segunda-feira, setembro 30, 2019

Entre duas montanhas

Estive na mediação da última mesa do FLI-BH 2019. Foi uma honra e uma grande responsabilidade.

Ana Maria Gonçalves e Marcelino Feire são gigantes da literatura atual. Estar entre eles fez com que eu me sentisse ainda mais pequeno. Um vale entre duas montanhas.
Evocando o termo "Oralitura", muito pesquisado pela professora Leda Martins, homenageada pelo Festival, Ana Maria falou muito sobre as vozes de sua realidade como uma pessoa filha de mãe negra e pai branco. Contou como a figura da contadora de histórias formou nela a consciência de também ser uma contadora de histórias.

Da mesma forma, Marcelino Feire destacou como sua infância em Pernambuco é de fundamental importância para sua literatura. Marcelino deu um espetáculo ao recitar de memória trechos de seus textos, em especial o conto "Totonha". Relembrando a figura de sua mãe e de uma tia, o escritor assinalou como essas vivências são fundamentais em sua palavra escrita e falada.

Além das vozes, os corpos também foram destacados. Ana Maria Gonçalves apontou o corpo negro como fronteira e a importância da evidência desse corpo, muitas vezes apagado, tratado como invisível. Assim, a escritora defendeu o papel das políticas afirmativas para evidenciar esses corpos como próprios e pertencentes a todos os lugares. O acesso às universidades, antes quase que exclusivas a brancos, seria um exemplo.

Já Marcelino ressaltou como, em sua literatura, é fundamental que a palavra passe por todo o corpo. Ao terminar de escrever, ele passa o novo texto pelo crivo da Leitura em voz alta. Durante a leitura, esse novo texto precisa passar por todo o seu corpo. Ele precisa sentir todo o corpo envolvido. 

Destaco esses dois assuntos, entre tantos abordados. Esses, porém, foram os que mais me impactaram. Os mais frescos em minha memória. Foi um momento de muito aprendizado para mim. E espero continuar aprendendo.

sexta-feira, setembro 27, 2019

Contando Histórias no FLI-BH 2019

Chuva. Em frente ao palco literário, uma tenda enorme abrigava algumas pessoas. Eu estava atrasado para o início da apresentação De lobo a bolo. A galera do Biqueira Cultural já estava a postos, para um sarau que aconteceria logo em seguida.

Apesar do nervosismo, fruto da insegurança, tudo foi maravilhoso. Contei Chapeuzinho Amarelo, O caso do bolinho e Um herói diferente. São as histórias mais contadas na apresentação que organizei. 

Depois que me apresentei, permaneci na tenda para participar do sarau. Fiquei encantado com a apresentação da poeta marginal e narradora de histórias IZA REYS, que narrou contos africanos.

Ter escuta é sempre um privilégio, principalmente em um mundo de silenciamentos, como o nosso. A oportunidade de ouvir também é fundamental. E fui agraciado com esses momentos. Que eles se repitam, seja no FLI-BH, seja em outros eventos e lugares.

Fotos de Ana Paula Cantagalli.





quinta-feira, setembro 26, 2019

Cortina de fumaça

Belo Horizonte, meados de setembro de 2019. Um odor de fumaça entra pelo meu quarto. Sinto os olhos arderem. Lá fora, o ar parece embaçado. Serão meus óculos? É noite. 

Uma amiga no centro comenta sobre a fumaça. Um amigo, no Renascença, fala da dificuldade em respirar. Pelo aparelho celular, vejo vários vizinhos especulando sobre a causa de tanta fumaça. Uns falam que é no Bairro São Paulo. Outros, que é no São Gabriel. 

Minha esposa me manda uma mensagem perguntando se eu já vi a Lua. Deixo o apartamento e vasculho os céus. A luz dos postes ressaltam a fumaça, como uma neblina seca e quente, a envolver e espessar a noite.

Olho pra cima e percebo a Lua. Sua fase cheia começa a minguar. Ela está quase dourada. É como ela costuma ficar quando está perto do horizonte. Agora, porém, a Lua está alta, assim como a noite. São 23 horas. 

No dia seguinte, o noticiário local anuncia queimadas por todas as florestas que cercam a Região Metropolitana de BH. Imagino que a Lua Dourada seja um sinal de que até o astro queima diante de tanto calor e destruição. Ou talvez seja o efeito da fumaça, mesmo.

Foto de Miriam Doti

Originalmente publicado no Facebook dia 19 de setembro de 2019.

quarta-feira, setembro 25, 2019

De lobo a bolo no FLI-BH

O terceiro Festival Literário Internacional de Literatura de Belo Horizonte está para começar. Por quatro dias e meio, BH irá celebrar a Literatura em suas mais diversas formas e realizações. Uma delas é pela oralidade. 

Sendo assim, é com muito gosto que farei parte da programação do Festival com minha apresentação "De lobo a bolo: uns heróis bem diferentes". Com uma seleção de textos literários e narrativas orais, este espetáculo faz parte de minha vida há três anos, desde que o apresentei na Virada Cultural. Sua gestação, porém, faz parte de quase dez anos de atuação como mediador de leitura para crianças.

Faço o convite para que todas e todos possam me prestigiar com suas escutas e seus corações.

Mais informações:

Narração de histórias para crianças de todas as idades. O repertório parte de textos literários consagrados junto ao público infantil, bem como de narrativas da tradição oral.


Local: Palco Literário (Largo em frente ao Teatro Francisco Nunes)
Data: 26/9 (quinta-feira)
Hora: 14h

segunda-feira, setembro 23, 2019

Mais um dia repleto de histórias


Não bastou para mim compartilhar histórias no Centro Cultural Liberalino Alves de Oliveira, na manhã de sábado, dia 21 de setembro. Eu queria mais. Não apenas contar, mas ouvir também.

Por isso, segui para a Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte e assisti mais uma vez ao espetáculo Ouvi Contar. Poesia, narração e interpretação em um projeto belíssimo de acessibilidade.

Voltei então ao Parque Municipal para me apresentar novamente. Contei "Chapeuzinho Amarelo", de Chico Buarque, e "O caso do bolinho", conto tradicional registrado por Tatiana Belinky.

A interpretação em LIBRAS foi de Mavione e Jivago.

As fotos são de Rivanda.





sábado, setembro 21, 2019

Primeiro dia na Tenda de Histórias

Era tarde de uma quinta-feira. Setembro chegava a seu décimo nono dia. O Parque Municipal Américo René Gianneti, em Belo Horizonte (MG) estava em festa.

Fui para a Tenda de Histórias ainda um pouco inseguro. Haveria público? Esse é sempre o receio de um contador de histórias.

A amiga Sterlayni Duarte coordenava a tenda e deu todo o apoio necessário. Quando vimos uma turminha da Educação Infantil, ela sugeriu que eu abordasse o grupo e convidasse para ouvir histórias.

Foi o que eu fiz. Com Norma e Guilherme revezando como intérpretes de LIBRAS, dei vida ao bolinho tão querido de minhas histórias.
Antes, porém, fiz o LOBO virar BOLO com "Chapeuzinho Amarelo", do Chico Buarque.
Quando essa turminha já estava de saída, havia outra, sentada poucos metros fora da tenda, aguardando a vez. Como o tempo já estava adiantado, resolvi contar uma história apenas, enquanto as crianças ainda lanchavam. Contei a aventura de um herói bem diferente. Só não digo que herói é esse pra deixar no suspense e fazer mais pessoas ouvirem a história!
Foi um momento agradável, maravilhoso. Agradeço às crianças, às professoras e também a todas as mães e pais que emprestaram sua escuta para este narrador!

Fotos de Sterlayni Duarte



sexta-feira, setembro 20, 2019

FLI-BH 2019 - Do livro à voz: narrativas vivas

A programação do FLI-BH 2019 está no ar. Com a curadoria de Nívea Sabino e Marilda Castanha, o Festival está mais que bonito, está um monumento! Autoras e autores de diversos registros e lugares encontrarão seu espaço no Parque Municipal Américo René Gianneti. Temos Adão Ventura como homenageado. Leda Martins e Ailton Krenak são as menções honrosas.
Sinto que será uma honra para toda e qualquer pessoa que transitar por essa ciranda de Oralitura, que adentrar esse quintalzão que será o Parque Municipal nos dias 25 a 29 de setembro.
Mais que um lugar de escrita, será de escuta. Uma grande roda como aquelas que nossos ancestrais faziam. E nessa grande roda, saudaremos suas vozes com as nossas. Na figura de tantas letras, cantos, performances, slams e saraus, seremos todas uma grande colcha de retalhos.
Não poderia deixar de puxar uma sardinha pro meu lado. Estarei na Biblioteca do FLI-BH com oficinas literárias. Faço também a apresentação "De lobo a bolo". Por fim, terei o privilégio de receber Ana Maria Gonçalves e Marcelino Feire em uma mesa maravilhosa.
A história da Literatura de BH e do mundo ganha mais um capítulo. Um daqueles cheios de reviravoltas, aventuras e muita emoção. E nesse grande épico, estamos todas e todos convidadas. Vem com a gente!

Confira a programação completa no site http://www.fli.pbh.gov.br/.

quinta-feira, setembro 19, 2019

Álbum da fama - com o Coletivo Simples


O Coletivo Simples, do qual faço parte, foi convidado pelo poeta Wir Caetano para realizar uma performance poética no lançamento de seu Álbum da Fama. Será um momento de troca poética, com leituras de poemas de autoras e autores do nosso cenário literário, além do anfitrião e homenageado, Wir Caetano. Será uma honra para mim estar lá, junto das pessoas queridas do Coletivo Simples.

Álbum da fama

13 faixas e um bônus

videopoemas de Wir Caetano

Participação: Coletivo Simples
Dia 21 de setembro, sábado, às 20h

Butiquim Desde 1999
Rua Mármore, 758
Santa Teresa
Belo Horizonte

quarta-feira, setembro 18, 2019

Profusão

Solidão profunda
me inunda
arregaça o peito
não me aceito
É a minha sorte
de ser forte
Perdedor contudo
pobre e mudo.

Sigo o meu caminho
vou sozinho
E me endureço
Pago o preço
de ser diferente
sigo em frente
Sem chegar porém
Sou ninguém

Olho à minha volta
Medo volta
E engulo em seco
Eu me perco
No vazio triste
que persiste
E que todavia
Me alivia

domingo, setembro 15, 2019

Picadeiro

Apresento-me aqui
Senhor leitor
Neste picadeiro iluminado,
tua cuca tão pós-moderna!
Não reflitas tanto, caro amigo,
pois hás de enlouquecer
e darás uma pirueta
como a que dou agora
em tua desamparada caixola
caio
não caio
me equilibro, por um triz,
na ponta do teu nariz.
Quero risos, gargalhadas
quero caretas.
Nem que sejam
de mais puro desespero
e que a comédia
seja já sem graça
piada de mau gosto
bolo de mel amargo
estragando as expectativas
imitação mórbida
quase idêntica
da nossa vida.

sábado, setembro 14, 2019

Necessidades

Precisa-se de sorrisos
raios de sol esparsos
despertas sonolências
relampejos de felicidade

Precisa-se de lágrimas
decantadas pedras preciosas
diamantes, cristais oblíquos
efêmeros tesouros de nostalgia

Agora, mais que desesperadamente
precisa-se de sangue
gotas e mais gotas, chuvosas
mares eternos em tom escarlate

E suor, por Deus, não se esqueça dele
correndo salgado por um corpo forte, rijo
voluptuosamente ativo, imponente
a preencher despropositadamente o vazio.

sexta-feira, setembro 13, 2019

Pinóquio e a mecânica do vazio

Jimmy Barata é um cara incompreendido. Ele não consegue se adequar ao modelo de trabalhador convencional, com uma rotina de trabalho repetitiva, embrutecedora. É um inseto com aspirações e muitas ideias. Seu sonho é ser escritor. Porém, a vida não correspondeu aos seus ideais. Alcóolatra e com problemas para se ajustar ao ambiente corporativo, de repente ele se vê desempregado e no fim de um relacionamento fracassado. Sua esposa o expulsa de casa justamente depois que ele é demitido.

Tudo parecia perdido quando, porém, Jimmy descobre um espaçoso apartamento todo em aço inox. Ao constatar que o imóvel está vazio e tem uma privilegiada vista para a pia, Jimmy resolve se estabelecer nesse novo imóvel e decide dar início à escrita do seu tão almejado romance.

Assim tem início a magnífica paródia de Pinóquio. Escrito e desenhado por Winshluss, esta graphic novel tem o enredo situado em um universo de conto de fadas decadente. Pinóquio narra o périplo de um menino de metal - não de madeira - indestrutível, movido por uma mente habitada por uma barata. Jiminy Cricket (Grilo Falante) soa como Jimmy Cockroach (Jimmy Barata), numa genial corruptela da famosa consciência do menino de madeira.

A narrativa é construída em um paralelo entre as andanças de Pinóquio, um robô criado pelo inventor Gepeto, e os dramas existenciais de Jimmy, seus problemas com a bebida e sua incapacidade criativa. A linha narrativa de Pinóquio, feita em cores e simulando a estética dos desenhos animados infantis, mostra um mundo perverso, de ladrões, estupradores, traficantes de órgãos, ditadores e fábricas de brinquedos movidas por crianças escravizadas. Já o universo de Jimmy é traçado em preto e branco, sendo mais "civilizado" e monótono, numa sátira clara à sociedade de consumo e ao homem comum pseudointelectual.

Outro ponto a ser destacado é que a narrativa protagonizada pelo robô Pinóquio, livremente inspirada no romance de Carlo Collodi, raramente conta com textos, sendo principalmente visual. Mesmo os diálogos são narrados com gestos e outros símbolos não verbais. Assim, é importante destacar a extrema plasticidade da obra de Winshluss.

Numa genial metáfora do homem-máquina contemporâneo, sem moral ou culpa, o livro nunca realizado de Jimmy Barata leva o título de Mecânica do Vazio, numa clara alusão à falta de sentido e à decadência dos ideais. Em uma iconoclastia icônica, o mundo de Pinóquio é como uma enorme máquina que move suas engrenagens em um perpétuo esgar de tédio e desespero. 

Ficha Técnica:
Pinóquio
Winshluss
Globo Livros

Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/livro/261936ED293518

quinta-feira, setembro 12, 2019

Exilado

Habito em outro mundo
longe de mim
Lá a vida é mais simples
e luminosa também
Uma princesa ali existe
me esperando libertá-la.
Um castelo subsiste
Ainda que de nuvens
com um trono de jasmim
e uma coroa de cristais
Mas não vivo nem lá
nem cá
Pois nos melhores momentos
sou despertado pelos barulhos do trânsito
das notícias econômicas
da filosofia vã
e das batidas do meu próprio coração