quarta-feira, junho 27, 2012

Cruzada Virtual

O ouvido colado ao fone aguarda na linha enquanto escuta apenas uma melodia inútil. A mudez e o descaso se escondem por trás de uma acordes musicais solapados. Vozes mecânicas repetem mentiras, enquanto o tempo se esvai, medido pelo compasso dessa melodia cíclica, ou pela soma de tudo que poderia ser feito durante o tempo perdido nessa enganosa chamada.
A tecnologia parece zombar de nós, interrompendo o contato sem qualquer aviso. Nosso problema não é novo; nunca o é. De fato, essa tecnologia existe para solucionar problemas que nos inquietam desde a fundação do mundo.
Quando uma voz atende do outro lado da linha, é impessoal e fria, quase eletrônica. Nosso problema é coletado por uma voz sem rosto, que ostenta ares de incredulidade. "Não, dona, não estou falando de Saci-pererê ou da Mula-sem-cabeça..."
O cliente se torna então o problema em si, um inimigo da normalidade, do bom desempenho do sistema, da imagem de eficiência da Empresa. Ele recebe um número, é agraciado com um protocolo e advertido quanto ao perigo de suas palavras com a ironia de que tudo o que ele falar será gravado "para sua segurança". Ele sabe que sua paciência será testada, assim como sua resistência, mental e física. O corpo ficará desconfortavelmente imóvel, enquanto a mente estará sujeita a diversos mantras, sejam eles eletrônicos ou não. Deverá repetir o número do protocolo tantas vezes que será capaz de decorá-lo. A cada novo atendente, deverá repetir suas informações pessoais a ponto de duvidar de si mesmo. Afinal, uma pessoa real não precisaria convencer tantas outras da relevância de seus problemas.
Seria venturoso dizer que como recompensa por sua persistência o cliente alcançaria êxito, veria seu problema solucionado. Seria também uma mentira. A tirania da tecnologia não prevê vencedores; apenas escravos. Cada efêmera vitória será apenas o prenúncio de uma nova, labiríntica e cansativa cruzada.

4 comentários:

Fefa Rodrigues disse...

Nerito, posso perguntar uma coisa? Como vc fez pra õ seu conto participar da seleção para a publicação no livro?

Nerito disse...

Oi Fefa, foi bem tranquilo. Eu fiquei sabendo pelo site da editora que havia várias coletâneas aguardando textos a serem enviados. Preenchi o formulário e o texto foi selecionado. Foi bem simples. Abraço!

Dora Delano disse...

em tempos antigos, os ritos de passagem e/ou desafios para provar que eram fortes envolviam subir montanhas, ficar dias sozinhos na selva, domar um animal selvagem, encontrar seu eu interior. Hoje, é simplesmente nao perder a paciência em uma ligação de telemarketing. Tempos modernos.

Nerito disse...

Verdade, Dora. E não adianta esbravejar com uma pessoa que está a quilômetros de distância, uma pessoa que faz parte apenas de uma ínfima parcela do sistema inteiro...