segunda-feira, fevereiro 05, 2018

Reminiscências - Parte I de IV

Ir para Renegado - Parte IV de IV

 As longínquas montanhas daquela terra há anos parecia não receber um raio de sol sequer. Não chovia, mas o céu permanecia nublado, fechado por nuvens escuras que prenunciavam tempestade. Um vento frio persistia. Não era forte, mas agourento, sempre trazendo uma sensação de perigo, a expectativa de algo terrível que estaria para acontecer a qualquer momento.
Koen apertou levemente os olhos, como que tentando captar toda a agudeza daquelas montanhas. Dominando a paisagem, um pico imponente capturava a concentração do garoto. Sentia frio, sua túnica fina não o protegia. Dez anos, ocaso da infância, marcada pelo trabalho duro e pelo constante treinamento nas lutas. Outros meninos estavam parados junto com ele, formando um grupo de vinte e duas crianças. Entre eles estava o Velho. Não que fosse idoso, mas gostava que o chamassem assim. O Velho pôs a mão no ombro de Koen, seu favorito.
– Prepara-te, rapaz. É possível que teus próximos cinco anos sejam todos passados nessas montanhas. As rochas não te permitirão sair até reclamares a posse da espada.
– Si-sim – gaguejou o garoto, engolindo em seco.
– Lembra-te – o Velho sussurrava ao ouvido do menino –, os outros também estarão em sua busca, mas só tu terás poder para dominá-la. Eles tentarão, mas hão de perecer.
Um trovão ecoou ao longe. Seridath acordou sobressaltado. Suas lembranças de infância às vezes voltavam em forma de sonhos, ou melhor, pesadelos. Aquele último, enigmático sonho, o fez pensar novamente na figura que o havia guiado até Lorguth. A espada estava bem segura entre seus braços. Apertou-a mais para junto de si. A lembrança da Montanha e do Velho era o único laço que ele conseguira manter com o seu passado. A única memória intocada. O resto era nada mais que ruínas em sua mente, cinzas de um esplendor perdido. Imagens confusas que se mesclavam com ilusões e incertezas.

Caía a tarde sobre as terras a nordeste do continente uma vez conhecido como Dredhera. Nos últimos anos esse nome fora esquecido, a não ser por escassos estudiosos que ainda mantinham os escritos antigos de uma língua considerada morta. A noite em breve chegaria, caindo sobre o reino de Dhar. Mas as sombras que se estendiam não provinham do ocaso próximo. A cidadela de Arnoll era gradativamente coberta por uma sombra espessa que se espalhava, vinda do norte, uma sombra que se instalava no peito dos guerreiros mais bravos e fazia estremecer cada habitante de Arnoll. Ainda abalados pelo assalto e pela retomada da cidadela, os moradores, quase em pânico, encolhiam-se em suas casas, imersos na expectativa da morte.

Continua...

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