segunda-feira, junho 11, 2012

A Mensagem


Os raios do poente tocaram o balcão da lanchonete de beira de estrada. Lá fora, a rodovia parecia abandonada, como se jamais alguém por ela houvesse trafegado. Um homem de meia-idade, trajando uma jaqueta marrom, descansava os cotovelos sobre o balcão. Sua mente divagava, revivendo imagens de sua juventude.
A porta da lanchonete rangeu, deunciando um visitante. O homem virou-se e sorriu ao reconhecer um rosto amigo que se aproximava, com uma expressão de cordial surpresa. Aquele que chegava estava vestido com um simples macacão de cor neutra, talvez cinza.
– Cara, que puta coincidência! – exclamou o primeiro. – Você não morre tão cedo. Eu estava aqui pensando em você e na última vez que nos encontramos.
– É mesmo um pouco engraçado – respondeu o outro, enquanto tomava lugar em um assento ao lado. – Eu tinha uma curiosa sensação de que encontraria alguém conhecido quando atravessasse aquela porta.
– Mas o que você anda fazendo por aqui?
– Tô aqui a trabalho. Sou mensageiro...
Sua voz sumiu, perdendo-se na poeira que a tênue luz do sol revelava, como chuviscos de ouro. Ambos permaneceram em silêncio. O homem de jaqueta marrom ainda aguardava de seu amigo alguma explicação sobre a natureza de seu trabalho. Incomodado, pigarreou.
– Desculpa, desculpa... – disse o mensageiro, empertigando-se. – É que tudo aqui me parece tão familiar que esperei que você entendesse, que dissesse alguma coisa, só pra arrematar. Escuta: há quanto tempo não nos vemos? Trinta anos?
– Acho que há vinte. Não... trinta mesmo. Acho que nos esbarramos por aí umas duas vezes depois da formatura. Lembro que logo que saímos da faculdade, antes de perdermos contato, você se casou. Como ela se chamava mesmo? Dora, Júlia, Ester?
– Não estou mais com ela.
– Ué, separou?
– Não, não é isso... – É por causa do trabalho, por bem dizer.
Tentando disfarçar o desconforto pela resposta do companheiro, o homem de jaqueta marrom bateu na campainha em cima do balcão da lanchonete.
– Diabo! Até agora ninguém apareceu aqui pra me atender! Num fim de mundo desses a única lanchonete aberta tem uma porcaria de atendimento!
Abriu a jaqueta e de lá retirou um maço de cigarros. Acendeu um e estendeu o maço ao seu companheiro, que recusou.
– Você sabe que sempre fui contra o fumo. Lembra que ainda na faculdade eu dizia que isso ia acabar te matando?
– Sem papo-saúde, tá certo? É bom te ver, mas lembro que você sempre enchia o saco com essa história. E no final não adiantou nada pra você...
Nesse momento, o cigarro pendeu da sua boca, enquanto ele sentia vertigem. Por que isso não adiantou nada? Como assim? Havia algo deslocado naquela conversa. Aliás, naquela lanchonete, na estrada vazia e no amigo que misteriosamente aparecera depois de tanto tempo. Remexeu-se em seu assento, brincou com o zíper da jaqueta. O silêncio incomodava mais que o diálogo claudicante. Correu os olhos furtivamente na estrada além das vidraças. Perguntou-se por que não escurecia de vez, mas os raios do poente persistiam, abrasando o rosto do mensageiro, que mantinha o enigmático ar jovial.
– E as crianças? – perguntou o mensageiro. – Sei que você teve três filhos...
– Quatro. E o mais novo já é formado...
Os olhos claros do amigo pareceram refletir com mais vigor os raios do ocaso, enquanto o homem de jaqueta marrom falava dos filhos, contando com minúcias do destino de cada um.
– Minha primogênita era muito estudiosa – concluía ele. – Fez até doutorado. Ela já tinha três livros publicados quando eu...
– Eu o quê?
O desconforto não deixou que ele continuasse. Subitamente foi invadido pela pergunta: como havia chegado ali? O que buscava naquela estrada? Ele aguardava alguém? Por que justamente ele?
– Me explica uma coisa: Você disse que é mensageiro...
– Isso mesmo.
– Não entendo. Mas que tipo de mensagem você entrega?
– Você, meu amigo. Você é a mensagem. Chegou a hora de ir.
O homem ficou em silêncio, segurando o cigarro meio queimado na ponta dos dedos. A cinza repousava sobre a superfície gasta do balcão, lembrança da parte que não mais havia. E a brasa tinha a mesma cor que o rosto do mensageiro naquele crepúsculo interminável.



Outro conto que pude concluir com os conselhos incríveis do Mestre Sérgio Fantini.

2 comentários:

Fefa Rodrigues disse...

Nerito, o MASP é bem legal, né? Foi ao Museu da Língua Portuguesa???

Comer na Liberdade sempre é uma aventura, não?!?

Ainda preciso visitar o Museo do Ipiranga... coisa que ainda não fiz, acredite ou não!!! Ninguém acredita qd digo isso... Ah e eu vou pra sua terra mês que vem... Caxambu, conhece???

Cíntia Almeida disse...

Ler dinovo não teve a mesma de graça. Você lendo pra mim foi mais legal. Mas ainda assim achei bacana.