Olá a todas as pessoas que estão acompanhando os vídeos do meu livro A Cidade Suspensa. Compartilho nesta quarta o vídeo da leitura do terceiro capítulo.
Até a semana que vem!
Blog do escritor e contador de histórias Samuel Medina. Aqui você encontrará resenhas de livros, contos, crônicas, relatos de experiência e poemas. Além de informações sobre meus livros.
Olá a todas as pessoas que estão acompanhando os vídeos do meu livro A Cidade Suspensa. Compartilho nesta quarta o vídeo da leitura do terceiro capítulo.
Até a semana que vem!
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| Imagem de Andreas Fiedler por Pixabay |
Atravessou campos verdejantes.
Subiu e desceu escarpas assustadoras.
Singrou desertos escaldantes.
Refrescou-se em oásis deslumbrantes.
Matou três dragões medonhos.
Salvou uma ou duas princesas lindíssimas. A primeira, adormecida. A segunda, presa em uma torre que ele escalou. Deixou cada uma delas em seus reinos de origem. Elas se despediram com suspiros e promessas de beijos.
Retornou pelos desertos, escarpas e campos.
Chegou, coberto de poeira e fuligem do fogo dos dragões, ao seu castelo. Adentrou os portões. Subiu as escadas da torre mais alta de seu castelo.
O dia findava. O príncipe sentia um profundo alívio. A melhor parte do dia estava para chegar.
Entrou no único cômodo da torre mais alta do seu castelo. Trancou a porta. Retirou a capa, pendurou a espada e deixou a armadura num canto. Foi até a o parapeito da única janela. Pousou o cotovelo no parapeito e descansou o queixo, enquanto contemplava o belíssimo pôr-do-sol.
Para enfim, tranquilamente, tirar ouro do nariz.
Ela já era uma fortaleza
Com sua voz de menina
Esbanjava plena certeza.
Senhora, soberana rainha
Seu nome já proclamava
Quem diria, minha maninha
Um grande futuro aguardava
E fui testemunhando
A força dela crescer
Suzanna, desabrochando,
Mostrou que nasceu pra vencer!
Feliz aniversário, minha maninha. Amo você!
O tema do encontro foi o dia da poesia, comemorado em 21 de março. Já o dia do contador de histórias era naquele mesmo sábado, 20 de março. Recitei o poema "Tombo", da amiga e mestra Norma de Souza Lopes.
Deixo aqui registrado meu agradecimento à equipe do Sesc Palladium, em especial à Vivi e à Gizele. E agradeço também ao grupo de Contadoras de Histórias da Biblioteca Infantil e Juvenil de Belo Horizonte, à Beatriz Myrrha e ao Rodrigo Teixeira.
Quem quiser conferir minha conversa no programa #Tem Todo Sábado, pode acessar o link aqui (https://www.instagram.com/tv/CMprGyNFHew/?igshid=cmuvq6gfdj22)
O encontro em homenagem ao Márcio pode ser conferido abaixo:
Dandara é uma figura misteriosa. Descrita como a companheira de Zumbi dos Palmares, pouco se sabe dela. A partir dessa escassez de informações, a escritora e cordelista Jarid Arraes resolveu cercar a heroína de magia e dar-lhe o caráter épico que ela merece. Assim, nascem As lendas de Dandara.
Com um ar mítico, a narrativa nos leva pela vida de Dandara, desde seu nascimento até sua "morte", ou melhor, seu retorno à essência divina. A protagonista desse romance juvenil é uma mulher determinada, destemida e cercada de um poder transcendente. Dandara é uma figura de muita força e com um talento nato para a guerra.
Ao ler a obra de Jarid Arraes, encontrei elementos muito interessantes. O primeiro é a origem de Dandara. Filha de Iansã, Dandara foi concebida pela iabá* como enviada para a libertação do povo negro, que se encontrava escravizado. Assim, a personalidade de Dandara foi sempre a de guerreira, de mulher questionadora e inventiva. A ausência da figura masculina na concepção de Dandara é emblemática, pois assim ela se coloca como uma figura divina, da encarnação da vontade de Iansã, da personalidade guerreira da poderosa iabá.
É importante destacar que a narrativa não assume uma perspectiva histórica. Apesar de haver um elemento biográfico, marcado por fatos históricos (afinal, é a vida de uma pessoa histórica), a autora e narradora faz questão de construir uma trama épica, com heroísmo e fantasia. Um dos pontos de destaque nessa construção está na própria personalidade de Dandara, como uma enviada divina, com a missão de liderar o povo negro na luta contra os escravocratas e na proteção do poderoso quilombo de Palmares.
Outro elemento que me chamou atenção foi como Dandara foge aos padrões físicos que cercam o imaginário contemporâneo. No lugar de uma figura esguia e esbelta, temos uma mulher de quadris largos e membros grossos. Uma mulher que no seu corpo também desconstrói os padrões dominantes.
Não posso deixar de comentar também que há uma pitada de romantismo no livro. Apesar de coadjuvante, Zumbi dos Palmares recebe algum destaque, principalmente em suas conversas com Dandara, nos encontros amorosos dos dois e na exigência da guerreira pelo merecido reconhecimento de suas capacidades como líder do exército de Palmares.
Com muita ação e heroísmo, apresentando uma Dandara que, embora divina, também não deixa de ser humana, As lendas de Dandara aparece como uma obra seminal, importante para a construção de um outro imaginário, com a importante mensagem de que um outro mundo é possível. E que uma outra História também precisa ser contada.
* Feminino de orixá.
Ficha Técnica:
As lendas de Dandara
Jarid Arraes
ISBN-13: 9788529301945
ISBN-10: 8529301943
Ano: 2016
Páginas: 128
Idioma: português
Editora: Editora de Cultura
Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/as-lendas-de-dandara-517636ed639273.html
Neste próximo sábado, dia 20 de março, estarei no perfil do Instagram do Sesc Palladium para falar de Literatura. Vem comigo?
Dia Mundial da Poesia, com Samuel Medina
📍Data: 20 de março
📍Horário: 15h
📍Transmissão ao vivo aqui pelo Instagram: @sesc.palladium
Olá a todas as pessoas que visitam este humilde espaço literário. Compartilho nesta quarta o vídeo da leitura do segundo capítulo do meu livro A Cidade Suspensa.
Até a semana que vem!
Naquela noite, ele tinha uma confissão a fazer. Estava no baile em que o Capeta do Vilarinho apareceu.
Contou que todo mundo parou de dançar quando ele chegou. Ninguém desconfiava que era um ser sobrenatural, é claro, mas atraiu os olhares com sua presença marcante. Até a música parecia ter parado. Ele foi para o centro da pista e começou a dançar.
Ninguém dançou o break como ele. Alguns, mais ousados, arriscaram acompanhar, mas logo desistiram, diante das manobras que ele fazia. O povo tinha voltado a dançar, tentando se distrair, mas logo tiveram que parar, fascinados com o movimento.
Em instantes, a roda estava formada. Todo mundo batia palmas. Era uma festa maior que a festa. Parecia que agora o baile tinha realmente começado. Ele dançou de tudo o que tocava. Mulheres e homens o desejavam. Queriam ser como ele, ser dele.
Nisso, a música parou por uns segundos. Era meia-noite. O dançarino sem querer deixou o boné cair. Ele se abaixou para pegá-lo. Foi quando todo mundo, até quem estava bem longe, viu o par de chifres despontando na cabeça dele. Ergueu-se com um sorriso zombeteiro, dentes pontudos e olhos vermelhos.
Um estouro de fumaça e um fedor de enxofre. Correria, gritos, gente se empurrando. Ninguém queria ficar na quadra coberta, nem mesmo o DJ.
Meu amigo encerrou o relato dizendo que, na noite em que encontrou o Capeta do Vilarinho, decidiu virar evangélico.
Vinte e cinco anos depois de ouvir essa história, eu me pergunto por onde andará aquele rapaz bonito e reservado que, em um culto em minha casa, revelou ter sido testemunha ocular de uma das maiores lendas urbanas de Belo Horizonte.
Comida de fada, obra de Val Armanelli, faz justamente esse movimento. Apresentando uma protagonista que tem tudo da criança precoce na imaginação, mas ainda cheia da fantasia da infância, trata-se de uma história em quadrinhos que vai mostrar como o mundo das fadas pode ser frio e assustador.
A leitura de Comida de fada foi extremamente perturbadora. Talvez fossem as cores alegres e fortes, ou a profusão de guloseimas, ou a insidiosa referência ao filme O labirinto do fauno. Talvez o conjunto de todas essas coisas e outras mais fossem sussurrando para mim que algo extremamente distorcido e errado acontecia, enquanto a heroína era constantemente aliciada pelas pequeninas fadas a comer os doces de uma mesa farta, ainda que a menina estivesse sem fome.
Outro ponto que achei marcante na obra de Val Armanelli é o silêncio ensurdecedor. Ainda que as fadas falem o tempo todo, ainda que a menina responda, há uma total impossibilidade de comunicação. Talvez uma referência à terrível solidão infantil. Afinal, uma criança vive em um mundo de gigantes, sempre mais fortes, sempre impondo suas vontades. Torna-se então uma fina ironia que sejam as fadas, quase invisíveis de tão pequenas, a constantemente impor suas vontades durante a narrativa.
Com cores de contrastes marcantes e um ar enganosamente encantado, Comida de fada é uma viagem estética que mostra como sonhar pode ser perigoso e assustador.
Para quem deseja conferir o trabalho de Val Armanelli, Comida de fada está na reta final de sua campanha de financiamento. Para conhecer um pouco mais - e contribuir - basta acessar a página da HQ no Catarse.
Ficha Técnica:
Comida de fada
Val Armanelli
Edição Independente
Compartilho aqui com vocês a leitura do meu livro A Cidade Suspensa - Capítulo I.
Para ler online ou baixar o livro em pdf, basta acessar aqui: http://www.oguardiaodehistorias.com.br/p/a-cidade-suspensa.html.
Até a próxima semana!
São seis da manhã. Hoje acordei passando mal. Fui ao banheiro e peguei um teste rápido de Covid. Deu positivo. Felizmente, estou com sintomas fortes o bastante para não me considerarem uma pessoa assintomática. Depois que fizer a consulta online, terei um diagnóstico oficial. Será a vigésima terceira vez que pego covid.
Ontem, quando voltava do trabalho, prenderam uma assintomática no vagão em que eu estava. Não sei como descobriram, todo mundo estava de máscara.
Pra onde levam todos os assintomáticos? Li na Deep Web que eles vão parar em campos de testes para novas vacinas. Não sei se acredito nisso. Tem gente que diz que eles são extraditados.
Tinha um rapaz assintomático no final da minha rua. Eu me lembro da noite que levaram ele. Foi horrível. Ele nunca mais voltou.
Estou com meu cartão covid em dia. Com sorte, vou ter vaga na UTI se piorar. Com sorte.
O Aquário, de Cornélia de Preux, conta a insólita experiência de uma família que acaba confinada em seu porão durante as férias. Constantin, o pai, havia declarado aos vizinhos que levaria a família para uma viagem às Ilhas Fiji. Sem dinheiro para manter a palavra, porém, ele acaba se trancando com a esposa e os três filhos no porão durante o período programado para a viagem.
Tem início então uma trama repleta de tensão. Tatiana, a mulher de Constantin, era a única que sabia do plano doentio do marido. Sem forças para enfrentá-lo, porém, ela acaba deixando que ele concretize o projeto. Os filhos, pegos de surpresa, haviam sonhado por meses com a paradisíaca viagem. Traídos, eles são transportados ao porão enquanto dormiam e acabam tendo que se resignar a uma prisão rígida, com uma programação inflexível, vítimas dos caprichos loucos de um pai que, da noite para o dia, torna-se seu carcereiro.
Não bastasse a decepção da viagem frustrada, as três crianças, Kevin, Violet e Vladmir, precisam participar de módulos em que terão que fingir estarem em Fiji, pois deverão manter a mentira após as férias. Pelo menos é isso que Constantin quer.
É interessante observar que a trama de Cornélia de Preux busca explorar o labirinto psíquico de Constantin e Tatiana, em especial desta. Durante a leitura, somos mergulhados no emaranhado de questionamentos e temores da mulher. De Constantin, experimentamos a insanidade e os sentimentos tenebrosos que cultiva contra Kevin, o filho mais velho, maior opositor ao projeto do pai.
O Aquário é uma obra-prima que acaba vindo de encontro ao tempo em que estamos. Forçados a um confinamento, vítimas de uma ameaça invisível, somos obrigados a criar estratégias de sobrevivência, buscando válvulas de escape para manter a nossa saúde emocional. Felizmente, contamos com momentos de fugidia liberdade, ao contrário das infelizes vítimas do romance de Cornélia de Preux.
Deixo aqui meus agradecimentos ao José Vicente, coordenador do grupo de leitura coletiva Amigos Pra Valer, bem como para Maria Isabel Brant e Maurício Moura.
*Errata em 11/03/2021: Não havia agradecido à minha grande amiga, Kátia Mourão. Foi através dela que conheci esse grupo que tem me levado a outras sendas da leitura literária.
Ficha Técnica:
O Aquário
edição bilíngue
Tradução de Reto Melchior e Maurício Moura
Cornélia de Preux
ISBN-13: 9788569789062
ISBN-10: 8569789068
Ano: 2019 / Páginas: 248
Idioma: português
Editora: LF Publicações
Perfil do Livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/o-aquario-11819567ed11819932.html
Olás! Hoje eu compartilho um vídeo diferente. Nele, eu explico o sumiço da maioria das leituras que gravei para o canal.
Abraços e até semana que vem!
Romance de estreia de Armando Alves Neto, Os possuídos e o amuleto sagrado conta do jovem Pedro, um rapaz que se considera completamente normal. Dono de uma história incomum, porém, o rapaz acha que ter sido adotado por um velho caminhoneiro não seja nada demais. O que ele ignora são as circunstâncias da adoção. Na véspera de sua ida ao exército, para cumprir o alistamento militar obrigatório, o rapaz encontra uma estranha e bela mulher. A partir desse encontro, Pedro fica conhecendo um pouco mais sobre seu passado e descobre que precisa fugir de Brasília, onde mora.
Assim dá-se início a uma jornada que leva o jovem a Belo Horizonte e, posteriormente, a Lagoa Santa e à Serra do Cipó. Outra jornada, porém, acontece no interior do rapaz, ao descobrir o segredo sobre os possuídos e sua luta contra uma organização sinistra. Seu conhecimento vai se aprofundando, enquanto a trama ao seu redor vai se tornando complexa e ameaçadora. Ele não sabe em quem confiar, pois a única pessoa que realmente conhece havia ficado para trás, em Brasília.
Um ponto a se destacar em Os possuídos e o amuleto sagrado é seu texto, maduro e muito bem escrito. A leitura flui muito bem, com um estilo agradável de se ler, o que é fundamental em uma narrativa com doses de suspense e mistério. Destaco também que as cenas de ação são muito bem escritas, com uma qualidade visual impressionante. Assim, os trechos movimentados passam de forma ligeira, sem contudo o leitor se perder ao imaginar o que acontece.
Outro elemento interessante na obra é a concepção das personagens. São muito bem descritas e construídas. Armando Alves Neto, porém, não carrega demais nessa construção, de forma que não há descrições excessivas e cansativas. As características e personalidades de cada pessoa vão se destacando ao longo da leitura, de forma bastante natural.
O enredo é também muito bem definido e desenvolvido. É possível perceber que a narrativa se baseou na Jornada do Herói, modelo que orienta a maioria das histórias heroicas, desde a saga de Harry Potter à trilogia O Senhor dos Anéis. Portanto, as revelações e desafios que Pedro terá à sua frente são escalares em um crescendo até um desfecho, que promete a continuação de desafios maiores ainda em volumes seguintes.
Decidi falar pouco sobre os possuídos do título. Essa decisão se dá porque acredito que seja algo muito agradável para cada leitora e leitor descobrir o significado dessa palavra através da leitura. Como moramos em um país cristão (infelizmente, estado laico é só para éticos), a palavra "possessão" é vista sempre com grande carga pejorativa. Desconstruir essa ideia é um exercício muito válido, tanto como experiência estética quanto como possibilidade de expansão de nossa visão de mundo.
Com um texto envolvente, um enredo instigante e ótimas personagens, Os possuídos e o amuleto sagrado é uma fantástica jornada. Uma história digna de ser lida, compartilhada e sonhada. E que seja a primeira de muitas sobre as descobertas e dilemas de Pedro sobre Os possuídos e o amuleto sagrado.
Ficha Técnica
Os Possuídos e o Amuleto Sagrado
A Saga dos Possuídos - Livro 1
Armando Alves Neto
ISBN-13: 9788581084671
ISBN-10: 8581084672
Ano: 2016
Páginas: 422
Idioma: português
Editora: Giostri Editora
Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/os-possuidos-e-o-amuleto-sagrado-342272ed383971.html
Uma dessas iniciativas foi o grupo da Roda de Leitura da Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de BH. Iniciativa do amigo Wander Ferreira, bibliotecário na BPIJ, os encontros virtuais começaram a acontecer semanalmente. Foi em um desses encontros que soube de uma preciosidade. Em um gesto de grande carinho e compromisso, minha amiga Áurea Lana Leite começou a ler As Mil e Uma Noites, na versão de Antoine Galland, para algumas pessoas, entre elas o próprio Wander e outra amiga, a Kátia Mourão. Ao ficar sabendo dessa notícia, pedi para participar.
Foi assim que teve início minha jornada por essa visão ocidentalizada de uma saga oriental. Digo isso porque Galland, renomado orientalista, fez uma tradução adaptada da obra islâmica, fazendo várias interferências no texto, que considerou violento e de moralidade questionável. Contudo, muito da beleza presente na obra original permaneceu na versão de Galland e foi por esses textos que eu viajei, através da voz da amiga Áurea.
Antes de tudo, preciso comentar da qualidade da voz da leitora. A cadência, o tom, o ar tranquilo, esses elementos auxiliaram na imersão da narrativa. Áurea foi uma narradora ímpar, como excelente contadora de histórias que é. Foi fundamental que a serenidade de sua voz fosse transmitida a nós, ouvintes. Senti-me acolhido por essa leitura. E não apenas isso. A cada novo dia, recebendo um novo áudio, percebia nesse gesto um enorme cuidado.
E pela voz da Áurea pude literalmente viajar para longe do meu apartamento. Estive em vários pontos do oriente, desde a Bagdá de Haroun Al-Rachid, até os confins do mundo, em lugares mágicos e oníricos. Nessas histórias, pessoas comuns se misturavam a princesas e príncipes. A partir da narrativa de traição da antiga esposa de Shariar, Sherazade foi tecendo relatos de injustiças, jornadas de redenção, buscas pela riqueza e revezes do destino.
Em um curso que fiz com a mestra Gislayne Matos, aprendi que Sherazade atua como uma grande mentora de Shariar, usando os contos como alegorias para que ele perceba a própria impiedade. E com esses olhos fui observando que de fato muitas mulheres são injustiçadas ao longo de tantas narrativas. E muitas delas reagem a essa injustiça com inteligência e habilidade. Assim, vamos aprendendo com as inúmeras personagens, com seus erros e acertos, sua humanidade.
Foram mais de 300 noites ouvindo com Áurea sobre tantas vidas e mortes. Alguém pode perguntar por que não foram 1001, como o título da obra anuncia. Em determinado momento, as noites pararam de ser contadas no texto. Assim, Áurea continuou a ler, contando as noites da leitura, desvinculadas das noites da narrativa.
Algo que me incomodou bastante foi a visão pejorativa que o texto carrega contra África e o povo negro. São comentários que sempre colocam as pessoas negras em lugar de vilãs ou escravizadas. Ainda que seja reflexo de uma época e cultura, é importante problematizarmos essa faceta grave de um texto tão seminal.
Com diversas e maravilhosas histórias, As Mil e Uma Noites foi uma narrativa que me fez muito bem em um momento em que eu me sentia assustado e temeroso. A incerteza do mundo, as perversidades do presidente, as mortes sem sentido, tudo isso foi mitigado. Através da voz da Áurea, sentia-me acolhido e fui capaz de sonhar.
Ficha Técnica
As Mil e Uma Noites
Antoine Galland
ISBN-13: 9788520936870
ISBN-10: 8520936873
Ano: 2015
Páginas: 1120
Idioma: português
Editora: Nova Fronteira
Perfil do livro no Skoob: https://www.skoob.com.br/as-mil-e-uma-noites-445456ed504724.html