quarta-feira, abril 25, 2012

Tem uma literatura no meu sapato


Semana passada tivemos aqui em BH o 7º Seminário Beagalê, com o tema "Leituras e escritas incômodas". Já discorri aqui sobre a conferência de abertura, que contou com a postura forte e precisa do escritor Ricardo Azevedo.
Foram quase três dias de conversas que passearam da agradável formalidade ao tom acadêmico. As escolhas para os nomes não foram fáceis, pois o tema tende a ser espinhoso bem como esponjoso. Afinal, o que é esse incômodo que foi tão discutido nesse seminário?
Não pretendo aqui reproduzir tudo o que foi falado e debatido afinal, não tenho competência para tanto. Gostaria, porém, de resgatar alguns pontos recorrentes nas falas de grande parte dos convidados, que identificaram alguns fatores que interferem na produção literária (e na sua consequente apropriação) e que ajudariam a definir algumas fronteiras de sentido sobre o que seria o incômodo que permeia tantas escritas e leituras.
A literatura vive acossada pelo constante discurso do politicamente correto, que não só dita discursos e temáticas, mas vigia o que já foi escrito, interferindo em leituras. Não sejamos, contudo, ingênuos. Há diversos interesses nessa constante interferência. Não apenas ideológicos, mas também morais, religiosos e, sobretudo, econômicos. Afinal, o politicamente correto pasteuriza os discursos, propiciando um texto no padrão para um público também no padrão.
Assim, a produção literária se conforma a uma linha de montagem, acompanhando a lógica de produto. O livro, que era para ser um bem cultural, fica mais parecido com um BigMac.
Enquanto isso, uma outra literatura nada contra a corrente (ou mainstream). Essa literatura vive à margem, seus autores estão submersos por centenas de livros que entopem as vitrines de livrarias. Esses autores, escondidos nas prateleiras, ou em depósitos empoeirados, a custo sobrevivem.
Durante o seminário, alguns convidados defenderam com veemência a liberdade da criação literária. O autor tem compromisso com sua literatura, não com imposições e encomendas do mercado editorial. E esse compromisso se reflete na busca por um texto que provoque, sim, incômodo, que cause um deslocamento, faça o leitor sair de sua posição de conforto. 
É um grande desafio fazer com que essa literatura incômoda chegue ao leitor padrão, acomodado e acostumado com confortos estéticos. Um desafio lançado também a nós, leitores, agentes ativos de reflexão e contestação desta sociedade cada vez mais alienada, dependente do mero entretenimento.

3 comentários:

Dora Delano disse...

Bem vindos ao capitalismo...

Fefa Rodrigues disse...

NUnca parei para pensar que esse tipo de realidade também alcançava a produção literária...

Para mim, o escritor é alguém completamente livre, que escreve o que quer e como quer... nunca parei para pensar que é possivel padronizar até mesmo a literatura, para que ela se amolde a interesses...

:o/

PS: Nerito, vc fez um comentário no meu post "Dica", e ele aparece na minha caixa postal, mas não aparece na moderação do blog pra eu publicar.... qq será q acontece???

Tyr Quentalë disse...

Eis uma verdade bem dita!
Um dos maiores desafios que os escritores encontram, é justamente tirar o leitor da zona de conforto. Eles, leitores, não aceitam facilmente cenários que choquem, que mostrem às vezes uma realidade crua. Em livro com cenas de terror, preferem a carnificina e sangue jorrando, ms não gostam de terror psicológico e que os faça pensar em como tudo degringolou para aquela situação.
As grande editoras não aceitam escritores tão facilmente, justamente por possuírem a formula do que se vende aos montes e o que se vende para poucos, pois os poucos leitores que são mais exigentes e buscam algo mais alternativo e complexo, não geram uma renda rentável para editoras e as livrarias que são as maiores interessadas capitalista desse mercado.
Queria ter ido à conferência.