segunda-feira, junho 04, 2012

Somente eu


Uma lágrima cálida escorre da face lisa e pálida. Essa redonda gota de tristeza alcança o queixo e liberta-se do corpo ao vazio, indo perder-se nos limites além da janela do apartamento. Uma única lágrima, solitária expressão do vazio. Quase surge outra, irmã, mas basta. As pálpebras fecham-se, procurando cessar a amarga fonte. Ao som de Vivaldi, o inverno entra por meu corpo, que se entorpece, lutando contra a dor de admitir. Lutando contra a verdade.

Uma lágrima solitária foi o último tributo direcionado a ti. A última expressão do meu amor. Que essa gota de meu próprio ser se torne em diamante! Nunca mais desapareça, para que fique patente, mesmo após minha partida, do quanto te quis. Nela, esconde-se o mar que nos embalava, agora morto, maldito vale de escuridões. Nesse vale me aconchego, como sepulcro, para nunca mais chorar nenhum de nossos enganos.

A escuridão veda meus olhos... É a cegueira da morte que me toma. Minh'alma está morta para todas as luzes da terra. Sou agora simplesmente um sombrio. Um noturno à janela do apartamento. Um ente da noite que fechou suas portas para a aurora.

Uma única lágrima a cair do alto do prédio é mais do que mereces. É na verdade muito mais, sua bruxa. Sou a última vítima imolada pelo holocausto ao culto teu. Pensas que és deusa, mas para mim te tornastes entidade maligna, espírito aziago.

E agora me ponho aqui. Longe de todas as realidades simuladas. Basta um passo – a libertade. Liberto serei de todos os teus labores, qual minha lágrima libertou-se de minha própria tristeza. Serei o próprio líquido espesso, a própria escuridão em torno. E me regozijarei em pleno nada. Do outro lado poderei de fato dizer o que és. E não haverá como deter-me em minha dor.

Uma lágrima precipita-se da janela do apartamento. E essa lágrima sou eu.

4 comentários:

Dora Delano disse...

já chorei algumas dessas...

Teixeira disse...

Não há mais limites. Você vai aonde tiver vontade com sua literatura.

Cíntia Almeida disse...

A lágrima atravessou o espelho.

Simone Teodoro disse...

Triste e bonito. Do jeito que eu gosto....