sexta-feira, agosto 03, 2012

Do amor e outros demônios

Ao terminar a leitura de Do amor e outros demônios, de Gabriel Garcia Márquez, fui assaltado por uma mistura de sentimentos que dançavam entre a ternura e a melancolia. Percebi que a genialidade de Garcia Márquez já se mostrava na intensa sinergia entre o título do livro e a forma como a história é narrada. Digo isso porque toda a ternura que perpassa o texto é contraposta à crueza maligna perpetrada por personagens compromissados em fazer funcionar um sistema cruel e alienador.

A narrativa ocorre ainda no período colonial e conta a história do amor entre Sierva María de Todos los Angeles, uma menina de 12 anos, filha de um marquês decadente, e Cayetano Delaura, padre esclarecido e ligado à Inquisição. 

Sierva María, vítima da mordida de um cachorro contaminado pela raiva, fora criada em meio aos escravos de sua casa, sendo versada em 3 idiomas africanos, além de conhecer suas divindades e rituais.

Seus pais, destroçados pelo tempo e pela fatalidade, são incompetentes em fazê-la feliz. Essa missão cabe aos escravos com quem Sierva María convive, e que a adotam com muito prazer. A menina cresce em meio a tradições que supostamente não lhe pertencem e dessas tradições constrói sua identidade.

Quando o perigo da raiva se transforma em suspeita de possessão demoníaca, Sierva María é enviada para o Convento de Santa Clara, para a ala das "enterradas vivas". Seu pai, o marquês de nome Ygnácio, ainda tentara em vão resgatar a alma de sua filha e talvez também sua própria. Com o fracasso de seus esforços, ele é obrigado a abandoná-la por ordem do bispo da colônia.

Cayetano então é destacado pelo bispo, como seu homem de confiança, para exorcizar a menina. O padre calado e estudioso não imaginava que ele mesmo seria vítima dos mesmos demônios que atormentam Sierva María. E o maior desses demônios é o amor.

Deixo aqui um trecho do livro, para que todos possam perceber a beleza presente nas palavras de Garcia Márquez:

Mais uma vez insistiu que o prognóstico não era alarmante. A ferida estava longe da área de maior risco, e ninguém lembrava que tivesse sangrado. O mais provável era que Sierva María não contraísse raiva.

- E enquanto isso? - perguntou o Marquês.
- Enquanto isso - disse Abrenuncio -, toquem música, encham a casa de flores, façam cantar os passarinhos, levem-na para ver o pôr-do-sol no mar, dêem-lhe tudo o que possa fazê-la feliz. - Despediu-se rodando o chapéu no ar e com a frase latina de rigor. Mas dessa vez traduziu-a em homenagem ao Marquês: - "Não há remédio que cure o que a felicidade não cura."

Escrito com um um ritmo cadenciado e repleto de imagens poéticas, Do amor e outros demônios é uma leitura forte, pungente e, sobretudo, sublime.

Ficha Técnica
Título: Do amor e outros demônios
Autor: Gabriel Garcia Márquez
Editora: Record
ISBN: 8501042285
Ano: 1995
Páginas: 224
Tradutor: Moacyr Werneck de Castro

Página do livro no Skoob: http://www.skoob.com.br/livro/474

6 comentários:

Dora Delano disse...

muito me alegra ver uma resenha do livro de Gabo aqui. =]

A escrita de Gabo é mesmo melancólica, cheia de fatos tão surreais que nos desafiam: seriam reais?

Suas frases tão marcantes. Seus personagens não são muito de diálogos e quando falam nunca é em vão. Não há conversas sem propósitos. Em cada uma delas alguém diz algo verdadeiro que ninguém diria.

Gabo é assim pra mim. Ele me traz suavemente pra realidade, como se eu flutuasse em meio a tanta magia e fantasia, mas sempre com os pés no chão.

Fefa Rodrigues disse...

Nerito, eu tinha certeza de que você faria uma resenha perfeita do livro, a começar por seu comentário sobre o título e tudo o que você disse... e essa melancolia ao final dos livros do Gabo tbm acontece comigo... engraçado como um escritor pode "mexer" com a gente... é por isso que os lviros dele etão entre meus preferiso, numa categoria distinta... de uma forma mais pessoal, mais minha... acho q nenhum outro autor, nem mesmo Vitor Hugo e seo Os Miseráveis - para mim o melhor de todos - fala com a minha alma como Gabo faz em cada um de seus livros!!

Tendo a oportunidade leia Cem Ano ou AMor nos Tempor do Cólera... simplemente perfeitos!!!

Fico muito feliz de vc ter gostado, como já te disse antes,t enho medo de criar muita "expectativa" sobre um livro e a pessoa não compartilhar do meu "entusiasmo"!!

Ah e estou na torcida por você pela bolsa literária, viu!! Tentarei participar da próxima!;o)

Lourdinha Viana disse...

OLá...eu gosto bastante do escritor mas ultimamente ando covarde para ler relatos de coisas tipo tortura,etc..episódios de inquisição(asco)recheados de maldades,tem esse lance no livro? Seu comentário sobre o livro é muito bom, dá vontade de ler hoje..Abraço. Lourdinha.

CMachado disse...

Olá Nerito!!!
Quanto tempo que não venho te visitar!!
Nos últimos meses muitos acontecimentos. (hehe) não gosto não de agito, prefiro minha vida mais calma. Assim, como fica meus livros e os amigos dos blogs? (rsrs)
Mudou até o blog que ficou lindooo!! Tá um capricho seu espaço.
Nerito, mais uma boa história do Gabo né? Ótima resenha.
Falei p/ Fefa que assisti a um filme sobre um pintor, com pano de fundo a Inquisição. Uma personagem do filme teve o mesmo fim da Sierva.
Abç e
Boas leituras!

Nerito disse...

Olá, CMachado!

Que bom que está de volta. Seja bem-vinda! Espero que continue acompanhando as peripécias deste escritor aprendiz...

Abraço!

Nerito disse...

Estava pensando, meninas, nessa resenha e na vontade da gente aproveitar e discutir um pouco mais sobre o livro.

Por exemplo, o que vcs acham sobre as demais personagens.

Existem alguns trechos que são muito bacanas! Vou postar alguns deles aqui outra hora. Abraços!