quarta-feira, maio 09, 2012

Um retorno entre serras e nuvens


Ainda nem é meio-dia e parece que eu vago há séculos neste ônibus, entre essas montanhas oblíquas de Minas Gerais. Penso nela, em seus olhos verdes e profundos, na vontade de tê-la em meus braços, de sentir seu cheiro, o sabor dos seus lábios, ouvir a voz dela. E também penso em meus devaneios noturnos, meus sonhos, nas imagens que crio antes de dormir.

O caminho agora é mais estreito, ou melhor, parece assim por causa das árvores enormes. Chegamos a um trecho aberto, montes arredondados a média distância; cascatas furtivas se revelam, tímidas. Lá em baixo um chalé ostenta sua solidão. Os montes por vezes exibem cachos de floresta, como topetes moicanos. Um outro monte tem uma cicatriz de terra, marcas inequívocas da dominação humana.

Linda cena acaba de abrir-se para mim. Algo que me pareceu uma estreita planície, várzea talvez, estendendo-se por uns trezentos metros, como se as montanhas tivessem sido intencionalmente recuadas. Pinheiros ladeavam um caminho em diagonal, escondendo a casa da fazenda de olhares curiosos dos viajantes. 

Grandes pedras se avolumam sobre o ônibus. É bonito, e grandioso. Mais uma vez parece que a estrada está mais estreita. Montanhas enormes, escuras e nuas. O céu não exibe a austeridade da vinda. Nuvens esparsas, brilhantes de tão brancas, apenas realçam a força do azul.

Pequena cidade à beira da estrada, esbanjando um ar pitoresco, quase acolhedor. Já passou. Como a vida, esta viagem é feita de silenciosas e inauditas despedidas. Ainda faltam 10 horas e incontáveis palavras até minha chegada...

Estava lendo quando fui assaltado por uma visão incrível: névoa na serra, verdadeiras nuvens bem abaixo de mim, ao longe. Fiquei a observá-las. Fui dominado por um sentimento difícil de definir. A princípio, pareceu-me inveja... Mas continuei a espremer o cérebro, até que a palavra me veio, quase como uma revelação. "Ressentimento" era o que sentia. Esses pedaços de algodão, como chumaços embebidos em magia, pareciam tão próximos e, no entanto, tão distantes! Eu me ressentia pelas nuvens, pois queria estar com elas que, desdenhosas, não me convidavam para dançar.

2 comentários:

Rosa Maria disse...

Que lindo...
Parabéns meu amigo!

Tyr Quentalë disse...

Pensei que lembrar-se-ia de seu segundo maior conto, o qual prendeu a atenção de muitos leitores, mas há algo que parece envolver sua vida e o mundo mágico que a vida presenteia as pessoas de vez em quando.