segunda-feira, maio 14, 2012

A Grande Chuva - Parte II


A minha frente repousava um dossiê que me consternava. Recortes de jornais, relatórios de detetives e notas pessoais. Além do diário que meu irmão, Alberto, deixara como seu último rastro em vida. O diário estava aberto no trecho que eu acabara de ler: 

Sábado, 31 de outubro. Segui aquela importante pista acerca do sonho e fui recompensado. Através de minhas pesquisas tomei conhecimento de uma vidente em Shambala que pode me ajudar a desenvolver o sonho. Segui viagem, mesmo com esse tempo, de forma a tentar alcançar esse exótico país. Contratei um destemido capitão, bem como uma tripulação seleta, para que levassem meu barco para longe dessa odiosa chuva. O tempo não melhorou e quase que a expedição se põe a perder. Mas foi uma alegria quando descobri, pela primeira vez, a marca do sol por entre nuvens. Cheguei a distinguir seus traços em um dia mais quente. Espero chegar amanhã e encontrar a tão afamada vidente. Espero também de fato resolver esse mistério que ronda os Firenze.

Suspirei, quando meus olhos caíram novamente sobre aquelas páginas, tão lidas e tão manuseadas por mim. Aquele dossiê era o resultado da investigação que eu havia encomendado para descobrir o paradeiro de Alberto. E nada havia sido esclarecido. Apenas relatos do paradeiro itinerante de meu irmão e seu diário, repleto de ideias que me pareciam desprovidas de sentido. Levei a mão ao caderno, correndo os dedos pelas páginas, até dar com o último registro:

Domingo, vinte de dezembro. A febre baixou. Já sinto que posso andar, talvez até caminhar pelo convés. Estamos fugindo. Tentando escapar de Shambala. Mas sinto que não há lugar para fugir. Oxalá não tivesse seguido as ordens daquela bruxa, daquela rameira! Pois ela deu asas à minha loucura, deu-me a chave para libertar o Mal. Eu desenvolvi o sonho. Falei com o menino e o que ele me disse prostrou-me por quase um mês. Esse é um pequeno preço, pois é minha alma que está em jogo. Assim como minha sanidade. Estou amaldiçoado, pois libertei o Mal que espreitava meus sonhos. O menino virá e não descansará até completar a taça.

Essas enigmáticas palavras foram as últimas deixadas por Alberto. Sua letra tremia, irregular, quase ininteligível. O navio Albatroz, contratado e equipado por meu irmão, foi encontrado dez dias depois, encalhado em um rochedo, a meio caminho de casa. A ponta do arrecife perfurara o casco, mas o navio não afundou, por causa do mesmo rochedo. Apesar de não ter sido submersa, a embarcação estava vazia, como se abandonada às pressas por sua tripulação. Talvez todos estivessem tomados pela mesma loucura que vitimara Alberto. 
Suspirando, ainda passei as páginas do diário com a ponta do polegar, sentindo a aspereza do papel que fazia um som rouco ao roçar de minha pele. De súbito, um pedaço de cartolina escapou dentre as páginas e caiu sobre o carpete. Abaixei-me e apanhei um pequeno cartão, que tinha os dizeres:

Cerqueira César – Serviços advocatícios, de contabilidade e paranormais. 
Realizamos exorcismos.

Fiquei assombrado com a versatilidade dessa estranha firma de advogados. E mais surpreso ainda por ter encontrado tal cartão entre os objetos pessoais de Alberto. Decidi entrar em contato com o número indicado.
– Cerqueira César, boa tarde. – surgiu uma voz feminina. – Em que posso ajudá-lo?
– Boa tarde. Aqui é Firenze ...
– Sinto muito, senhor. – A voz parecia vacilante. – Não podemos atendê-lo. Passar bem.
O telefone ficou mudo. Para mim aquele tipo de tratamento não fora nada profissional. Consternado, mandei chamar meu motorista e ordenei-lhe que preparasse o automóvel para o dia seguinte. 

Continua...

2 comentários:

Fefa Rodrigues disse...

Nerito... estou gostando muito de seu novo conto... em algo, a escrita está diferente de Cidade Suspensa, que tbm adorei, mas o tom de mistério e até a escolha das palavras me dá a impressão de uma "evolução" no seu estilo... muito bom mesmo. Sua escrita é ótima, clara, gostosa de ler...
Tenho certeza que será uma ótima história!!!

Sobre o Emile ZOla, qd tiver um tempinho, leia... tenho certeza de que vc vai gostar... eu imagino que é um autor com quem vc vai compartilhar muita coisa... dese a forma de escrever até a "ideologia" por trás da escrita (engraçado que apesar de nos conhecermos apenas por nossas conversas no blog, parece que a gente sabe o que vai agradar ou não os amigos leituores não é!?!)... Se puder, comece por Germinal!!

Outra coisa, você disse lá no meu blog que me considera uma ótima leitora... pra mim é um elogio tão especial, principalmente vindo de alguém que, além de escrever tão bem, trabalha com livros, que me fez ficar sorrindo o fim de semana todo. Obrigada.

E, não deixe de escrever nunca... nós amantes de livros precisamos de palavras como as que você escreve!!!;o)

Tyr Quentalë disse...

Uma maldição, um mal maior e um serviço de exorcismo que teme o nome da família. Nerito, você realmente sabe como despertar a curiosidade das pessoas com seus contos. Creio que você teria chances muito maiores de ter um livro de sucesso do que esta sua amiga aqui. Será que vou terminar de ler o conto e te xingar como todas as vezes te xinguei, por você despertar a vontade de ler mais e desejar não parar de ler?