos temer o Mal. Ele está aqui, preso à minha cintura, e é meu servo.
Aldreth sentiu um calafrio. Detestava quando Seridath falava nesse tom. O rapaz, ao contrário do amo, não queria um pacto com o Mal. Queria saber o que havia de errado em simplesmente viver. O próprio Seridath parecia não estar certo de suas próprias palavras. Ainda estava em batalha com Lorguth. Algo interrompeu seus pensamentos, enquanto Aldreth murmurava:

– Olha!

Continua...

quarta-feira, fevereiro 07, 2018

Prosa Poética: O momento para afiar o lápis - e a mente!

A tarefa de escrever não é fácil. Por vezes, ficamos horas diante de uma página em branco, sem ideias para uma primeira frase. A intenção está lá; algum assunto se delineia; porém, não conseguimos achar aquela primeira frase que será como o primeiro golpe de facão em um terreno cheio de mato. 
Essa dificuldade não acomete apenas escritoras e escritores iniciantes. Grandes personalidades da história da literatura confessam sobre o tão temido bloqueio criativo, algo que agia como um muro invisível, impedindo o desenvolvimento do texto. Algumas vezes, por meses ou anos.
Mas não é bem disso que estamos falando. Bem, é e não é. Afinal, nem começamos ainda nosso primeiro texto. Temos o desejo de escrever, ansiamos por fazer a coisa direito, mas encontramos dificuldade justamente em começar.
Existe também aquele sentimento de despreparo, de imaturidade, que por vezes enguiça a criatividade de escritoras e escritores iniciantes. Ficamos com aquela sensação de que nada do que escrevermos sairá bom. De que precisamos nos preparar mais. Então, mergulhamos em livros, artigos, ensaios, manuais, tentando aprender o que ninguém irá ensinar.
Uma das possíveis alternativas para superar ou ao menos enfraquecer tais dificuldades são as famosas oficinas literárias. Inclusive, muitos escritores de carreira se sustentam não pela sua literatura, mas através de oficinas, sejam elas exercícios de leitura ou escrita.
Existe um grande porém na busca por oficinas de autores consolidados: a concorrência e o custo. Em muitos casos, a oficina requer um pagamento que ultrapassa as condições da escritora ou do escritor aprendiz. Em casos em que a oficina é oferecida gratuitamente, há uma fila enorme de pessoas interessadas. Assim, muitas delas ficam de fora do processo.
Outro problema apresentado em oficinas assim é seu caráter pontual. A gente se encontra com o escritor mediador, ouvimos suas palavras, discutimos com os colegas os pontos levantados, fazemos os exercícios propostos e pronto. De agora em diante, devemos seguir por conta própria. E lá vem o bloqueio de novo.
Dentro dessa perspectiva e buscando atender aos anseios de pessoas simples como nós, apresento a Prosa Poética - Oficina de Escrita Criativa. Proposta pelo professor de Letras Felipe Diógenes, a Prosa Poética é uma atividade gratuita, com frequência semanal, sem burocracias e com uma metodologia simples e leve. A proposta é a mediação através de um objeto provocador, sobre o qual os participantes deverão escrever durante um limite específico de tempo. Ao final do prazo, cada um deverá ler o texto produzido e todos serão convidados a comentar. Uma condição é que os comentários sejam positivos, ou seja, deve-se falar o que funcionou no texto, as construções bem-sucedidas. 
Esse é o formato padrão da Oficina. Porém, ele não é rígido. Dessa forma, outras metodologias foram utilizadas. Dentre elas, cito os jogos criativos do Oulipo. Esses jogos apresentam a proposta de produção escrita a partir de regras específicas.
Nos dias 30 de janeiro e 6 de fevereiro deste ano, eu tive a oportunidade de mediar as reuniões da Prosa Poética. E justamente utilizei algumas propostas inspiradas no Oulipo. Na primeira reunião, fizemos a atividade de escrever limitados por um cronômetro. A cada vinte segundos, uma palavra aleatória era dita e os participantes eram obrigados a inserir a palavra em seu texto. Foram cerca de 10 palavras por exercício. Mesmo tendo sido a pessoa responsável pela mediação e quem trouxe a atividade, em outras duas rodadas fiz questão de convidar os colegas a tomar a posição de mediadores, responsáveis por ditar as palavras. Afinal, eu também queria escrever.
Ontem, dia 6, abrimos a oficina com a proposta de texto quimérico. Cada participante começava a escrever a partir da frase "O gato subiu no telhado". Após um tempo de 5 a 7 minutos, eles eram obrigados a passar a folha para o colega do lado. A folha era dobrada de forma que apenas a última frase ficasse visível. A rodada terminava quando o texto passava por todos os quatro participantes até retornar às mãos de quem o havia iniciado.
Os resultados foram muito interessantes. Tivemos tempo de repetir o exercício da reunião anterior, em duas rodadas. E acredito que as próximas reuniões serão igualmente desafiadoras para mim, pois tenho mais uma mediação agendada. O exercício proposto está em fase de construção.
A Prosa Poética é um momento interessante de troca de vivências e possibilidades criativas. Seus encontros oferecem material para muitos escritos. Alguns destes estão presentes no blog oficial da Oficina, https://oficinaprosapoetica.wordpress.com. Fica o convite para todas e todos acompanharem nossa produção lá.
E não posso deixar de fazer o convite para quem mora em Belo Horizonte e Região Metropolitana para que dê um pulo e venha conhecer nossa Oficina. Nós estamos reunidos toda terça-feira, às 10h da manhã, na Biblioteca Pública Infantil e Juvenil/Centro de Referência da Juventude. O endereço é: Praça da Estação, sem número. Chega junto!

segunda-feira, fevereiro 05, 2018

Reminiscências - Parte I de IV

Ir para Renegado - Parte IV de IV

 As longínquas montanhas daquela terra há anos parecia não receber um raio de sol sequer. Não chovia, mas o céu permanecia nublado, fechado por nuvens escuras que prenunciavam tempestade. Um vento frio persistia. Não era forte, mas agourento, sempre trazendo uma sensação de perigo, a expectativa de algo terrível que estaria para acontecer a qualquer momento.
Koen apertou levemente os olhos, como que tentando captar toda a agudeza daquelas montanhas. Dominando a paisagem, um pico imponente capturava a concentração do garoto. Sentia frio, sua túnica fina não o protegia. Dez anos, ocaso da infância, marcada pelo trabalho duro e pelo constante treinamento nas lutas. Outros meninos estavam parados junto com ele, formando um grupo de vinte e duas crianças. Entre eles estava o Velho. Não que fosse idoso, mas gostava que o chamassem assim. O Velho pôs a mão no ombro de Koen, seu favorito.
– Prepara-te, rapaz. É possível que teus próximos cinco anos sejam todos passados nessas montanhas. As rochas não te permitirão sair até reclamares a posse da espada.
– Si-sim – gaguejou o garoto, engolindo em seco.
– Lembra-te – o Velho sussurrava ao ouvido do menino –, os outros também estarão em sua busca, mas só tu terás poder para dominá-la. Eles tentarão, mas hão de perecer.
Um trovão ecoou ao longe. Seridath acordou sobressaltado. Suas lembranças de infância às vezes voltavam em forma de sonhos, ou melhor, pesadelos. Aquele último, enigmático sonho, o fez pensar novamente na figura que o havia guiado até Lorguth. A espada estava bem segura entre seus braços. Apertou-a mais para junto de si. A lembrança da Montanha e do Velho era o único laço que ele conseguira manter com o seu passado. A única memória intocada. O resto era nada mais que ruínas em sua mente, cinzas de um esplendor perdido. Imagens confusas que se mesclavam com ilusões e incertezas.

Caía a tarde sobre as terras a nordeste do continente uma vez conhecido como Dredhera. Nos últimos anos esse nome fora esquecido, a não ser por escassos estudiosos que ainda mantinham os escritos antigos de uma língua considerada morta. A noite em breve chegaria, caindo sobre o reino de Dhar. Mas as sombras que se estendiam não provinham do ocaso próximo. A cidadela de Arnoll era gradativamente coberta por uma sombra espessa que se espalhava, vinda do norte, uma sombra que se instalava no peito dos guerreiros mais bravos e fazia estremecer cada habitante de Arnoll. Ainda abalados pelo assalto e pela retomada da cidadela, os moradores, quase em pânico, encolhiam-se em suas casas, imersos na expectativa da morte.

Continua...

sexta-feira, fevereiro 02, 2018

O Minotauro: Um mergulho na Grécia Antiga

O Sítio do Picapau Amarelo está de pernas para o ar, mais parece um cenário de fim de festa. Afinal, após a invasão dos monstros da Mitologia Grega, Tia Nastácia está desaparecida e os lugares que antes estavam repletos de personagens incríveis agora exibem o mesmo aspecto ordinário de antes: morros com mato por todos os lados. Não há mais castelos encantados, mar dos piratas e criaturas fantásticas. A pior das perdas, porém, está no sumiço da incrível cozinheira do Sítio.
Assim começa O Minotauro, obra da coleção do Sítio do Picapau Amarelo. Escrito para dar continuidade ao enredo de O Picapau Amarelo, o livro tem início com a turma do Sítio à bordo do Beija-flor das ondas, o antigo navio do Capitão Gancho, anteriormente chamado Hiena dos Mares. O destino é o porto do Pireu, situado no litoral da Grécia.
Ao chegarem ao porto, porém, as crianças ficam impressionadas com o aspecto desagradável do porto. Afinal, eles não chegaram de fato em seu destino. A Grécia que almejam é aquela de seus tempos áureos, a chamada Grécia Antiga. Decidem então fazer um mergulho, desaparecendo do Pireu de 1939 e aparecendo em 438 antes de Cristo, no chamado Século de Péricles. Enquanto Dona Benta, em companhia de Narizinho, decide permanecer nesse tempo, enquanto Pedrinho, Visconde e Emília seguem para a Grécia Olímpica, um tempo ainda mais antigo que aquele. Dessa vez, utilizam-se de um pó desenvolvido pelo Visconde, o Pó número 2.
Assim segue a narrativa de Lobato, dividida em duas linhas temporais e duas tramas distintas. Uma para desvendar o mistério do paradeiro de Tia Nastácia e outra para descortinar as maravilhas da Grécia do chamado Século de Péricles.
O texto de Lobato, como sempre, é ágil e repleto dos maneirismos de Emília, sua mais célebre personagem. Além disso, o autor faz a mesma escolha que em outros livros e carrega seu texto com uma certa dose de didatismo. No desenrolar da obra, somos apresentados a personalidades históricas como o filósofo Sócrates, apresentado como um rapaz de nariz horroroso, e o dramaturgo Sófocles.
Em contrapartida, Emília, Pedrinho e o Visconde visitam o Olimpo, observam os deuses em seus assuntos divinos e ainda provam do néctar a da ambrosia, alimentos exclusivos aos deuses. Descem do Monte Olimpo e têm a oportunidade de testemunhar um dos 12 trabalhos de Hércules.
Como é de se esperar, há uma certa dose de humor, principalmente na dinâmica entre Emília e seu fiel companheiro, o Visconde de Sabugosa. Alguns dos mais divertidos momentos da narrativa ocorrem justamente por conta da subserviência do sabido sabugo e sua obrigação em carregar a bagagem da "ex-boneca". O Classicismo é preponderante no texto e chega a ser exacerbado. Há porém, alguns contrapontos, como a crítica que Dona Benta faz à escravidão, ou sua constatação de que Péricles era na verdade um ditador que manipulava a opinião popular através de seus discursos.
Há alguns pontos nevrálgicos no texto de Lobato, como por exemplo o tratamento que ele dá à Tia Nastácia, não só pela Emília, mas também por Pedrinho. São aspectos que merecem atenção, não apenas por sua polêmica, mas justamente para entendermos Lobato em suas particularidades e contradições.
Portanto, considero O Minotauro uma ótima indicação de leitura. Especialmente se esta vier acompanhada de um momento de mediação.

Ficha Técnica:
Título: O Minotauro
Autor: Monteiro Lobato
Ilustrações de Odilon Moraes
Ano da primeira publicação: 1939

Página do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/o-minotauro-4881ed230203.html

quinta-feira, fevereiro 01, 2018

Conjunto

Sempre me dá vontade
de rir daquele
seu medo de que
eu me assuste
com as caras estranhas de sono
o cabelo desarrumado
a real feição
naqueles momentos
em que é impossível
alguém ficar bonito.
A gente passa metade da vida
idealizando pra depois
se entregar a outras
descobertas.
Mas eu já sei e digo:
Preocupa não, meu bem.
O amor é
pacote completo.