segunda-feira, maio 07, 2012

A Grande Chuva - Parte I


Ninguém sabe, na verdade, por que a Grande Chuva começou. Apenas sabemos que um dia uma nuvem gigantesca aproximou-se da nossa Capital e gotas fortes tocaram o Grande Relógio e os escuros capitéis de nossas catedrais. Desde então chove sem parar. 
Com a chuva, até as nossas expressões se tornaram tristes, ensimesmadas, soturnas. Tudo é tristeza, melancolia. Fomos tomados por uma profunda fleuma. A chuva, que se infiltra no concreto e o amolece, endureceu nossos corações. E da mesma forma que a chuva, veio também o sonho. 
Sempre uma ladeira sem fim, íngreme. Subo e isso leva um tempo que parece não acabar. Lá no alto, depois do muro de um terreno baldio e a cerca de um condomínio, com alguns prédios, há uma esquina iluminada por um poste. Logo que eu viro essa esquina, vejo um menino.
Ele tem sapatos e meias pretas, veste shorts de tergal e camisa branca escolar. E a chuva, sempre sobre ele. Eu me aproximo e quando toco os ombros do menino, ele se vira e lança seu olhar sobre mim. Seus olhos são amarelados, olhos de fera. Algo ou alguém uiva na escuridão e eu desperto. 
Há três gerações este sonho persegue minha família. Meu avô, meu pai e meu irmão mais velho, Alberto, o tiveram. E agora eu, o último Firenze. Todos os homens da minha família se perderam em busca da resolução desse mistério: o sentido do sonho. Todos eles tinham a certeza de que tanto o sonho quanto a chuva estão interligados.
Eu meditava, à hora do chá, sobre as marcas do mundo que a Chuva pôs a perder. Ninguém insiste nisso, mas é senso comum que no lugar desse mar escuro que nos cerca a leste havia a Grande Planície. Basta pesquisar nos registros de periódicos datados do início do século. A Metrópole, muito maior e mais opulenta que nossa Capital, estava estabelecida do outro lado desse mar intruso. Entretanto, nem é preciso tanto rigor quanto o necessário a um pesquisador ou detetive para abalizar nossas crenças. Basta andar por aí, conversar (ainda que pouco) com o povo ou ver com os próprios olhos. No bairro mal-afamado do Horto há uma pitoresca evidência: a linha férrea desativada leva diretamente às vagas escuras, entre as plataformas das docas. 
Eu recordava essas evidências, imerso em minha tristeza. Embora a melancolia já fosse um traço natural em minha personalidade, aquela tarde me transmitia um pesar ainda maior. Sentia a dor da perda de algo que nunca conheci, nem virei a conhecer. O mordomo acabara de trazer uma baixela com chá e biscoitos e eu fitava, pensativo, o grande Relógio que poderia ser vislumbrado a certa distância pela vidraça de meu gabinete.

Continua...

2 comentários:

Fefa Rodrigues disse...

Aguardando, anciosa!!!;o)

Tyr Quentalë disse...

Adoro seus contos e você bem o sabe! Acho interessante o fato de ligar a chuva à melancolia, ao soturno, pois esta sua amiga de letras vê na chuva algo imprevisível nas emoções. Às vezes momentos de alegrias, às vezes de tristeza e poucas vezes uma estória de amor platônico...