quarta-feira, junho 20, 2012

Interior


Era um dia ameno, ótimo para um bom passeio. Acompanhado pela namorada e por duas amigas, ele chegou a um espaço cultural que prometia uma exposição imperdível. Os problemas, contudo, surgiram logo que lá chegaram: fila enorme, atendimento ruim e uma decepcionante coleção de arte barroca.
Fugiram para a segunda galeria, onde as obras de um pintor surrealista estavam expostas. Os quatro corriam os olhos pelos quadros, avaliavam, comentavam, ponderavam. As três moças estavam quietas, insondáveis. Ele, no entanto, parecia perturbado com as criações do tal surrealista. A namorada logo percebeu e perguntou o que ele tinha. Não foi possível responder, pois um incidente desviou sua atenção.
Um segurança acusou injustamente uma de suas amigas de ter encostado em uma das obras. A injustiça gerou discussões e reclamações. Todos saíram um pouco irritados com o ocorrido e deixaram para trás a galeria com suas imagens surrealistas.
Não ele. Enquanto as três moças conversavam trivialidades, ele deixava que as imagens da galeria atravessassem sua mente. Sentia um incômodo inexplicável, como se tivesse deixado passar algum detalhe. Era como se uma mensagem oculta o estivesse chamando das sombras.
Naquela noite, porém, as imagens surreais invadiram seu sono. Em sonhos ele se vê diante do mesmo espaço, sozinho. A galeria está vazia e gelada. Apesar disso, as luzes se mantêm acessas, derramando-se intensamente sobre as paredes brancas. Ele teme se perder nessas paredes, no esquecimento que a brancura delas evoca. Seus passos ecoam no piso coberto, como se o carpete fosse mármore e como se ele estivesse calçado.
O primeiro quadro mostra o interior de um cômodo onde se revela uma construção dantesca de formas geométricas, dispostas sem qualquer lógica. Ao lado do quadro, a inscrição: "Interior Metafísico". A imagem fere sua mente e ele busca se afastar dali.
Ele percorre os corredores da galeria e a armadilha o persegue nos quadros seguintes, com as mesmas montagens terríveis. Seus olhos buscam descanso em uma outra moldura que se destaca ao longe, uma provinciana praça da Itália.
Apenas uma praça, solitária, ladeada por fachadas de pequenos edifícios. Ao fundo, uma mancha branca. A paisagem além da praça está repleta de bruma, deixando antever apenas o vulto de uma enorme construção. Enquanto ele se aproxima, percebe que a bruma que havia no quadro toma também parte da galeria. Nos cantos longínquos os vultos escuros dos seguranças se desenham, enquanto a bruma pouco a pouco se dissipa. Ele sente um pouco de alívio ao perceber que, afinal, não está sozinho.
Ao chegar diante do quadro, ele vê que a praça é dominada ao fundo por uma torre cilíndrica. Pressente o perigo, pois o mistério da torre é ainda maior e mais funesto que o interior metafísico.
Ele decide então deixar a galeria e vaga entre paredes metafísicas e grandes estátuas de bronze. Sentindo-se desorientado, procura um dos seguranças, para logo descobrir que não passam de estátuas sem rosto, cobertas de engrenagens e miniaturas de templos helênicos.
Acossado pelos quadros e por suas visões, ele tenta escapar por um corredor que acaba em um quadro titânico onde a torre aparece, única e soberana. Bem às suas costas, as figuras de bronze começam a se mover em sua direção.
A urgência do terror o impele a ultrapassar o limiar do quadro, sem que se desse conta do fato. Percebe apenas que avança pela sacada da torre, sempre subindo. Ao longe, montanhas sombrias são adornadas por nuvens. Um vento gélido açoita as colunas da torre, tornando a subida ainda mais penosa.
Ele chega ao topo quando não pode mais escapar. No alto, uma outra torre, invertida, se une à primeira. No ponto em que as duas se encontram há uma placa de bronze e escrito nele um nome secreto. Ao pronunciar aquele nome, sente que suas pernas vão se enrijecendo. De seus ombros brotam espirais, de seu peito surgem fachadas de templos, colunas dispersas. Seu rosto perde os contornos. No alto da torre, monumento de bronze, ele se torna o enigma.

Um comentário:

Simone Teodoro disse...

Comentário 1: O texto está perfeito!
Comentário 2:Puxa vida! Não achei decepcionante o Caravaggio!
Comentário 3: das moças, amigas do teu personagem, pelo menos uma estava tão incomodada quanto....
Comentário 4: de Chirico é mesmo Puro pesadelo!!!